O
que disse Flávio Bolsonaro na entrevista à TV Globo
O
senador e candidato à Presidência Flávio
Bolsonaro (PL) prometeu nesta sexta-feira (16/10), em entrevista à
TV Globo, que vai declarar uma "guerra" ao narcotráfico e que não
tentará reverter o fim da escala 6x1, que acaba de ser promulgado.
O filho
do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) enfrentará o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) no segundo turno, no dia 25 de outubro.
Flávio
Bolsonaro aparece com dois pontos de vantagem sobre Lula no Agregador de
Pesquisas da BBC News Brasil, com 47% das intenções de voto, contra
45% do petista.
No primeiro
turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos
válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de 1,87 ponto percentual, ou
cerca de 2,2 milhões de votos.
O
candidato do PL foi o segundo entrevistado da sabatina na TV Globo, de acordo
com sorteio da emissora que definiu a ordem das participações. A entrevista foi
conduzida pela jornalista Renata Lo Prete. Lula foi
sabatinado na quinta-feira (15/10).
Perguntado
se Jair Bolsonaro poderia ter um cargo em seu governo, Flávio respondeu que
esse assunto não foi tratado com o pai e "não está no radar". O
ex-presidente foi condenado por tentativa de golpe e outros crimes e cumpre
prisão domiciliar, mas, se eleito presidente, Flávio poderia buscar conceder o
perdão à punição.
O
senador tem dito, inclusive, que Jair subirá a rampa do Palácio do Planalto
junto com ele durante a eventual posse.
O
senador afirmou também que seu irmão, Eduardo Bolsonaro, não seria chanceler em
seu governo embora faça um "trabalho brilhante" com líderes
internacionais conservadores. Eduardo mora nos EUA e foi condenado à prisão no
Brasil por crime de coação.
Recentemente,
o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou que o ex-deputado cumpra a
pena no Brasil, mas Eduardo Bolsonaro afirmou a jornalistas que não pretende
voltar ao país.
Na
entrevista à Globo, Flávio respondeu ainda sobre assuntos como o caso Master,
programas sociais e reformas no Supremo Tribunal Federal (STF).
Confira
os principais momentos.
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Armas e 'guerra' ao narcotráfico
Flávio
afirmou que um dos seus primeiros atos como presidente seria declarar guerra ao
narcotráfico e classificar, já em janeiro, o Comando Vermelho e o Primeiro
Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas — como fez o governo de
Donald Trump nos Estados Unidos, em uma medida criticada por Lula.
O
candidato do PL, aliás, afirmou que o Brasil ingressaria no Escudo das
Américas, uma iniciativa de Trump que reúne países da região — em geral,
alinhados ideologicamente com o americano — com o objetivo de combater o
tráfico de drogas.
O
senador acrescentou que, em seu eventual governo, Marinha e Exército teriam
tropas de elite atuando no Porto de Santos e na Amazônia, respectivamente, para
coibir o narcotráfico.
Em
relação ao acesso de civis a armas, classificou como "teses malucas"
as afirmações de que mais armas em mãos de cidadãos "ordeiros" causam
mais violência.
"Se
você não quer ter uma arma, tudo bem, é um direito seu. Agora, quem atende aos
requisitos legais tem direito a ter uma para defender sua família, defender sua
casa, defender sua propriedade rural, defender a sua fazenda de invasão de MST.
Isso aí é o que está na Constituição, o direito à legítima defesa."
O
candidato defendeu que o Estatuto do Desarmamento seja "melhorado".
"Ele
[o estatuto] proíbe o cidadão de se defender e autoriza os marginais a
comprarem armas de guerra porque não tem fiscalização nenhuma",
argumentou.
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Caso Master
Um dos
momentos de tensão da entrevista foi quando a jornalista Renata Lo Prete
questionou Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master, e os recursos que ele pediu ao banqueiro para financiar o filme Dark
Horse, sobre a vida de seu pai, Jair Bolsonaro.
Uma
investigação da Polícia Federal revelou que o senador pediu R$ 134 milhões a
Vorcaro e recebeu quase R$ 70 milhões. O dinheiro não foi diretamente para a
produtora, mas para um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo
advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro.
Ao ser
questionado sobre porque não havia informações sobre o destino final dos
recursos, Flávio afirmou que a produtora brasileira prestou contas dos gastos e
que não houve irregularidade.
"Eu
estou falando de um pedido de um patrocínio privado para um filme privado, sem
absolutamente nenhuma contrapartida", afirmou.
A
jornalista também perguntou por que o senador havia solicitado R$ 134 milhões
se uma perícia contratada pela própria produtora apontava que o filme custou R$
75 milhões — uma diferença de quase R$ 60 milhões. Flávio respondeu que o
contrato não foi cumprido e que o filme foi concluído com os recursos aportados
por Vorcaro e outros investidores.
