sábado, 17 de outubro de 2026

José Reinaldo Carvalho: Somente a reeleição de Lula garante o Brasil soberano e altivo

É preciso dizer com todas as letras e sem qualquer meia-palavra: a reeleição do presidente Lula é uma questão de salvação nacional.

Uma eventual vitória da extrema-direita pró-imperialista, personificada em Flávio Bolsonaro em 25 de outubro, desferiria um golpe letal na soberania do Brasil, com desdobramentos devastadores para toda a América Latina e o Caribe. O alinhamento subserviente anunciado pelo candidato do PL aos Estados Unidos é a renúncia deliberada e indecorosa à autonomia indispensável para resguardar as riquezas e os interesses do povo brasileiro. A oferta escandalosa de colocar sua própria equipe de transição à disposição direta de Washington constitui o sinal mais eloquente e vergonhoso desse projeto de vassalagem.

Na carta enviada ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Flávio Bolsonaro explicitou a barganha no bojo das negociações de um acordo bilateral de comércio e investimentos. O senador escreveu, sem qualquer pudor patriótico, estar pronto para colocar a equipe “imediatamente à sua disposição”. A roupagem comercial jamais apagará a gravidade política inédita dessa atitude: a transição presidencial do Brasil deve render contas unicamente ao povo brasileiro e às suas instituições soberanas. Entregá-la de bandeja a uma potência estrangeira revela uma concepção de poder indigna, mesquinha e absolutamente incompatível com a independência de uma nação livre.

Essa prontidão serviçal de Flávio Bolsonaro se encaixa com perfeição na sanha tutelar de Rubio sobre o nosso continente. Em audiência no Senado estadunidense, em 2 de junho, o secretário rotulou o Brasil como uma incômoda exceção em um hemisfério que Washington quer ver totalmente dobrado aos seus ditames, fazendo referência explícita ao nosso ciclo eleitoral. Ao arvorar-se no direito de dividir governos entre “amigos” e “hostis” aos interesses norte-americanos, Rubio escancarou a lógica imperialista: para a Casa Branca, a autodeterminação dos povos latino-americanos é encarada como um “problema” a ser suprimido.

O sentido político dessa ofensiva é cristalino. Um Brasil altivo, que dialoga de cabeça erguida com múltiplos polos de poder, negocia sem aceitar sujeição ou exclusividades e sustenta posições firmes e independentes no cenário internacional causa profundo incômodo aos guardiões da hegemonia estadunidense. A alusão de Rubio às eleições brasileiras deixa evidente a aposta da potência imperialista: a expectativa de que uma virada de governo dissipe a altiva resistência do Brasil e escancare as portas para o alinhamento cego pretendido por Washington.

A promessa de adesão ao chamado “Escudo das Américas” dá a face militar e operacional a essa rendição. Flávio Bolsonaro já declarou publicamente a intenção de atrelar o Brasil à coalizão liderada por Donald Trump. Anunciou também que proporá alterações legais para carimbar organizações criminosas brasileiras como grupos “terroristas internacionais”, subordinando-se à chancela unilateral de Trump. Trata-se de uma capitulação na política externa e de defesa que ameaça diretamente o comando e a jurisdição do Estado brasileiro sobre o seu próprio território.

É óbvio que o combate às facções criminosas é um dever constitucional indeclinável do Estado. Todavia, isso exige inteligência de ponta, asfixia financeira do crime organizado, rigoroso controle de armas e cooperação técnica — jamais a cessão da nossa soberania. Instrumentalizar esse desafio interno para converter o Brasil em praça de armas de uma estratégia militar ditada por uma potência estrangeira cruza uma linha vermelha inaceitável: a internacionalização e a entrega do controle das nossas forças e da nossa segurança nacional a decisões tomadas fora do país.

Esse enquadramento de facções como entidades terroristas guarda armadilhas letais. O Itamaraty alertou para o risco real de Washington converter essa rotulagem em pretexto para incursões militares e intervenções em solo brasileiro. Uma designação unilateral norte-americana não possui validade jurídica internacional para violar territórios alheios; contudo, o perigo reside na construção de uma narrativa político-militar agressiva para emparedar governos, atropelar fronteiras e violar a soberania dos países da região.

A trágica experiência da América Latina demonstra que esse perigo não é uma mera abstração teórica. Em março, Estados Unidos e Equador anunciaram operações militares conjuntas sob o pretexto de combater o “terrorismo”. Em setembro, a chancelaria equatoriana confirmou a integração irrestrita ao Escudo das Américas, entrelaçando inteligência, capacidade operacional e coordenação política com Washington. A pretexto do combate ao narcotráfico, a presença militar estadunidense ganha contornos concretos de ocupação estratégica.

Com o vizinho Paraguai foi firmado um acordo que praticamente transforma o país Guarani em uma base militar estadunidense na América do Sul. 

A ostensiva visita do comandante do Comando Sul dos EUA, general Francis L. Donovan, à cidade de Iquitos, na Amazônia peruana, realizada nos últimos dias, escancara essa engrenagem. Encontrando-se com a cúpula militar do Peru, o general norte-americano manteve conversações sobre a realização de operações militares contra grupos rotulados como narcoterroristas e sobre o pertencimento do país andino no Escudo das Américas. A presença militar norte-americana nas barbas da Amazônia é um sinal de alerta estrondoso para a defesa nacional e para o equilíbrio regional.

Essa marcha de cooptação utiliza múltiplos braços. Na Argentina, o governo anunciou em junho acordos com Washington que incluem suporte logístico, reabastecimento recíproco em operações militares e acesso a tecnologias de defesa dos EUA. 

Na Colômbia, a cooperação militar com os EUA avançou para patamares ainda mais gravosos de operações conjuntas sob a bandeira do Escudo das Américas, consolidando a integração de inteligência e logística nas faixas de fronteira.

Tudo isso constitui uma teia bem articulada que busca submeter as estruturas estratégicas dos países latino-americanos às diretrizes do Pentágono. Vê-se, em pleno curso, uma perigosa militarização da região, sob a hegemonia estadunidense.

É justamente essa escalada que torna criminosa e inadmissível a simples hipótese de capitulação do Brasil. Pela dimensão gigantesca de sua economia, pela extensão de seu território e por suas fronteiras estratégicas, o Brasil é o escudo e o fiador da independência da nossa região. Sua submissão a uma coalizão sob comando norte-americano esmagaria a autonomia de toda a América Latina e do Caribe, deixando os países vizinhos expostos a um ambiente ainda mais brutal de ingerência e chantagem hegemonista.

O biombo da “proteção continental” não passa da roupagem atualizada da nefasta Doutrina Monroe, que insiste em tratar a nossa região como o “quintal” e área de influência exclusiva do império. Sob uma perspectiva anti-imperialista consequente, a questão de fundo é o poder inalienável de decidir: quem define nossas ameaças, quem maneja as inteligências, quem dita os limites da atuação militar em nosso solo? Quando a caneta e o comando do destino nacional são transferidos para fora, a dita “cooperação” nada mais é do que dependência colonialista.

A antítese dessa vergonha é a política externa altiva, soberana e destemida conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O pilar inabalável dessa orientação reside no artigo 4º da Carta Magna de 1988: independência nacional, autodeterminação dos povos, não intervenção, igualdade soberana entre os Estados, defesa intransigente da paz e solução pacífica dos conflitos. Mais do que imperativo legal, a Constituição manda o Brasil perseguir a integração profunda dos povos da América Latina. São esses princípios que nos armam ideologicamente para repelir a tutela estrangeira e edificar uma segurança autêntica fundada na solidariedade entre nações livres.

O engajamento vibrante de Lula com o multilateralismo, o protagonismo inconteste do Brasil no Sul Global e o fortalecimento ousado do BRICS são os pilares de um país que se recusa a se curvar. À frente da presidência do BRICS em 2025, o Brasil colocou a cooperação soberana e o desenvolvimento dos povos como prioridades absolutas. É essa coragem diplomática que amplia a voz do Brasil e constrói, na prática, uma ordem multipolar justa.

Defender a continuidade do governo Lula é defender a liberdade suprema do Brasil de dialogar e pactuar com quaisquer países e com todos os povos do mundo a partir dos nossos interesses nacionais, e não sob ordens de impérios. É exigir com altivez a reforma das instituições internacionais, a voz ativa dos países em desenvolvimento e o combate aos grandes dilemas da humanidade sem pedir licença às potências coloniais. O Brasil de Lula é o motor dessa transformação libertadora, e a sua soberania é o bastião inexpugnável para a emancipação de todos os povos latino-americanos e caribenhos.

Portanto, a luta anti-imperialista é a tarefa mais urgente e inescapável do presente. Ela se concretiza no combate diário pela reconquista e proteção do nosso território, dos nossos recursos naturais, da nossa democracia e do direito sagrado do povo brasileiro de trilhar seu próprio caminho. Perante a fúria dominadora do imperialismo e a expansão de suas garras militares no continente, a soberania nacional ergue-se como o centro gravitacional da batalha histórica contemporânea. A vitória de um Brasil independente e protagonista da integração continental e do mundo multipolar é a tradução mais pura do espírito do nosso tempo: a libertação definitiva dos povos e a ruína da hegemonia imperial.

¨      A guerra do segundo turno. Por Emir Sader

A mais longa campanha eleitoral que o Brasil já teve se aproxima do seu final. Esta parte final da campanha se projeta como uma verdadeira guerra, em que cada um usa suas armas.

Lula concentra suas atividades na campanha de massas mais ampla que ele já fez no Brasil. Por todas as regiões, sempre com caminhadas de rua, com concentrações populares, com discursos vibrantes.

Os programas políticos do PT têm uma parte dedicada aos projetos de Lula. Em outra parte, o partido se vê obrigado a dedicar-se ao desmentido da quantidade de fake news divulgadas pela campanha de Bolsonaro. As intervenções de Lula são o ponto alto da programação. Cenas das concentrações ao longo de todo o país percorrem todo o programa.

Lula luta pela politização da campanha. Daí seu diagnóstico das razões das crises enfrentadas pelo Brasil, seguida de como seu governo as enfrentou e de como ele pretende continuar a governar o Brasil.

Bolsonaro, por seu lado, desenvolve uma estratégia completamente diferente. Ele se dá conta de que a comparação entre os dois governos lhe é completamente desfavorável. Que, ao mesmo tempo, a opinião pública — em que a mídia tem um papel importante — rejeita seu estilo de governo.

Essa é a estratégia do discurso sumamente agressivo do próprio Bolsonaro, sua orientação geral. Seu objetivo é o da criminalização do PT, incitando o ódio contra os petistas, que já teve como saldo a morte de cerca de 10 militantes do PT.

O outro elemento são as acusações, totalmente baseadas em fake news, contra Lula e o PT, que contam com a lentidão — quando atua — e a conivência — quando não faz nada — do Judiciário. Bolsonaro constrói um falso adversário, uma síntese dos piores valores, na sua opinião: contra a família, a favor do aborto, entre outros temas afins.

Bolsonaro busca convocar os piores sentimentos da população, atacando as mulheres e suas conquistas, os negros, os pobres, os nordestinos, os meios de comunicação, os movimentos sociais, os organismos internacionais.

Esses métodos, especialmente as fake news contra Lula e o PT, contando com o silêncio do Judiciário, buscam aumentar o nível de rejeição de Lula e diminuir o de Bolsonaro e do seu governo. O que coloca para o PT o dilema de como reagir a esses métodos e seus efeitos.

Há quem proponha que o PT utilize os mesmos métodos do bolsonarismo, incluindo fake news na direção contrária. Alegam a famosa utilização da mamadeira de piroca nas eleições de 2018, que terminou tendo um peso importante na vitória de Bolsonaro.

O que provocou a reação oposta, de quem rejeita frontalmente o uso dos mesmos métodos dos bolsonaristas. Propõe-se o uso dos robôs, mas para divulgar as verdades do PT e inclusive — o que já está sendo feito — no ataque a Bolsonaro, a partir das brutais declarações que tem feito ao longo do tempo e do seu desastroso governo.

O favoritismo é de Lula, o que faz com que o filho de Bolsonaro intensifique os ataques e as fake news, como sua última possibilidade de reverter o resultado das eleições.

Caso Lula realmente ganhe, será o primeiro presidente a ser eleito para quatro mandatos no Brasil. O pouco tempo para a definição do próximo presidente do Brasil — a decisão eleitoral mais importante da história do país — será de tensão e ansiedade, entre as novas pesquisas, as manifestações populares, os debates entre eles e as declarações dos candidatos.

