José
Reinaldo Carvalho: Somente a reeleição de Lula garante o Brasil soberano e
altivo
É
preciso dizer com todas as letras e sem qualquer meia-palavra: a reeleição do
presidente Lula é uma questão de salvação nacional.
Uma
eventual vitória da extrema-direita pró-imperialista, personificada em Flávio
Bolsonaro em 25 de outubro, desferiria um golpe letal na soberania do Brasil,
com desdobramentos devastadores para toda a América Latina e o Caribe. O
alinhamento subserviente anunciado pelo candidato do PL aos Estados Unidos é a
renúncia deliberada e indecorosa à autonomia indispensável para resguardar as
riquezas e os interesses do povo brasileiro. A oferta escandalosa de colocar
sua própria equipe de transição à disposição direta de Washington constitui o
sinal mais eloquente e vergonhoso desse projeto de vassalagem.
Na
carta enviada ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Flávio
Bolsonaro explicitou a barganha no bojo das negociações de um acordo bilateral
de comércio e investimentos. O senador escreveu, sem qualquer pudor patriótico,
estar pronto para colocar a equipe “imediatamente à sua disposição”. A roupagem
comercial jamais apagará a gravidade política inédita dessa atitude: a
transição presidencial do Brasil deve render contas unicamente ao povo
brasileiro e às suas instituições soberanas. Entregá-la de bandeja a uma
potência estrangeira revela uma concepção de poder indigna, mesquinha e
absolutamente incompatível com a independência de uma nação livre.
Essa
prontidão serviçal de Flávio Bolsonaro se encaixa com perfeição na sanha
tutelar de Rubio sobre o nosso continente. Em audiência no Senado
estadunidense, em 2 de junho, o secretário rotulou o Brasil como uma incômoda
exceção em um hemisfério que Washington quer ver totalmente dobrado aos seus
ditames, fazendo referência explícita ao nosso ciclo eleitoral. Ao arvorar-se
no direito de dividir governos entre “amigos” e “hostis” aos interesses
norte-americanos, Rubio escancarou a lógica imperialista: para a Casa Branca, a
autodeterminação dos povos latino-americanos é encarada como um “problema” a
ser suprimido.
O
sentido político dessa ofensiva é cristalino. Um Brasil altivo, que dialoga de
cabeça erguida com múltiplos polos de poder, negocia sem aceitar sujeição ou
exclusividades e sustenta posições firmes e independentes no cenário
internacional causa profundo incômodo aos guardiões da hegemonia estadunidense.
A alusão de Rubio às eleições brasileiras deixa evidente a aposta da potência
imperialista: a expectativa de que uma virada de governo dissipe a altiva
resistência do Brasil e escancare as portas para o alinhamento cego pretendido
por Washington.
A
promessa de adesão ao chamado “Escudo das Américas” dá a face militar e
operacional a essa rendição. Flávio Bolsonaro já declarou publicamente a
intenção de atrelar o Brasil à coalizão liderada por Donald Trump. Anunciou
também que proporá alterações legais para carimbar organizações criminosas
brasileiras como grupos “terroristas internacionais”, subordinando-se à
chancela unilateral de Trump. Trata-se de uma capitulação na política externa e
de defesa que ameaça diretamente o comando e a jurisdição do Estado brasileiro
sobre o seu próprio território.
É óbvio
que o combate às facções criminosas é um dever constitucional indeclinável do
Estado. Todavia, isso exige inteligência de ponta, asfixia financeira do crime
organizado, rigoroso controle de armas e cooperação técnica — jamais a cessão
da nossa soberania. Instrumentalizar esse desafio interno para converter o
Brasil em praça de armas de uma estratégia militar ditada por uma potência
estrangeira cruza uma linha vermelha inaceitável: a internacionalização e a
entrega do controle das nossas forças e da nossa segurança nacional a decisões
tomadas fora do país.
Esse
enquadramento de facções como entidades terroristas guarda armadilhas letais. O
Itamaraty alertou para o risco real de Washington converter essa rotulagem em
pretexto para incursões militares e intervenções em solo brasileiro. Uma
designação unilateral norte-americana não possui validade jurídica
internacional para violar territórios alheios; contudo, o perigo reside na
construção de uma narrativa político-militar agressiva para emparedar governos,
atropelar fronteiras e violar a soberania dos países da região.