Questionado
sobre por que procurou Vorcaro entre cerca de 1.600 instituições financeiras e
quase 170 bancos no país, Flávio disse que conversou com vários possíveis
investidores e que o banqueiro aceitou a proposta numa época em que, segundo
ele, Vorcaro "não tinha absolutamente nada de errado".
O
senador então fez acusações contra pessoas ligadas a Lula, mencionando supostas
contrapartidas em negociações envolvendo fundos de pensão e o Banco Master.
Renata
interrompeu a entrevista e afirmou que não abordaria informações que não
tivessem sido confirmadas pela apuração da TV Globo e pela Polícia Federal.
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Ajuste fiscal e reajuste do salário mínimo
Em seu
plano de governo, Flávio Bolsonaro propõe um "tesouraço" nas contas
públicas, com economia de cerca de R$ 200 bilhões. Na entrevista, porém,
afirmou que manterá os reajustes do salário mínimo acima da inflação e não
desvinculará as aposentadorias do piso nacional.
Em seu
primeiro mandato, Lula criou uma política de valorização do salário mínimo que
previa reajustes acima da inflação. Bolsonaro interrompeu essa política,
retomada por Lula em 2023.
Renata
Lo Prete também perguntou se ele mudaria a Constituição para alterar os pisos
mínimos de gastos com saúde e educação. Flávio respondeu que não e acusou Lula
de promover "um terrorismo" com "fake news" sobre suas
propostas.
Economistas
ouvidos pela BBC News Brasil apontam não ser viável conciliar essas promessas
com a economia anunciada, já que as despesas previdenciárias estão entre as
maiores rubricas do orçamento federal.
Questionado
sobre como pretende alcançar a meta, Flávio disse que vai cortar gastos e
buscar novas receitas.
"Tem
muitas receitas novas a serem feitas e tem despesas para serem cortadas,
principalmente combatendo a corrupção e fazendo uma gestão com inteligência
artificial", afirmou.
Entre
as medidas, citou o corte de pelo menos dez dos 39 ministérios do governo Lula,
a gestão de imóveis da União por meio de um fundo e a recuperação de dívidas a
receber.
Também
mencionou os royalties da exploração de petróleo na Margem Equatorial, que,
segundo ele, "poderia trazer mais de R$ 100 bilhões".
A
região marítima, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte, é considerada
uma nova fronteira de exploração de petróleo. Apesar das descobertas recentes
no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, ainda é preciso avaliar o volume e
a viabilidade comercial das reservas.
Segundo
a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, a produção poderia começar até
2033, caso as etapas de avaliação e licenciamento avancem conforme o previsto.
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Escala 6x1
Flávio
Bolsonaro votou, na quarta-feira (14/10), pelo fim da escala 6x1 em votação no
Senado. Ele afirmou ter passado a ser favorável ao fim desse tipo de jornada
após conversar com brasileiros e perceber o apoio dos trabalhadores à medida,
que foi promulgada nessa sexta-feira.
O
senador já havia classificado a medida como eleitoreira e oportunista mas, na
véspera da votação, anunciou seu apoio a ela.
Perguntado
se reverteria o fim da escala 6x1 caso chegue à presidência, o candidato
afirmou que não.
"Todos
os direitos trabalhistas estão garantidos. Cada um pode ter sua opinião
individual, mas da minha parte, isso aqui está respeitado. Foi uma decisão do
Congresso Nacional."
"Eu
sempre defendi mais liberdade para que os trabalhadores pudessem, inclusive,
montar a sua própria jornada de trabalho. Eu sempre citava o exemplo daquela
mãe solo que sustenta o seu filho sozinho e as vezes não tem com quem deixar
sua criança. E com essa escala 6x1 engessada, ela não conseguiu o emprego.
Então eu sou a favor de mais liberdade."
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Duração do mandato e fim da reeleição
No
início do ano, Flávio apresentou uma proposta de emenda à Constituição (PEC)
para acabar com a reeleição presidencial.
Questionado
se abriria mão de disputar um segundo mandato mesmo que o Congresso não
aprovasse a mudança, respondeu que sim.
"Eu
só preciso de um mandato porque eu não quero começar o mandato já pensando na
reeleição. Eu quero fazer o que precisa ser feito no Brasil", afirmou.
Renata
Lo Prete ponderou que a PEC apresentada por ele não prevê ampliar de quatro
para cinco anos a duração do mandato, possibilidade que o senador chegou a
ventilar.
Flávio
disse que a decisão caberia ao Congresso e reiterou que não tentaria a
reeleição mesmo se o mandato continuasse com quatro anos. Ele justificou a
posição como demonstração de "desapego ao poder" e afirmou que
"não faltam novas lideranças" na direita para dar continuidade ao seu
projeto político.
O
senador também defendeu que a proibição de reeleição se estenda a parentes até
terceiro grau e disse que não apoiaria uma mudança que permitisse que seu pai
ou seus irmãos concorressem à sua sucessão.
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Ministros do STF
Em
vários momentos da entrevista, Flávio atacou o ministro do STF Alexandre de
Moraes — acusado de, com "canetadas", tomar decisões favoráveis a
Lula, assim como outros membros da Corte acusados pelo candidato do PL de
supostamente agir politicamente em prol do petista, como Flávio Dino e
Cristiano Zanin.
Esses
ministros foram acusados também de terem sido parciais nos julgamentos
relativos ao 8 de janeiro, que condenaram Jair Bolsonaro, aliados e apoiadores
do ex-presidente.
"Os
amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal [estão] se protegendo para que
investigações não avancem sobre eles. Isso aqui não dá mais. Eles acabaram com
a credibilidade do Poder Judiciário. E essa reforma do Judiciário tem que
caminhar para o resgate dessa credibilidade", disse, apoiando medidas como
a limitação de mandatos dos magistrados e a redução do poder de decisões
monocráticas.
Renata
Lo Prete, então, mencionou as acusações envolvendo Kassio Nunes Marques,
indicado por Jair Bolsonaro ao STF, no caso Master, e perguntou se este
ministro também deveria ser investigado.
"Todo
mundo tem que estar abaixo da lei", respondeu Flávio.
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Quem é Flávio Bolsonaro?
Filho
mais velho de Jair Bolsonaro, Flávio tem 45 anos. Nasceu em Resende (RJ) e
cresceu no Rio de Janeiro, onde se formou em direito pela Universidade Candido
Mendes. Evangélico, é casado com a dentista Fernanda Bolsonaro, com quem tem
duas filhas.
O
candidato do PL se identifica como um político de direita conservador que
defende políticas econômicas liberais, cortes de gastos e redução de impostos.
Assim como o pai, é a favor da facilitação do acesso a armas. No campo
internacional, propõe uma maior aproximação do Brasil com os Estados Unidos,
mantendo interlocução com o governo de Donald Trump.
Começou
sua carreira política no ano 2000, aos 19 anos, quando foi nomeado para um
cargo na Câmara dos Deputados, na função de assistente técnico de gabinete na
liderança do PPB, então o partido de Jair Bolsonaro, que já era deputado
federal há quase uma década.
Com
apoio do pai, disputou sua primeira eleição em 2002, quando tinha apenas 21
anos e conquistou seu primeiro mandato de deputado estadual. Foi reeleito para
o cargo três vezes, permanecendo por 16 anos na Assembleia Legislativa do Rio
de Janeiro (Alerj).
Sua
atuação foi marcada pela agenda da segurança pública. Ao longo do seu mandato,
costumava homenagear agentes das forças de segurança com a Medalha Tiradentes,
como foi o caso do policial Adriano da Nóbrega, em 2005, depois acusado de
atuar como miliciano.
Quando
Bolsonaro foi eleito presidente, em 2018, Flávio conquistou seu atual mandato
de senador. Pouco depois, em dezembro daquele ano, estourou o escândalo da
"rachadinha", em que era suspeito de ter enriquecido ilicitamente com
desvio de verba do seu gabinete da Alerj.
Segundo
denúncia oferecida depois pelo Ministério Público, 12 funcionários fantasmas
teriam devolvido parte dos seus salários para o então deputado estadual por
intermédio do seu chefe de gabinete, Fabrício Queiroz, em um esquema que teria
movimentado cerca de R$ 4 milhões em valores da época.
Queiroz
admitiu ao Ministério Público que recebia parte dos salários dos funcionários,
mas disse fazer isso sem anuência de Flávio. Na versão de sua defesa, os
recursos eram usados para contratar informalmente outras pessoas para atuar em
apoio à atuação parlamentar do então deputado estadual.
Para o
filho mais velho de Bolsonaro, as denúncias eram perseguição política para
atingir o governo do pai.
"Eu
passei 16 anos da minha vida sem ter uma acusação de nada. Bastou o presidente
se eleger que começam a aparecer as narrativas", disse Flávio Bolsonaro em
abril, ao responder sobre as acusações em entrevista ao podcast Inteligência
Ltda.
Flávio
chegou a ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pelos crimes
de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso, porém, foi
paralisado por decisões judiciais sem que o mérito das acusações fosse julgado,
após controvérsias em torno do foro privilegiado do senador e da legalidade das
provas.
A forte
repercussão inicial do escândalo da rachadinha acabou limitando a projeção de
Flávio durante o governo de Jair Bolsonaro. Com o esfriamento do caso, porém,
foi escolhido pelo pai para disputar a Presidência da República.
Fonte:
BBC News Brasil

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