quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Por que a ultradireita não tolera Nossa Senhora Aparecida

Um encontro pequeno em que cabe um país inteiro. Foi em outubro de 1717, números que somam o infinito. Três pescadores, João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, gente humilde, lançaram suas redes nas águas do rio Paraíba do Sul em busca de peixes. A pesca, porém, nada trouxe. Até que a rede voltou com o corpo de uma pequena imagem de barro cozido, sem a cabeça. Lançada novamente, alguns metros adiante, encontraram a cabeça que se encaixava perfeitamente ao corpo de mulher. Depois disso, a pesca farta.

– Um milagre! – disseram.

Assim começou uma das mais profundas histórias culturais do Brasil, não a história dos conquistadores, reis, cardeais ou generais, mas a história de pescadores e de uma imagem resgatada do fundo do rio. Não era uma imagem inteira, perfeita, pronta para ser venerada, não vinha coberta de joias, era uma Nossa Senhora quebrada, escura como a cor dos mamelucos, preta como a cor dos escravizados. Surge o mistério de Aparecida. O barro antes do nome, vindo do rio dos pobres para alimentar a casa dos pobres. Só depois surgiu o santuário. Nasceu primeiro como devoção de poucas famílias, depois, de um povo inteiro.

Uma imagem de terracota em meio a terras barrentas. O tempo, a água, o lodo e a fumaça das velas escureceram suas feições. Negra Santa Mãe de Jesus. Essa negritude, ainda que tenha uma explicação material, ganhou o imaginário brasileiro com uma força que ultrapassa a matéria. A Senhora das águas passou a carregar também a memória dos indígenas, dos negros, dos mestiços, dos pobres, dos caipiras, caiçaras e piraquaras, dos imigrantes, camponeses, professores, artistas e operários, que, durante séculos, fizeram este país sem que o país lhes reconhecesse a autoria. Aparecida não veio por dogmas religiosos, veio como expressão do povo, acolhida pela devoção de nossa gente. Uma diferença essencial entre uma religião institucional e a religiosidade popular, enquanto a primeira organiza a doutrina a segunda inventa caminhos. Desse jeito meio torto, quebrado, o sagrado continua respirando pela imagem de uma mulher, preta, pobre e acolhedora.

A imagem foi levada para uma casa de pau a pique e ali, diante dela, começaram as orações. Depois vieram o pequeno oratório, os agradecimentos, as promessas, as velas, os cantos. A devoção nasceu do povo, cresceu porque nossa gente reconheceu naquela pequena figura alguma coisa de si mesma. Veio “de baixo para cima”, como as grandes expressões da cultura nacional. Chegou em chegança, como a Folia de Reis, que caminha pelas estradas levando a bandeira, a música e a memória do nascimento; como nas Festas do Divino, reunindo comunidade, comida, cortejo, promessa e partilha que faz dela a mais generosa e utópica de todas as festas. O Círio de Nazaré também chega pelas águas amazônicas, infinitas, e transforma Belém em caminho de fé e solidariedade. Está em tantas festas bonitas de nosso Brasil, ultrapassando a dimensão estritamente religiosa e se confundindo com a própria identidade nacional; articula fé e colaboração comunitária, aproxima matrizes católicas e afro-brasileiras numa mesma celebração, junta muitas religiosidades, e até o profano. Não são apenas festas religiosas, são maneiras de um povo lembrar que existe. Devoção é uma forma de coletividade e a devoção à Nossa Senhora Aparecida passa por todas elas; e além. Está nos nomes de Marias e Aparecidas; as donas “Cida” de todas as religiões e Igrejas.

Procuro escrever com poesia e respeito, mas também como pensador da cultura e historiador. O marco legal do patrimônio cultural imaterial brasileiro reconhece a dimensão das celebrações e saberes religiosos como formas de expressão e modos de fazer de nosso povo. De todos os povos, como confirmam resoluções da Unesco. São expressões que não vivem porque foram congeladas, mas porque continuam sendo praticadas, recriadas e transmitidas. Amorosamente. Patrimônio Cultural não é somente aquilo que uma sociedade monumentaliza em pedra, é também aquilo que ela aprende a guardar no corpo, e que fala do fundo d’alma. Aparecida foi guardada no corpo brasileiro, independente de religião. É o sagrado feminino tatuado no corpo de quem caminha, no joelho de quem se ajoelha, na mão de quem acende a vela, na voz de quem canta, no ombro de quem carrega a bandeira. Está no coração daquela gente que provavelmente não saiba explicar teologicamente o que seja um dogma, mas sabe muito bem onde mora a sua esperança.