A
trágica experiência da América Latina demonstra que esse perigo não é uma mera
abstração teórica. Em março, Estados Unidos e Equador anunciaram operações
militares conjuntas sob o pretexto de combater o “terrorismo”. Em setembro, a
chancelaria equatoriana confirmou a integração irrestrita ao Escudo das
Américas, entrelaçando inteligência, capacidade operacional e coordenação
política com Washington. A pretexto do combate ao narcotráfico, a presença
militar estadunidense ganha contornos concretos de ocupação estratégica.
Com o
vizinho Paraguai foi firmado um acordo que praticamente transforma o país
Guarani em uma base militar estadunidense na América do Sul.
A
ostensiva visita do comandante do Comando Sul dos EUA, general Francis L.
Donovan, à cidade de Iquitos, na Amazônia peruana, realizada nos últimos dias,
escancara essa engrenagem. Encontrando-se com a cúpula militar do Peru, o
general norte-americano manteve conversações sobre a realização de operações
militares contra grupos rotulados como narcoterroristas e sobre o pertencimento
do país andino no Escudo das Américas. A presença militar norte-americana nas
barbas da Amazônia é um sinal de alerta estrondoso para a defesa nacional e
para o equilíbrio regional.
Essa
marcha de cooptação utiliza múltiplos braços. Na Argentina, o governo anunciou
em junho acordos com Washington que incluem suporte logístico, reabastecimento
recíproco em operações militares e acesso a tecnologias de defesa dos
EUA.
Na
Colômbia, a cooperação militar com os EUA avançou para patamares ainda mais
gravosos de operações conjuntas sob a bandeira do Escudo das Américas,
consolidando a integração de inteligência e logística nas faixas de fronteira.
Tudo
isso constitui uma teia bem articulada que busca submeter as estruturas
estratégicas dos países latino-americanos às diretrizes do Pentágono. Vê-se, em
pleno curso, uma perigosa militarização da região, sob a hegemonia
estadunidense.
É
justamente essa escalada que torna criminosa e inadmissível a simples hipótese
de capitulação do Brasil. Pela dimensão gigantesca de sua economia, pela
extensão de seu território e por suas fronteiras estratégicas, o Brasil é o
escudo e o fiador da independência da nossa região. Sua submissão a uma
coalizão sob comando norte-americano esmagaria a autonomia de toda a América
Latina e do Caribe, deixando os países vizinhos expostos a um ambiente ainda
mais brutal de ingerência e chantagem hegemonista.
O
biombo da “proteção continental” não passa da roupagem atualizada da nefasta
Doutrina Monroe, que insiste em tratar a nossa região como o “quintal” e área
de influência exclusiva do império. Sob uma perspectiva anti-imperialista
consequente, a questão de fundo é o poder inalienável de decidir: quem define
nossas ameaças, quem maneja as inteligências, quem dita os limites da atuação
militar em nosso solo? Quando a caneta e o comando do destino nacional são
transferidos para fora, a dita “cooperação” nada mais é do que dependência
colonialista.
A
antítese dessa vergonha é a política externa altiva, soberana e destemida
conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O pilar inabalável dessa
orientação reside no artigo 4º da Carta Magna de 1988: independência nacional,
autodeterminação dos povos, não intervenção, igualdade soberana entre os
Estados, defesa intransigente da paz e solução pacífica dos conflitos. Mais do
que imperativo legal, a Constituição manda o Brasil perseguir a integração
profunda dos povos da América Latina. São esses princípios que nos armam
ideologicamente para repelir a tutela estrangeira e edificar uma segurança
autêntica fundada na solidariedade entre nações livres.
O
engajamento vibrante de Lula com o multilateralismo, o protagonismo inconteste
do Brasil no Sul Global e o fortalecimento ousado do BRICS são os pilares de um
país que se recusa a se curvar. À frente da presidência do BRICS em 2025, o
Brasil colocou a cooperação soberana e o desenvolvimento dos povos como
prioridades absolutas. É essa coragem diplomática que amplia a voz do Brasil e
constrói, na prática, uma ordem multipolar justa.
Defender
a continuidade do governo Lula é defender a liberdade suprema do Brasil de
dialogar e pactuar com quaisquer países e com todos os povos do mundo a partir
dos nossos interesses nacionais, e não sob ordens de impérios. É exigir com
altivez a reforma das instituições internacionais, a voz ativa dos países em
desenvolvimento e o combate aos grandes dilemas da humanidade sem pedir licença
às potências coloniais. O Brasil de Lula é o motor dessa transformação
libertadora, e a sua soberania é o bastião inexpugnável para a emancipação de
todos os povos latino-americanos e caribenhos.
Portanto,
a luta anti-imperialista é a tarefa mais urgente e inescapável do presente. Ela
se concretiza no combate diário pela reconquista e proteção do nosso
território, dos nossos recursos naturais, da nossa democracia e do direito
sagrado do povo brasileiro de trilhar seu próprio caminho. Perante a fúria
dominadora do imperialismo e a expansão de suas garras militares no continente,
a soberania nacional ergue-se como o centro gravitacional da batalha histórica
contemporânea. A vitória de um Brasil independente e protagonista da integração
continental e do mundo multipolar é a tradução mais pura do espírito do nosso
tempo: a libertação definitiva dos povos e a ruína da hegemonia imperial.
¨
A guerra do segundo turno. Por Emir Sader
A mais
longa campanha eleitoral que o Brasil já teve se aproxima do seu final. Esta
parte final da campanha se projeta como uma verdadeira guerra, em que cada um
usa suas armas.
Lula
concentra suas atividades na campanha de massas mais ampla que ele já fez no
Brasil. Por todas as regiões, sempre com caminhadas de rua, com concentrações
populares, com discursos vibrantes.
Os
programas políticos do PT têm uma parte dedicada aos projetos de Lula. Em outra
parte, o partido se vê obrigado a dedicar-se ao desmentido da quantidade de
fake news divulgadas pela campanha de Bolsonaro. As intervenções de Lula são o
ponto alto da programação. Cenas das concentrações ao longo de todo o país
percorrem todo o programa.
Lula
luta pela politização da campanha. Daí seu diagnóstico das razões das crises
enfrentadas pelo Brasil, seguida de como seu governo as enfrentou e de como ele
pretende continuar a governar o Brasil.
Bolsonaro,
por seu lado, desenvolve uma estratégia completamente diferente. Ele se dá
conta de que a comparação entre os dois governos lhe é completamente
desfavorável. Que, ao mesmo tempo, a opinião pública — em que a mídia tem um
papel importante — rejeita seu estilo de governo.
Essa é
a estratégia do discurso sumamente agressivo do próprio Bolsonaro, sua
orientação geral. Seu objetivo é o da criminalização do PT, incitando o ódio
contra os petistas, que já teve como saldo a morte de cerca de 10 militantes do
PT.
O outro
elemento são as acusações, totalmente baseadas em fake news, contra Lula e o
PT, que contam com a lentidão — quando atua — e a conivência — quando não faz
nada — do Judiciário. Bolsonaro constrói um falso adversário, uma síntese dos
piores valores, na sua opinião: contra a família, a favor do aborto, entre
outros temas afins.
Bolsonaro
busca convocar os piores sentimentos da população, atacando as mulheres e suas
conquistas, os negros, os pobres, os nordestinos, os meios de comunicação, os
movimentos sociais, os organismos internacionais.
Esses
métodos, especialmente as fake news contra Lula e o PT, contando com o silêncio
do Judiciário, buscam aumentar o nível de rejeição de Lula e diminuir o de
Bolsonaro e do seu governo. O que coloca para o PT o dilema de como reagir a
esses métodos e seus efeitos.
Há quem
proponha que o PT utilize os mesmos métodos do bolsonarismo, incluindo fake
news na direção contrária. Alegam a famosa utilização da mamadeira de piroca
nas eleições de 2018, que terminou tendo um peso importante na vitória de
Bolsonaro.
O que
provocou a reação oposta, de quem rejeita frontalmente o uso dos mesmos métodos
dos bolsonaristas. Propõe-se o uso dos robôs, mas para divulgar as verdades do
PT e inclusive — o que já está sendo feito — no ataque a Bolsonaro, a partir
das brutais declarações que tem feito ao longo do tempo e do seu desastroso
governo.
O
favoritismo é de Lula, o que faz com que o filho de Bolsonaro intensifique os
ataques e as fake news, como sua última possibilidade de reverter o resultado
das eleições.
Caso
Lula realmente ganhe, será o primeiro presidente a ser eleito para quatro
mandatos no Brasil. O pouco tempo para a definição do próximo presidente do
Brasil — a decisão eleitoral mais importante da história do país — será de
tensão e ansiedade, entre as novas pesquisas, as manifestações populares, os
debates entre eles e as declarações dos candidatos.
Em um
único dia, Lula fez concentração e caminhada na favela do Alemão, na zona norte
do Rio de Janeiro. Discursou em vários momentos, abraçou as pessoas, pulou no
carro de som como se fosse um menino, ele que na verdade tem 80 anos.
No
mesmo dia, Lula foi a Salvador, a cidade mais lulista do Brasil, fazer a mais
espetacular caminhada com o povo, com um dos seus discursos mais emocionantes.
Em seguida, ele seguiu para o Nordeste — Alagoas, Sergipe, Pernambuco —, região
onde ele tem apoio de mais de 70%, livrando uma vantagem enorme em relação a
Bolsonaro, que deve lhe garantir a vitória.
Nunca,
em um único dia, vamos decidir tanto. Será Civilização ou Barbárie. Entre o 13
e o 22, um mundo nos separa.
No fim
deste mês seremos felizes ou infelizes, livres ou escravos, democráticos ou
autoritários. Nem tudo estará resolvido, se ganharmos. Mas teremos evitado o
pior, o maior retrocesso da nossa história, das nossas vidas.
Agora é
deixar tudo de lado e ganhar votos para a democracia, para derrotar o
obscurantismo, a alienação, o fanatismo, a extrema-direita.
Vivemos
os dias mais importantes das nossas vidas, em que tudo o que conquistamos está
em jogo. Vale tudo para derrotarmos a barbárie e resgatarmos a civilização.
¨
O que pode ser feito em uma semana. Por Moisés Mendes
O povo
retornou às ruas e o governo aprovou o fim da escala 6X1 e voltou a renegociar
as dívidas dos pobres e da classe média. Descobrimos que Flávio Bolsonaro era
usuário preferencial, como sócio cotista, de um avião de Vorcaro. E a Polícia
Federal continua prendendo gente da extrema direita.
Nesse
ambiente, as pesquisas nos dizem que a situação se alterou um pouco em favor de
Lula, como informou o Datafolha desta quinta-feira, com Flávio ainda à frente,
com 51%, e Lula agora com 49%% dos votos válidos. Os mesmos números da pesquisa
Quaest.
As duas
amostras indicam que é possível virar, considerando-se que, em relação à
pesquisa da semana passada do Datafolha (52% a 48%), Lula reduziu a diferença
em dois pontos. Parece muito e ao mesmo tempo não parece tanto, diante das
expectativas criadas nos últimos dias.
Os
menos otimistas se perguntam: se as pautas positivas pró-Lula e os episódios
negativos contra Flávio, que se repetem diariamente, não provocam grandes
mudanças, o que poderia alterar esse cenário em pouco mais de uma semana até a
eleição?
O que
teremos nos próximos dias? O debate na Bandeirantes e a manifestação do
bolsonarismo na Paulista no domingo e certamente mais revelações sobre as
mulheres que Vorcaro contratava para conquistar aliados. Se tivermos novas
informações de que Flávio seria sócio de Trump em um resort de Miami, mudaria o
quê?
O
otimismo militante fala de virada, porque uma eleição vive disso, e as
esquerdas precisam sobreviver também de gestos heroicos. Se Lula foi cassado e
encarcerado por 580 dias, se saiu da prisão para vencer Bolsonaro, se os
golpistas foram condenados e presos, por que agora o roteiro seria diferente,
se o mocinho é Lula?
Só
Lula, por seu histórico, poderia produzir o milagre de uma virada inédita,
nessas circunstâncias, mas é preciso ajudá-lo, porque André Janones não pode
tudo sozinho. Os jovens voltaram à ativa, os velhinhos prometem ir votar, o
bolsonarismo não sai de casa e a Polícia Federal pode produzir ações de impacto
nos próximos dias.
Tudo
isso em uma semana a contar do sábado. Nós sabemos o que é possível fazer em
uma semana em Roma, no deserto do Atacama ou na Patagônia. Mas o que podemos
fazer em uma semana no Brasil para impedir que a extrema direita retorne ao
poder, com armas, métodos e ódios amplificados?
Fazer
militância nas ruas e nas redes, e cada vez mais nas redes. Lula, a democracia
e todos nós dependemos de um ativismo que não se viu no primeiro turno e que se
reapresenta depois de tanto tempo, desde a semana passada, como certeza da
possibilidade de virada.
Uma
semana é um tempo bíblico, desde a criação do mundo. É o que teremos para fazer
o que pode ser feito para a virada. Não é um desafio para quem tem apenas fé,
mas capacidade de luta em todas as frentes. Uma semana é o que nos resta.
Fonte:
Brasil 247

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