quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A burguesia que desistiu de produzir o futuro

Na primeira matéria desta série, analisei o paradoxo da eleição de 2026: parcelas do empresariado temem um quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, embora seus governos tenham sido lucrativos para bancos, indústria e agronegócio, mas aceitam Flávio Bolsonaro apesar dos riscos que ele representa para a democracia, a soberania e a legalidade.

A primeira matéria mostrou que o antipetismo possui uma história social: a origem operária e pobre de Lula foi utilizada para apresentá-lo como despreparado e perigoso, e o discurso anticorrupção conferiu linguagem moral a essa rejeição.

Mas a explicação não se encontra apenas no antipetismo. Nas últimas décadas, o país perdeu densidade industrial, tornou-se mais dependente da exportação de produtos primários e ofereceu aos grandes proprietários ganhos financeiros e patrimoniais frequentemente mais atraentes do que produzir, inovar e disputar mercados internacionais.

Formou-se uma fração dominante do empresariado que não precisa de um projeto nacional de desenvolvimento. Ela pode lucrar exportando soja, minério, petróleo, carne e celulose; recebendo juros; controlando concessões; adquirindo ativos públicos; operando mercados protegidos ou importando a tecnologia que não desenvolveu.

Para esse empresariado, democracia, soberania e desenvolvimento tecnológico podem tornar-se questões secundárias. O essencial é preservar as condições de acumulação.

<><> Um país novamente dependente de produtos primários

Os números mostram a dimensão da mudança. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD, as commodities representavam 66,7% das exportações brasileiras entre 2012 e 2014. Entre 2021 e 2023, passaram a representar 75,3%.

No mesmo período, a participação da indústria no emprego caiu de 24% para 21%, enquanto a renda proveniente de recursos naturais aumentou. Pelos critérios da própria UNCTAD, uma economia torna-se dependente de commodities quando esses produtos superam 60% das exportações. O Brasil está muito acima desse limite.

Essa inserção gera dólares, superávits e lucros. Agronegócio, mineração e petróleo possuem empresas modernas e produtivas. O problema não está em exportar commodities, mas em não utilizar essa riqueza para diversificar a economia e dominar novas tecnologias.

O Brasil vende recursos naturais e compra máquinas, componentes, medicamentos, semicondutores, equipamentos digitais e outros bens intensivos em conhecimento. Em suas relações com os demais Brics, está entre os países que exportam majoritariamente produtos primários e importam bens industrializados de maior complexidade.

É uma inserção confortável para os exportadores, mas insuficiente para um país que precisa gerar empregos qualificados e garantir autonomia diante das grandes potências.

<><> Inovação no discurso, pouco investimento na prática

As entidades empresariais falam constantemente em inovação e competitividade. O investimento privado, porém, não acompanha o discurso.

Em 2022, o Brasil aplicou aproximadamente 1,19% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. O setor empresarial respondeu por apenas 0,63%. A média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico alcançou 2,7% do PIB em 2024.

Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação indicam que o investimento empresarial brasileiro em pesquisa e desenvolvimento cresceu somente cerca de 6% em termos reais entre 2014 e 2023. O próprio diagnóstico oficial é que o esforço público brasileiro se aproxima mais dos padrões internacionais do que o privado.

A Pesquisa de Inovação do IBGE mostra que as indústrias com cem ou mais empregados investiram apenas 0,70% de sua receita líquida em pesquisa e desenvolvimento em 2023. Das 9.821 empresas desse grupo, somente 3.367 realizaram dispêndios internos em pesquisa. Em 2024, a taxa de inovação caiu pelo terceiro ano consecutivo.

Há exceções importantes: Embraer, saúde, máquinas e equipamentos, petróleo em águas profundas, biocombustíveis e segmentos digitais. Mas esses setores não determinam a orientação do grande capital brasileiro.

O retrato geral é de investimento insuficiente e forte dependência do Estado. A Lei do Bem, uma renúncia fiscal, é o principal instrumento público de apoio à inovação utilizado pelas empresas. BNDES, Finep, universidades e institutos públicos assumem parcela significativa do risco tecnológico.

O empresariado cobra competitividade do país, mas reluta em financiar a produção do conhecimento que torna uma economia competitiva.

<><> Quando aplicar rende mais do que produzir

O baixo investimento não pode ser explicado apenas por uma suposta falta de espírito empreendedor. A estrutura econômica oferece alternativas mais simples e seguras.

Em um país marcado por juros reais elevados, grandes patrimônios podem obter retornos expressivos comprando títulos, aplicando em fundos e participando de negócios regulados. Empresas não financeiras também passaram a administrar seus recursos segundo uma lógica financeira, buscando remuneração de curto prazo em lugar de imobilizar capital em projetos industriais demorados e arriscados.