Como Patrimônio Cultural Imaterial, Nossa Senhora Aparecida é maior do que uma questão confessional, ela pertence ao imaginário brasileiro. Pertence à mulher que acende uma vela e pede proteção para o filho, ao homem que caminha quilômetros pagando uma promessa, à avó (à minha avó!!! – e à tua, e à tua…) que ensina ao neto uma oração. Ao caminhoneiro que leva sua pequena imagem no painel e à família que o aguarda com uma fotografia diante do altar. Nossa Senhora Aparecida é do romeiro que chega cansado, do trabalhador que deposita uma flor. É daquele que acredita, e também daquele que, em não acreditando, reconhece na devoção do outro uma parte da história do país. Será sempre eternizada como a Padroeira do Brasil porque a memória, e a devoção de nosso povo, merece respeito.

Maria não aparece como a mulher poderosa dos palácios, é a mãe que acolhe e jamais abandona o filho e a filha. A presença que permanece quando quase tudo falta. Mãe encontrada nas águas; pode haver maior beleza que isso? O rio entregando ao povo aquilo que parecia perdido, uma imagem quebrada que se torna inteira nas mãos de quem a acolhe. É como se o Brasil, país de tantas quebraduras, reconhecesse naquela pequena imagem o seu próprio retrato. Um país que também nasceu aos pedaços. E foi se juntando, mesmo em meio a tanta maldade, explorações e violências. Esse povo somos nós que nos juntamos por debaixo, na vida caipira ou cafone, no jeito sertanejo ou periférico, das florestas ou das cidades. Santo, encantado, festa, batuque, promessa, viola, terreiro, procissão, feira, cozinha e estrada… Tudo isso num país que nunca coube direito nas molduras que lhe deram. Aparecida também não cabe na moldura.

A grandeza da “Mãezinha do Brasil” não pede riqueza ou títulos de nobreza. Ela é grande porque recebe a promessa do pobre, sua casa é grande porque a porta permanece aberta, para todos e todas; os excluídos à frente. E é justamente essa grandeza e generosidade que a torna incômoda para projetos de sociedade baseados na separação, no desprezo, nos ódios e no medo. De tempos em tempos, poderosos a desafiam. Como o cavaleiro que zombou da fé dos romeiros e procurou entrar na Igreja com seu cavalo. A pata se prendeu na pedra e o derrubou. Séculos depois foi quebrada em duzentos pedaços, e novamente reconstituída, caco a caco. Chutada justamente em seu dia, 12 de outubro de 1995, num programa de televisão sob o nome de “Despertar da Fé”. E o povo, de muitas religiões, se levantou em protesto. Em 2007, um parlamentar com Bíblia na mão tentou alterar a própria formulação legal associada ao título de Padroeira do Brasil; a proposta foi arquivada no ano seguinte. Mas a vontade de quebrar a espinha da devoção popular segue presente. Segue nos ataques e afrontas, nas algazarras em frente à celebração, como em 2022; nas panfletagens e queima de imagens, não só da fé católica, como também às religiões de matriz africana e sincréticas. Tentam impor o “Domínio” em nome da religião em fusão com a política. Avançam um passo, recuam em outro, se desdizem, se desmentem para mentir de novo. E avançam; sorrateiramente.

Há fundamento nas preocupações dos devotos à “Santinha”, e daqueles que a respeitam pelo que significa. Os que a atacam, mesmo recuando, querem transformar aquilo que pertence à memória comum em instrumento de separação. De há uma década estão querendo cindir o Brasil pelo ódio. Como parte dessa Teologia do Domínio, agridem a religiosidade brasileira em suas melhores expressões. A devoção popular é uma religião de comunidade, não de individualismo, por ela a bandeira precisa passar de mão em mão e a comida tem que ser repartida, a porta está sempre aberta e a promessa precisa ser cumprida porque o santo caminha. É uma fé que se realiza no encontro com o outro. Quando atacam a Padroeira do Brasil é nossa alma que se perde.

O povo sabe, mesmo quando não sabe dizer, que santo não tem dono. Nem Nossa Senhora, nem a fé, nem o Brasil. Por isso o inconformismo, até daqueles que não seguem a religião católica, quando grupos extremistas aliados ao fundamentalismo religioso tentam impor o seu domínio. Buscam mexer nos símbolos que o povo construiu durante séculos, retirar um nome daqui, acrescentar uma palavra, decidir quem pode ou não pode chamar aquela Mãe de sua. Como se uma devoção nascida de pescadores pudesse ser redesenhada num gabinete e o sentimento popular pudesse caber numa caneta de presidente. Querem fechar a porteira do sagrado. Mas a resposta do povo brasileiro não será dada com discurso, como não foi com discurso ou dogmas que ergueram a devoção. Será dada nas ruas e praças, na festa e na procissão, na cozinha, no terreiro, na capela, na estrada e no silêncio da oração. Na rede social também houve resposta, embora aí tudo se embaralhe mais depressa, vindo acompanhado de deturpações, censura e manipulações (de quem se diz contra a censura e das BigTechs que manipulam os cordões). O jogo é pesado.

Mas, para vergar a fé em nossa “Mãezinha”, há uma diferença enorme entre uma fé que acolhe a pobreza e uma fé utilizada para justificar a riqueza e o poder. Entre uma mãe que recebe todos e uma religião que escolhe quem merece pertencer, existe a vela acesa na casa simples e Nossa Senhora Aparecida a rogar pelo Brasil!

Contra esse mundo de indivíduos isolados, permanentemente excitados pelo desejo de ter, competir e vencer, mantém-se viva a velha religiosidade popular. Por isso querem vergar a fé. Diante da Santa Mãe de Deus, paramos, ajoelhamos, esperamos e cantamos. Nossa Senhora Aparecida ensina a dar muito mais que receber, ensina a caminhar junto, fazer comida para quem chega e acender uma vela para alguém que nem conhecemos. Isso não é pouco. É tudo.

O capitalismo pode vender quase tudo, mas ainda encontra dificuldade diante daquilo que não nasceu para ser vendido, como a promessa e a bênção. Nossa Senhora Aparecida continua sendo uma espécie de espinha dorsal da espiritualidade de nosso povo, independente da religião que professem. Por isso é expressão da cultura, não porque todos os brasileiros tenham a mesma fé. Não têm, e a liberdade religiosa é parte essencial da nossa vida democrática. É parte de nossa cultura porque sua presença atravessa classes, regiões, gerações e fronteiras. A própria Igreja Católica reconhece que o título de Aparecida foi dado e acolhido pelo povo, associando sua devoção à solidariedade, à fraternidade e à acolhida dos pobres. Ela é de todos. Uma mãe negra encontrada por pescadores. Que coisa mais brasileira!

Nossa Senhora Aparecida não desceu do céu numa carruagem de ouro, veio do rio, presa numa rede de pesca. Não foi encontrada inteira, foi encontrada quebrada. Essa é a razão de tanta gente se reconhecer nela. Somos um país encontrado aos pedaços, país que ainda precisa juntar sua cabeça ao seu corpo, nossa memória ao nosso futuro, riqueza à justiça, fé à humanidade, tecnologia à ternura. Nossa Senhora Aparecida é muito mais que uma imagem, é a forma popular de dizer que ninguém se salva sozinho.

A rede trouxe a imagem.
A imagem trouxe a comunidade.
A comunidade trouxe a festa.
A festa trouxe a memória.

E a memória, quando permanece viva, torna-se patrimônio. Não é patrimônio morto, guardado atrás de um vidro, é patrimônio que chora, perdoa e retorna. Todos os anos. Enquanto houver alguém em romaria, alguém que acenda uma vela por alguém que sofre, haverá uma pequena Nossa Senhora emergindo das águas para as mãos do povo. Mãe não divide seus filhos, chama para a mesa, e em mesa de Mãe sempre cabe mais um. Até o Brasil inteiro.

¨      Ameaçam cassar Aparecida. Por Frei Betto

Em abril de 2017, no Clube Hebraica, no Rio, Jair Bolsonaro, ao se referir a uma visita a um quilombo, contou: “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriador ele serve mais”. Bolsonaro usou uma unidade de peso associada a animais para se referir a quilombolas. A fala provocou denúncia da então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que considerou desrespeitoso o uso de “arrobas” para pessoas negras por tratá-las de maneira comparável a animais.

Em julho de 2018, já candidato à Presidência, Bolsonaro foi novamente questionado sobre racismo e, ao ser perguntado sobre uma eventual dívida histórica do Brasil com a população negra, respondeu: “Não escravizei ninguém”. Na mesma entrevista, acrescentou: “Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.

