quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Paulo Kliass: A arrancada final de Lula

Ao longo dos últimos dias, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva parece ter dado um chega para lá em seu heterônimo — o presidente Lula. Tendo em vista as dificuldades enfrentadas pela campanha, que está empenhada pela reeleição, em diminuir as taxas de desaprovação do atual ocupante do Palácio do Planalto, Lula parece ter decidido partir para o ataque. Tudo se passa como se ele — finalmente! — tivesse dado ouvidos aos economistas progressistas e desenvolvimentistas que, desde o início do terceiro mandato, alertávamos para os riscos envolvidos na adoção do Teto de Gastos do Haddad, o chamado Novo Arcabouço Fiscal (NAF).

O governo ficou praticamente parado nas questões essenciais durante quatro anos, enrolando a agenda do povo, segurando a colocação em marcha de programas de políticas públicas mais voltados para o social — sempre com a desculpa esfarrapada do “não temos recursos”. Assim, a combinação perversa da manutenção de uma taxa de juros nas estratosferas com uma obediência cega a uma austeridade fiscal burra e obtusa deu no que deu. As pesquisas de opinião insistem em mostrar um governo que não estava conseguindo convencer a população de que ele merece sua confiança para ficar mais quatro anos à frente do comando do Brasil.

Lula se deu conta de que apenas reprisar o discurso oficial de que o PIB cresceu um pouquinho em 2025 e de que o desemprego está em suas menores taxas da série histórica não está sendo suficiente para assegurar um passeio nas eleições, tal como lhe confiavam os assessores puxa-sacos de sempre. Não! A realidade é muito mais complexa do que imaginam os cabeças de planilha da tecnocracia simpática ao financismo neoliberal. Isso porque o fato concreto é que a vida do povo não melhorou o quanto afirmavam os modelitos econométricos. Afinal, como dizia a saudosa professora Maria da Conceição Tavares, o povo não come PIB. A população precisa de alimentos, cujos preços têm subido sistematicamente mais do que o salário-mínimo e a remuneração média dos assalariados e demais trabalhadores.

<><> As medidas anunciadas pautam debate e encurralam Bolsonarinho

Mas, felizmente, Lula parece ter se convencido de que não deveria seguir a estratégia de jogar parado, como se a inércia e a passividade do candidato levassem tranquilamente a uma vitória no pleito. Ele já havia dado sinais de sua inquietação, quando afirmou em evento recente da campanha em Curitiba que o respeito à austeridade fiscal seria uma “babaquice”. Em seguida, Lula fez anúncios muito importantes para consolidar sua candidatura e atrair o voto dos indecisos. Em todos eles, o candidato teve de peitar o presidente e sua área econômica. Afinal, são medidas que incorporam uma elevação das despesas governamentais e a preocupação exclusiva com a geração de superávit fiscal primário vinham impedindo o terceiro mandato de anunciá-las desde 2023. Uma loucura!

Persuadido de que a conquista do quarto mandato passa por mudanças no rumo do governo e da campanha, ele anunciou um reajuste nos valores dos benefícios do Bolsa Família. Uma medida mais do que justa e que já chega com quase quatro anos de atraso. Ainda que não tenha incorporado a totalidade da inflação verificada entre 2022 e o momento atual, o dado relevante é que ela repõe minimamente o poder de compra dos antigos R$ 600 para os atuais R$ 691. Ou seja, uma orientação singela de reposição de valores de benefício para os mais pobres e miseráveis só foi implementada agora por receio de perder as eleições.

Por outro lado, Lula anunciou a incorporação das chamadas “canetas emagrecedoras” na lista de procedimentos a serem atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se igualmente de uma medida de saúde pública para atender a uma parcela expressiva da população que apresenta riscos de vida por conta de diabetes, obesidade e doenças correlatas. A ideia já vinha sendo discutida anteriormente pelos atores sociais envolvidos com as políticas de saúde, mas contava com os obstáculos de sempre, oriundos dos poderosos defensores do austericídio a todo custo. Finalmente, venceu a sensibilidade política de Lula para que a medida virasse decisão de governo.

<><> Bolsa Família, canetas emagrecedoras, taxa das blusinhas e fim das bets

Processo semelhante ocorreu com a conhecida “taxa das blusinhas”. O governo conheceu um verdadeiro cipoal de decisões a esse respeito, com idas e vindas ao longo dos últimos anos. As polêmicas relativas à justiça de assegurar a isenção nas importações de compras de importados até 50 dólares norte-americanos criavam um ambiente de incerteza e de descontentamento de setores variados, a exemplo dos potenciais consumidores de baixa renda e das empresas do comércio e do setor produtivo nacional. Ao fim e ao cabo, Lula percebeu que a falta de tratamento isonômico entre os mais pobres e as classes mais abastadas terminava por contaminar a popularidade de seu governo.

No caso da proibição das apostas esportivas, as bets, o candidato também convenceu o presidente da necessidade de um anúncio para atender às demandas de amplos setores da sociedade. Os dramas que invadiram nos últimos tempos a grande maioria das famílias brasileiras exigiam uma atitude forte e corajosa. Depois de passar muito tempo contemporizando com a postura dos setores da área econômica, que só viam o tilintar das caixas do Tesouro Nacional com o potencial de arrecadação tributária da atividade, Lula tomou a decisão correta. Ao apontar para o problema central de saúde pública e da tragédia do endividamento das pessoas e das famílias, ele optou pela proibição. Ou seja, um recado claro de que é a sociedade que deve buscar outras formas de se organizar para viabilizar atividades como clubes de futebol, propaganda em meios de comunicação e outros. Afinal, tudo isso já existia antes da chegada dessa verdadeira epidemia portadora de desgraças.

Todas estas medidas, ainda que apresentadas a poucos dias do primeiro turno, têm trazido resultados bastante positivos em termos de aprovação do governo e das intenções de voto no candidato à reeleição. Mas a situação da tendência do eleitorado ainda é bastante incerta e Lula não deveria se acomodar apenas com estas novidades anunciadas recentemente. Existem outras propostas que ele poderia utilizar com o intuito de consolidar justiça social e angariar apoio dos indecisos. Umas delas seria a recuperação de uma ideia lançada por ele mesmo no início do ano e que pode se transformar em uma grande inovação no sistema de transporte público no Brasil. Trata-se da implantação do modelo de “tarifa zero”, tal como já existente em alguns municípios. Em agosto do ano passado, Lula solicitou estudos a esse respeito para sua equipe, já pensando na ideia de adotá-la para seu governo. Ao que tudo indica, ele teria abandonado a ideia depois que algumas estimativas de custos apontavam para algo entre R$ 90 e 100 bilhões anuais. Como era de se esperar, a turma da austeridade fiscal recomendou que o tema não fosse incorporado ao programa de governo.

<><> Ainda faltam: Tarifa Zero e salário-mínimo

Ora, esse seria o momento mais do que adequado para Lula lançar outra ponte em direção aos setores da base da nossa pirâmide da desigualdade. Trata-se de um programa extremamente popular e de ampla aceitação. Ao contrário dos catastrofistas do financismo, de plantão, os recursos existem. Basta acionar a vontade política de colocar em marcha a iniciativa. Por exemplo, ninguém nos grandes meios de comunicação ou na Faria Lima se manifesta a respeito da maior gastança orçamentária de nosso país: R$ 1,2 trilhão de despesas com pagamento de juros da dívida pública. Ora, um programa como Tarifa Zero não custaria nem 10% desse gasto absolutamente regressivo e parasita.

