sábado, 17 de outubro de 2026

Tempo de vida – Mais perguntas do que respostas

Quanto tempo você tem de vida? Tenho refletido sobre isso ultimamente. Não pensando em quando a vida acabar, mas o que fazemos com ela enquanto ainda temos tempo. Dizem que tempo é dinheiro só que, ao longo dos meus mais de 40 anos, poucas vezes recebi pelo meu tempo mais do que o suficiente para segurar pratos – paga uma conta aqui e deixa outra acumular para o mês seguinte. Atrasa o aluguel para comprar material escolar. Deixa cortar o telefone para fazer uma feira com frutas. Pago o meu psicólogo ou o do meu filho? Muitas vezes escolhi compartilhar momentos com meus filhos, amigos e família. Com outros que que se juntavam à minha indignação e minha luta. Defendendo o que acredito.

Nessa reflexão, com tudo o que está acontecendo no Brasil e no mundo, me pego pensando em como existe alguém que seja contra a redução da jornada de trabalho. Em um tempo histórico em que máquinas substituem já uma boa parte do trabalho que precisávamos fazer.

E, ao acompanhar a discussão sobre o fim da escala 6×1 me pego lembrando de duas coisas: 1) Um filme que assisti há muito em que o salário recebido pelo trabalho era pago em tempo de vida e; 2) Uma aula que recebi do meu pai – economista – sobre o custo de reprodução da força de trabalho em Marx. Parecem duas coisas desconexas, mas verão que a relação faz sentido.

A começar pela segunda. Todo mundo que cita esse conceito do Marx (o custo de reprodução da força de trabalho) lembra que ele o descreveu como o sendo o Valor da mercadoria ou o tempo socialmente necessário para produzi-la – a mercadoria, seja ela um bem físico seja ela a própria força de trabalho, ou seja o valor das mercadorias utilizadas para o sustento do trabalhador e de seus descendentes.  Marx escreveu isso (no Capital) em complemento ao que havia sido escrito por David Ricardo, em Princípios da Economia Política e Tributação, de 1823.

Para Ricardo, a mercadoria vale tanto quanto a quantidade de trabalho despendido em sua produção somado ao trabalho transferido pelos implementos (instrumentos) utilizados na produção. Uma crítica ao que havia sido elaborado por Adam Smith, pai do Liberalismo, no seu Riqueza das Nações, meio século antes (1776).

Segundo Smith, o valor da mercadoria equivale à quantidade de trabalho que esta – a mercadoria – pode comprar ou comandar. E isso é importante pois determina, para ele, a medida da riqueza.

E o que isso tem a ver com a escala 6×1? Talvez seja importante apontar agora que os três economistas políticos mais citados da história entendem que a riqueza é gerada pelo trabalho. Cada um da sua maneira. Mas apenas um a vê como o tempo socialmente necessário para produzi-la. E a pergunta que me veio na cabeça desde que meu pai me deu essa aula é: Qual é o tempo socialmente necessário para produzir – ou reproduzir – a mercadoria Força de Trabalho?

O ponto é que este socialmente necessário muda. Era um em 1867, quando foi publicado pela primeira vez O Capital, e outro hoje. Não digo apenas biologicamente, porque até isso mudou com o aumento da expectativa de vida. Mas quanto tempo é socialmente necessário investir para reproduzir a força de trabalho de hoje? Quanto tempo de mães cuidando de seus filhos? Quanto tempo de professores ensinando? Quanto tempo de médicos cuidando da saúde? Quanto tempo de cientistas desenvolvendo novas tecnologias para aumentar a produtividade do trabalho? Quanto tempo de engenheiros, arquitetos, mestres de obra e pedreiros projetando e construindo moradias? Quanto tempo de limpeza das nossas casas e cidades para manter a saúde coletiva? Quanto tempo produzindo alimentos? Quanto tempo de deslocamento levando o trabalho de um ponto a outro? Quanto tempo nós, enquanto sociedade, cada uma em um ecossistema diferente, dispomos para reproduzir uma geração de trabalhadores qualificados?

Seguindo este pensamento, todos nós que trabalhamos produzimos o suficiente para reproduzir a nossa força de trabalho – temos ou não temos hoje bilhões de trabalhadores produzindo? – e algo a mais. O que é produzido a mais, o excedente, é o que Marx chamou de mais valia.

Agora a pergunta mais importante: o que é feito do tempo excedente? Aquele que é dispendido na produção da mercadoria que não é utilizado para custear a reprodução da força de trabalho? Aquele tempo dispendido que não é usado para alimentar, vestir, educar, manter a saúde e um teto na cabeça das pessoas? Esse tempo fica na mão de quem? E deveria ser administrado por quem? Uma parte do meu tempo trabalhado eu recebo em salário, outra parte fica com o patrão – e outra, hoje em dia, fica com o que convencionamos chamar de Estado, ou governo central, que é reponsável por usar esse tempo excedente – riqueza produzida por uma nação – para garantir o funcionamento do sistema e a reprodução da força de trabalho.

O investimento coletivo na reprodução da força de trabalho, via políticas públicas, reduz o custo individual para o empresário da mesma força de trabalho. Do contrário, cada empresário teria que garantir alimento, transporte, saúde, educação, moradia e segurança para cada um de seus funcionários se quisesse ter uma empresa que funcionasse para além de seu próprio tempo de vida.

Por isso, o filme O Preço do Amanhã mexe tanto com a minha cabeça.

Nele, o personagem principal perde a mãe, logo no começo da história, por causa de segundos. Ela usou todo o seu tempo – aquele que ela recebia pelo seu trabalho – para pagar o aluguel, confiando que seu filho receberia o seu salário a tempo de passar algumas horas para ela. O preço da passagem de ônibus sobe, ela tem que correr para encontrá-lo e não consegue chegar ao local combinado a tempo de receber mais tempo do filho. Ele, algumas cenas antes, recebe menos do que o costume (Ele:“Isso não está certo, eu produzi mais do que a meta”, ao que recebe a resposta: “mas a meta hoje está maior”) e descobre que “para poucos serem imortais, muitos têm que morrer”.

O filme mostra que os personagens trabalhadores vivem sempre com pouquíssimo tempo – às vezes segundos – porque o que produzem, e não lhes é pago na forma de salário, fica nas mãos de alguns poucos que chegam a ter séculos de vida.

Esse tempo excedente, no filme como na vida real, fica trancado dentro de bancos de tempo. É utilizado por alguns poucos para estender seus tempos de vida enquanto os muitos da força de trabalho vêm os seus – tempos de vida – limitados. Neste sistema, quem trabalha pode até conseguir alguns segundos a mais fazendo um bico ou horas extras, mas apenas os donos dos bancos de tempo têm uma vida toda pela frente.

Nesse momento de polarização eleitoral, eu te pergunto: Qual dos candidatos a presidente do Brasil vai te devolver o seu tempo de vida?

 

Fonte: Por Mariana Moura, em A Terra é Redonda 

 

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