Também durante a campanha, defendeu o fim das reservas indígenas e quilombolas: “Se eu chegar lá, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”.

O racismo e a intolerância religiosa da família Bolsonaro e de seus aliados voltam a se manifestar na proposta de um deputado do PL, partido de Flávio Bolsonaro, de cassar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.

Nossa Senhora Aparecida, que andava entretida em explicar a um grupo de devotos que não existe “Aparecida do Norte”, pois o município paulista fica no Sul e, desde que se emancipou de Guaratinguetá, em 1928, é denominado apenas Aparecida, ficou preocupada com a notícia da ameaça de cassação. E, convenhamos, até uma santa pode ficar indignada quando descobre que seu cargo está sendo discutido no Congresso.

“Mas desde quando preciso de concurso público para ser padroeira?”, teria perguntado a Virgem ao ajeitar o manto azul. “Não lembro de ter feito campanha eleitoral, distribuído santinhos ou prometido emendas parlamentares”.

A história, aliás, não começou agora. Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil, a pedido dos bispos brasileiros. A solenidade pública ocorreu em 1931, no Rio de Janeiro, diante de autoridades e de uma multidão de fiéis. Aparecida, portanto, estranha a notícia de que alguns políticos pretendem retirá-la do posto.

“Que fiz eu de errado?”, pergunta. Talvez seja o imperdoável pecado de ser negra. Afinal, a pequena imagem encontrada em 1717 nas águas do rio Paraíba é negra e há quem ainda se incomode com a presença dos negros ocupando lugares de honra.

Talvez o problema seja ela não pertencer a partido algum. Não é de esquerda nem de direita. Não se filiou ao PT, ao PL, ao PSOL, ao centrão ou a qualquer outra legenda. Nunca pediu fundo partidário. Nunca disputou eleição. E, sobretudo, jamais prometeu aquilo que político adora assegurar se for eleito: o milagre de resolver todos os problemas do Brasil em quatro anos.

Outro detalhe desconcertante é Aparecida ter a preferência dos pobres. Isso complica sua permanência no cargo. Segundo a própria tradição católica, sua devoção tornou-se um elo de união entre diferentes grupos do povo brasileiro e é associada à solidariedade, à fraternidade e à atenção aos mais pobres.

Ora, convenhamos, uma santa que insiste em defender os excluídos pode causar certo desconforto em ambientes onde a população carente costuma ser levada em conta apenas em época eleitoral. Aparecida talvez também esteja intrigada com a ideia de que políticos possam cassar aquilo que não lhes pertence. “Fui encontrada por pescadores, venerada pelo povo, proclamada Padroeira pela Igreja e reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro. E agora um político imagina que pode me demitir?”.

Em 1980, a Lei nº 6.802 decretou o dia 12 de outubro feriado nacional dedicado à devoção a Nossa Senhora Aparecida e reconheceu oficialmente sua condição de padroeira do Brasil. Portanto, se algum parlamentar quiser realmente votar sua cassação, sugiro que providencie antes uma CPI.

Primeiro, ouviriam a acusada: “A senhora confirma que é Padroeira do Brasil?”; “Confirmo”. “Tem consciência de que esse título poderá ser retirado?”; “Tenho”. “E pretende recorrer?”; “Não. Prefiro deixar que o povo decida no coração”. Silêncio no plenário. Então alguém perguntaria: “A senhora tem alguma consideração final?”. E Aparecida, talvez sorrindo debaixo do manto azul, responderia: “Tenho. Quando terminarem de discutir meu título, sugiro que comecem a discutir a fome, a pobreza, o feminicídio, o racismo, a desigualdade e o abandono dos que não têm voz”. Silêncio no plenário.

Talvez algum deputado cochichasse: “Essa santa está ficando política demais”. Ao que outro reagiria: “Não. Nós é que esquecemos que política deveria servir ao povo”.

Aparecida, então, voltaria tranquilamente para seu altar. Afinal, padroeira não é cargo eletivo, não recebe salário e não depende de reeleição. E, se algum dia perder o título oficial, continuará sendo aquilo que os pescadores encontraram há mais de trezentos anos no rio Paraíba: uma pequena imagem negra que, desde então, o povo brasileiro insiste em chamar de Mãe.

 

Fonte: Por Célio Turino, em Outras Palavras/Brasil 247

 

Nenhum comentário: