Flávio
Bolsonaro e os ecos de Epstein
Corrupção,
dinheiro público, interesses privados, relações pessoais, questões sexuais e
uma moral religiosa mobilizada como arma política. O texto percorre documentos,
personagens, alianças e episódios que expõem o abismo entre o discurso público
e as relações concretas de poder. No centro dessa engrenagem estão referências
à “sodomia”, ataques feitos em nome da fé, conexões políticas incômodas e a
permanente mistura entre patrimônio público, conveniência privada e moralidade
seletiva. Não se trata de fabricar equivalências, mas de seguir os fatos até
onde eles levam e perguntar o que resta da imagem pública quando o verniz
religioso encontra os documentos.
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A fé, o dinheiro e os bastidores
Flávio
Bolsonaro chega à reta final da campanha com um inquérito aberto no Supremo por
suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A investigação
alcança a captação de dezenas de milhões de reais para um filme sobre Jair
Bolsonaro junto a Daniel Vorcaro, banqueiro que acabaria preso, e se cruza com
conversas recuperadas pela Polícia Federal, menções a sucessivos encontros e
cobranças por pagamentos. Em outra frente, um ex-sócio preservou áudios,
fotografias, notas fiscais e registros da vida privada do senador. Ao redor
dessas histórias reaparecem Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, a antiga loja
de chocolates, o Banco Master, fundos no exterior e investidores privados. É o
mesmo político que construiu sua imagem sobre Deus, família, ordem e
moralidade. O interesse jornalístico não está na contradição moral por si só.
Está no momento em que a moral vira capital político e relações privadas
começam a tocar dinheiro, acesso, favores e Estado.
Jeffrey
Epstein entra nesta história apenas nesse ponto. Não há evidência de que Flávio
Bolsonaro tenha participado dos crimes sexuais de Epstein, e sugerir isso seria
falso. O eco está no mecanismo que o caso Epstein expôs de forma extrema:
elites capazes de converter riqueza em proximidade, proximidade em acesso e
intimidade em instrumento de poder. Sexo, segredo e dinheiro podem pertencer à
esfera privada até o instante em que passam a abrir portas, produzir
dependências ou criar vulnerabilidades. O paralelo não é criminal. Está no modo
como o privilégio se organiza.
No caso
de Flávio, a trilha começa muito antes do Banco Master. Em 2020, o Ministério
Público do Rio o denunciou por organização criminosa, peculato e lavagem de
dinheiro no caso das “rachadinhas”. Segundo a acusação, um esquema envolvendo
doze funcionários de seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa teria
desviado R$ 6,1 milhões dos cofres públicos, com Fabrício Queiroz apontado como
operador financeiro. A denúncia não chegou a julgamento de mérito. Decisões do
STJ e do STF anularam provas por questões relacionadas ao foro e à forma de
obtenção de dados financeiros, o próprio Ministério Público retirou a acusação
e as apurações criminais foram encerradas. Flávio sempre negou ter recolhido
salários de assessores. Esse é o desfecho jurídico. Ele não transforma em
provados os fatos denunciados, mas também não apaga as relações documentadas
que cercaram a investigação.
Queiroz
não era um personagem lateral. Foi assessor de Flávio na Alerj e homem de
confiança de seu gabinete. A mãe e a então mulher de Adriano da Nóbrega
trabalharam para o parlamentar. Adriano, ex-capitão da PM posteriormente
apontado pelo Ministério Público como liderança de milícia, recebeu de Flávio a
Medalha Tiradentes quando estava preso. Segundo as investigações, Danielle
Nóbrega repassou ao menos R$ 150 mil a Queiroz, parte por contas controladas
por Adriano. Mensagens apreendidas pelo Ministério Público também mostraram
integrantes desse círculo tentando manter contato com Adriano quando ele estava
foragido. Isso não autoriza transformar proximidade em culpa. Autoriza
registrar que gabinete, dinheiro, policiais, parentes de um homem apontado como
chefe de milícia e o operador financeiro descrito pela Promotoria aparecem
repetidamente na mesma rede de relações.
Na loja
de chocolates, a suspeita atingiu o fluxo do dinheiro. O Ministério Público
sustentou que a receita da franquia da Kopenhagen da qual Flávio era sócio
havia sido inflada para permitir lavagem de dinheiro. Entre 2015 e 2018, a
administração do shopping registrou faturamento de cerca de R$ 4,9 milhões,
enquanto a conta da empresa recebeu aproximadamente R$ 6,5 milhões. A
diferença, perto de R$ 1,6 milhão, foi uma das questões que ficaram sem
resposta definitiva depois da anulação das provas. O ex-sócio Alexandre Santini
afirmou ainda em processo judicial que Flávio teria recebido R$ 619 mil em
espécie como lucro não declarado à Receita, alegação contestada pelo senador.
Anos depois, o rompimento entre os dois trouxe de volta a mesma sociedade
comercial, agora cercada por cobranças, documentos e registros de uma relação
pessoal desfeita.
O Banco
Master mudou a escala. Flávio admitiu ter procurado Daniel Vorcaro para captar
recursos para “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. O projeto previa
investimento de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação usada nas
tratativas. Reportagens baseadas em mensagens e documentos apontaram repasses
de aproximadamente R$ 61 milhões e, depois, um aporte adicional de cerca de R$
8,5 milhões a um fundo ligado à produção. A Polícia Federal recuperou no
celular de Vorcaro cerca de três meses de conversas com Flávio, com menções a
seis encontros, embora não seja possível confirmar que todos tenham ocorrido. O
histórico mais antigo havia sido apagado automaticamente. Nos registros
preservados há cobranças sobre pagamentos do filme e contatos às vésperas da
prisão do banqueiro. Flávio sustenta que se tratava de investimento privado em
uma obra privada e nega irregularidades.
A
controvérsia já havia deixado o terreno puramente político. Em julho, André
Mendonça autorizou a abertura de inquérito a pedido da Polícia Federal e com
concordância da Procuradoria-Geral da República. A investigação apura suspeitas
de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao
financiamento de “Dark Horse”. Em setembro, documentos tornados públicos
mostraram que Flávio não aparecia apenas citado por terceiros, mas como
interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas. Outra frente revelou que a Entre
Investimentos, empresa ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, enviou
dezenas de milhões de reais ao fundo Havengate nos Estados Unidos. Mineiro,
hoje colaborador das autoridades, tornou-se alvo da Operação Carbono Oculto por
suspeitas de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Nada disso prova,
por si, a culpa de Flávio. Mostra que a história deixou há muito de ser apenas
uma conversa privada sobre cinema.
A
expressão “dinheiro público” exige precisão. Não há prova de que recursos do
Rioprevidência tenham sido transferidos para o filme, e apresentar essa ligação
como comprovada seria incorreto. O que existe é uma sobreposição concreta de
interesses. O fundo previdenciário dos servidores do Rio aplicou cerca de R$
3,7 bilhões em ativos ligados ao Master, enquanto o controlador do banco
destinava dezenas de milhões ao projeto cinematográfico da família Bolsonaro.
As duas operações não formam uma linha de transferência demonstrada. Formam uma
sobreposição que, por si, justifica escrutínio público: patrimônio de
servidores, capital financeiro, acesso a autoridades e um projeto privado de
uma família política aparecem no mesmo conjunto de relações. É exatamente por
isso que a investigação importa.
É no
material atribuído a Alexandre Santini que a esfera privada encosta com mais
força na pública. Reportagem publicada nesta reta final da campanha descreveu
festas privadas, garotas de programa, presentes de alto valor e despesas
bancadas por pessoas próximas a Flávio, além de mensagens, fotografias e
comprovantes preservados pelo ex-sócio. Santini já havia tornado públicas, anos
antes, acusações sobre dinheiro, relógios de luxo e favores, e chegou a cobrar
judicialmente o antigo parceiro comercial. Flávio contestou acusações do
ex-sócio e classificou parte delas como infundada. O corte aqui precisa ser
limpo. A vida sexual de adultos não é matéria de Estado. Torna-se
jornalisticamente relevante quando se mistura a dinheiro, favores, acesso,
dependência ou risco de pressão.
Por
isso, a pergunta não é quem dormiu com quem. É quem pagou, quem guardou o
registro, quem ficou devendo, quem tinha acesso a Brasília e quem tinha algo a
perder se a intimidade viesse a público. Num campo político em que família,
costumes e religião ocupam lugar central no discurso eleitoral, o contraste não
autoriza tribunal sexual. Autoriza uma cobrança política elementar sobre as
relações de dinheiro e poder que cercam a vida privada de quem faz da moral uma
credencial pública.
A
disputa com a Igreja Católica expõe o mesmo problema. É falso que Flávio
Bolsonaro tenha apresentado projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o
título de Padroeira do Brasil. A proposta foi apresentada em 2007 por Victório
Galli e arquivada no ano seguinte. Galli viria a ser assessor especial da
Presidência no governo Jair Bolsonaro e, em 2026, declarou apoio a Flávio. O
vínculo político existe, mas a autoria do projeto não é de Flávio. Essa
distinção não elimina a questão seguinte: o uso político da religião. Em plena
campanha, Flávio acusou “gente de dentro” da CNBB de colaborar com a circulação
da informação falsa sem apresentar publicamente provas, e a entidade negou
participação. Pouco antes, havia prometido que seu primeiro gesto num eventual
governo seria declarar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”, declaração
criticada por um bispo da própria CNBB por colocar em tensão a laicidade do
Estado. A partir daí, a fé deixa de aparecer apenas como convicção pessoal e
entra diretamente na disputa por autoridade política.
Os ecos
de Epstein estão aí, não numa acusação sexual, mas no modo como o privilégio
pode organizar proteção. Dinheiro pode comprar proximidade. Proximidade pode
abrir portas. Intimidade pode produzir vulnerabilidade. Segredos podem ganhar
preço. O caso Flávio reúne episódios de naturezas jurídicas diferentes e seria
desonesto fundi-los numa única culpa. O que o jornalismo pode fazer, e deve
fazer, é colocá-los na mesma mesa e observar a estrutura que aparece:
“rachadinhas” denunciadas e depois encerradas por anulação de provas; relações
documentadas com o entorno de uma liderança miliciana; uma empresa apontada
como possível instrumento de lavagem; um banqueiro sob investigação financiando
um projeto familiar milionário; recursos atravessando fundos no exterior; um
ex-sócio com arquivos íntimos; a religião usada como linguagem de autoridade
moral. Quando tudo isso se encontra, o escândalo não está no pecado. Está no
poder e naquilo que ele consegue comprar, esconder, aproximar e proteger.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Código Aberto

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