Em um único dia, Lula fez concentração e caminhada na favela do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Discursou em vários momentos, abraçou as pessoas, pulou no carro de som como se fosse um menino, ele que na verdade tem 80 anos.

No mesmo dia, Lula foi a Salvador, a cidade mais lulista do Brasil, fazer a mais espetacular caminhada com o povo, com um dos seus discursos mais emocionantes. Em seguida, ele seguiu para o Nordeste — Alagoas, Sergipe, Pernambuco —, região onde ele tem apoio de mais de 70%, livrando uma vantagem enorme em relação a Bolsonaro, que deve lhe garantir a vitória.

Nunca, em um único dia, vamos decidir tanto. Será Civilização ou Barbárie. Entre o 13 e o 22, um mundo nos separa.

No fim deste mês seremos felizes ou infelizes, livres ou escravos, democráticos ou autoritários. Nem tudo estará resolvido, se ganharmos. Mas teremos evitado o pior, o maior retrocesso da nossa história, das nossas vidas.

Agora é deixar tudo de lado e ganhar votos para a democracia, para derrotar o obscurantismo, a alienação, o fanatismo, a extrema-direita.

Vivemos os dias mais importantes das nossas vidas, em que tudo o que conquistamos está em jogo. Vale tudo para derrotarmos a barbárie e resgatarmos a civilização.

¨      O que pode ser feito em uma semana. Por Moisés Mendes

O povo retornou às ruas e o governo aprovou o fim da escala 6X1 e voltou a renegociar as dívidas dos pobres e da classe média. Descobrimos que Flávio Bolsonaro era usuário preferencial, como sócio cotista, de um avião de Vorcaro. E a Polícia Federal continua prendendo gente da extrema direita. 

Nesse ambiente, as pesquisas nos dizem que a situação se alterou um pouco em favor de Lula, como informou o Datafolha desta quinta-feira, com Flávio ainda à frente, com 51%, e Lula agora com 49%% dos votos válidos. Os mesmos números da pesquisa Quaest. 

As duas amostras indicam que é possível virar, considerando-se que, em relação à pesquisa da semana passada do Datafolha (52% a 48%), Lula reduziu a diferença em dois pontos. Parece muito e ao mesmo tempo não parece tanto, diante das expectativas criadas nos últimos dias.

Os menos otimistas se perguntam: se as pautas positivas pró-Lula e os episódios negativos contra Flávio, que se repetem diariamente, não provocam grandes mudanças, o que poderia alterar esse cenário em pouco mais de uma semana até a eleição?

O que teremos nos próximos dias? O debate na Bandeirantes e a manifestação do bolsonarismo na Paulista no domingo e certamente mais revelações sobre as mulheres que Vorcaro contratava para conquistar aliados. Se tivermos novas informações de que Flávio seria sócio de Trump em um resort de Miami, mudaria o quê?

O otimismo militante fala de virada, porque uma eleição vive disso, e as esquerdas precisam sobreviver também de gestos heroicos. Se Lula foi cassado e encarcerado por 580 dias, se saiu da prisão para vencer Bolsonaro, se os golpistas foram condenados e presos, por que agora o roteiro seria diferente, se o mocinho é Lula?

Só Lula, por seu histórico, poderia produzir o milagre de uma virada inédita, nessas circunstâncias, mas é preciso ajudá-lo, porque André Janones não pode tudo sozinho. Os jovens voltaram à ativa, os velhinhos prometem ir votar, o bolsonarismo não sai de casa e a Polícia Federal pode produzir ações de impacto nos próximos dias.

Tudo isso em uma semana a contar do sábado. Nós sabemos o que é possível fazer em uma semana em Roma, no deserto do Atacama ou na Patagônia. Mas o que podemos fazer em uma semana no Brasil para impedir que a extrema direita retorne ao poder, com armas, métodos e ódios amplificados? 

Fazer militância nas ruas e nas redes, e cada vez mais nas redes. Lula, a democracia e todos nós dependemos de um ativismo que não se viu no primeiro turno e que se reapresenta depois de tanto tempo, desde a semana passada, como certeza da possibilidade de virada.

Uma semana é um tempo bíblico, desde a criação do mundo. É o que teremos para fazer o que pode ser feito para a virada. Não é um desafio para quem tem apenas fé, mas capacidade de luta em todas as frentes. Uma semana é o que nos resta.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: