Tempo
de vida – Mais perguntas do que respostas
Quanto
tempo você tem de vida? Tenho refletido sobre isso ultimamente. Não pensando em
quando a vida acabar, mas o que fazemos com ela enquanto ainda temos tempo.
Dizem que tempo é dinheiro só que, ao longo dos meus mais de 40 anos, poucas
vezes recebi pelo meu tempo mais do que o suficiente para segurar pratos – paga
uma conta aqui e deixa outra acumular para o mês seguinte. Atrasa o aluguel
para comprar material escolar. Deixa cortar o telefone para fazer uma feira com
frutas. Pago o meu psicólogo ou o do meu filho? Muitas vezes escolhi
compartilhar momentos com meus filhos, amigos e família. Com outros que que se
juntavam à minha indignação e minha luta. Defendendo o que acredito.
Nessa
reflexão, com tudo o que está acontecendo no Brasil e no mundo, me pego
pensando em como existe alguém que seja contra a redução da jornada de
trabalho. Em um tempo histórico em que máquinas substituem já uma boa parte do
trabalho que precisávamos fazer.
E, ao
acompanhar a discussão sobre o fim da escala 6×1 me pego lembrando de duas
coisas: 1) Um filme que assisti há muito em que o salário recebido pelo
trabalho era pago em tempo de vida e; 2) Uma aula que recebi do meu pai –
economista – sobre o custo de reprodução da força de trabalho em Marx. Parecem
duas coisas desconexas, mas verão que a relação faz sentido.
A
começar pela segunda. Todo mundo que cita esse conceito do Marx (o custo de
reprodução da força de trabalho) lembra que ele o descreveu como o sendo o
Valor da mercadoria ou o tempo socialmente necessário para produzi-la – a
mercadoria, seja ela um bem físico seja ela a própria força de trabalho, ou
seja o valor das mercadorias utilizadas para o sustento do trabalhador e de
seus descendentes. Marx escreveu isso
(no Capital) em complemento ao que havia sido escrito por David Ricardo, em
Princípios da Economia Política e Tributação, de 1823.
Para
Ricardo, a mercadoria vale tanto quanto a quantidade de trabalho despendido em
sua produção somado ao trabalho transferido pelos implementos (instrumentos)
utilizados na produção. Uma crítica ao que havia sido elaborado por Adam Smith,
pai do Liberalismo, no seu Riqueza das Nações, meio século antes (1776).
Segundo
Smith, o valor da mercadoria equivale à quantidade de trabalho que esta – a
mercadoria – pode comprar ou comandar. E isso é importante pois determina, para
ele, a medida da riqueza.
E o que
isso tem a ver com a escala 6×1? Talvez seja importante apontar agora que os
três economistas políticos mais citados da história entendem que a riqueza é
gerada pelo trabalho. Cada um da sua maneira. Mas apenas um a vê como o tempo
socialmente necessário para produzi-la. E a pergunta que me veio na cabeça
desde que meu pai me deu essa aula é: Qual é o tempo socialmente necessário
para produzir – ou reproduzir – a mercadoria Força de Trabalho?
O ponto
é que este socialmente necessário muda. Era um em 1867, quando foi publicado
pela primeira vez O Capital, e outro hoje. Não digo apenas biologicamente,
porque até isso mudou com o aumento da expectativa de vida. Mas quanto tempo é
socialmente necessário investir para reproduzir a força de trabalho de hoje?
Quanto tempo de mães cuidando de seus filhos? Quanto tempo de professores
ensinando? Quanto tempo de médicos cuidando da saúde? Quanto tempo de
cientistas desenvolvendo novas tecnologias para aumentar a produtividade do
trabalho? Quanto tempo de engenheiros, arquitetos, mestres de obra e pedreiros
projetando e construindo moradias? Quanto tempo de limpeza das nossas casas e
cidades para manter a saúde coletiva? Quanto tempo produzindo alimentos? Quanto
tempo de deslocamento levando o trabalho de um ponto a outro? Quanto tempo nós,
enquanto sociedade, cada uma em um ecossistema diferente, dispomos para
reproduzir uma geração de trabalhadores qualificados?
Seguindo
este pensamento, todos nós que trabalhamos produzimos o suficiente para
reproduzir a nossa força de trabalho – temos ou não temos hoje bilhões de
trabalhadores produzindo? – e algo a mais. O que é produzido a mais, o
excedente, é o que Marx chamou de mais valia.
Agora a
pergunta mais importante: o que é feito do tempo excedente? Aquele que é
dispendido na produção da mercadoria que não é utilizado para custear a
reprodução da força de trabalho? Aquele tempo dispendido que não é usado para
alimentar, vestir, educar, manter a saúde e um teto na cabeça das pessoas? Esse
tempo fica na mão de quem? E deveria ser administrado por quem? Uma parte do
meu tempo trabalhado eu recebo em salário, outra parte fica com o patrão – e
outra, hoje em dia, fica com o que convencionamos chamar de Estado, ou governo
central, que é reponsável por usar esse tempo excedente – riqueza produzida por
uma nação – para garantir o funcionamento do sistema e a reprodução da força de
trabalho.
O
investimento coletivo na reprodução da força de trabalho, via políticas
públicas, reduz o custo individual para o empresário da mesma força de
trabalho. Do contrário, cada empresário teria que garantir alimento,
transporte, saúde, educação, moradia e segurança para cada um de seus
funcionários se quisesse ter uma empresa que funcionasse para além de seu
próprio tempo de vida.
Por
isso, o filme O Preço do Amanhã mexe tanto com a minha cabeça.
Nele, o
personagem principal perde a mãe, logo no começo da história, por causa de
segundos. Ela usou todo o seu tempo – aquele que ela recebia pelo seu trabalho
– para pagar o aluguel, confiando que seu filho receberia o seu salário a tempo
de passar algumas horas para ela. O preço da passagem de ônibus sobe, ela tem
que correr para encontrá-lo e não consegue chegar ao local combinado a tempo de
receber mais tempo do filho. Ele, algumas cenas antes, recebe menos do que o
costume (Ele:“Isso não está certo, eu produzi mais do que a meta”, ao que
recebe a resposta: “mas a meta hoje está maior”) e descobre que “para poucos
serem imortais, muitos têm que morrer”.
O filme
mostra que os personagens trabalhadores vivem sempre com pouquíssimo tempo – às
vezes segundos – porque o que produzem, e não lhes é pago na forma de salário,
fica nas mãos de alguns poucos que chegam a ter séculos de vida.
Esse
tempo excedente, no filme como na vida real, fica trancado dentro de bancos de
tempo. É utilizado por alguns poucos para estender seus tempos de vida enquanto
os muitos da força de trabalho vêm os seus – tempos de vida – limitados. Neste
sistema, quem trabalha pode até conseguir alguns segundos a mais fazendo um
bico ou horas extras, mas apenas os donos dos bancos de tempo têm uma vida toda
pela frente.
Nesse
momento de polarização eleitoral, eu te pergunto: Qual dos candidatos a
presidente do Brasil vai te devolver o seu tempo de vida?
Fonte:
Por Mariana Moura, em A Terra é Redonda

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