Outra medida que Lula deveria anunciar refere-se a outro importante item da política de distribuição de renda. Trata-se do reajuste do salário-mínimo. O governo enviou recentemente ao Congresso Nacional o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) e o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2027. Dentre outras aberrações orientadas pela obediência à austeridade fiscal, os textos anunciam o valor do salário-mínimo para o ano que vem no valor de R$ 1.741. Assim, a nova remuneração significa um aumento nominal de apenas 7,4%. Ou seja, o índice foi limitado pelo ganho real de somente 2,5% acima da inflação, em razão do dispositivo do NAF. Além disso, seria recomendável também um gesto de prudência, com outra emenda propondo a transformação da meta de superávit primário de 0,5% do PIB em um déficit primário de igual valor. Essa orientação ofereceria maior flexibilidade na condução da política fiscal no próximo ano.

O duplo de candidato e presidente deveria anunciar a disposição de repor as perdas ocorridas no salário-mínimo no período de 2017 a 2022. Isso porque, entre Temer e Bolsonaro, foi abandonada a sistemática anterior de adicionar à inflação o crescimento do PIB para reajustar o valor do mínimo da remuneração de trabalhadores, aposentados e pensionistas. Caso seja considerado esse período de 6 anos, o salário-mínimo deveria ter recebido um reajuste de 10%. A ideia seria que Lula orientasse sua equipe econômica a encaminhar uma emenda ao PLDO e ao PLOA incorporando 2,5% ao valor para o ano que vem e anunciando mais 2,5% para cada exercício do seu último triênio à frente da Presidência da República.

Enfim, as pesquisas parecem estar evidenciando que estamos passando por uma virada nas intenções do eleitorado. Com toda a certeza, esse movimento tem relação direta com as medidas anunciadas. No entanto, a disputa ainda está acirradíssima, em que cada voto conta para impedir a chegada da extrema-direita ao governo. Se é verdade que o nosso campo apresenta uma tradição de “campanhas de chegada”, o fato é que o candidato precisa oferecer mais material para empolgar a militância e para ampliar a votação entre os indecisos. Tarifa Zero e salário-mínimo podem se converter naquilo que tanto necessitamos no momento. Quer seja ainda às vésperas do primeiro turno, quer seja no intervalo até dia 25 de outubro.

¨      Desenvolvimento que chega à vida das pessoas. Por Francis Bogossian e Catarina Luiza de Araújo

O desenvolvimento de um país não pode ser medido apenas pelo crescimento da economia, pela expansão da infraestrutura ou pelos avanços tecnológicos. Ele se torna efetivo quando chega à vida das pessoas, melhora suas condições de existência, reduz desigualdades, amplia oportunidades e garante direitos.

Nas últimas décadas, o Brasil construiu políticas públicas que buscaram aproximar crescimento econômico e inclusão social. O Bolsa Família, por exemplo, integra transferência de renda a ações de saúde, educação e assistência social, formando uma rede de proteção direcionada a famílias em situação de pobreza.

Esse movimento também chegou a áreas essenciais do cotidiano. Na saúde, o Farmácia Popular ampliou o acesso a medicamentos. Na habitação, o Minha Casa, Minha Vida criou diferentes formas de atendimento para facilitar o acesso à moradia. Na educação, a expansão e interiorização da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica ampliou a presença da formação técnica em várias regiões do país.

Mais do que iniciativas isoladas, essas políticas mostram como renda, educação, saúde, moradia e trabalho se relacionam. Quando esses campos avançam de forma articulada, os resultados deixam de ser apenas números e passam a ser percebidos na vida concreta, nas oportunidades que surgem e nas perspectivas que se abrem.

Essa discussão também está ligada à soberania. Um país soberano não é apenas aquele que protege seu território e seus recursos naturais. É também aquele que tem condições de definir seus próprios rumos, produzir conhecimento, fortalecer suas instituições e participar ativamente das decisões internacionais.

Essa presença do Brasil no cenário mundial também merece atenção. Na presidência do G20 em 2024, o país priorizou temas como combate à fome, à pobreza e à desigualdade, desenvolvimento sustentável e reforma da governança global. Em 2025, assumiu a presidência do BRICS, com agenda voltada à cooperação entre países do Sul Global e ao desenvolvimento social, econômico e ambiental. No mesmo ano, Belém sediou a COP30, inserindo novamente o Brasil no centro das negociações internacionais sobre clima, adaptação, financiamento, transição justa e tecnologia.

São dimensões distintas de uma mesma questão: a capacidade de um país de enfrentar suas desigualdades internas e, ao mesmo tempo, participar das decisões que moldam o mundo.

Nada disso está pronto ou concluído. Os avanços convivem com problemas que persistem e com novas demandas que surgem. Construir um país mais justo, inclusivo e soberano é um processo contínuo, feito de prioridades, correções e decisões que influenciam o presente e ajudam a moldar o futuro.

É importante lembrar que os direitos sociais incorporados à vida brasileira não surgiram espontaneamente nem foram simples concessões. São resultado de um longo processo histórico construído por gerações, pelas instituições democráticas, pela sociedade civil e por tantas pessoas que dedicaram parte de suas vidas à luta pela cidadania, pela liberdade, pela justiça social e pela democracia.

É por isso que o período eleitoral merece uma reflexão que ultrapasse as disputas circunstanciais. Vale considerar as políticas públicas adotadas, os efeitos que produziram na vida da população, os avanços alcançados, os desafios que ainda persistem e as propostas apresentadas para os próximos anos.

O voto é individual, mas seus efeitos são coletivos. As decisões tomadas nas urnas repercutem nas prioridades e nos caminhos que atingem toda a sociedade. Olhar além da campanha, conhecer trajetórias, compreender propostas, observar realizações e acompanhar políticas públicas ajuda a perceber o alcance desse gesto democrático.

Mais do que acompanhar uma eleição, trata-se de compreender o que está em jogo para o país e participar, de forma responsável, da definição de seus rumos.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

A burguesia que desistiu de produzir o futuro

Na primeira matéria desta série, analisei o paradoxo da eleição de 2026: parcelas do empresariado temem um quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, embora seus governos tenham sido lucrativos para bancos, indústria e agronegócio, mas aceitam Flávio Bolsonaro apesar dos riscos que ele representa para a democracia, a soberania e a legalidade.

A primeira matéria mostrou que o antipetismo possui uma história social: a origem operária e pobre de Lula foi utilizada para apresentá-lo como despreparado e perigoso, e o discurso anticorrupção conferiu linguagem moral a essa rejeição.

Mas a explicação não se encontra apenas no antipetismo. Nas últimas décadas, o país perdeu densidade industrial, tornou-se mais dependente da exportação de produtos primários e ofereceu aos grandes proprietários ganhos financeiros e patrimoniais frequentemente mais atraentes do que produzir, inovar e disputar mercados internacionais.

Formou-se uma fração dominante do empresariado que não precisa de um projeto nacional de desenvolvimento. Ela pode lucrar exportando soja, minério, petróleo, carne e celulose; recebendo juros; controlando concessões; adquirindo ativos públicos; operando mercados protegidos ou importando a tecnologia que não desenvolveu.

Para esse empresariado, democracia, soberania e desenvolvimento tecnológico podem tornar-se questões secundárias. O essencial é preservar as condições de acumulação.

<><> Um país novamente dependente de produtos primários

Os números mostram a dimensão da mudança. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD, as commodities representavam 66,7% das exportações brasileiras entre 2012 e 2014. Entre 2021 e 2023, passaram a representar 75,3%.

No mesmo período, a participação da indústria no emprego caiu de 24% para 21%, enquanto a renda proveniente de recursos naturais aumentou. Pelos critérios da própria UNCTAD, uma economia torna-se dependente de commodities quando esses produtos superam 60% das exportações. O Brasil está muito acima desse limite.

Essa inserção gera dólares, superávits e lucros. Agronegócio, mineração e petróleo possuem empresas modernas e produtivas. O problema não está em exportar commodities, mas em não utilizar essa riqueza para diversificar a economia e dominar novas tecnologias.

O Brasil vende recursos naturais e compra máquinas, componentes, medicamentos, semicondutores, equipamentos digitais e outros bens intensivos em conhecimento. Em suas relações com os demais Brics, está entre os países que exportam majoritariamente produtos primários e importam bens industrializados de maior complexidade.

É uma inserção confortável para os exportadores, mas insuficiente para um país que precisa gerar empregos qualificados e garantir autonomia diante das grandes potências.

<><> Inovação no discurso, pouco investimento na prática

As entidades empresariais falam constantemente em inovação e competitividade. O investimento privado, porém, não acompanha o discurso.

Em 2022, o Brasil aplicou aproximadamente 1,19% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. O setor empresarial respondeu por apenas 0,63%. A média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico alcançou 2,7% do PIB em 2024.

Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação indicam que o investimento empresarial brasileiro em pesquisa e desenvolvimento cresceu somente cerca de 6% em termos reais entre 2014 e 2023. O próprio diagnóstico oficial é que o esforço público brasileiro se aproxima mais dos padrões internacionais do que o privado.

A Pesquisa de Inovação do IBGE mostra que as indústrias com cem ou mais empregados investiram apenas 0,70% de sua receita líquida em pesquisa e desenvolvimento em 2023. Das 9.821 empresas desse grupo, somente 3.367 realizaram dispêndios internos em pesquisa. Em 2024, a taxa de inovação caiu pelo terceiro ano consecutivo.

Há exceções importantes: Embraer, saúde, máquinas e equipamentos, petróleo em águas profundas, biocombustíveis e segmentos digitais. Mas esses setores não determinam a orientação do grande capital brasileiro.

O retrato geral é de investimento insuficiente e forte dependência do Estado. A Lei do Bem, uma renúncia fiscal, é o principal instrumento público de apoio à inovação utilizado pelas empresas. BNDES, Finep, universidades e institutos públicos assumem parcela significativa do risco tecnológico.

O empresariado cobra competitividade do país, mas reluta em financiar a produção do conhecimento que torna uma economia competitiva.

<><> Quando aplicar rende mais do que produzir

O baixo investimento não pode ser explicado apenas por uma suposta falta de espírito empreendedor. A estrutura econômica oferece alternativas mais simples e seguras.

Em um país marcado por juros reais elevados, grandes patrimônios podem obter retornos expressivos comprando títulos, aplicando em fundos e participando de negócios regulados. Empresas não financeiras também passaram a administrar seus recursos segundo uma lógica financeira, buscando remuneração de curto prazo em lugar de imobilizar capital em projetos industriais demorados e arriscados.

Estudos sobre companhias brasileiras de capital aberto identificam associação entre a financeirização e a redução do investimento produtivo. O empresário pode reclamar dos juros porque eles encarecem suas máquinas e, simultaneamente, ganhar com eles como proprietário de patrimônio financeiro.

Produzir um novo medicamento ou equipamento exige anos de pesquisa e possibilidade de fracasso. Comprar um ativo, explorar uma concessão ou receber juros oferece retorno mais previsível. A pergunta deixa de ser qual atividade ajudará o país a dominar o futuro e passa a ser onde o capital obterá maior remuneração no próximo balanço.

<><> O patrimônio construído pelo Estado

As privatizações oferecem outra via de acumulação. Empresas públicas não são apenas prédios, máquinas e ações. Elas concentram décadas de investimentos, quadros técnicos, patentes, informações estratégicas, reservas naturais, redes de fornecedores, capacidade de planejamento e posições consolidadas no mercado.

Quando são privatizadas, não se transfere apenas a gestão presente. Transfere-se ao comprador um patrimônio material e imaterial construído pela sociedade.

Nem toda estatal é eficiente e há privatizações com resultados positivos. Mas a experiência brasileira também registra aquisições financiadas por bancos públicos, ativos rapidamente valorizados e concessões nas quais o Estado continuou oferecendo crédito, garantias e infraestrutura.

O mercado não substituiu o Estado. Em muitos casos, apropriou-se dos ativos enquanto o poder público permaneceu responsável por parte dos riscos.

Para grupos acostumados a esse modelo, um governo que preserve empresas públicas, fortaleça bancos estatais e condicione concessões a objetivos nacionais pode ser visto como obstáculo. Um governo privatista, mesmo antidemocrático e subordinado a interesses estrangeiros, oferece oportunidades imediatas.

<><> Desenvolvimento exige distribuição e conflito

Um projeto desenvolvimentista requer investimento público e privado, ciência, educação, planejamento, empresas nacionais capazes de competir mundialmente e disposição para suportar riscos.

Também exige mercado interno. Trabalhadores mais qualificados e bem remunerados não são apenas custos: são consumidores, técnicos, pesquisadores e cidadãos. A redução extrema dos salários pode ampliar margens no curto prazo, mas limita a demanda, a produtividade e a capacidade tecnológica do país.

O desenvolvimento produz conflitos: quem financiará infraestrutura, pesquisa e educação; como serão divididos os ganhos de produtividade; e quais contrapartidas serão cobradas das empresas apoiadas pelo Estado?

É aí que Lula volta a aparecer como ameaça. Não porque pretenda expropriar empresas, mas porque representa, ainda que moderadamente, a possibilidade de vincular crescimento a emprego, salário, política social, conteúdo nacional e soberania.

Flávio oferece o caminho inverso. Seu programa pode combinar privatização, abertura de ativos ao capital estrangeiro, enfraquecimento do trabalho e alinhamento aos Estados Unidos. Para uma burguesia sem projeto nacional, o caráter antinacional dessa proposta não é uma contradição: é uma oportunidade de negócios.

<><> O futuro abandonado

Não se pode afirmar que toda a burguesia brasileira desistiu do desenvolvimento. Existem empresas inovadoras, industriais comprometidos com o país e setores interessados em ciência, tecnologia e qualificação profissional.

O problema é de hegemonia. As frações mais poderosas parecem se organizar cada vez menos em torno da construção de uma economia industrial e tecnologicamente soberana e cada vez mais em torno da exportação de recursos naturais, da renda financeira, da valorização patrimonial e do acesso privilegiado ao Estado.

Essa estrutura ajuda a compreender a escolha eleitoral. Quem não pretende produzir o futuro tem menos razões para defender um projeto nacional. Pode aceitar um governo autoritário, corrupto e subordinado, desde que ele proteja a propriedade, comprima o trabalho e abra novas oportunidades de apropriação privada.

¨      Quem destrói o país por dentro? Por Luís Delcides

Não é paranoia: é documento. Em 30 de julho de 2025, Donald Trump assinou a Ordem Executiva nº 14323 e declarou emergência nacional em relação ao Brasil, elevando tarifas em 40 pontos e sancionando o ministro Alexandre de Moraes. No ano seguinte, prorrogou a medida por mais doze meses.

Alguns meses depois, durante as negociações pós-tarifas, representantes do governo americano entregaram às autoridades brasileiras um documento com 21 demandas — entre elas, a exigência de que o Brasil permitisse a participação de “supostos dissidentes políticos” nas eleições de 2026. O documento circulou no Itamaraty e foi devolvido por ordem do ministro Mauro Vieira.

O que está em curso não é uma disputa eleitoral. É uma guerra híbrida.

<><> A arquitetura do soft power

Enquanto Washington pressiona por fora, uma rede transnacional opera por dentro. O Acton Institute e a Atlas Network não são clubes de debate. São máquinas de formação de lideranças, financiamento de think tanks e produção de consenso em torno de uma agenda que combina neoliberalismo e conservadorismo religioso. No Brasil, a Atlas Network possui parceiros como o Instituto Liberal, o Instituto Millenium, o Instituto Liberdade e o Students for Liberty. E o Acton financia essa engrenagem: a base de dados registra US$ 130 mil em doações da Atlas para o Acton entre 2010 e 2015.

O resultado é uma internacionalização silenciosa de quadros. O ministro do STF André Mendonça participou de ambientes ligados ao Acton Institute em 2020. Deltan Dallagnol esteve na Acton University em 2023, junto a uma comitiva de aproximadamente 60 brasileiros, incluindo nomes como Salim Mattar e Marcel van Hattem. Não é coincidência. É método. Think tanks, universidades, conferências e programas de formação de lideranças passaram a operar como vetores não estatais de influência, produzindo convergências ideológicas entre os EUA e grupos políticos brasileiros.

<><> As bets: o elo econômico da desestabilização

Enquanto isso, o endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,8% do rendimento anual, patamar próximo do recorde histórico. As bets são parte central desse colapso. Mais de 17 milhões de brasileiros movimentaram 17 bilhões de reais em plataformas de jogos, gerando um impacto de 103 bilhões de reais de retração no consumo do varejo e aumento da inadimplência em famílias de baixa renda. O custo social anual das apostas é estimado em R$ 38,8 bilhões — quase seis vezes o que o setor arrecada em impostos.

Mas o problema não é só o vício. É a arquitetura financeira. Em julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação “Maya’s Veil“, desmantelando uma rede de 87 empresas de fachada que usavam criptomoedas para canalizar ilegalmente lucros de apostas para fora do Brasil. Cinco dias antes, a Operação “Tratativa” desarticulou um esquema de lavagem de aproximadamente 2 bilhões de dólares ligado ao PCC, movimentando fundos entre a Flórida e o Brasil via criptomoedas. O Tesouro dos EUA reconheceu que um dos principais suspeitos ajudou a lavar mais de 30 milhões de dólares em ganhos ilegais.

E há mais: o PT solicitou ao STF a abertura de investigação sobre suposto financiamento americano à campanha de Flávio Bolsonaro, incluindo uma campanha de publicações pagas na rede X para inflar a percepção de favoritismo do candidato, utilizando as cotas da casa de apostas Polymarket — sem revelar a identidade dos financiadores. As bets não são apenas um problema social. São um instrumento de guerra financeira.

<><> O STF sob ataque e a mídia que finge não ver

A confiança no STF caiu de 48,5% para 27,8% em um ano. A desconfiança subiu de 51,3% para 61%. Os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, ambos indicados por Bolsonaro, lideram a escalada de imagem negativa. Não é acaso. É resultado de uma operação coordenada que combina vazamentos seletivos, financiamento de think tanks e uma mídia que amplifica o caos.

A Rede Globo é parte central dessa engrenagem. Em setembro de 2026, a GloboNews exibiu um “PowerPoint” associando Lula, o PT e Gabriel Galípolo ao caso Banco Master — sem qualquer relação com o escândalo. A emissora omitiu personagens notoriamente envolvidos, como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Roberto Campos Neto. O pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira classificou a prática como “desdemocratizadora” e contribuinte para a erosão da democracia, lembrando que historicamente a esquerda é o principal alvo dos ataques da mídia corporativa.

Não se trata de um erro. Trata-se de um método. A velha mídia não informa: ela direciona. E enquanto o povo sente o peso da dívida e da instabilidade, a narrativa dominante insiste em tratar a crise como disputa eleitoral, como se o problema fosse Lula contra Flávio Bolsonaro, e não o Brasil contra uma ofensiva transnacional.

<><> O que o presidente precisa dizer

O artigo original está certo: há momentos em que a dimensão jurídica já não dá conta sozinha. Processos podem apurar responsabilidades, mas não substituem o debate público. O que está em jogo ultrapassa a eleição. É a soberania.

O presidente Lula precisa falar diretamente ao povo. Não através de notas oficiais ou entrevistas coletivas. Precisa de uma comunicação de Estado que denuncie, com clareza, a existência de uma guerra híbrida: os think tanks financiados por dólares, as bets como lavanderia e instrumento de endividamento, os vazamentos seletivos, a mídia que distorce. O Brasil precisa saber o que está acontecendo.

A população está atenta. Endividada, sim. Insatisfeita, sim. Mas atenta. E talvez seja essa a maior ameaça para quem aposta na desinformação: um povo que, mesmo sufocado, começa a enxergar a engrenagem por trás do caos.

A pergunta não é mais se há ingerência externa. A pergunta é: o que o Estado brasileiro vai fazer com a verdade que já está documentada?

 

Fonte: Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247/Outras Palavras

 

Os séculos de uso político da imagem de Aparecida

O então príncipe regente do Brasil D. Pedro visitou o santuário que havia sido erguido em homenagem a "Mãe Aparecida" poucas semanas antes do brado da Independência. Na época, os feitos da imagem achada por pescadores no Rio Paraíba mais de um século antes se tornavam conhecidos em todo o país. Segundo a tradição registrada por biógrafos e fontes ligadas ao Santuário, o futuro imperador teria rezado diante da santa e prometido consagrar o Brasil a ela caso sua situação política se resolvesse favoravelmente.

