Se
Flávio ganhar, Brasil sairá do BRICS sob exigência americana, diz analista do
Clube Valdai
Nesta
semana, especialistas de diversos países estão reunidos na XXIII Reunião Anual
do Clube Valdai de Discussões Internacionais, na região de Moscou. Cerca de 120
participantes de 40 países, inclusive do Brasil, participam do fórum, que conta
sua história desde o ano de 2004.
Um dos
objetivos da reunião, que durará quatro dias – de 28 de setembro a 1º de
outubro, é discutir o assunto de controlabilidade e previsibilidade da vida
internacional ante a crise de instituições intergovernamentais.
Ao
participar da abertura na segunda-feira (28), Fabiano Mielniczuk, professor de
ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e
membro do Clube Valdai desde 2013, foca a atenção de que o surgimento da
inteligência artificial levou à invenção de novo mecanismo da prática política
usada pelos líderes ocidentais. Conforme ele, o Estado liberal ocidental como
um todo usa a IA e a ajuda dos grandes conglomerados tecnológicos para projetar
seu poder sobre outros Estados e impor uma moralidade única.
"Assim
como as alucinações da inteligência artificial, muitos líderes ocidentais
combinam palavras que têm vida própria e formulam frases que são logicamente
coerentes, mas não têm fundamento na realidade", afirma Fabiano
Mielniczuk, e essas "alucinações" ameaçam destruir a humanidade.
No
relatório deste ano "Sem pânico: o Estado e responsabilidade pelo
futuro", apresentado durante a sessão de abertura na segunda-feira (28),
os autores apontam caos como característica assustadora da atual política
internacional. Porém, na opinião deles, o Estado serve como instrumento para
proteger o ser humano de incertezas.
Em
entrevista à Sputnik Brasil no âmbito da reunião, Fabiano Mielniczuk detalhou
as conclusões do relatório anual, ressaltando o papel que o Estado voltou a
desempenhar com o avanço do desenvolvimento tecnológico no mundo. Chegou a hora
em que é necessário pensar em limites, já que a tecnologia traz tanto
possibilidades ilimitadas como riscos infinitos, enfatiza ele.
"Acho
que a grande questão desse ano nos debates aqui é de que o Estado, que por
muito tempo foi desmerecido como um ator que não seria importante na história
no fim da Guerra Fria, volta a ter um protagonismo, e volta a ter um
protagonismo fundamentado em questões éticas e questões morais. Sem o Estado
para proteger o cidadão contra esse tipo de risco que nós corremos, vai ficar
muito difícil de se viver decentemente na Terra."
©
telegram SputnikBrasil
Ao
fazer o resumo, os atores do relatório mostram otimismo cauteloso, notando que
as mudanças drásticas na arena internacional não é um desastre natural, mas sim
um motivo para refletir por que as normas anteriores pararam de atender às
novas exigências. Através das ações responsáveis é preciso garantir que o
futuro seja melhor e não pior, concluíram.
<><>
BRICS: coordenação sem intermediação ocidental
O tema
do desenvolvimento do BRICS e o crescimento de peso do agrupamento na arena
internacional, inclusive após a adesão de novos membros, também não foi
negligenciado pelos analistas às margens da reunião. O que acontece dentro do
BRICS não é simplesmente o processo da desdolarização, destacou em entrevista à
Sputnik Brasil Gustavo de Carvalho, chefe do programa em diplomacia e
governança africana no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais.
"É
um processo de diversificação de mecanismos e sistemas quando começamos a ver o
sistema do dólar americano não como um bem comum global, mas sim como uma
ferramenta política que pode ser utilizada beneficamente muitas vezes, mas
crescentemente vista de uma forma muito mais arriscada."
Para o
analista, esse processo de diversificação de mecanismos serve para criar
complementariedade em que membros transacionem internacionalmente de uma forma
muito mais benéfica a si próprios.
Fabiano
Mielniczuk acrescentou também que o BRICS, apesar de não ser uma aliança
militar, serve como uma plataforma de coordenação dos seus membros, inclusive
membros que têm problemas militares. Ele lembra episódios entre a China e a
Índia, os Emirados Árabes Unidos e o Irã, a Etiópia e o Egito, que tinham
pontos de discordância, mas que foram ou estão sendo intermediados dentro do
BRICS.
"O
BRICS tem uma grande vantagem, que ele é uma plataforma de coordenação entre
países em desenvolvimento e países do Sul Global, que não precisa de
intermediação dos países do Norte Global, dos Estados Unidos ou dos europeus,
para que ela exista. [...] Os [países do] BRICS servem sim, eles contribuem sim
para a maior estabilidade regional no mundo a partir de uma negociação que não
é mediada pelo Ocidente, que muitas vezes tem interesse em criar conflitos, não
resolver."
<><>
Eleição brasileira: dois cenários
O lema
da reunião do Clube Valdai deste ano é "Responsabilidade pelo futuro:
limites do possível ou possibilidades ilimitadas?", e deve estar ressoando
com todos os brasileiros que decidirão seu futuro na eleição geral já neste fim
de semana.
Fabiano
Mielniczuk prevê dois cenários que podem ser vislumbrados. Caso o presidente
atual seja reeleito, na opinião do analista, o Brasil terá uma postura mais
corajosa em busca de aliados.
"O
Brasil fez de tudo nesses últimos anos para não criar problemas com os Estados
Unidos, mas os Estados Unidos criaram problemas com o Brasil. Então eu acredito
que o presidente Lula, se ele for reeleito, ele vai ter uma política mais
assertiva e favorável ao BRICS, à Rússia e à China, até para contrabalançar um
pouco esse poder que os americanos exercem no nosso continente."
©
telegram SputnikBrasil
Entretanto,
a vitória de Flávio Bolsonaro, um candidato bem alinhado aos EUA, mudará os
rumos brasileiros, afirma o professor, avaliando uma possível trajetória do
país sob novo comando.
"Então
provavelmente eles vão entrar no Escudo para as Américas, que é a iniciativa de
defesa norte-americana que já conta com uma grande parte dos vizinhos
brasileiros. Provavelmente eles vão tentar reforçar a candidatura do Brasil
para ser membro da OCDE, que é uma organização fundamentalmente, não é
europeia, mas é uma organização que tem essa origem dos países desenvolvidos, e
provavelmente eles vão criar entraves na cooperação com a Rússia, a cooperação
com a China, e podem, inclusive, sair dos BRICS."
• Flerte da Europa com Pix e BRICS traz
ganho estratégico e de autonomia para o Brasil
O Banco
Central do Brasil (BC) e o Banco Central Europeu (BCE) iniciaram um estudo de
viabilidade para interligar o Pix ao Tips, o serviço de liquidação de
pagamentos instantâneos do Eurosistema, para reduzir custos em operações entre
o Brasil e a zona do euro. O projeto é mais um passo do Brasil para ampliar a
presença internacional do Pix e conectá-lo a outros sistemas de pagamentos
instantâneos.
A
iniciativa pode ser um avanço na integração financeira entre Brasil e União
Europeia (UE), em um momento em que a corrente de comercial bilateral com o
bloco europeu alcançou o maior patamar da série histórica, ao longo dos quatro
meses de vigência do acordo Mercosul-UE, chegando a US$ 38,9 bilhões (cerca de
R$ 202,2 bilhões) entre maio e agosto de 2026.
A
iniciativa vem em um momento em que o BRICS desperta interesse da França, cujo
presidente, Emmanuel Macron, defende aproximação entre UE, G7 e BRICS. O mesmo
ocorre em outros países europeus fora da UE, como a Sérvia, que manifestou
interesse em participar de cúpulas do BRICS; a Turquia, que formalizou pedido
de adesão ao grupo; e Belarus, que em 2024 foi acolhido oficialmente como
país-parceiro.
À
Sputnik Brasil, Gustavo Pessoa, economista e professor da Fundação Getulio
Vargas (FGV), avalia que uma conexão entre Pix e Tips, com pagamentos em reais
e euros, pode reduzir etapas de intermediação e facilitar essas operações.
Ele
aponta que isso teria impacto positivo para os países envolvidos porque
governos ganham quando suas empresas e seus cidadãos conseguem fazer negócios
com o exterior de maneira menos cara e mais simples. Segundo o economista, há
também um ganho de autonomia.
"Brasil
e Europa passam a contar com mais alternativas para movimentar recursos entre
suas economias, sem depender tanto de redes administradas em outras
jurisdições. Isso não elimina bancos e outros prestadores de serviços, mas pode
ampliar a concorrência entre eles."
Pessoa
observa que o benefício mais concreto seria gastar menos para enviar e receber
dinheiro, além de reduzir o tempo dessas operações. "Pense, por exemplo,
em alguém que trabalha na Europa e envia parte do salário para a família no
Brasil. Se o custo da transferência cair, uma parcela maior desse dinheiro
chega à família. Pequenas empresas e profissionais brasileiros que atendem
clientes europeus também poderiam se beneficiar."
Porém,
isso não quer dizer que agora haverá um "Pix internacional gratuito",
uma vez que ainda é preciso apurar a taxa de câmbio oferecida, das tarifas
cobradas e da concorrência entre as instituições. "Também será fundamental
deixar claro quanto a pessoa pagará, quanto o destinatário receberá e quem será
responsável em situações de fraude", pondera.
Segundo
Pessoa, a iniciativa indica um interesse internacional crescente em tornar os
pagamentos entre países mais rápidos, baratos e eficientes.
"Esses
avanços mostram que o Pix despertou interesse internacional, mas não são
suficientes para concluir que os EUA estejam perdendo capacidade de
pressão."
Ele
acrescenta ser possível que existam novas reações dos EUA à movimentação,
principalmente se companhias norte-americanas entenderem que a expansão de
sistemas públicos de pagamentos representa uma ameaça às suas receitas. Mas
considera precipitado afirmar que uma eventual reação norte-americana ocorrerá
especificamente por causa da conexão entre Pix e Tips.
"O
fato de o projeto estar sendo discutido conjuntamente com o Banco Central
Europeu fortalece a interpretação de que estamos diante de uma iniciativa de
modernização e integração financeira."
Hugo
Garbe, professor e economista-chefe da G11 Finance & Restructuring, avalia
que a integração entre Pix e Tips permitiria pagamentos mais rápidos, que
facilitariam o comércio, o turismo e investimentos e daria às autoridades
melhor capacidade de acompanhar os fluxos dentro das regras de cada país.
Garbe
observa que a concorrência entre prestadores pode ampliar esse ganho, desde que
parte da economia seja repassada ao usuário. Ele aponta que a iniciativa é uma
possível desdolarização de determinados pagamentos: reais e euros poderiam ser
usados de forma mais direta nesse corredor. Porém, sublinha que isso não
elimina o dólar do comércio internacional, das reservas, do financiamento ou da
formação de preços.
"Também
é preciso distinguir a moeda que aparece para o cliente da forma como os
prestadores obterão liquidez e farão a conversão nos bastidores", afirma.
Na
visão de Garbe, o caso mostra que o Pix é uma infraestrutura atraente para
estudo, mas destaca que a decisão europeia tem seus próprios objetivos de
eficiência e não deve ser interpretada, por si só, como uma resposta política
aos EUA.
Em
relação ao Brasil, ele aponta que, se a expansão dos sistemas de pagamento
instantâneos aumentar a concorrência com empresas americanas de pagamentos,
pode desencadear uma reação dos EUA.
"O
órgão comercial americano já incluiu serviços de pagamentos eletrônicos em sua
investigação e afirmou que políticas brasileiras favoreceriam um concorrente
nacional. Essa é a posição do governo dos EUA, não uma prova de que o Pix, em
si, seja irregular. A defesa mais sólida da iniciativa é demonstrar regras
transparentes, acesso competitivo e benefícios mensuráveis ao consumidor."
Paulo
Borba Casella, professor titular de direito internacional da Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo (USP), diz que o Pix é uma evolução
brasileira.
Casella,
que coordena o Grupo de Estudos sobre o BRICS (GEBRICS), que reúne atualmente
40 pesquisadores, considera que a possível interação com o sistema europeu,
assim como se tem falado de fazer o chamado "Pix do BRICS", ou seja,
ter mecanismos de pagamento automático entre os países do BRICS, pode ser uma
estratégia internacional de grande impacto e relevância.
No
entanto, ele considera que o dólar, como referência global e de mecanismo dos
EUA para ter seus déficits financiados pelo uso da moeda, está longe de
desaparecer.
"Mas,
sem dúvida nenhuma, uma evolução como essa é um caminho para a desdolarização.
Por isso, há tanta pressão do governo dos EUA contra qualquer sistema que torne
secundário ou menos necessário o dólar como referência e moeda de conta para
transferências internacionais."
Casella
avalia que a irresponsabilidade do governo do presidente estadunidense, Donald
Trump, também acelera esse processo, e frisa que países como Japão e China já
venderam reservas de títulos que tinham do Tesouro norte-americano por conta
disso.
"O
atual governo Trump fez um enorme estrago para o próprio país e para os
interesses americanos, e a busca de outros canais com menos dependência ao
dólar e ao governo dos EUA é um sintoma do comportamento agressivo e
unilateralista da atual administração", aponta.
Segundo
ele, a medida é vista como uma estratégia razoável para os países que buscam
outras formas de atuação no comércio internacional, com menos dependência em
relação a um parceiro que não tem se mostrado confiável nem disposto a compor
interesses e atuar de uma maneira coordenada.
"Essas
demonstrações de força e agressividade nada ajudam o interesse dos próprios
americanos", explica Casella.
Ele
considera que, diante dessa postura de Washington, o Brasil tem atuado de
maneira sensata, não aceitando a ingerência econômica, política e social
pretendida pela atual administração.
"É
preciso que o Brasil mantenha a linha que tem adotado de defesa da sua
soberania, do interesse nacional, e combater ingerências indevidas como têm
sido escancaradamente feitas pelo governo Trump."
<><>
Europa e o sonho da volta da velha ordem global
Hugo
Albuquerque, jurista e analista geopolítico, diz que a eficiência do Pix
encanta a Europa, que tinha condições técnicas de criar um sistema similar, mas
não o fez por conta das pressões do capital americano.
Ele
avalia que, por um lado, a Europa quer fortalecer os vínculos com o Brasil e o
Mercosul e outras partes do mundo. Por outro, parece querer ganhar tempo até
passar o governo Trump, para que possa retornar à velha ordem global, que era
conveniente para os europeus, por ter acesso ao gás russo e exportar bens
tecnicamente mais complexos.
"Mas
os próprios americanos procuram ocupar o espaço da Europa, e isso faz com que
os europeus sejam erráticos. Eles são levados a fazer coisas contra o interesse
deles", afirma.
Ele
acrescenta que os aliados europeus de Washington não conseguem pensar de
maneira muito autônoma e cita como exemplo o caso da Groenlândia, que diz ter
sido "praticamente entregue a Trump sem muita resistência", e as
declarações do presidente francês, Emmanuel Macron, sobre aproximar o BRICS da
UE e do G7.
"Ele
acena ao BRICS para talvez mostrar para os americanos que a França teria alguma
independência. Não é isso que tem se confirmado, muito pelo contrário. A França
toma posições erráticas em relação à Rússia, até posições estridentes, e volta
e meia faz movimentos em zigue-zague em relação à China."
Albuquerque
acredita que a Europa continua governada pelo establishment liberal e não é
capaz de lidar com a pressão dos EUA.
"Se
o Trump e essa política de ruptura se estabelecer, os europeus basicamente vão
entregar o que eles têm para os EUA. […] Então é muito confuso o jogo europeu,
e a Europa só vai mudar se basicamente as atuais forças hegemônicas no
continente perderem o controle."
Para
Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec DF, a
aproximação comercial com a Europa, tanto no estudo sobre a integração do Pix
quanto no aumento da relação comercial, favorece o Brasil, que consegue
aprofundar relações econômicas relevantes sem ficar excessivamente dependente
de um único parceiro.
"Quanto
mais parceiros relevantes o Brasil tiver, menor será o custo de dizer 'não' a
qualquer um deles. O ganho estratégico da Europa para o Brasil está justamente
aí: ela não precisa substituir EUA ou China para ser importante. Ela amplia o
espaço de escolha brasileiro", explica.
Galvão
acrescenta que há uma razão econômica e outra geopolítica para a Europa estar
se voltando ao Sul Global, que ele frisa não ser mais apenas destino de
exportações e fonte de matérias-primas, mas um espaço de tecnologia, capital
político e poder de negociação.
Segundo
ele, economicamente, a Europa precisa diversificar mercados e cadeias de
fornecimento. Por outro lado, geopoliticamente, precisa construir relações com
países que ganharam capacidade de influenciar negociações internacionais.
"O
interesse europeu por sistemas como o Pix também deve ser visto nesse contexto,
embora com cuidado. O BCE está estudando conexões não só com o Brasil, mas
também com Índia, Suíça e redes multilaterais de pagamentos. Portanto, não se
trata de uma escolha geopolítica isolada pelo Brasil, e sim de uma estratégia
mais ampla de interligação financeira."
Fonte:
Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário