As
preocupações que levaram a OpenAI, do ChatGPT, a abandonar lançamento de novo
sistema de IA
A
OpenAI anunciou que não lançará seu novo modelo de inteligência artificial
devido a preocupações com segurança.
O
sistema GPT-6.1 Astra, que realiza tarefas como navegar na internet e usar
aplicativos de forma autônoma, "não atingiu exatamente o nível
exigido" pelos padrões da empresa, segundo Saachi Jain, responsável pelos
sistemas de segurança da OpenAI.
A
empresa responsável pelo ChatGPT também divulgou uma atualização sobre
incidentes ocorridos em junho, mas que só se tornaram públicos na semana
passada. Na ocasião, seus modelos acessaram sites e sistemas do governo
australiano sem autorização.
O caso
ocorre em meio ao aumento de incidentes envolvendo modelos de grandes empresas
de IA, intensificando o debate sobre os riscos apresentados pela tecnologia —
enquanto a Anthropic, empresa rival da OpenAI, reforça suas preocupações de que
a IA possa representar uma ameaça à humanidade, à medida que se prepara para
abrir seu capital.
A
agência de notícias Reuters informou nesta terça-feira (29/09) que a empresa de
desenvolvimento de IA — responsável pelo Claude, concorrente do ChatGPT —
planeja alertar potenciais investidores em sua Oferta Pública Inicial (IPO) de
que a tecnologia pode representar "riscos catastróficos ou existenciais
para a humanidade", segundo um prospecto ao qual a agência teve acesso.
Apesar
dos alertas contundentes, a empresa deve se tornar uma das mais valiosas do
mundo quando abrir seu capital.
"Acho
meio louco que as empresas continuem avançando no desenvolvimento dessas
capacidades quando já vimos, nos últimos meses, incidentes que mostram que elas
estão longe de ser seguras e controladas o suficiente", disse Jess
Whittlestone, consultora sênior de políticas de IA do Centre for Long-Term
Resilience, um centro de estudos especializado no tema.
Líderes
do setor de IA, incluindo o chefe da Anthropic, Dario Amodei, e o CEO da
OpenAI, Sam Altman, pediram que a indústria desacelere o ritmo de
desenvolvimento.
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Crescem as dúvidas sobre a segurança
A
decisão da OpenAI, divulgada inicialmente pelo Wall Street Journal, representa
um caso raro em que uma grande empresa de inteligência artificial adia o
lançamento de um novo modelo por preocupações relacionadas à segurança.
O
modelo ficou aquém "no que diz respeito a permanecer dentro do escopo e da
autorização e à forma como se comunica com o usuário sobre o tipo de trabalho
que realizou", disse Jain.
"Queremos
garantir que o desenvolvimento dos nossos modelos seja seguro,
independentemente de isso ocorrer dentro da empresa ou quando os
disponibilizamos aos usuários. Quando os lançamos para os usuários, temos um
nível extremamente alto de exigência em termos de segurança e
alinhamento", acrescentou.
O GPT-6
Astra é especializado em raciocínio complexo e na execução autônoma de tarefas.
A OpenAI disse que ele foi resultado de "anos de pesquisa e grandes
apostas".
A
OpenAI realizará nesta terça-feira, em San Francisco, sua conferência anual
para desenvolvedores, a DevDay, na qual deve fazer vários anúncios. Não está
claro se uma nova versão do Astra estará entre eles.
Os
controles de segurança da empresa passaram a ser alvo de intenso escrutínio
após vários incidentes de grande repercussão envolvendo sua tecnologia.
Mas
esta não é a primeira vez que uma grande empresa de IA desiste ou adia o
lançamento de um novo modelo.
No
início deste ano, a Anthropic disse que não lançaria um poderoso modelo Claude,
chamado Mythos, porque ele era bom demais em encontrar falhas de software. A
empresa lançou uma versão desse modelo alguns meses depois.
A
OpenAI, por sua vez, disse em 2019 que não seria "perigoso demais"
lançar um de seus modelos GPT, que hoje é usado para alimentar ferramentas como
o ChatGPT.
A
decisão da empresa de não lançar a versão mais recente do Astra foi "um
sinal positivo de que eles estão levando as preocupações com segurança a
sério", disse o professor Tony Cohn, responsável pela área de modelos
fundacionais no Alan Turing Institute.
Mas ele
acrescentou que "a segurança não deveria ficar exclusivamente nas mãos dos
desenvolvedores e também deveria ser monitorada e verificada por órgãos
reguladores independentes, aprovados pelo governo".
A
professora Gina Neff, do Minderoo Centre for Technology and Democracy, da
Universidade de Cambridge, disse que o anúncio da OpenAI mostrou "o quanto
mais a empresa precisa fazer para tornar seus produtos de IA seguros".
Ela
disse à BBC que é "fundamental" haver testes independentes de modelos
de IA realizados por laboratórios como o AI Security Institute, do Reino Unido
— que avalia sistemas de ponta de forma voluntária —, porque "essas
empresas já provaram que não podemos depender exclusivamente delas para
garantir nossa segurança".
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Ataques hackers na Austrália
Na
semana passada, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, anunciou que
um agente da OpenAI havia invadido sites e sistemas do governo em junho, no que
especialistas disseram ser o primeiro caso conhecido desse tipo no mundo.
Albanese
criticou a OpenAI por ter notificado o governo da Austrália por meio de um
endereço de e-mail genérico, em vez de entrar em contato diretamente com as
autoridades.
A
OpenAI disse em um comunicado nesta terça-feira que lamentava o incidente e que
"deveria ter conduzido a resposta de uma maneira melhor".
A
Services Australia, o Bureau de Estatísticas e Pesquisa sobre Crimes de Nova
Gales do Sul, o Departamento de Saúde de Victoria e o Australian Institute of
Health and Welfare foram afetados.
A
empresa disse que iniciou investigações assim que tomou conhecimento dos
problemas, em meados de agosto, e notificou as organizações afetadas entre 10 e
24 de setembro.
"Nosso
objetivo era fornecer às agências afetadas um relato detalhado assim que nossa
investigação fosse concluída", disse a OpenAI, acrescentando que deveria
ter compartilhado as conclusões preliminares mais rapidamente e mantido as
autoridades australianas atualizadas.
A
OpenAI acrescentou que desenvolverá "abordagens práticas" para
definir como desenvolvedores e governos identificarão e divulgarão futuros
incidentes envolvendo IA.
A
empresa financiará medidas de cibersegurança, oferecerá suporte dedicado às
agências afetadas e criará uma força-tarefa para administrar os riscos
decorrentes de agentes de IA cada vez mais avançados.
A
empresa também disse que um de seus principais executivos participará, em 6 de
outubro, de uma audiência do Joint Select Committee sobre IA na Austrália.
Em
julho, a OpenAI disse que seus sistemas de IA haviam acessado a internet e
invadido o Hugging Face, uma plataforma aberta para desenvolvedores, levando
pesquisadores e autoridades a pedir controles mais rígidos sobre a tecnologia.
Na
segunda-feira, a gigante dos chips Nvidia lançou um conjunto de ferramentas de
segurança de software para plataformas de IA autônomas — chamadas de agentes —
que, segundo a empresa, poderiam ter evitado o ataque ao Hugging Face.
Uma das
novas ferramentas usa recursos de hardware dos chips da Nvidia para conter os
agentes.
O chefe
da Nvidia, Jensen Huang, em grande parte rejeitou os pedidos por
regulamentações mais rígidas para a IA, argumentando que agentes que agem de
forma indevida são um problema de engenharia que pode ser solucionado.
A
Nvidia concordou em comprar o Hugging Face por US$ 12,9 bilhões, o equivalente
a R$ 67,38 bilhões, no início deste mês.
O papa
Leão 14, que disse na segunda-feira, durante uma visita à França, que a IA
"deve ser levada a sério", acrescentou que havia lido que Huang havia
sugerido que poderia haver uma maneira de inserir mecanismos de proteção em
determinados modelos de IA.
"Ele
(Huang) é o mesmo que, no entanto, diz que não deveria haver limites impostos
nem regulamentação governamental", afirmou o papa.
A
Nvidia se recusou a comentar o caso.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Câmara, Mike
Johnson, devem receber executivos de empresas de tecnologia na Casa Branca
nesta terça-feira para discutir regulamentações relacionadas à IA.
Trump
minimizou as preocupações sobre os riscos da IA, classificando-as como uma
"farsa" e argumentando que os EUA já têm leis suficientes e que os
únicos "mecanismos de proteção" de que a tecnologia precisa são um
presidente "forte e inteligente".
• O acordo de Trump com a IA renomeia a
'inteligência artificial' para 'superinteligência'
Donald
Trump anunciou na terça-feira que os chefes das maiores empresas de tecnologia
e inteligência artificial dos EUA assinaram um acordo "moralmente
vinculativo" para impor controles à inteligência artificial. Ele anunciou
o acordo, chamado Compromisso Conjunto sobre Responsabilidades de Fronteira,
após um almoço na Casa Branca com os principais executivos de tecnologia.
“É
quase como uma constituição, de certa forma, e as pessoas mais importantes do
mundo a assinaram, e eu a assinei como presidente, e é realmente uma forma de
proteção”, disse Trump.
Trump
também assinou uma ordem executiva renomeando a inteligência artificial para
"superinteligência", semelhante a uma declaração que ele fez nas
Nações Unidas na semana passada.
“A
Ordem determina que todos os departamentos e agências usem os termos
'Superinteligência' e 'SI' em correspondências oficiais, comunicações públicas,
documentos de políticas e documentos não estatutários dentro do Poder Executivo
e que deixem de reconhecer os termos 'Inteligência Artificial' ou 'IA'”,
declarou a ordem.
O
acordo, que Trump sugeriu que permitiria às empresas realizar uma
"autorregulação tremenda" de seus produtos e tecnologias, delineia
uma estrutura vaga sobre como as empresas de IA estabeleceriam padrões de
segurança ao testarem novos produtos. O setor de tecnologia tem enfrentado um
escrutínio público crescente após uma série de incidentes em que grandes
empresas de IA invadiram inadvertidamente organizações externas durante testes
de segurança.
Embora
legisladores, pesquisadores de IA e até mesmo algumas empresas de IA tenham
defendido uma maior supervisão governamental da inteligência artificial, Trump
rejeitou amplamente os apelos por uma maior regulamentação da tecnologia,
citando a concorrência com a China e as ameaças ao crescimento econômico.
O
compromisso conjunto que Trump publicou em sua conta Truth Social na
terça-feira parece não ter mecanismos de imposição ou implicações legais,
sendo, em vez disso, um compromisso voluntário.
O
documento descreve quatro “níveis de controles e auditorias” para empresas de
IA. O primeiro envolve a implementação de monitoramento interno de segurança
durante o treinamento – algo que já existe em grandes laboratórios e que, até o
momento, não conseguiu evitar falhas nos testes. O segundo prevê a capacitação
de uma equipe interna para garantir que o primeiro nível de monitoramento
esteja operando corretamente, enquanto o terceiro concorda em dar a um auditor
externo a capacidade de avaliar os controles de segurança de forma
independente. Por fim, o acordo exige que as empresas designem um conselho
independente para revisar os relatórios sobre esses controles de segurança.
Nenhum
dos controles listados no acordo envolve órgãos reguladores governamentais ou
inclui um compromisso de divulgar publicamente as conclusões de avaliações
independentes. O acordo também parece permitir que as empresas escolham seus
próprios avaliadores, nomeiem seus próprios conselhos de supervisão e decidam
se publicarão ou não seus resultados.
Trump
fez essas declarações após um almoço com líderes do setor de tecnologia,
incluindo Elon Musk, CEO da SpaceX; Mark Zuckerberg , CEO da Meta; Jensen
Huang, CEO da Nvidia; Dario Amodei, CEO da Anthropic; e outros executivos de
destaque da indústria. O setor de tecnologia, que em grande parte se alinhou
com o governo Trump, tem feito lobby contra uma supervisão regulatória
rigorosa, argumentando que isso prejudicaria a economia.
Zuckerberg,
acompanhado por Trump e outros magnatas da tecnologia, disse em uma coletiva de
imprensa após o almoço que estava orgulhoso do acordo e afirmou que ele foi
criado para garantir ao público americano que sua tecnologia era confiável.
“Este é
um começo e um acordo que toda a indústria poderia adotar”, disse Zuckerberg.
“Foi uma conversa histórica.”
Fonte:
BBC News/The Guardian

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