A
burguesia que desistiu de produzir o futuro
Na
primeira matéria desta série, analisei o paradoxo da eleição de 2026: parcelas
do empresariado temem um quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, embora
seus governos tenham sido lucrativos para bancos, indústria e agronegócio, mas
aceitam Flávio Bolsonaro apesar dos riscos que ele representa para a
democracia, a soberania e a legalidade.
A
primeira matéria mostrou que o antipetismo possui uma história social: a origem
operária e pobre de Lula foi utilizada para apresentá-lo como despreparado e
perigoso, e o discurso anticorrupção conferiu linguagem moral a essa rejeição.
Mas a
explicação não se encontra apenas no antipetismo. Nas últimas décadas, o país
perdeu densidade industrial, tornou-se mais dependente da exportação de
produtos primários e ofereceu aos grandes proprietários ganhos financeiros e
patrimoniais frequentemente mais atraentes do que produzir, inovar e disputar
mercados internacionais.
Formou-se
uma fração dominante do empresariado que não precisa de um projeto nacional de
desenvolvimento. Ela pode lucrar exportando soja, minério, petróleo, carne e
celulose; recebendo juros; controlando concessões; adquirindo ativos públicos;
operando mercados protegidos ou importando a tecnologia que não desenvolveu.
Para
esse empresariado, democracia, soberania e desenvolvimento tecnológico podem
tornar-se questões secundárias. O essencial é preservar as condições de
acumulação.
<><>
Um país novamente dependente de produtos primários
Os
números mostram a dimensão da mudança. Segundo a Conferência das Nações Unidas
sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD, as commodities representavam 66,7%
das exportações brasileiras entre 2012 e 2014. Entre 2021 e 2023, passaram a
representar 75,3%.
No
mesmo período, a participação da indústria no emprego caiu de 24% para 21%,
enquanto a renda proveniente de recursos naturais aumentou. Pelos critérios da
própria UNCTAD, uma economia torna-se dependente de commodities quando esses
produtos superam 60% das exportações. O Brasil está muito acima desse limite.
Essa
inserção gera dólares, superávits e lucros. Agronegócio, mineração e petróleo
possuem empresas modernas e produtivas. O problema não está em exportar
commodities, mas em não utilizar essa riqueza para diversificar a economia e
dominar novas tecnologias.
O
Brasil vende recursos naturais e compra máquinas, componentes, medicamentos,
semicondutores, equipamentos digitais e outros bens intensivos em conhecimento.
Em suas relações com os demais Brics, está entre os países que exportam
majoritariamente produtos primários e importam bens industrializados de maior
complexidade.
É uma
inserção confortável para os exportadores, mas insuficiente para um país que
precisa gerar empregos qualificados e garantir autonomia diante das grandes
potências.
<><>
Inovação no discurso, pouco investimento na prática
As
entidades empresariais falam constantemente em inovação e competitividade. O
investimento privado, porém, não acompanha o discurso.
Em
2022, o Brasil aplicou aproximadamente 1,19% do PIB em pesquisa e
desenvolvimento. O setor empresarial respondeu por apenas 0,63%. A média dos
países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico alcançou
2,7% do PIB em 2024.
Dados
do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação indicam que o investimento
empresarial brasileiro em pesquisa e desenvolvimento cresceu somente cerca de
6% em termos reais entre 2014 e 2023. O próprio diagnóstico oficial é que o
esforço público brasileiro se aproxima mais dos padrões internacionais do que o
privado.
A
Pesquisa de Inovação do IBGE mostra que as indústrias com cem ou mais
empregados investiram apenas 0,70% de sua receita líquida em pesquisa e
desenvolvimento em 2023. Das 9.821 empresas desse grupo, somente 3.367
realizaram dispêndios internos em pesquisa. Em 2024, a taxa de inovação caiu
pelo terceiro ano consecutivo.
Há
exceções importantes: Embraer, saúde, máquinas e equipamentos, petróleo em
águas profundas, biocombustíveis e segmentos digitais. Mas esses setores não
determinam a orientação do grande capital brasileiro.
O
retrato geral é de investimento insuficiente e forte dependência do Estado. A
Lei do Bem, uma renúncia fiscal, é o principal instrumento público de apoio à
inovação utilizado pelas empresas. BNDES, Finep, universidades e institutos
públicos assumem parcela significativa do risco tecnológico.
O
empresariado cobra competitividade do país, mas reluta em financiar a produção
do conhecimento que torna uma economia competitiva.
<><>
Quando aplicar rende mais do que produzir
O baixo
investimento não pode ser explicado apenas por uma suposta falta de espírito
empreendedor. A estrutura econômica oferece alternativas mais simples e
seguras.
Em um
país marcado por juros reais elevados, grandes patrimônios podem obter retornos
expressivos comprando títulos, aplicando em fundos e participando de negócios
regulados. Empresas não financeiras também passaram a administrar seus recursos
segundo uma lógica financeira, buscando remuneração de curto prazo em lugar de
imobilizar capital em projetos industriais demorados e arriscados.
Estudos
sobre companhias brasileiras de capital aberto identificam associação entre a
financeirização e a redução do investimento produtivo. O empresário pode
reclamar dos juros porque eles encarecem suas máquinas e, simultaneamente,
ganhar com eles como proprietário de patrimônio financeiro.
Produzir
um novo medicamento ou equipamento exige anos de pesquisa e possibilidade de
fracasso. Comprar um ativo, explorar uma concessão ou receber juros oferece
retorno mais previsível. A pergunta deixa de ser qual atividade ajudará o país
a dominar o futuro e passa a ser onde o capital obterá maior remuneração no
próximo balanço.
<><>
O patrimônio construído pelo Estado
As
privatizações oferecem outra via de acumulação. Empresas públicas não são
apenas prédios, máquinas e ações. Elas concentram décadas de investimentos,
quadros técnicos, patentes, informações estratégicas, reservas naturais, redes
de fornecedores, capacidade de planejamento e posições consolidadas no mercado.
Quando
são privatizadas, não se transfere apenas a gestão presente. Transfere-se ao
comprador um patrimônio material e imaterial construído pela sociedade.
Nem
toda estatal é eficiente e há privatizações com resultados positivos. Mas a
experiência brasileira também registra aquisições financiadas por bancos
públicos, ativos rapidamente valorizados e concessões nas quais o Estado
continuou oferecendo crédito, garantias e infraestrutura.
O
mercado não substituiu o Estado. Em muitos casos, apropriou-se dos ativos
enquanto o poder público permaneceu responsável por parte dos riscos.
Para
grupos acostumados a esse modelo, um governo que preserve empresas públicas,
fortaleça bancos estatais e condicione concessões a objetivos nacionais pode
ser visto como obstáculo. Um governo privatista, mesmo antidemocrático e
subordinado a interesses estrangeiros, oferece oportunidades imediatas.
<><>
Desenvolvimento exige distribuição e conflito
Um
projeto desenvolvimentista requer investimento público e privado, ciência,
educação, planejamento, empresas nacionais capazes de competir mundialmente e
disposição para suportar riscos.
Também
exige mercado interno. Trabalhadores mais qualificados e bem remunerados não
são apenas custos: são consumidores, técnicos, pesquisadores e cidadãos. A
redução extrema dos salários pode ampliar margens no curto prazo, mas limita a
demanda, a produtividade e a capacidade tecnológica do país.
O
desenvolvimento produz conflitos: quem financiará infraestrutura, pesquisa e
educação; como serão divididos os ganhos de produtividade; e quais
contrapartidas serão cobradas das empresas apoiadas pelo Estado?
É aí
que Lula volta a aparecer como ameaça. Não porque pretenda expropriar empresas,
mas porque representa, ainda que moderadamente, a possibilidade de vincular
crescimento a emprego, salário, política social, conteúdo nacional e soberania.
Flávio
oferece o caminho inverso. Seu programa pode combinar privatização, abertura de
ativos ao capital estrangeiro, enfraquecimento do trabalho e alinhamento aos
Estados Unidos. Para uma burguesia sem projeto nacional, o caráter antinacional
dessa proposta não é uma contradição: é uma oportunidade de negócios.
<><>
O futuro abandonado
Não se
pode afirmar que toda a burguesia brasileira desistiu do desenvolvimento.
Existem empresas inovadoras, industriais comprometidos com o país e setores
interessados em ciência, tecnologia e qualificação profissional.
O
problema é de hegemonia. As frações mais poderosas parecem se organizar cada
vez menos em torno da construção de uma economia industrial e tecnologicamente
soberana e cada vez mais em torno da exportação de recursos naturais, da renda
financeira, da valorização patrimonial e do acesso privilegiado ao Estado.
Essa
estrutura ajuda a compreender a escolha eleitoral. Quem não pretende produzir o
futuro tem menos razões para defender um projeto nacional. Pode aceitar um
governo autoritário, corrupto e subordinado, desde que ele proteja a
propriedade, comprima o trabalho e abra novas oportunidades de apropriação
privada.
¨
Quem destrói o país por dentro? Por Luís Delcides
Não é
paranoia: é documento. Em 30 de julho de 2025, Donald Trump assinou a Ordem
Executiva nº 14323 e declarou emergência nacional em relação ao Brasil,
elevando tarifas em 40 pontos e sancionando o ministro Alexandre de Moraes. No
ano seguinte, prorrogou a medida por mais doze meses.
Alguns
meses depois, durante as negociações pós-tarifas, representantes do governo
americano entregaram às autoridades brasileiras um documento com 21 demandas —
entre elas, a exigência de que o Brasil permitisse a participação de “supostos
dissidentes políticos” nas eleições de 2026. O documento circulou no Itamaraty
e foi devolvido por ordem do ministro Mauro Vieira.
O que
está em curso não é uma disputa eleitoral. É uma guerra híbrida.
<><>
A arquitetura do soft power
Enquanto
Washington pressiona por fora, uma rede transnacional opera por dentro. O Acton
Institute e a Atlas Network não são clubes de debate. São máquinas de
formação de lideranças, financiamento de think tanks e produção de
consenso em torno de uma agenda que combina neoliberalismo e conservadorismo
religioso. No Brasil, a Atlas Network possui parceiros como o Instituto
Liberal, o Instituto Millenium, o Instituto Liberdade e o Students for
Liberty. E o Acton financia essa engrenagem: a base de dados registra US$
130 mil em doações da Atlas para o Acton entre 2010 e 2015.
O
resultado é uma internacionalização silenciosa de quadros. O ministro do STF
André Mendonça participou de ambientes ligados ao Acton Institute em
2020. Deltan Dallagnol esteve na Acton University em 2023, junto a uma
comitiva de aproximadamente 60 brasileiros, incluindo nomes como Salim Mattar e
Marcel van Hattem. Não é coincidência. É método. Think tanks,
universidades, conferências e programas de formação de lideranças passaram a
operar como vetores não estatais de influência, produzindo convergências ideológicas
entre os EUA e grupos políticos brasileiros.
<><>
As bets: o elo econômico da desestabilização
Enquanto
isso, o endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,8% do rendimento
anual, patamar próximo do recorde histórico. As bets são parte central
desse colapso. Mais de 17 milhões de brasileiros movimentaram 17 bilhões de
reais em plataformas de jogos, gerando um impacto de 103 bilhões de reais de
retração no consumo do varejo e aumento da inadimplência em famílias de baixa
renda. O custo social anual das apostas é estimado em R$ 38,8 bilhões — quase
seis vezes o que o setor arrecada em impostos.
Mas o
problema não é só o vício. É a arquitetura financeira. Em julho de 2026, a
Polícia Federal deflagrou a Operação “Maya’s Veil“, desmantelando uma
rede de 87 empresas de fachada que usavam criptomoedas para canalizar
ilegalmente lucros de apostas para fora do Brasil. Cinco dias antes, a Operação
“Tratativa” desarticulou um esquema de lavagem de aproximadamente 2 bilhões de
dólares ligado ao PCC, movimentando fundos entre a Flórida e o Brasil via
criptomoedas. O Tesouro dos EUA reconheceu que um dos principais suspeitos
ajudou a lavar mais de 30 milhões de dólares em ganhos ilegais.
E há
mais: o PT solicitou ao STF a abertura de investigação sobre suposto
financiamento americano à campanha de Flávio Bolsonaro, incluindo uma campanha
de publicações pagas na rede X para inflar a percepção de favoritismo do
candidato, utilizando as cotas da casa de apostas Polymarket — sem
revelar a identidade dos financiadores. As bets não são apenas um
problema social. São um instrumento de guerra financeira.
<><>
O STF sob ataque e a mídia que finge não ver
A
confiança no STF caiu de 48,5% para 27,8% em um ano. A desconfiança subiu de
51,3% para 61%. Os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, ambos
indicados por Bolsonaro, lideram a escalada de imagem negativa. Não é acaso. É
resultado de uma operação coordenada que combina vazamentos seletivos,
financiamento de think tanks e uma mídia que amplifica o caos.
A Rede
Globo é parte central dessa engrenagem. Em setembro de 2026, a GloboNews exibiu
um “PowerPoint” associando Lula, o PT e Gabriel Galípolo ao caso Banco Master —
sem qualquer relação com o escândalo. A emissora omitiu personagens
notoriamente envolvidos, como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Roberto
Campos Neto. O pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira classificou a prática como
“desdemocratizadora” e contribuinte para a erosão da democracia, lembrando que
historicamente a esquerda é o principal alvo dos ataques da mídia corporativa.
Não se
trata de um erro. Trata-se de um método. A velha mídia não informa: ela
direciona. E enquanto o povo sente o peso da dívida e da instabilidade, a
narrativa dominante insiste em tratar a crise como disputa eleitoral, como se o
problema fosse Lula contra Flávio Bolsonaro, e não o Brasil contra uma ofensiva
transnacional.
<><>
O que o presidente precisa dizer
O
artigo original está certo: há momentos em que a dimensão jurídica já não dá
conta sozinha. Processos podem apurar responsabilidades, mas não substituem o
debate público. O que está em jogo ultrapassa a eleição. É a soberania.
O
presidente Lula precisa falar diretamente ao povo. Não através de notas
oficiais ou entrevistas coletivas. Precisa de uma comunicação de Estado que
denuncie, com clareza, a existência de uma guerra híbrida: os think tanks
financiados por dólares, as bets como lavanderia e instrumento de
endividamento, os vazamentos seletivos, a mídia que distorce. O Brasil precisa
saber o que está acontecendo.
A
população está atenta. Endividada, sim. Insatisfeita, sim. Mas atenta. E talvez
seja essa a maior ameaça para quem aposta na desinformação: um povo que, mesmo
sufocado, começa a enxergar a engrenagem por trás do caos.
A
pergunta não é mais se há ingerência externa. A pergunta é: o que o Estado
brasileiro vai fazer com a verdade que já está documentada?
Fonte:
Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247/Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário