quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Se Flávio ganhar, Brasil sairá do BRICS sob exigência americana, diz analista do Clube Valdai

Nesta semana, especialistas de diversos países estão reunidos na XXIII Reunião Anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais, na região de Moscou. Cerca de 120 participantes de 40 países, inclusive do Brasil, participam do fórum, que conta sua história desde o ano de 2004.

Um dos objetivos da reunião, que durará quatro dias – de 28 de setembro a 1º de outubro, é discutir o assunto de controlabilidade e previsibilidade da vida internacional ante a crise de instituições intergovernamentais.

Ao participar da abertura na segunda-feira (28), Fabiano Mielniczuk, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Clube Valdai desde 2013, foca a atenção de que o surgimento da inteligência artificial levou à invenção de novo mecanismo da prática política usada pelos líderes ocidentais. Conforme ele, o Estado liberal ocidental como um todo usa a IA e a ajuda dos grandes conglomerados tecnológicos para projetar seu poder sobre outros Estados e impor uma moralidade única.

"Assim como as alucinações da inteligência artificial, muitos líderes ocidentais combinam palavras que têm vida própria e formulam frases que são logicamente coerentes, mas não têm fundamento na realidade", afirma Fabiano Mielniczuk, e essas "alucinações" ameaçam destruir a humanidade.

No relatório deste ano "Sem pânico: o Estado e responsabilidade pelo futuro", apresentado durante a sessão de abertura na segunda-feira (28), os autores apontam caos como característica assustadora da atual política internacional. Porém, na opinião deles, o Estado serve como instrumento para proteger o ser humano de incertezas.

Em entrevista à Sputnik Brasil no âmbito da reunião, Fabiano Mielniczuk detalhou as conclusões do relatório anual, ressaltando o papel que o Estado voltou a desempenhar com o avanço do desenvolvimento tecnológico no mundo. Chegou a hora em que é necessário pensar em limites, já que a tecnologia traz tanto possibilidades ilimitadas como riscos infinitos, enfatiza ele.

"Acho que a grande questão desse ano nos debates aqui é de que o Estado, que por muito tempo foi desmerecido como um ator que não seria importante na história no fim da Guerra Fria, volta a ter um protagonismo, e volta a ter um protagonismo fundamentado em questões éticas e questões morais. Sem o Estado para proteger o cidadão contra esse tipo de risco que nós corremos, vai ficar muito difícil de se viver decentemente na Terra."

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Ao fazer o resumo, os atores do relatório mostram otimismo cauteloso, notando que as mudanças drásticas na arena internacional não é um desastre natural, mas sim um motivo para refletir por que as normas anteriores pararam de atender às novas exigências. Através das ações responsáveis é preciso garantir que o futuro seja melhor e não pior, concluíram.

<><> BRICS: coordenação sem intermediação ocidental

O tema do desenvolvimento do BRICS e o crescimento de peso do agrupamento na arena internacional, inclusive após a adesão de novos membros, também não foi negligenciado pelos analistas às margens da reunião. O que acontece dentro do BRICS não é simplesmente o processo da desdolarização, destacou em entrevista à Sputnik Brasil Gustavo de Carvalho, chefe do programa em diplomacia e governança africana no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais.

"É um processo de diversificação de mecanismos e sistemas quando começamos a ver o sistema do dólar americano não como um bem comum global, mas sim como uma ferramenta política que pode ser utilizada beneficamente muitas vezes, mas crescentemente vista de uma forma muito mais arriscada."

Para o analista, esse processo de diversificação de mecanismos serve para criar complementariedade em que membros transacionem internacionalmente de uma forma muito mais benéfica a si próprios.

Fabiano Mielniczuk acrescentou também que o BRICS, apesar de não ser uma aliança militar, serve como uma plataforma de coordenação dos seus membros, inclusive membros que têm problemas militares. Ele lembra episódios entre a China e a Índia, os Emirados Árabes Unidos e o Irã, a Etiópia e o Egito, que tinham pontos de discordância, mas que foram ou estão sendo intermediados dentro do BRICS.

"O BRICS tem uma grande vantagem, que ele é uma plataforma de coordenação entre países em desenvolvimento e países do Sul Global, que não precisa de intermediação dos países do Norte Global, dos Estados Unidos ou dos europeus, para que ela exista. [...] Os [países do] BRICS servem sim, eles contribuem sim para a maior estabilidade regional no mundo a partir de uma negociação que não é mediada pelo Ocidente, que muitas vezes tem interesse em criar conflitos, não resolver."

<><> Eleição brasileira: dois cenários

O lema da reunião do Clube Valdai deste ano é "Responsabilidade pelo futuro: limites do possível ou possibilidades ilimitadas?", e deve estar ressoando com todos os brasileiros que decidirão seu futuro na eleição geral já neste fim de semana.

Fabiano Mielniczuk prevê dois cenários que podem ser vislumbrados. Caso o presidente atual seja reeleito, na opinião do analista, o Brasil terá uma postura mais corajosa em busca de aliados.

"O Brasil fez de tudo nesses últimos anos para não criar problemas com os Estados Unidos, mas os Estados Unidos criaram problemas com o Brasil. Então eu acredito que o presidente Lula, se ele for reeleito, ele vai ter uma política mais assertiva e favorável ao BRICS, à Rússia e à China, até para contrabalançar um pouco esse poder que os americanos exercem no nosso continente."

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Entretanto, a vitória de Flávio Bolsonaro, um candidato bem alinhado aos EUA, mudará os rumos brasileiros, afirma o professor, avaliando uma possível trajetória do país sob novo comando.

"Então provavelmente eles vão entrar no Escudo para as Américas, que é a iniciativa de defesa norte-americana que já conta com uma grande parte dos vizinhos brasileiros. Provavelmente eles vão tentar reforçar a candidatura do Brasil para ser membro da OCDE, que é uma organização fundamentalmente, não é europeia, mas é uma organização que tem essa origem dos países desenvolvidos, e provavelmente eles vão criar entraves na cooperação com a Rússia, a cooperação com a China, e podem, inclusive, sair dos BRICS."

•        Flerte da Europa com Pix e BRICS traz ganho estratégico e de autonomia para o Brasil

O Banco Central do Brasil (BC) e o Banco Central Europeu (BCE) iniciaram um estudo de viabilidade para interligar o Pix ao Tips, o serviço de liquidação de pagamentos instantâneos do Eurosistema, para reduzir custos em operações entre o Brasil e a zona do euro. O projeto é mais um passo do Brasil para ampliar a presença internacional do Pix e conectá-lo a outros sistemas de pagamentos instantâneos.

A iniciativa pode ser um avanço na integração financeira entre Brasil e União Europeia (UE), em um momento em que a corrente de comercial bilateral com o bloco europeu alcançou o maior patamar da série histórica, ao longo dos quatro meses de vigência do acordo Mercosul-UE, chegando a US$ 38,9 bilhões (cerca de R$ 202,2 bilhões) entre maio e agosto de 2026.

A iniciativa vem em um momento em que o BRICS desperta interesse da França, cujo presidente, Emmanuel Macron, defende aproximação entre UE, G7 e BRICS. O mesmo ocorre em outros países europeus fora da UE, como a Sérvia, que manifestou interesse em participar de cúpulas do BRICS; a Turquia, que formalizou pedido de adesão ao grupo; e Belarus, que em 2024 foi acolhido oficialmente como país-parceiro.

À Sputnik Brasil, Gustavo Pessoa, economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que uma conexão entre Pix e Tips, com pagamentos em reais e euros, pode reduzir etapas de intermediação e facilitar essas operações.

Ele aponta que isso teria impacto positivo para os países envolvidos porque governos ganham quando suas empresas e seus cidadãos conseguem fazer negócios com o exterior de maneira menos cara e mais simples. Segundo o economista, há também um ganho de autonomia.

"Brasil e Europa passam a contar com mais alternativas para movimentar recursos entre suas economias, sem depender tanto de redes administradas em outras jurisdições. Isso não elimina bancos e outros prestadores de serviços, mas pode ampliar a concorrência entre eles."

Pessoa observa que o benefício mais concreto seria gastar menos para enviar e receber dinheiro, além de reduzir o tempo dessas operações. "Pense, por exemplo, em alguém que trabalha na Europa e envia parte do salário para a família no Brasil. Se o custo da transferência cair, uma parcela maior desse dinheiro chega à família. Pequenas empresas e profissionais brasileiros que atendem clientes europeus também poderiam se beneficiar."

Porém, isso não quer dizer que agora haverá um "Pix internacional gratuito", uma vez que ainda é preciso apurar a taxa de câmbio oferecida, das tarifas cobradas e da concorrência entre as instituições. "Também será fundamental deixar claro quanto a pessoa pagará, quanto o destinatário receberá e quem será responsável em situações de fraude", pondera.

Segundo Pessoa, a iniciativa indica um interesse internacional crescente em tornar os pagamentos entre países mais rápidos, baratos e eficientes.

"Esses avanços mostram que o Pix despertou interesse internacional, mas não são suficientes para concluir que os EUA estejam perdendo capacidade de pressão."

Ele acrescenta ser possível que existam novas reações dos EUA à movimentação, principalmente se companhias norte-americanas entenderem que a expansão de sistemas públicos de pagamentos representa uma ameaça às suas receitas. Mas considera precipitado afirmar que uma eventual reação norte-americana ocorrerá especificamente por causa da conexão entre Pix e Tips.

"O fato de o projeto estar sendo discutido conjuntamente com o Banco Central Europeu fortalece a interpretação de que estamos diante de uma iniciativa de modernização e integração financeira."

Hugo Garbe, professor e economista-chefe da G11 Finance & Restructuring, avalia que a integração entre Pix e Tips permitiria pagamentos mais rápidos, que facilitariam o comércio, o turismo e investimentos e daria às autoridades melhor capacidade de acompanhar os fluxos dentro das regras de cada país.

Garbe observa que a concorrência entre prestadores pode ampliar esse ganho, desde que parte da economia seja repassada ao usuário. Ele aponta que a iniciativa é uma possível desdolarização de determinados pagamentos: reais e euros poderiam ser usados de forma mais direta nesse corredor. Porém, sublinha que isso não elimina o dólar do comércio internacional, das reservas, do financiamento ou da formação de preços.

"Também é preciso distinguir a moeda que aparece para o cliente da forma como os prestadores obterão liquidez e farão a conversão nos bastidores", afirma.

Na visão de Garbe, o caso mostra que o Pix é uma infraestrutura atraente para estudo, mas destaca que a decisão europeia tem seus próprios objetivos de eficiência e não deve ser interpretada, por si só, como uma resposta política aos EUA.

Em relação ao Brasil, ele aponta que, se a expansão dos sistemas de pagamento instantâneos aumentar a concorrência com empresas americanas de pagamentos, pode desencadear uma reação dos EUA.

"O órgão comercial americano já incluiu serviços de pagamentos eletrônicos em sua investigação e afirmou que políticas brasileiras favoreceriam um concorrente nacional. Essa é a posição do governo dos EUA, não uma prova de que o Pix, em si, seja irregular. A defesa mais sólida da iniciativa é demonstrar regras transparentes, acesso competitivo e benefícios mensuráveis ao consumidor."

Paulo Borba Casella, professor titular de direito internacional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), diz que o Pix é uma evolução brasileira.

Casella, que coordena o Grupo de Estudos sobre o BRICS (GEBRICS), que reúne atualmente 40 pesquisadores, considera que a possível interação com o sistema europeu, assim como se tem falado de fazer o chamado "Pix do BRICS", ou seja, ter mecanismos de pagamento automático entre os países do BRICS, pode ser uma estratégia internacional de grande impacto e relevância.

No entanto, ele considera que o dólar, como referência global e de mecanismo dos EUA para ter seus déficits financiados pelo uso da moeda, está longe de desaparecer.

"Mas, sem dúvida nenhuma, uma evolução como essa é um caminho para a desdolarização. Por isso, há tanta pressão do governo dos EUA contra qualquer sistema que torne secundário ou menos necessário o dólar como referência e moeda de conta para transferências internacionais."

Casella avalia que a irresponsabilidade do governo do presidente estadunidense, Donald Trump, também acelera esse processo, e frisa que países como Japão e China já venderam reservas de títulos que tinham do Tesouro norte-americano por conta disso.

"O atual governo Trump fez um enorme estrago para o próprio país e para os interesses americanos, e a busca de outros canais com menos dependência ao dólar e ao governo dos EUA é um sintoma do comportamento agressivo e unilateralista da atual administração", aponta.

Segundo ele, a medida é vista como uma estratégia razoável para os países que buscam outras formas de atuação no comércio internacional, com menos dependência em relação a um parceiro que não tem se mostrado confiável nem disposto a compor interesses e atuar de uma maneira coordenada.

"Essas demonstrações de força e agressividade nada ajudam o interesse dos próprios americanos", explica Casella.

Ele considera que, diante dessa postura de Washington, o Brasil tem atuado de maneira sensata, não aceitando a ingerência econômica, política e social pretendida pela atual administração.

"É preciso que o Brasil mantenha a linha que tem adotado de defesa da sua soberania, do interesse nacional, e combater ingerências indevidas como têm sido escancaradamente feitas pelo governo Trump."

<><> Europa e o sonho da volta da velha ordem global

Hugo Albuquerque, jurista e analista geopolítico, diz que a eficiência do Pix encanta a Europa, que tinha condições técnicas de criar um sistema similar, mas não o fez por conta das pressões do capital americano.

Ele avalia que, por um lado, a Europa quer fortalecer os vínculos com o Brasil e o Mercosul e outras partes do mundo. Por outro, parece querer ganhar tempo até passar o governo Trump, para que possa retornar à velha ordem global, que era conveniente para os europeus, por ter acesso ao gás russo e exportar bens tecnicamente mais complexos.

"Mas os próprios americanos procuram ocupar o espaço da Europa, e isso faz com que os europeus sejam erráticos. Eles são levados a fazer coisas contra o interesse deles", afirma.

Ele acrescenta que os aliados europeus de Washington não conseguem pensar de maneira muito autônoma e cita como exemplo o caso da Groenlândia, que diz ter sido "praticamente entregue a Trump sem muita resistência", e as declarações do presidente francês, Emmanuel Macron, sobre aproximar o BRICS da UE e do G7.

"Ele acena ao BRICS para talvez mostrar para os americanos que a França teria alguma independência. Não é isso que tem se confirmado, muito pelo contrário. A França toma posições erráticas em relação à Rússia, até posições estridentes, e volta e meia faz movimentos em zigue-zague em relação à China."

Albuquerque acredita que a Europa continua governada pelo establishment liberal e não é capaz de lidar com a pressão dos EUA.

"Se o Trump e essa política de ruptura se estabelecer, os europeus basicamente vão entregar o que eles têm para os EUA. […] Então é muito confuso o jogo europeu, e a Europa só vai mudar se basicamente as atuais forças hegemônicas no continente perderem o controle."

Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec DF, a aproximação comercial com a Europa, tanto no estudo sobre a integração do Pix quanto no aumento da relação comercial, favorece o Brasil, que consegue aprofundar relações econômicas relevantes sem ficar excessivamente dependente de um único parceiro.

"Quanto mais parceiros relevantes o Brasil tiver, menor será o custo de dizer 'não' a qualquer um deles. O ganho estratégico da Europa para o Brasil está justamente aí: ela não precisa substituir EUA ou China para ser importante. Ela amplia o espaço de escolha brasileiro", explica.

Galvão acrescenta que há uma razão econômica e outra geopolítica para a Europa estar se voltando ao Sul Global, que ele frisa não ser mais apenas destino de exportações e fonte de matérias-primas, mas um espaço de tecnologia, capital político e poder de negociação.

Segundo ele, economicamente, a Europa precisa diversificar mercados e cadeias de fornecimento. Por outro lado, geopoliticamente, precisa construir relações com países que ganharam capacidade de influenciar negociações internacionais.

"O interesse europeu por sistemas como o Pix também deve ser visto nesse contexto, embora com cuidado. O BCE está estudando conexões não só com o Brasil, mas também com Índia, Suíça e redes multilaterais de pagamentos. Portanto, não se trata de uma escolha geopolítica isolada pelo Brasil, e sim de uma estratégia mais ampla de interligação financeira."

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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