Estudos sobre companhias brasileiras de capital aberto identificam associação entre a financeirização e a redução do investimento produtivo. O empresário pode reclamar dos juros porque eles encarecem suas máquinas e, simultaneamente, ganhar com eles como proprietário de patrimônio financeiro.

Produzir um novo medicamento ou equipamento exige anos de pesquisa e possibilidade de fracasso. Comprar um ativo, explorar uma concessão ou receber juros oferece retorno mais previsível. A pergunta deixa de ser qual atividade ajudará o país a dominar o futuro e passa a ser onde o capital obterá maior remuneração no próximo balanço.

<><> O patrimônio construído pelo Estado

As privatizações oferecem outra via de acumulação. Empresas públicas não são apenas prédios, máquinas e ações. Elas concentram décadas de investimentos, quadros técnicos, patentes, informações estratégicas, reservas naturais, redes de fornecedores, capacidade de planejamento e posições consolidadas no mercado.

Quando são privatizadas, não se transfere apenas a gestão presente. Transfere-se ao comprador um patrimônio material e imaterial construído pela sociedade.

Nem toda estatal é eficiente e há privatizações com resultados positivos. Mas a experiência brasileira também registra aquisições financiadas por bancos públicos, ativos rapidamente valorizados e concessões nas quais o Estado continuou oferecendo crédito, garantias e infraestrutura.

O mercado não substituiu o Estado. Em muitos casos, apropriou-se dos ativos enquanto o poder público permaneceu responsável por parte dos riscos.

Para grupos acostumados a esse modelo, um governo que preserve empresas públicas, fortaleça bancos estatais e condicione concessões a objetivos nacionais pode ser visto como obstáculo. Um governo privatista, mesmo antidemocrático e subordinado a interesses estrangeiros, oferece oportunidades imediatas.

<><> Desenvolvimento exige distribuição e conflito

Um projeto desenvolvimentista requer investimento público e privado, ciência, educação, planejamento, empresas nacionais capazes de competir mundialmente e disposição para suportar riscos.

Também exige mercado interno. Trabalhadores mais qualificados e bem remunerados não são apenas custos: são consumidores, técnicos, pesquisadores e cidadãos. A redução extrema dos salários pode ampliar margens no curto prazo, mas limita a demanda, a produtividade e a capacidade tecnológica do país.

O desenvolvimento produz conflitos: quem financiará infraestrutura, pesquisa e educação; como serão divididos os ganhos de produtividade; e quais contrapartidas serão cobradas das empresas apoiadas pelo Estado?

É aí que Lula volta a aparecer como ameaça. Não porque pretenda expropriar empresas, mas porque representa, ainda que moderadamente, a possibilidade de vincular crescimento a emprego, salário, política social, conteúdo nacional e soberania.

Flávio oferece o caminho inverso. Seu programa pode combinar privatização, abertura de ativos ao capital estrangeiro, enfraquecimento do trabalho e alinhamento aos Estados Unidos. Para uma burguesia sem projeto nacional, o caráter antinacional dessa proposta não é uma contradição: é uma oportunidade de negócios.

<><> O futuro abandonado

Não se pode afirmar que toda a burguesia brasileira desistiu do desenvolvimento. Existem empresas inovadoras, industriais comprometidos com o país e setores interessados em ciência, tecnologia e qualificação profissional.

O problema é de hegemonia. As frações mais poderosas parecem se organizar cada vez menos em torno da construção de uma economia industrial e tecnologicamente soberana e cada vez mais em torno da exportação de recursos naturais, da renda financeira, da valorização patrimonial e do acesso privilegiado ao Estado.

Essa estrutura ajuda a compreender a escolha eleitoral. Quem não pretende produzir o futuro tem menos razões para defender um projeto nacional. Pode aceitar um governo autoritário, corrupto e subordinado, desde que ele proteja a propriedade, comprima o trabalho e abra novas oportunidades de apropriação privada.

¨      Quem destrói o país por dentro? Por Luís Delcides

Não é paranoia: é documento. Em 30 de julho de 2025, Donald Trump assinou a Ordem Executiva nº 14323 e declarou emergência nacional em relação ao Brasil, elevando tarifas em 40 pontos e sancionando o ministro Alexandre de Moraes. No ano seguinte, prorrogou a medida por mais doze meses.

Alguns meses depois, durante as negociações pós-tarifas, representantes do governo americano entregaram às autoridades brasileiras um documento com 21 demandas — entre elas, a exigência de que o Brasil permitisse a participação de “supostos dissidentes políticos” nas eleições de 2026. O documento circulou no Itamaraty e foi devolvido por ordem do ministro Mauro Vieira.

O que está em curso não é uma disputa eleitoral. É uma guerra híbrida.

<><> A arquitetura do soft power

Enquanto Washington pressiona por fora, uma rede transnacional opera por dentro. O Acton Institute e a Atlas Network não são clubes de debate. São máquinas de formação de lideranças, financiamento de think tanks e produção de consenso em torno de uma agenda que combina neoliberalismo e conservadorismo religioso. No Brasil, a Atlas Network possui parceiros como o Instituto Liberal, o Instituto Millenium, o Instituto Liberdade e o Students for Liberty. E o Acton financia essa engrenagem: a base de dados registra US$ 130 mil em doações da Atlas para o Acton entre 2010 e 2015.

O resultado é uma internacionalização silenciosa de quadros. O ministro do STF André Mendonça participou de ambientes ligados ao Acton Institute em 2020. Deltan Dallagnol esteve na Acton University em 2023, junto a uma comitiva de aproximadamente 60 brasileiros, incluindo nomes como Salim Mattar e Marcel van Hattem. Não é coincidência. É método. Think tanks, universidades, conferências e programas de formação de lideranças passaram a operar como vetores não estatais de influência, produzindo convergências ideológicas entre os EUA e grupos políticos brasileiros.

<><> As bets: o elo econômico da desestabilização

Enquanto isso, o endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,8% do rendimento anual, patamar próximo do recorde histórico. As bets são parte central desse colapso. Mais de 17 milhões de brasileiros movimentaram 17 bilhões de reais em plataformas de jogos, gerando um impacto de 103 bilhões de reais de retração no consumo do varejo e aumento da inadimplência em famílias de baixa renda. O custo social anual das apostas é estimado em R$ 38,8 bilhões — quase seis vezes o que o setor arrecada em impostos.

Mas o problema não é só o vício. É a arquitetura financeira. Em julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação “Maya’s Veil“, desmantelando uma rede de 87 empresas de fachada que usavam criptomoedas para canalizar ilegalmente lucros de apostas para fora do Brasil. Cinco dias antes, a Operação “Tratativa” desarticulou um esquema de lavagem de aproximadamente 2 bilhões de dólares ligado ao PCC, movimentando fundos entre a Flórida e o Brasil via criptomoedas. O Tesouro dos EUA reconheceu que um dos principais suspeitos ajudou a lavar mais de 30 milhões de dólares em ganhos ilegais.

E há mais: o PT solicitou ao STF a abertura de investigação sobre suposto financiamento americano à campanha de Flávio Bolsonaro, incluindo uma campanha de publicações pagas na rede X para inflar a percepção de favoritismo do candidato, utilizando as cotas da casa de apostas Polymarket — sem revelar a identidade dos financiadores. As bets não são apenas um problema social. São um instrumento de guerra financeira.

<><> O STF sob ataque e a mídia que finge não ver

A confiança no STF caiu de 48,5% para 27,8% em um ano. A desconfiança subiu de 51,3% para 61%. Os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, ambos indicados por Bolsonaro, lideram a escalada de imagem negativa. Não é acaso. É resultado de uma operação coordenada que combina vazamentos seletivos, financiamento de think tanks e uma mídia que amplifica o caos.

A Rede Globo é parte central dessa engrenagem. Em setembro de 2026, a GloboNews exibiu um “PowerPoint” associando Lula, o PT e Gabriel Galípolo ao caso Banco Master — sem qualquer relação com o escândalo. A emissora omitiu personagens notoriamente envolvidos, como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Roberto Campos Neto. O pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira classificou a prática como “desdemocratizadora” e contribuinte para a erosão da democracia, lembrando que historicamente a esquerda é o principal alvo dos ataques da mídia corporativa.

Não se trata de um erro. Trata-se de um método. A velha mídia não informa: ela direciona. E enquanto o povo sente o peso da dívida e da instabilidade, a narrativa dominante insiste em tratar a crise como disputa eleitoral, como se o problema fosse Lula contra Flávio Bolsonaro, e não o Brasil contra uma ofensiva transnacional.

<><> O que o presidente precisa dizer

O artigo original está certo: há momentos em que a dimensão jurídica já não dá conta sozinha. Processos podem apurar responsabilidades, mas não substituem o debate público. O que está em jogo ultrapassa a eleição. É a soberania.

O presidente Lula precisa falar diretamente ao povo. Não através de notas oficiais ou entrevistas coletivas. Precisa de uma comunicação de Estado que denuncie, com clareza, a existência de uma guerra híbrida: os think tanks financiados por dólares, as bets como lavanderia e instrumento de endividamento, os vazamentos seletivos, a mídia que distorce. O Brasil precisa saber o que está acontecendo.

A população está atenta. Endividada, sim. Insatisfeita, sim. Mas atenta. E talvez seja essa a maior ameaça para quem aposta na desinformação: um povo que, mesmo sufocado, começa a enxergar a engrenagem por trás do caos.

A pergunta não é mais se há ingerência externa. A pergunta é: o que o Estado brasileiro vai fazer com a verdade que já está documentada?

 

Fonte: Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247/Outras Palavras

 

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