Por
que cuidar do diabetes pode ser tão difícil? Entenda o impacto da rotina, das
emoções e dos hábitos
Cuidar
do diabetes não envolve apenas saber o que fazer. É preciso incorporar
diferentes cuidados à rotina e, muitas vezes, manter essas decisões por anos.
Alimentação,
atividade física, medicamentos, insulina e monitorização da glicose podem fazer
parte do dia a dia, ao mesmo tempo em que trabalho, família, estudos e outras
responsabilidades continuam acontecendo.
É nesse
encontro entre o tratamento e a vida real que mudar hábitos pode se tornar mais
difícil do que parece.
O
psiquiatra Daniel Martinez, formado pela Universidade de São Paulo (USP) e com
formação internacional em medicina do estilo de vida, explica que existe uma
tendência natural de permanecer nos comportamentos já conhecidos.
“Todo
ser humano tem uma tendência, até por mecanismos de inércia, a se manter na
mesma situação em que estava. Então, quando você quer fazer uma mudança, você
precisa colocar uma energia para começar um novo comportamento e, depois,
manter esse comportamento até que ele se torne um hábito”, explica.
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Por que voltar ao comportamento antigo é tão comum?
Uma
rotina é construída a partir de comportamentos que se repetem. Por isso, quando
alguém decide mudar a alimentação, começar a fazer atividade física ou
organizar melhor os horários dos medicamentos, não está apenas tomando uma
decisão diferente. Está tentando construir um novo padrão.
Na
prática, porém, a vida continua acontecendo enquanto essa mudança é construída.
Um período de trabalho mais intenso, um problema familiar, uma lesão ou uma
fase de maior cansaço podem interromper uma rotina que estava começando a se
estabelecer.
As
recaídas, portanto, fazem parte desse processo. Para Daniel, elas podem
acontecer tanto por situações externas quanto pela própria ambivalência diante
da mudança, quando uma pessoa quer adotar um novo comportamento, mas ainda
sente benefícios ou conforto no antigo.
As
diretrizes da American Diabetes Association (ADA) reconhecem que fatores
comportamentais, emocionais, familiares e sociais podem interferir na
capacidade de manter o autocuidado do diabetes.
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O diagnóstico também exige adaptação
Receber
o diagnóstico de diabetes pode mudar a relação da pessoa com a própria rotina.
Monitorar a glicose, usar medicamentos ou insulina e prestar mais atenção à
alimentação e à atividade física passam a fazer parte do cotidiano.
Essa
adaptação, porém, não acontece apenas no campo prático.
Segundo
Daniel, o diagnóstico pode despertar uma reação de resistência justamente
porque as pessoas tendem a querer manter a sensação de controle sobre a própria
vida.
“Quando
chega um diagnóstico e, de repente, aparecem várias coisas que você precisa
fazer, pode existir uma reação de resistência”, explica.
Frustração,
raiva, tristeza ou sensação de desesperança podem aparecer nesse período. Com o
tempo, porém, a pessoa pode começar a compreender a nova realidade e buscar
maneiras de conviver com ela.
A ADA
recomenda que aspectos psicossociais façam parte do cuidado do diabetes, já que
questões emocionais podem interferir na rotina de tratamento e no autocuidado.
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Saber o que fazer não significa conseguir fazer
Ter
informação sobre diabetes é importante, mas conhecimento não elimina todas as
barreiras da vida cotidiana.
Uma
pessoa pode saber que precisa se movimentar mais, dormir melhor, organizar as
refeições ou acompanhar a glicose e, mesmo assim, encontrar dificuldade para
manter essas práticas.
Tempo
disponível, trabalho, responsabilidades familiares, situação financeira,
cansaço e estado emocional podem interferir diretamente nessa rotina.
Por
isso, não existe uma única mudança que funcione da mesma forma para todo mundo.
Daniel destaca que diferentes aspectos do estilo de vida precisam ser
observados, como sono, alimentação, atividade física, conexão social e
gerenciamento do estresse.
A
pergunta passa a ser menos “o que eu deveria fazer?” e mais “o que está
faltando na minha rotina neste momento?”.
Essa
individualização também aparece nas recomendações da ADA, que orientam
estratégias de cuidado adaptadas às necessidades, preferências e circunstâncias
de cada pessoa.
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A motivação pode fazer diferença
Outro
ponto discutido pelo psiquiatra é a razão por trás de uma mudança.
Fazer
algo apenas porque alguém determinou pode funcionar por um período, mas
encontrar um motivo pessoal pode tornar aquele comportamento mais
significativo. No diabetes, esse motivo pode estar relacionado a objetivos que
vão além dos números da glicose.
Ter
mais disposição para brincar com os filhos, viajar, praticar um esporte,
trabalhar ou simplesmente manter a autonomia são exemplos de razões que podem
ajudar a pessoa a enxergar sentido no cuidado.
Daniel
usa um exemplo simples para explicar essa diferença. Em vez de pensar apenas em
perder peso porque recebeu essa orientação de um profissional, a pessoa pode
relacionar a mudança a algo que realmente deseja viver.
“Quando
eu sei por que aquilo é importante para mim e o que eu quero ganhar com essa
mudança, existe uma possibilidade maior de conseguir sustentar esse
comportamento”, afirma.
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Mudar tudo de uma vez pode dificultar a mudança
Quando
várias mudanças são colocadas em prática ao mesmo tempo, a rotina pode ficar
difícil de sustentar. Por isso, estabelecer objetivos menores e possíveis pode
ser uma alternativa mais realista.
Uma
meta pode ser específica, mensurável, possível de alcançar e ter um prazo
definido. Mas, para Daniel, também precisa fazer sentido para quem vai
colocá-la em prática.
Ele
resume esse princípio em três características: a meta precisa ser autêntica,
afetiva e autônoma. Ou seja, deve ter significado pessoal, alguma conexão
emocional e estar, na medida do possível, sob o controle da própria pessoa.
No
diabetes, isso pode significar começar por uma mudança que realmente caiba
naquela fase da vida, em vez de tentar transformar toda a rotina de uma só vez.
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Quando o cuidado também pesa emocionalmente
Medir a
glicose, tomar medicamentos, aplicar insulina e lidar com resultados diferentes
do esperado são tarefas que podem se repetir diariamente. Com o tempo, esse
cuidado contínuo também pode gerar desgaste.
Esse
sentimento é conhecido como diabetes distress, termo usado para descrever a
sobrecarga emocional relacionada à convivência com o diabetes e às demandas do
tratamento. Ele não é a mesma coisa que depressão ou ansiedade, embora possa
coexistir com esses problemas.
O medo
do resultado da glicemia também pode fazer parte dessa experiência. Algumas
pessoas podem ficar ansiosas antes mesmo de medir a glicose, especialmente
quando existe receio da reação de familiares ou profissionais de saúde.
“Às
vezes, a pessoa fica tão preocupada com o que o médico vai achar daquele
resultado que começa a ter ansiedade antes mesmo de medir a glicemia”, explica
Daniel.
Esse
tipo de preocupação pode prejudicar justamente o objetivo da monitorização, que
é fornecer informações para compreender o que está acontecendo e orientar o
cuidado.
Por
isso, uma comunicação sem julgamento é importante. A ADA recomenda uma
abordagem que reconheça as dificuldades do autocuidado e ajude a pessoa a
encontrar estratégias para lidar com elas.
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Estresse também pode dificultar o autocuidado
O
estresse faz parte da vida, mas períodos prolongados de tensão podem tornar
mais difícil manter comportamentos de cuidado.
Quando
alguém está sobrecarregado, pode ter menos energia para preparar uma refeição,
fazer atividade física, organizar medicamentos ou prestar atenção aos próprios
sinais.
O NIDDK
também destaca que saúde mental, estresse, tristeza e raiva são aspectos que
precisam ser considerados no manejo do diabetes.
Isso
não significa que toda alteração da glicose seja causada pelo estresse. O
controle glicêmico envolve diversos fatores e precisa ser avaliado
individualmente.
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Um dia ruim não apaga todo o caminho
Nem
todos os dias serão iguais. Uma rotina pode funcionar durante algumas semanas e
depois precisar ser adaptada.
Uma
refeição diferente, alguns dias sem atividade física ou um período de maior
dificuldade para seguir o tratamento não precisam significar que todo o
processo foi perdido.
Para
Daniel, antes de abandonar uma mudança, também é importante perceber quando o
corpo e a mente precisam de uma pausa.
“Antes
de desistir, você se certifica que você parou para descansar. Recupera o
fôlego”, afirma.
Depois
de uma pausa, a retomada também não precisa acontecer exatamente de onde a
pessoa parou. Recomeçar aos poucos pode fazer parte da construção de uma rotina
sustentável.
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Comparar com outras pessoas pode esconder o próprio progresso
As
redes sociais também podem influenciar a forma como uma pessoa enxerga o
próprio cuidado.
É comum
encontrar conteúdos de pessoas mostrando resultados, exercícios, alimentação
organizada ou números considerados bons. Esse recorte, porém, não mostra
necessariamente as dificuldades que existem por trás daquela rotina.
No
diabetes, a comparação pode ser ainda mais complicada porque tratamentos,
objetivos e condições de vida são diferentes.
Daniel
sugere olhar para a própria trajetória em vez de usar a rotina de outra pessoa
como referência.
“Em vez
de comparar você com aquela pessoa que está na internet e parece estar fazendo
tudo perfeito, compara você com você mesmo”, explica.
Observar
pequenas mudanças e conquistas pode ajudar a reconhecer avanços que passam
despercebidos quando a referência é sempre outra pessoa.
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O diabetes faz parte da vida, mas não define a pessoa
O
tratamento ocupa espaço na rotina, mas não precisa ocupar toda a identidade.
A
pessoa continua tendo família, trabalho, estudos, relacionamentos, hobbies,
planos e interesses que não estão relacionados ao diabetes.
Isso
não significa deixar o cuidado de lado. Significa encontrar uma maneira de
fazer com que o tratamento conviva com as outras áreas da vida.
Essa
perspectiva também pode ajudar a construir mudanças mais sustentáveis, porque o
objetivo não é criar uma vida totalmente organizada em torno do diabetes, mas
encontrar espaço para o cuidado dentro da vida que a pessoa realmente tem.
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Não existe uma rotina perfeita
Mudar
hábitos não é apenas decidir fazer diferente. É construir comportamentos que
possam continuar fazendo parte da vida mesmo quando surgirem imprevistos.
No
diabetes, isso pode envolver alimentação, atividade física, sono, monitorização
da glicose, medicamentos, insulina, saúde mental e acompanhamento profissional.
Nem todos esses pontos terão o mesmo peso em todos os momentos.
Por
isso, em vez de tentar mudar tudo de uma vez, pode ser mais útil identificar o
que faz sentido transformar agora e qual passo é possível manter.
A
mudança pode começar pequena. O mais importante é que ela faça sentido para a
realidade de quem precisa colocá-la em prática.
Como
resume Daniel, “toda grande jornada começa com um pequeno passo”.
Fonte:
Um Diabético

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