A passagem de D. Pedro pela Capela da Mãe Aparecida, no local onde hoje está a Basílica Histórica, abre um dos primeiros relatos de uma figura pública recorrendo à santa como símbolo de unidade nacional. Ao longo dos dois séculos seguintes, Nossa Senhora Aparecida seria reivindicada por diferentes grupos políticos, chegando a ser tomada como padroeira da ditadura militar e, mais recentemente, entrando no centro da disputa eleitoral entre os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

<><> A construção de um símbolo nacional

Há duzentos anos, D. Pedro não cumpriu a promessa, já que pediu ao Vaticano que São Pedro de Alcântara fosse escolhido como padroeiro do Brasil após a independência. O pedido foi confirmado pelo papa Leão 12 em 1826.

Isso não diminuiu o peso de Aparecida, cuja devoção se manteve na família imperial. A princesa Isabel, filha de D. Pedro 2º e herdeira do trono brasileiro, esteve no santuário duas vezes. Na primeira, em 1868, foi acompanhada pelo marido, o Conde d'Eu, e ofereceu à imagem um manto adornado com 21 brilhantes. Em 1884, presenteou a santa com uma coroa de ouro de 24 quilates, com 300 gramas e cravejada de brilhantes.

Naquele momento, o Brasil se aproximava da proclamação da República e da instituição do Estado laico, em 1889. A mudança de regime fez a Igreja Católica perder a proteção que recebia do Estado imperial e passar a elaborar uma visão do Brasil a partir de uma perspectiva católica, afirma a historiadora Jessica Rabello em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF).

A Igreja entra na busca por símbolos nacionais associados à fé, e Aparecida aparece como um caminho posto. A santa acumulava forte devoção popular, estava localizada no eixo político entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e a imagem negra incorporava simbolicamente uma população que havia acabado de sair da escravidão. A coroação da imagem, em 1904, realizada um dia depois das comemorações do 7 de Setembro, foi um marco desse processo e abriu caminho para que a santa fosse proclamada padroeira do Brasil, em 1931.

Naquele ano, os católicos eram maioria no país e setores da Igreja criticavam o laicismo do Estado. Getúlio Vargas, que havia chegado ao poder em 1930 como chefe do Governo Provisório, viu na aproximação com a Igreja uma forma de fortalecer seu projeto político.

A confirmação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país ocorreu durante uma grande programação religiosa no Rio de Janeiro, que reuniu autoridades religiosas, políticos e militares. Na principal celebração, a imagem foi beijada pelo cardeal dom Sebastião Leme e, em seguida, por Vargas, segundo artigo do pesquisador e jornalista José Cordeiro.

A iconografia de Nossa Senhora Aparecida ganha especial apelo a partir de 1927, quando a revista da Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida passou a apresentar a imagem da santa em composições ao lado da igreja, do rio Paraíba ou do globo terrestre, afirma Cordeiro. Foi também nesse período que ela passou a receber elementos patrióticos, aproximando o manto da ideia de união cívica.

"Na década de 1950, surgem os símbolos nacionais como a bandeira, o brasão do estado de São Paulo ou a bandeira do Brasil e a bandeira do Vaticano, mesclados aos históricos bordados", escreve Cordeiro. 

<><> Da Era Vargas ao combate ao comunismo

Segundo o autor, em 1945, meses antes da eleição que encerraria o Estado Novo, a imagem deixou o santuário pela segunda vez, rumo à Sé de São Paulo. "A Estrela do Brasil para Salvar o Brasil, espetáculo cívico religioso" era o nome do evento. A vigília ocorreu pouco antes de uma mobilização em torno de Luís Carlos Prestes, líder comunista que concorria a um cargo político, e foi vista como uma vigília contra a volta do Partido Comunista Brasileiro (PCB) à legalidade.

A santa voltou a protagonizar momentos políticos em 1964. Segundo o historiador Mathews Nunes Mathias, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em artigo publicado na revista Estudos Históricos, da FGV, esquerda e direita disputaram o catolicismo na véspera do golpe militar, mas por caminhos diferentes.

O então presidente João Goulart chegou a "buscar abrigo nos mantos da padroeira" ao depositar nos pés da imagem um pedido pelas reformas de base, mas setores da esquerda faziam maior aposta na autoridade papal como forma de mobilização, explica Mathias.

Já grupos conservadores se apoiavam na devoção popular. O general Olympio Mourão Filho, que lideraria as tropas que partiram de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro, escreveu em seu diário, em 1962, que rezava em Aparecida pedindo forças para "salvar a Pátria", sob a liderança de "um Chefe graduado com 4 estrelas".

No Santuário Nacional de Aparecida, padres redentoristas também pregavam contra o comunismo, afirma Mathias. Em 29 de março de 1964, receberam na Basílica o então presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, que anunciou aos fiéis que Jango tinha os dias contados.

Depois da queda do presidente, a vitória "sem sangue" foi atribuída à santa. Em Juiz de Fora, de onde partiram as tropas de Mourão, ela foi alçada a "generalíssima do Exército". Sua imagem foi projetada no palanque da Marcha da Vitória, no Rio de Janeiro, e exibida ao lado do retrato de Castello Branco em Niterói, afirma o historiador.

Em 13 de maio daquele ano, cerca de 10 mil pessoas participaram da Marcha de Aparecida, que proclamou a santa "padroeira da revolução".

O presidente Humberto de Alencar Castelo Branco não esteve presente, mas a cerimônia reuniu o prefeito da cidade, um deputado federal e representantes militares. A memória da santa como "padroeira da revolução" justificou um pedido posterior do presidente para que a imagem deixasse o Santuário e percorresse diversos estados, em 1965, em uma peregrinação que celebrava a vitória sobre o comunismo.

Outros presidentes da ditadura também mantiveram proximidade com o Santuário. Em 1972, o Santuário transformou os festejos dos 150 anos da Independência em um "Ano Marial" alinhado ao governo Médici, seguindo apelo do próprio presidente, escrevem os historiadores Janaina Martins Cordeiro e Mathews Mathias em artigo na Revista Brasileira de História das Religiões. Uma procissão com a imagem após missa na Praça da Sé terminou aos gritos de "Viva Médici!". Pouco antes, o regime tinha inaugurado a Passarela da Fé, obra bancada com recursos federais. Em 1980, o também presidente da ditadura João Figueiredo sancionou a lei que fez do 12 de outubro feriado nacional.

<><> Aparecida nas disputas religiosas e eleitorais

A imagem de Nossa Senhora Aparecida voltou ao centro das disputas religiosas e políticas em 1995. Em 12 de outubro, durante um programa religioso transmitido pela Record, o então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio Von Helde, atacou com chutes e socos uma réplica da santa, além de ridicularizar seu uso como objeto de fé.

A partir desse episódio, a oposição à figura de Nossa Senhora Aparecida como padroeira também ganhou espaço em determinados setores evangélicos, com diferentes justificativas.

Em 2007, um projeto de lei apresentado pelo então deputado federal Victório Galli, de Mato Grosso, propôs retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de "padroeira do Brasil" e substituí-lo por "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O projeto foi arquivado em 2008.

A proposta voltaria ao debate público anos depois, inclusive por meio de informações falsas que associavam Jair Bolsonaro e, mais recentemente, seu filho Flávio Bolsonaro à ideia de retirar de Aparecida o título de padroeira do Brasil.

Em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro esteve no Santuário Nacional de Aparecida em 12 de outubro, dia dedicado à santa. Sua presença, ao lado do então candidato ao governo de São Paulo Tarcísio de Freitas, foi marcada por aplausos e vaias.

Na atual disputa eleitoral, Aparecida voltou ao debate político, e sua imagem novamente passou a ser reivindicada como símbolo de união nacional. A polêmica começou após publicações associarem falsamente uma fala de Flávio Bolsonaro à retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.

Em um vídeo divulgado em agosto, Flávio Bolsonaro afirmou que "quando for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". A declaração passou a ser associada nas redes sociais à suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

O assunto ganhou enorme repercussão, levou a uma disputa de despachos no Supremo Tribunal Federal (STF) e passou a ser explorado pelos dois presidenciáveis em suas agendas eleitorais.

Em entrevista ao programa Canal Livre, da Band, Lula disse que "mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável", antes de ser confrontado sobre o fato de a informação não ter fundamento. "Eu não sei se foi fake news. O dado concreto é que isso está na rede social muito forte", respondeu.

Após a polêmica, a imagem de Nossa Senhora também apareceu nas agendas dos dois candidatos. Flávio a levantou durante uma atividade em São Paulo, ao lado de Tarcísio de Freitas, e também levou o tema para um podcast. Lula, por sua vez, ergueu uma imagem de Nossa Senhora durante um comício em Belém.

 

Fonte: DW Brasil

 

13 momentos em que a luta pelo direito ao aborto no Brasil foi também uma luta pela democracia

As feministas sempre lutaram pelo direito de escolha sobre como e quando gestar. Mas nunca nos restringimos a isso. A história do feminismo brasileiro se confunde com a história da luta contra o autoritarismo e na radical defesa pela democracia.

Neste 28 de setembro, Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto, trazemos a memória das feministas que lutam pela dignidade reprodutiva às vésperas de uma eleição que nos coloca, novamente, frente a frente com a necessidade de escolher qual projeto de país queremos para o futuro e em quais condições políticas faremos as disputas de nossas demandas enquanto movimento feminista, em especial da agenda dos direitos reprodutivos.

Por isso, mais do que demarcar a nossas reivindicações – novamente – e negritar o quanto a esquerda ainda está em dívida com as mulheres brasileiras e suas bandeiras de luta históricas; nessa data, lembramos alguns dos muitos momentos em que a história da defesa pela democracia no Brasil se confunde com a história do movimento feminista – e como nossas reivindicações são centrais para pensarmos um projeto democrático, justo e igualitário de nação.

[1]

1980 — O que é o Aborto? e a primeira tentativa de ampliação de direitos

Com a reabertura democrática em curso, o movimento feminista amplia seu debate público e adota o mote nosso corpo nos pertence. Nesse ano, Carmem Barroso e Maria José Carneiro da Cunha, militantes da Frente de Mulheres Feministas de São Paulo, publicam O que é o Aborto? No mesmo ano tivemos a primeira iniciativa legislativa pela ampliação dos permissivos legais do direito ao aborto – aprovado desde 1940. A PEC acabou arquivada diante da forte mobilização conservadora.

[2]

1983 — Encontro Nacional de Mulheres sobre Saúde, Contracepção e Aborto e avanços legislativos e no debate público

Em setembro de 1983 acontecia o Encontro Nacional de Mulheres que se dedicou a debater saúde reprodutiva e aborto conectado aos temas de planejamento familiar e justiça social. Contou com a presença de mais de 300 mulheres representando 57 coletivos, movimentos e entidades feministas diferentes. A grande mobilização desse espaço de debate teve forte repercussão social. Ainda em 1983, a revista Veja estreia capa retratando a luta das mulheres pela legalização, junto da circulação ampliada na cidade do Rio de Janeiro do Boletim Feminista organizado por Hildete Pereira de Melo. Ainda neste ano, uma PL que propunha a descriminalização da prática e procedimento do aborto é protocolada na Câmara dos Deputados.

[3]

1984 — Carta de Itapecerica

A Carta de Itapecerica foi o primeiro documento a defender o direito ao aborto como “questão indissociável da saúde da mulher e de sua liberdade”. É um registro histórico fundamental sobre a compreensão feminista sobre o direito ao aborto como componente democrático da vida das mulheres. Fruto do 1º Encontro Nacional de Saúde da Mulher, o Encontro também instituiu junto ao Ministério da Saúde o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), que transformou as políticas públicas sobre saúde reprodutiva, ampliando dos cuidados restritos ao ciclo materno-infantil para abranger a saúde da mulher em todas as fases da vida; como também as ferramentas preventivas no planejamento familiar, na prevenção de doenças ginecológicas.

[4]

1987 — Carta das Mulheres aos Constituintes

Documento elaborado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, a Carta das Mulheres aos Constituintes foi decisiva para a garantia da igualdade entre gêneros na Constituição Federal que viria a ser aprovada. Entre as propostas enviadas, temos a garantia de direito à saúde e direitos reprodutivos com acesso à métodos contraceptivos e educação sexual nas escolas.

[5]

1989 — Implementação do primeiro serviço de aborto legal no Brasil

Em 23 de outubro 1989, Luiza Erundina era eleita prefeita da cidade de São Paulo – a primeira mulher eleita para gerir a maior capital do país e com uma plataforma de campanha amplamente democrática. Em seu primeiro ano de mandato, Erundina criou o serviço de aborto legal no Hospital Jabaquara, garantindo atendimento gratuito nos casos previstos em lei.

[6]

1996 – Derrotada a PEC 25/1995

A PEC propunha que Constituição Federal previsse o direito à vida desde a concepção. Depois de forte pressão dos movimentos sociais e de Organizações da Sociedade Civil, a sessão que apreciou o mérito da proposta foi rejeitada por 87% dos deputados e deputadas em abril de 1986.

[7]

2005 – Política Nacional de Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos

Marco na incorporação da agenda de saúde e justiça reprodutiva no SUS, a Política Nacional foi aprovada no governo Lula 1 e orienta esforços ainda em curso para garantir mais dignidade e direitos à mulheres e pessoas que gestam.

[8]

2007 – Caso das 10 mil

O Caso das 10 Mil faz referência ao maior processo criminal contra uma rede aborto já realizada no Brasil. A investigação atuou na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul e apreendeu quase 10 mil prontuários em uma clínica de aborto clandestina.  Milhares de mulheres tiveram dados pessoais e privados expostos numa grande violação de direitos humanos promovida pelo próprio Ministério Público Federal.

[9]

2008 – Criação da Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto

Principal articulação feminista pela descriminalização e legalização do aborto no Brasil, reúne organizações da sociedade civil, movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos. Neste ano lança sua nota de lançamento e se torna o espaço de unidade feminista pela agenda pró-legalização.

[10]

2013 – Lei do Minuto Seguinte

A Lei do Minuto Seguinte tornou obrigatória a oferta pelo SUS de atendimento emergencial, integral e multidisciplinar para mulheres vítimas de violência sexual – e sem a necessidade de apresentação do Boletim de Ocorrência. 

[11]

2017 –ADPF 442

Em 2017, o PSOL e o Instituto Anis ingressam no STF com uma ADPF que pede pela descriminalização do aborto voluntário em casos de até 12 semanas de gestação. Uma estratégia intermediária para avançar no debate social e na mitigação da criminalização das mulheres que abortam, a ADPF 442 tramita no STF até o presente momento com dois votos favoráveis já apresentados.

[12]

2020 – Caso da Menina do Espírito Santo

O caso da criança capixaba, vítima de estupro e que foi revitimizada nas inúmeras etapas que percorreu para acessar o serviço de aborto legal; expôs a criminalidade social profunda, as interferências ilegais do fundamentalismo e da extrema direita no judiciário, e o desmonte completo do serviço de aborto legal brasileiro. Ainda que tenha ocorrido durante o primeiro ano do governo Bolsonaro e contado com a interferência direita da então Ministra da Família, Damares Alves – durante a pandemia de covid-19 – o movimento feminista foi às ruas, mobilizou o debate público e se articulou com serviços e redes de juristas garantir a realização do procedimento legalmente previsto para o seu caso.

[13]

2024 – Criança Não é Mãe

No dia 13 de junho de 2024, atos convocados pelo movimento feminista tomaram as ruas de diversas capitais do Brasil para denunciar a tentativa de aprovação do retrógrado projeto de lei 1904/2023, o PL do Estupro, que culpabiliza mulheres e meninas vítimas de violência sexual. Nossa resposta veio com a campanha Criança Não é Mãe, articulada desde 2002 e que já cumpriu importante papel de pressão legislativa em outros episódios de ataques como o PL do Nascituro e o PDL 3/2025 que derrubava a resolução do CONANDA sobre garantias do serviço público de aborto legal. Junto das mobilizações do VAT – Movimento Vida Além do Trabalho – que avançaram no país o debate sobre a redução de jornada de trabalho e pedindo o fim da escala 6×1, foram as duas principais mobilizações populares do ano.

E você, qual a sua memória feminista pela legalização do aborto e defesa pela democracia favorita? Para seguirmos produzindo novas memórias feministas pela democracia, no dia 4 de outubro, vote por um futuro que permita que mulheres e pessoas que gestam sigam lutando por sua autonomia reprodutiva.

 

Fonte: Por Niege Pavani, no Blog da  Boitempo

 

Roberto Amaral: O destino do país vai às urnas

Em artigo-ensaio recente (“O golpe continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que, pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático brasileiro.

Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar fim à miséria.

É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina, que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos assassinatos ainda sem conta fechada.

Pois foi defendendo esse legado de barbárie que o bolsonarismo chegou à Presidência da República e, como discípulo de régulos, governou o país e liderou a intentona de janeiro de 2023, mediante a qual, usurpando o mandato do presidente eleito, pretendia retornar ao poder do qual havia sido alijado pela soberania popular.

Independentemente de seus muitos erros e de seus muitos defeitos, ditados pela exorbitância de poderes e, lamentavelmente, pela sua composição atual, o STF desnudou o golpe; não se limitou a identificar os vândalos da Praça dos Três Poderes; indicou e puniu seus agentes, criminosos políticos que atentaram contra o Estado, e reles criminosos comuns. Foi quando esteve à altura dos desafios da história.

Demos, com seu concurso, uma lição ao mundo, ilustrando com coragem como as instituições podem se defender e defender o país.

Pois o bolsonarismo promete anistia para a malta de meliantes que, sob a liderança do capitão e o concurso de meia dúzia ou mais de generais e assemelhados, lançou-se contra as instituições republicanas.

Uma vez mais estamos sob graves riscos de nova fratura democrática e, na sua esteira, ameaça-nos um desastroso retrocesso histórico que promete levar de roldão as conquistas amealhadas pelo esforço nacional nesses 41 anos de vigência da Constituição de 1985. Desta feita, ao contrário de 1964, o mostrengo pode vir das urnas. E, uma vez mais, aponta contra o futuro do país, daquele país desenvolvido e soberano com o qual já chegamos a sonhar.

Ou seja, estamos sujeitos a um golpe de Estado que se pode processar segundo as regras da ordem constitucional, como os regimes fascistas e nazistas (que infestaram a Europa no século passado; alçando-se ao poder pela via eleitoral, logo implantaram longas ditaduras e ameaçaram a humanidade com a Segunda Guerra Mundial. E estão de novo na Itália, com a primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido Irmãos da Itália (FdI), e na Alemanha, com o sucesso, em eleições provinciais, do neofascista Alternativa para a Alemanha.

A extrema-direita nativa, destoando de suas matrizes europeias, é, ainda, desavergonhadamente entreguista. Não cora diante do trumpismo; mais do que isso, goza com o sonho de tornar o Brasil mais uma estrela da bandeira norte-americana, um grande protetorado no quintal do imperialismo. E não disfarça. Sem rebuços, um dos Bolsonaro transferiu-se de armas e bagagem para os subúrbios da Casa Branca, onde, áulico dos asseclas de Trump, forceja por conspirar contra os interesses de nosso país.

O bolsonarismo já deu provas concretas de seu desapreço pela democracia. Está bem viva a tentativa de golpe de janeiro de 2023.

O golpe de Estado não requer, necessariamente, a intervenção armada e pode ser operado tanto por dentro do governo (Getúlio Vargas, em 1937, rasgando a Constituição de 1934 e implantando o Estado Novo) quanto mesmo preservando a ordem constitucional. Neste caso, é exemplar o golpe da implantação do parlamentarismo em 1961, preço cobrado pelos militares para permitir a posse de João Goulart em face da renúncia de Jânio Quadros, por seu turno, peça de frustrada tentativa de autogolpe.

Nesta espécie, a história republicana está repleta de exemplos e consagra a expressão “golpe permanente”, como transformação continuada do regime a partir de dentro, iniciada em 1964 e jamais concluída, trazendo à baila os tempos recentes que vamos considerar a partir do golpe de Estado parlamentar que, sem ferir o rito constitucional, decretou a deposição da presidente Dilma Rousseff, abrindo espaço para a passagem de Michel Temer, eficiente na desconstrução do programa de governo que havia sido consagrado pela soberania popular no pleito de 2014.
Igual consideração se aplica ao golpe do Judiciário, reunindo em uma mesma peça um desonesto juiz de piso e o STF. Refiro-me aos crimes da Lava Jato, à decretação da prisão e da inelegibilidade de Lula, palmilhando o caminho da eleição do chefe da súcia bolsonarista, com as consequências conhecidas: seu governo e, hoje, a possibilidade de um desastre democrático no pleito do próximo domingo.

Outro golpe, levado a cabo nas duas últimas legislaturas, é a usurpação, pelo Congresso reacionário e tacanho, de poderes do Executivo, reduzindo sensivelmente sua capacidade de investimento ao pulverizar, através de emendas orçamentárias, os recursos da União, mediante as emendas impositivas e o “orçamento secreto”, implantado pelo sátrapa alagoano que pode retornar a Brasília com a faixa de senador da República.

Este Congresso, teoricamente a sede da expressão da soberania popular, é desaprovado por 64,4% da população (pesquisa Futura/100% Cidades, divulgada em 24/09/2026), fazendo par com o Judiciário, cuja desaprovação, segundo a mesma pesquisa, chega a 62,6%, sua pior fase de descrédito.

As ameaças à institucionalidade são graves. O novo Congresso, que pode nascer velho, pode ainda, como o atual, exercer o papel de estorvo para a defesa dos interesses sociais e instrumento de instabilidade nacional. O STF pode abastardar-se ainda mais e constituir-se em um antro da reação, com os mais graves riscos para o direito brasileiro e a ordem social. O próximo presidente da república indicará pelo menos quatro novos ministros. Além da vaga não preenchida com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, outras três serão abertas com as aposentadorias compulsórias dos ministros Luiz Fux, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. Isto é quase a metade do Plenário.

Mas não é só, se já não fosse muito. Conforme o andar da carruagem, a essas vagas poderão somar-se outras tantas. E os novos ministros podem tanto ser novos Dino ou novas Cármen Lúcia, quanto novos Mendonça, novos Kassio, novos Fux ou novos Moraes, carregando a tiracolo os escritórios de advocacia de esposas e filhos, alguns acusados de receber do bandido-banqueiro a bondosa prenda de uma mesada de 500 mil reais.

Não é só, portanto, a futura Presidência da República – o que já não seria pouco. Nestas eleições estaremos, igualmente, decidindo que Congresso e que STF queremos.

O bolsonarismo não é apenas a síntese da miséria política brasileira; representa um grande risco para a governança do país em face de suas ligações com o mundo do crime, sejam milicianos da pior extração, sejam bandidos de paletó e gravata, como o banqueiro trambiqueiro posto na cadeia, que financiou o filme sobre o chefe do clã e financia a vilegiatura do Bolsonaro que abandonou o mandato de deputado federal por São Paulo para instalar em Washington a banquinha de lobista contra os interesses nacionais, nessa sórdida tarefa mancomunado, lê-se nos jornais, com um neto de um ex-general presidente.

Nas eleições dos próximos dias seremos chamados a decidir entre a continuidade democrática e o autoritarismo larvar; entre um projeto progressista e a promessa de uma sociedade ultraconservadora; e entre um país soberano e um grande protetorado. Nosso voto dirá se na Presidência teremos um representante dos interesses nacionais ou um incumbente do imperialismo.

***
>>> Aos capas-pretas da campanha do presidente Lula

– o Brasil possui 28 milhões de jovens entre 16 e 24 anos de idade (IBGE, 2024) e, na mesma faixa etária, 19,2 milhões de eleitores (dados do TSE para as eleições de 2026). Campanha eleitoral — ensinou-me um velho campeão de votos — não se faz olhando pelo retrovisor, mas apontando para a frente. A esquerda, pelo menos ela, posto que está comprometida com a construção do futuro, precisa voltar a despertar esperança. Está na hora de rever o discurso. Mirando o futuro, foi que Juscelino foi eleito e fez o Brasil rejuvenescer. Em 1989, no começo da reviravolta, o hit da campanha de Lula era a volta da esperança.

>>> O andar de cima não tem jeito (1)

– a Faria Lima e suas adjacências (nesse rol, o Banco Central e os “especialistas” da grande imprensa) comemoram a perspectiva de queda do crescimento da economia, com a redução do PIB, projetado para 2027 em 1,4% (Banco Central, Relatório de Política Monetária, 24/9/2026), como consequência óbvia dos juros altos. Menos crescimento, menos emprego, menos indústria. E, para não perder o bonde, os jornalões gritam contra o aumento do Bolsa Família, programa que atende a mais de 29 milhões de brasileiros. O Bolsa, como é carinhosamente chamado por seus defensores, reduziu a pobreza em 15%, a extrema pobreza em 25% e diminuiu o índice de Gini em 1,5%. Retirou da pobreza 3,2 milhões de brasileiros e 3,4 milhões da extrema pobreza (dados do IPEA). Destinado a famílias de baixa renda, o benefício não é entesourado, nem vira poupança. Ao contrário dos ganhos de capital, não vai para a ciranda financeira. Para além de seu caráter como benefício social, alimenta a economia, pois é imediatamente consumido em alimento, vestuário, transporte e comércio local. Resulta em transferência direta de renda. A classe dominante, porém (escravocrata hoje como ontem), faz-lhe cara feia.

>>> O andar de cima não tem jeito (2)

— Outra fonte dos reclamos da classe dominante é o Benefício de Prestação Continuada, acusado de pressionar a dívida pública (OGlobo, 25/09, p. 22). Criado pela Constituição de 1988, o BPC é um dos principais programas sociais do país: paga um salário-mínimo a pessoas com deficiência e a idosos maiores de 65 anos com renda domiciliar ou pessoal de um quarto do salário-mínimo, ou seja, R$ 405,25! A Faria Lima e seus boletins (Estadão, Folha e Globo) não gostam desse programa, como não aceitam o reajuste do SM com base na inflação. Gostam mesmo é dos juros que fazem o capital render sem precisar investir na economia.

Os mesmos jornalões fizeram campanha contra o 13º salário. Em 1962, repetindo seus “especialistas”, à frente Eugênio Gudin (Globo) e Gustavo Corção (Diário de Notícias), anunciavam que o país iria falir, as empresas quebrariam e o “falso benefício” produziria desemprego. O que a história registrou, ao contrário, foi o aumento do poder aquisitivo de parcela significativa da população. Será que, hoje, a Associação Comercial concordaria com a supressão desse abono? É a velha visão de classe do andar de cima.

Os jornalões, porém, pouco cuidam das reais sangrias do Erário. Quanto custou e ainda custará ao contribuinte a esbórnia do Master, não apenas do ponto de vista econômico e financeiro, mas também político e institucional? Trata-se do maior escândalo financeiro já registrado no país e, certamente, do que mais envolveu os intestinos da República. O Congresso, andando com o rabo entre as pernas, não cogita, por justas razões, de uma CPI que investigue até a última víscera o sistema financeiro, esse polvo corrupto e corruptor que chegou à intimidade do STF e constitui um dos fatores da grave crise institucional que ameaça nossa sempre frágil estabilidade democrática.

Se afinal tivermos uma investigação séria, sua lupa deverá alcançar a CVM e o BC, que precisam explicar sua omissão diante das explícitas falcatruas de Vorcaro e seus asseclas. Onde estava a Diretoria de Fiscalização do BC diante de um banco de segunda linha que pagava aos fundos dividendos muito acima da média do mercado? Enquanto o BC permanece afônico, o MP-SP e a Polícia Federal (Operação Carbono Oculto) desvendam mais uma arquitetura de lavagem e ocultação de dinheiro, com o envolvimento, uma vez mais, da arapuca chamada Banco Genial. Segundo as investigações, seu objetivo é ocultar dinheiro do crime organizado para financiar a expansão do grupo financeiro que controla o banco. A matéria está no Valor (25/09), que ouviu ou tentou ouvir todos os suspeitos, mas não teve tempo de pedir explicações à reumática Diretoria de Fiscalização do BC.

>>> O andar de cima não tem jeito (3)

— Apesar de tudo — incluídos os desmandos da pandemia, a intentona de 8 de janeiro e a conspiração desabrida contra a economia nacional —, o patriciado brasileiro ainda dá mostras de considerar difícil a escolha do próximo dia 4, e sonha com uma “terceira via” que não consegue construir

 

Fonte: Brasil 247