Soberania
digital e autonomia cognitiva em tempos de eleição
“Chat,
faz um resumo…”
O
direito de pensar, de onde colocar nossa atenção, do que fazer com o
conhecimento socialmente produzido e como refinar as percepções que o mundo nos
apresenta talvez fosse o último dos direitos só nossos, totalmente humano.
Agora, esse território também está em disputa e em risco de ser capturado pelos
tempos de neoliberalismo, extração de dados e tecnossolucionismo nos diferentes
campos da vida. Hoje, a maior parte da vida digital opera na base de sistemas
algorítmicos que modulam o que vemos – e o que não vemos, o que “importa” e até
o que parece possível e impossível dentro da realidade de nossas bolhas
filtradas.
Não é
uma ideia absurda. Pare e se pergunte: qual foi a última vez que você tomou uma
decisão importante de forma autônoma, sem confiar apenas no Google (que já
entrega a resposta curta no topo via IA), ou sem consultar o GPT, Claude ou
qualquer outro de sua preferência? E mesmo sem recorrer diretamente à IA
generativa, parte dos resultados já chega em listas e recomendações ranqueadas
por algoritmos espertinhos e íntimos das nossas escolhas e preferências
pessoais. Quantas vezes por dia, por semana ou por mês você pede que te resumem
um livro, uma tabela, uma análise e, na essência, um pensamento? Às vezes,
sequer pedimos e a sugestão nos alcança mesmo assim. Quantas das decisões
pequenas – e grandes – do seu dia a dia estão sendo delegadas aos sistemas algorítmicos?
Não há nada de errado em buscar fontes de informações. Isso é parte da
construção da inteligência. O que não podemos, é transferir as decisões ou
tomar por verdade absoluta o que uma IA nos diz. Por mais que ela tenha a voz
amigável.
Para
além do cotidiano, qual o risco de delegarmos, também, o que nos constitui
enquanto sociedade democrática, que é a capacidade crítica de analisar, cobrar
e definir os representantes do poder? De entender quem compõem e o que fazem
cada instituição democrática? Há quem aposte que a tecnologia será capaz de
resolver nossos embaraços mais complexos, mas problemas sociais e políticos não
se resolvem apenas com respostas técnicas, ainda que continuemos transferindo a
esses sistemas a tarefa de organizar, interpretar e até responder ao mundo por
nós.
“(…) a
inteligência artificial é, hoje, um agente que modela o conhecimento, a
comunicação e o poder. Essas reconfigurações estão acontecendo no nível social,
da expressão política, da cultura, dos entendimentos sobre o corpo humano, das
subjetividades e das identidades: o que somos e o que podemos ser. Mas é
possível ir além. No processo de remapeamento e de intervenção do mundo, a
inteligência artificial é a política por outros meios – ainda que raramente
seja reconhecida como tal. Essa política é conduzida pelas Grandes Casas da IA,
formadas por mais ou menos meia dúzia de empresas que dominam a computação
planetária de larga escala.” (Kate Crawford – Atlas da IA, p. 31-2)
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Soberania digital: uma urgência ou utopia?
Pensar
na soberania digital é pensar em infraestrutura tecnológica, proteção de dados
e/ou desenvolvimento nacional. Tudo isso importa, mas precisamos trazer a
faceta política desse conceito.
A
soberania digital popular deve ser entendida como um projeto de democratização
das relações de poder na sociedade contemporânea.
Inspirada
na formulação da Via Campesina sobre soberania alimentar, essa perspectiva
desloca a noção de soberania da capacidade exclusiva do Estado para a
capacidade coletiva dos povos de decidir sobre as condições materiais e
políticas que tornam possível a reprodução da vida. Se a soberania alimentar
questiona a concentração da terra, das sementes e da produção agrícola nas mãos
de grandes corporações, a soberania digital deve questionar a concentração de
dados, algoritmos, infraestrutura computacional e plataformas digitais nas mãos
de poucas empresas transnacionais. A disputa tecnológica é inseparável da
disputa democrática e da emancipação de grupos historicamente minorizados e
marginalizados.
A
perspectiva de democracia radical de Laclau e Mouffe pode nos ajudar nesse
debate, pois, na medida em a política ou o político (melhor dizendo) tem em sua
ontologia o conflito, portanto, impossível de ser eliminado – seja por meio um
consenso racional ou uma revolução conduzida por um sujeito privilegiado – é
pela articulação contingencial, de múltiplas e não estabelecidas a priori
demandas, e pela institucionalização do dissenso, que radicalizaríamos os
princípios ético-políticos de igualdade, liberdade e soberania popular.
Mas
essa radicalização democrática se coloca em disputa em um contexto de produção
e reprodução da vida social. No capitalismo contemporâneo não temos apenas uma
inovação tecnológica (nunca foi) e novas formas de acumulação de capital, mas
também uma incidência nas relações de dominação. Como disse Shoshana Zuboff, é
quando a experiência humana se torna matéria-prima econômica, quando dados
comportamentais deixam de servir apenas para conhecer os indivíduos e passam a
orientar mecanismos de previsão e modificação de condutas, estabelecendo uma
nova forma de poder baseada na vigilância permanente.
Essas
relações continuam e reiteram estruturas patriarcais, raciais e coloniais.
Assim, defender a soberania digital popular implica também defender uma agenda
comprometida com a redistribuição do poder e com a ampliação das condições
democráticas de participação.
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Do prompt à resposta pronta
Precisamos
reconhecer que a inteligência artificial existe e tem potencial para ser uma
extensão da mente humana, contribuindo com o que ela é capaz de contribuir:
reconhecimento de padrões, processa dados, analisa volumes de informações e
simplifica ideias. Elas podem “raciocinar”, trazer soluções, gerar novas
hipóteses e combinações. Mas não vivem e não podem experienciar o que é,
exclusivamente, humano.
Existe
uma forma de captar ideias, movimentos e informações que é só nossa e surgem
pelo corpóreo, pelo estar vivo. Junto a isso, temos a cultura, o existir social
e a sensibilidade e a capacidade de reconstituir fatos, memórias e conceitos.
As vivências que passamos no corpo, na pele e na mente é o que faz com que
observemos o mundo para repensá-lo, como se fosse a primeira vez. Desses
exercícios nasce o novo e a originalidade. E há ainda o que só é possível na
vida em sociedade: agimos sobre o mundo e somos capazes de refletir sobre esse
agir, rever escolhas e transformar os sentidos que produzimos coletivamente.
Quanto
mais exercitamos essa capacidade de observar, interpretar, duvidar, coexistir e
construir nossas próprias relações entre as coisas, mais desenvolvemos o
pensamento crítico. E menos dependentes nos tornamos dos prompts e das
respostas prontas.
“(…) a
IA não é nem inteligente nem artificial. Em vez disso, ela é corpórea e
material, feita com recursos naturais, combustíveis, trabalho, infraestrutura,
logística e classificações humanas. (…) seus sistemas são, em última instância,
projetados para servir aos interesses dominantes. Nesse sentido, a inteligência
artificial é um registro de poder.” (Kate Crawford – Atlas da IA, p. 19)
Esses
interesses dominantes se chocam com o que buscamos recuperar aqui: a autonomia.
Ela não pode ser pensada apenas no plano individual. Há uma disputa coletiva
sobre quem define essas infraestruturas, sistemas e formas de mediação. A
autonomia cognitiva passa, também, pela soberania digital. E recuperar a
autonomia cognitiva assusta o status quo. Imagina só tomar para si as próprias
escolhas? Se serão as melhores ou não, nem sempre. Mas serão nossas.
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E as eleições nessa história?
Tudo
que discutimos até aqui é urgente, mas em tempos de eleições, o alerta ressoa
ainda mais alto. Se começamos a pedir para as IAs ou qualquer outro agente
tecnológico decidam ou deem palpite no nosso voto, como responsabilizar, cobrar
ou acompanhar os elegidos? No limite, será que estamos desresponsabilizando a
nós mesmos dessa decisão? Aliás, você se lembra em quem votou para Senador ou
Deputado Federal e Estadual em 2022?
Uma
pesquisa do Projeto Brief mostrou que quase 63% dos entrevistados consideram
consultar uma ferramenta de IA para ter informações sobre candidatos. Entre os
brasileiros que já usam a IA várias vezes ao dia, 31,5% tratariam a ferramenta
como fonte útil e 42,2% consultaram com checagem posterior. Por mais que sejam
números altos, é importante dizer que a desconfiança existe. 3 em 4 pessoas
acreditam que há risco de manipulação eleitoral por IA. Em tempos de deepfake,
onde não sabemos de quem é a voz ou a imagem em um vídeo, essa é uma
preocupação crescente.
As
regras eleitorais deste ano já mostram que o Tribunal Superior Eleitoral
entendeu o problema. Em março, foi determinada a proibição de sistemas de
inteligência artificial para ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar
candidaturas e partidos – mesmo quando é o próprio usuário quem pede, assim
como indicar preferência ou recomendar voto. A escolha, pelo menos na norma,
precisa continuar sendo nossa.
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Regulação é só o começo da conversa
Há
quase 10 anos, o pesquisador Evgeny Morozov já nos avisava que o controle da
tecnologia era sinônimo de controlar os caminhos da sociedade e,
invariavelmente, da política e do poder.
“(…)
quem domina a tecnologia mais avançada também domina o mundo. A tarefa futura
da política progressista, no Brasil e em outras partes, deve ser a de
desenvolver uma estratégia para assegurar esse controle – evidentemente, por
meios democráticos” (Evgeny Morozov – Big Tech: a ascensão dos dados e a morte
da política, p. 11)
A
tarefa de regulação ainda é árdua, estamos longe do fim. E mesmo entendendo que
esse é um passo necessário, já sabemos ser insuficiente sozinho. Medidas de
responsabilização, transparência algorítmica, deveres de cuidado e mitigação de
riscos sistêmicos podem reduzir danos relevantes, especialmente para grupos
historicamente vulnerabilizados.
Entretanto,
enquanto permanecer inalterada a lógica econômica baseada na extração de dados,
na captura da atenção e na mercantilização das interações sociais, os
incentivos para a produção e circulação de conteúdos polarizadores, violentos e
discriminatórios continuarão estruturalmente presentes. Nessa perspectiva,
construir alternativas ao modelo proprietário das grandes plataformas deixam de
ser agendas separadas. São dimensões complementares de um mesmo projeto de
radicalização democrática, no qual a soberania digital popular pressupõe criar
novas instituições, novas infraestruturas e novas formas de mediação
tecnológica comprometidas com a igualdade, a pluralidade e a emancipação
política.
Se esse
artigo ajudar a gente a caminhar – ou ao menos pensar – nessa direção, já valeu
o esforço cognitivo.
Fonte:
Por Athiana Chicarino e Priscila Silvério, no Le Monde

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