Carlos
Veiner: Nove teses em busca da vitória
Onda
gigante de mobilizações superou desânimo pós-1ºturno. Há chance real de virada,
mas obstáculo: existem duas esquerdas, nenhuma delas portadora de um projeto de
transformação do país. Oxalá as lutas de agora ajudem a superar o déficit...
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Tese 1 – Um fantasma ronda a América… e o Brasil
As
eleições brasileiras de 2026 estão sendo disputadas num cenário marcado pelas
vitórias recentes da direita e extrema direita na América Latina, sendo México
e Uruguai as duas únicas exceções dignas de nota. A agressiva política de
Donald Trump para o continente aponta para uma crescente pressão direta do
grande irmão do norte – econômica e política, mas não apenas. A Venezuela foi
vítima de uma intervenção militar aberta e Cuba padece de um absurdo
enrijecimento do bloqueio econômico. A política do porrete (big stick policy)
ficou consagrada em uma frase do presidente estadunidense Theodor Rossevelt
(1901-1909): “Fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe”.
Trump parece inovador apenas pelo fato de não falar suavemente.
Muitos
são os que afirmam estarmos assistindo a uma crise inexorável e irreversível do
imperialismo ianque; outros avaliam que se trata de uma perda parcial e
relativa de poder, num processo de reequilíbrio geopolítico que reposiciona as
grandes potências, redefinindo suas esferas de influência e suas relações
mútuas. Seja lá qual for a análise mais pertinente acerca do sentido e natureza
das mudanças em curso na economia e geopolítica internacionais, o fato inegável
é que os EUA (ainda) detêm um extraordinário poder econômico, militar,
tecnológico e cultural, capaz de congelar esforços e derrotar lutas que apontem
na direção da democracia, da paz e da justiça social.
De
outro lado, há que considerar que embora a onda direitista seja continental, e
mesmo mundial, não se podem desconhecer as realidades nacionais particulares,
que são econômicas, sociais, políticas e culturais, remetendo tanto às
configurações de classe de cada país quanto à cultura política e tradições de
luta de seus povos e suas classes trabalhadoras. Como diziam Marx e Engels, no
Manifesto Comunista: “Embora não ponham de lado, em absoluto, os resultados da
luta internacional dos proletários, os comunistas concentram sua atenção,
sobretudo, na luta que se trava em cada país, pois é aí que se desenvolve
imediatamente a luta contra a burguesia”. (Marx & Engels, 1848).
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Tese 2 – Impedir a vitória do bolsonarismo
A
vitória de Flavio Bolsonaro no 1º turno pegou de surpresa institutos de
pesquisa, mídia corporativa e as campanhas de Flavio Bolsonaro e Lula. É
verdade que as pesquisas apontavam um resultado muito apertado para o 1º turno
e um crescimento progressivo de Bolsonaro nas semanas anteriores. As pesquisas
traziam também uma outra e igualmente relevante sinalização relacionada às
dificuldades de Lula: as simulações de 2º turno nas quais Flavio Bolsonaro era
substituído por algum outro representante da direita e extrema direita,
mostravam consistência e densidade políticas e eleitorais destas forças.
Isso
não obstante, não há como esconder o choque, a decepção, o desânimo e, em
alguns casos, o desespero que atingiu muitos eleitores e parcelas importantes
da militância, tanto mais que os resultados das eleições parlamentares e para
governador confirmavam as expectativas mais pessimistas, de uma ampla vitória
da do bolsonarismo.
A
primeira semana da campanha para o 2º turno, porém, parece ter sido suficiente
para reverter o Estado de espírito e o moral dos militantes. Embora os atos dos
dias que antecederam o 4 de outubro tenham sido expressivos, nada se compara à
amplitude, abrangência, combatividade e dimensão das manifestações desta última
semana, com milhões de pessoas indo às ruas, com destaque para estudantes e
jovens em geral. Também a militância digital e a atuação liderada pelo deputado
André Janones parecem render frutos não desprezíveis, como evidencia a contumaz
violação do direito de expressão da parte de Kassio Nunes Marques e André
Mendonça, juízes que perderam todo e qualquer pudor e não se preocupam nem
mesmo em disfarçar seu comprometimento político com o candidato da extrema
direita.
Neste
novo ambiente, o 2º turno se apresenta como uma nova eleição e a expectativa de
vitória renasce fortalecida. Neste contexto, as tarefas políticas são claras
para todas e todos que se alinham no campo de defesa da democracia: engajar-se
de fato, na prática, nas conversas com vizinhos, colegas de trabalho e
conhecidos, nas ruas e nas redes digitais, disputando de votos para assegurar a
vitória de Lula no 2o turno.
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Tese 3 – “Não é a economia, estúpido!”
Além da
relativa recuperação do PIB, as estatísticas indicam que Lula 3 trouxe alguns
ganhos econômicos não desprezíveis para a população, em particular para as
classes trabalhadoras e camadas mais pobres: aumento real do salário-mínimo,
redução das taxas de desemprego aos níveis historicamente mais baixos, elevação
da renda média, entre outros. Ainda assim, apesar de importantes variações por
região, sexo, nível de renda e cor, têm se mantido baixos os índices de
intenções de voto e alta a reprovação do governo.
Tudo
indica que não tem sido a economia o fator decisivo, mas a forma como os
eleitores experimentam e percebem os eventos de natureza econômica que afetam
seu quotidiano. A opção eleitoral pelo bolsonarismo estaria ancorada numa
“adesão ideológica”, entendida como adoção de um “conjunto coeso de valores e
narrativas sobre como a sociedade brasileira deveria se organizar”, pois é “a
percepção subjetiva que toca o voto, não os indicadores agregados econômicos em
si” (Feres Junior, 2026).
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Tese 4 – Um novo senso comum?
Há 16
anos Lula completava 8 anos de presidência com a aprovação recorde de 83% dos
eleitores (DataFolha, 2010). Hoje um pervasivo anti-lulismo e a alta rejeição
são apontados por muitos como uma das origens das dificuldades encontradas por
Lula nesta campanha eleitoral. Mais além do reconhecimento da efetiva dimensão
e pregnância do anti-lulismo e/ou do anti-petismo, no entanto, o que mereceria
análise e discussão cuidadosas, que escapam ao escopo deste texto, seriam as
origens e o significado de uma mudança tão importante em tão pouco tempo.
Na Ideologia
Alemã, Marx e Engels escreveram: “As ideias da classe dominante são, em
todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material
dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual
dominante”. Ou ainda: “A classe que tem à sua disposição os meios para a
produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção
espiritual”. (Marx & Engels, 1932, capítulo I-III.1). Gramsci avançou na
mesma direção com o conceito de hegemonia, que remeteria às formas de
subjetivação, pelos dominados, de visão de mundo, de um senso comum que
representa/concebe/percebe a realidade vigente como natural, inevitável,
legítima. E se poderia, aqui, lembrar também Bourdieu, que falou do “realismo
das classes dominadas”, para quem é fechado o universo de possibilidades e
expectativas.
Isso
não obstante, a ideologia dominante pode assumir vários formatos. Um exemplo:
uma coisa é a tradição católica, que vê a riqueza com certa suspeição e promete
aos pobres o reino dos céus; outra coisa, bastante diversa, é a tradição
protestante (calvinista) que vê no sucesso e na riqueza terrenos um sinal da
graça, concepção que fornece um fundamento tanto para a teologia da
prosperidade quanto para o individualismo empreendedorista.
Caberia,
então, interrogar se, em que medida e em que sentido, teria ocorrido uma
mudança na conformação e difusão do “senso comum”, no sentido que confere
Gramsci a essa ideia: concepção de mundo difusa, historicamente formada, não
raro contraditória, em que se misturam, de forma fragmentária mas integrada,
valores, costumes, religião, experiências individuais e coletivas. Estaríamos
diante de uma progressiva reconfiguração das formas de subjetivação da
dominação?
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Tese 5 – Os partidos da esquerda e centro-esquerda do espectro institucional
perdem representatividade eleitoral
PT,
PCdoB, PSOL, PSB, PDT, REDE, com algumas idas e vindas e diferenças entre eles,
de 2002 a 2010, avançaram em conjunto de 46 a 168 deputados federais eleitos.
Caíram progressivamente nas eleições seguintes, ficando em 2022, apesar da
eleição de Lula, com apenas 119 cadeiras. Importante chamar a atenção para o
fato de que a queda se iniciou em 2014, antes portanto da emergência do
fenômeno Bolsonaro. Nas eleições de 2026, o mesmo bloco teve uma pequena perda,
caindo para 117 deputados federais.
O
número de governadores eleitos pelo bloco, após subir de 8 a 13 entre 2002 e
2010, caiu para 7 em 2022. Em 2026, nova queda: 4 governadores eleitos.
As
eleições municipais apresentam um interesse particular, pois, de uma maneira ou
outra, constituem um indicador do grau de enraizamento social das legendas, ou,
se se prefere a linguagem usada pelas esquerdas, da proximidade com as bases:
houve uma não desprezível queda dos prefeitos e vereadores eleitos pelos
partidos de esquerda e centro esquerda.
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Tese 6 – As “esquerdas de Estado” perdem vitalidade e capacidade
convocatória
Os
partidos, sindicatos, muitas organizações populares que emergiram das lutas do
final dos anos 1970 e início dos 1980, progressivamente se transformaram no que
se poderia chamar de “esquerdas de Estado”, movendo-se nos marcos da
institucionalidade e tendo como horizonte político-ideológico e motivação quase
absoluta a conquista e/ou conservação de cargos e posições no aparelho estatal.
Estas forças passaram a olhar a sociedade a partir do Estado, e não o Estado a
partir da sociedade.
Encerradas
nas batalhas intestinas dos palácios, dos partidos e dos sindicatos, as
“esquerdas de Estado” não apenas perderam força eleitoral, mas, mais importante
que tudo, viram embotada sua capacidade de (re)conhecer, entender, enunciar,
expressar e transformar em linguagem e prática políticas os sentimentos e
anseios nascidos do quotidiano de expressiva parcela dos trabalhadores, dos
oprimidos e discriminados. Incorporadas à ordem política e social,
transformadas em gestores da ordem neoliberal e, mesmo, da crise do
neoliberalismo, “não surpreende agora que o outro lado se apresente com
antissistema” (Luis Inácio Lula da Silva, 2026).
Como
indicadores deste processo, poder-se-iam citar as grandes manifestações de
junho e julho de 2013, quando milhões foram às ruas em mais de 500 cidades
brasileiras, numa mobilização ocorrida à margem, quando não à revelia ou com a
contrariedade, de partidos e organizações tradicionais. Ou ainda, a fragilidade
da resistência ao golpe midiático-judicial-parlamentar contra Dilma Roussef ou
à reforma trabalhista de Temer.
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Tese 7 – As “esquerdas sociais” resistem de forma fragmentada e dispersa
Em uma
esfera muito diferente, e quase sempre distante, estão as “esquerdas sociais”,
isto é, aqueles coletivos, grupos, militantes populares, organizações culturais
variadas cuja dinâmica e prática se desenvolvem no tecido social. Grupos de
hip-hop, coletivos de jovens negras e negros, saraus e grupos culturais, grupos
de mulheres, movimentos LGBTQIA+, redes de solidariedade, como as que se
estenderam sobretudo durante a pandemia, promovem e difundem práticas coletivas
que fazem frente à crescente maré de individualismo, moralismo reacionário,
empreendedorismo competitivo e diferentes versões da teologia da prosperidade.
Muitas
vezes desqualificados como manifestações de “identitarismo” e acusados de serem
despolitizados e, mesmo, de dividir enfraquecer a luta de classes, a maioria
destes coletivos constitui, ao contrário, o gérmen de práticas e linguagens que
apontam para novas formas de construção de sujeitos coletivos e novos modos de
luta política e cultural. Apesar de seu potencial contra-hegemônico e das
enormes possibilidades de convergência com as lutas tradicionalmente
reconhecidas como “lutas de classe”, são (ainda? até quando?) frágeis por sua
fragmentação, dispersão e enormes dificuldades para elaboração de pautas e
projetos societários mais abrangentes.
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Tese 8 – Das dificuldades para encontros e convergências entre esquerda de
Estado e esquerdas sociais
Não
existe uma muralha da China entre as “esquerdas de Estado” e as “esquerdas
sociais”. Muitos e muitas militantes das bases dos partidos e sindicatos
tradicionais atuam e lutam no tecido social. Inversamente, não é raro que
jovens e combativos militantes, formados nas lutas concretas, sejam atraídos e
incorporados pelo establishment político-institucional. Quase sempre acabam
abandonando as práticas em que vida quotidiana e política estão imbricadas,
transformados em assessores profissionais, candidatos a isso ou aquilo.
“Esquerdas de Estado”, “esquerdas sociais”, estas duas expressões remetem menos
a dois grupos fixos e mais a dinâmicas, práticas, agências político-culturais e
linguagens que estão presentes nas lutas políticas e sociais.
Se não
há muralha da China, existiria a possibilidade de diálogos e convergências. E,
de fato, isto pode ocorrer, e ocorre em determinadas circunstâncias, quando
setores das “esquerdas de Estado” abandonam sua pretensão dirigista, sua
arrogância de “vanguarda” ou de “legítimos representantes” dos trabalhadores. O
diálogo exigiria que escutassem mais e falassem menos, aprendessem mais e
ensinassem menos. Mas, também do outro lado, seria necessário que setores
crescentes das “esquerdas sociais” aceitassem e reconhecessem que segmentos das
“esquerdas de Estado” guardam parte da herança das lutas revolucionárias de
dois séculos e poderiam, em certas circunstâncias e contextos, ajudar a
socializar teorias e experiências, vitoriosas e derrotadas.
Este
diálogo, porém, não é fácil, pois quase sempre se falam linguagens distintas. A
convergência não é fácil também porque são diversas as relações com o
território e com as lutas locais ou setoriais. Não é fácil, mas não é
impossível. E o que é mais importante: este encontro, estas convergências,
mesmo que circunstanciais, localizadas, temporárias, podem propiciar a
reinvenção de caminhos para disputar a hegemonia na sociedade, no tecido
social, que é onde, em última instância, se viabilizará, ou não, a possibilidade,
ou não, de uma transformação radical da sociedade.
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Tese 9 – As Alianças enlaçam
Os
riscos que representaria para a democracia e para as lutas populares de modo
geral a eleição de Flavio Bolsonaro colocam as esquerdas diante de um
verdadeiro impasse. A busca de alianças no centro e mesmo junto a segmentos das
elites burguesas e da direita que rejeitam o bolsonarismo tem como custo o
rebaixamento do programa de governo. É como se a vitória contra a extrema
direita impusesse uma direitização ainda mais acentuada das plataformas e
compromissos eleitorais das “esquerdas de Estado”.
Certamente
haveria a alternativa de que Lula adotasse um programa e fizesse uma campanha
em que o enfrentamento da direita e do neoliberalismo resgatasse os projetos
originais dos anos 1980 e apontasse para um governo que, mesmo não sendo
revolucionário, viesse a ser realmente reformista. O fato que se impõe
reconhecer é que, hoje, as “esquerdas de Estado” e Lula não têm hoje vocação,
capacidade ou vontade políticas para romper com o pacto com o centro e o que
resta de direita democrática no país. E, por outro lado, as “esquerdas sociais”
não têm unidade, nem projeto, que possam oferecer uma alternativa às escolhas
que encadeiam qualquer vitória eleitoral em 2026 a compromissos com os grupos
economicamente dominantes. Nem com os partidos e correntes partidárias
firmemente voltados à ocupação e partilha de um Estado cujos recursos públicos
são distribuídos, qual verdadeiro butim, através de redes de
patronagem-clientela e cada vez mais vulnerável à penetração e influência das
variadas modalidades de criminalidade organizada.
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À guisa de conclusão: Nem Revolução, nem Reforma, vamos à luta para derrotar o
bolsonarismo
Considerado
o contexto internacional e a realidade nacional, após os resultados das
eleições em geral, do 1º turno da eleição presidencial em particular, a melhor
das perspectivas é muito pobre e desanimadora, uma vez que parece condicionar a
vitória sobre a extrema direita a um abandono (definitivo? no médio e longo
prazos?) de qualquer projeto nacional comprometido, de um lado, politicamente,
com a construção de uma república democrática, e, de outro lado, econômica e
socialmente, com a superação do neoliberalismo e a promoção de reformas
econômicas e sociais que lancem os fundamentos de uma sociedade justa e
igualitária.
Se as
esquerdas durante mais de um século se debateram em torno à oposição reforma x
revolução, a situação parece nos oferecer uma alternativa muito mais pobre e
pouco inspiradora de paixões: ou vitória da extrema direita ou vitória de uma
esquerda desencarnada de utopias e projetos.
Marx
disse: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem;
não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se
defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”(Marx, 1852). Nas
circunstâncias com que nos defrontamos impõe-se reunir todas as forças para
derrotar o bolsonarismo, vencer o 2º turno e eleger Lula presidente. Vamos,
pois, uma vez mais, à luta política, que hoje é luta eleitoral.
Fonte:
Outras Palavras

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