As
bases da paz entre a Turquia e os curdos são frágeis
O cenário
político da Turquia está em transformação. A recém-aprovada Lei-Quadro
redireciona a questão curda — a principal linha divisória na unidade nacional
imaginada do país — do confronto armado para a pacificação regulamentada. Isso
tem consequências políticas que vão muito além de seu escopo legal restrito.
Mais do que encerrar um período do conflito curdo, a lei inaugura uma nova fase
nas lutas de classes da Turquia, ao remodelar o equilíbrio entre o Estado, o
movimento curdo e a oposição política. A Lei-Quadro de 10 de Agosto —
oficialmente Lei de Fortalecimento da Solidariedade Nacional e da Coesão Social
— representa uma verdadeira ruptura na forma como a Turquia tem lidado com o
conflito curdo. Mais do que uma concessão executiva disfarçada de formalidade
administrativa, ela coroa um processo parlamentar iniciado por uma comissão
multipartidária, que excluiu apenas o ultranacionalista İyi Parti [Partido
Bom]. Essa comissão tinha o mandato de recomendar medidas para pôr fim ao
conflito armado, incluindo negociações com o grupo guerrilheiro Partido dos
Trabalhadores do Curdistão (PKK) e seu líder preso, Abdullah Öcalan. A lei foi
aprovada com uma maioria parlamentar excepcionalmente ampla: 467 votos a favor,
87 contra e sete abstenções. Além do Partido da Justiça e Desenvolvimento
(AKP), no poder, e do Partido da Ação Nacionalista (MHP) de Devlet Bahçeli, a
coligação que apoiou o texto incluía o Partido da Democracia e Igualdade dos
Povos (DEM), de base curda, o recém-formado Yeni Parti, o Partido dos Trabalhadores
da Turquia (TİP), o Partido Trabalhista (EMEP), vários independentes e uma
pequena minoria de deputados do Partido Republicano do Povo (CHP). Apesar das
narrativas radicalmente diferentes sobre a questão curda, esses partidos
convergiram no quadro legal que regulamenta as consequências do desarmamento do
PKK.
Essa
ampla base de apoio é importante porque impede que o presidente Recep Tayyip
Erdoğan (AKP) reivindique o crédito político exclusivo pelo fim do conflito
armado. No entanto, apesar dos esforços habilidosos do líder do Yeni Parti,
Özgür Özel, para impedir que Erdoğan monopolize o processo de paz, a iniciativa
política atualmente reside na coalizão Erdoğan-Bahçeli e em Öcalan — e não no
principal partido de oposição, o Yeni Parti. Este último surgiu da cisão no
histórico CHP, depois que a maioria de seus apoiadores parlamentares e de base
desertaram em protesto contra a tentativa do ex-presidente Kemal Kılıçdaroğlu
de recuperar a liderança do partido por meio do que consideravam uma decisão
judicial moldada pela influência de Erdoğan sobre o judiciário. Se implementada
integralmente, a lei libertará ativistas políticos ligados ao PKK que estejam
presos ou suspenderá os processos judiciais pendentes. A libertação está
condicionada a um período probatório de três a cinco anos. Qualquer novo crime
cometido durante esse período reativará o restante da pena original, além de
qualquer nova penalidade. Aqueles condenados por crimes cometidos antes de 2005
e aqueles que cumprem pena de prisão perpétua agravada permanecem excluídos.
<><>
Margem de manobra
Ao
garantir o apoio parlamentar para o processo de desarmamento, a aliança
Erdoğan-Bahçeli realizou o que antes parecia politicamente impossível. Apesar
dos índices de aprovação em constante declínio desde as eleições locais de
2024, a coligação governante conseguiu desvincular parcialmente a questão curda
da tradicional dicotomia governo-oposição e obteve uma margem de manobra
política sem precedentes. Até então, a aritmética parlamentar havia sido
relativamente estável. O bloco governista dependia da mobilização
conservadora-nacionalista turca; o DEM, do apoio organizado dos curdos
democráticos e patrióticos; o CHP — agora amplamente sucedido pelo Yeni Parti —
contava principalmente com os votos dos secularistas urbanos. Ao longo das
últimas quatro eleições nacionais e locais, os eleitores curdos e sua liderança
política apoiaram consistentemente o CHP como a única alternativa nacional
viável, capaz de produzir um novo interlocutor para uma solução negociada.
Começando
com as conversas secretas com Öcalan, passando pelo seu apelo unilateral para
dissolver o PKK e culminando na Lei-Quadro, a coligação governante atravessou
diagonalmente os alinhamentos políticos da Turquia. Ao contrário do que
aconteceu durante o processo de paz de 2013-2015, a mensagem implícita de
Ancara é agora clara: o Estado pode negociar diretamente com Öcalan e o
movimento curdo sem primeiro democratizar a ordem política da Turquia. Isso
conferiu ao Cumhur İttifakı (a Aliança Popular governante) uma grande vantagem
competitiva. Sob o mote Terörsüz Türkiye (“Turquia sem Terrorismo”), o partido
pode seguir uma estratégia que combina a pacificação controlada do movimento
curdo organizado com a contínua competição autoritária contra a principal
oposição. Da perspectiva do governo, as duas vias são complementares, e não
contraditórias.
A
segunda vertente prossegue ininterruptamente desde 2025. Começando com a prisão
do prefeito metropolitano de Istambul, Ekrem İmamoğlu, em março do ano passado,
houve batidas policiais em pelo menos trinta e nove municípios que o partido de
oposição CHP conquistou nas eleições locais de 2024. Dezenas de prefeitos foram
detidos ou presos sob acusações de corrupção, baseadas em grande parte em
confissões forçadas ou altamente contestadas. A mesma técnica de governança foi
aperfeiçoada inicialmente contra municípios curdos. Entre 2015 e 2025,
prefeitos curdos foram destituídos em sucessivas ondas sob acusações
relacionadas ao terrorismo; agora, municípios controlados pelo CHP são alvos de
acusações de corrupção, suborno e peculato, baseados em práticas judiciais
igualmente politizadas.
<><>
Alavancagem para o DEM e Öcalan
Para o
movimento curdo, a Lei-Quadro, apesar de ser instrumentalizada pelo Estado para
fins de pacificação, é muito mais do que simbólica. Segundo o comunicado
divulgado pelo Partido DEM após sua visita a İmralı, Öcalan afirmou: “Uma
jornada de mil quilômetros começa com um único passo. Com esta lei, buscamos
resolver um problema histórico. Estamos no início de um processo de
democratização que será tão importante quanto a fundação da República”.
O
“processo”, desde seu anúncio público por Öcalan em 27 de fevereiro de 2025,
progrediu por meio de etapas irreversíveis exigidas pelo governo —
desarmamento, dissolução e retirada de unidades armadas do território turco —
enquanto os compromissos do próprio Estado permaneceram promessas políticas, e
não juridicamente vinculativas. O otimismo de Öcalan é claramente alimentado
pelo fato de que algumas dessas garantias foram agora incorporadas à lei e,
portanto, transformadas em obrigações legais, marcando assim um ponto de
virada. Como resultado, Öcalan emerge politicamente mais forte após dois anos
de negociações. Seu apelo em fevereiro de 2025, o congresso de dissolução do
PKK, o desarmamento simbólico, a formação da comissão parlamentar, as
negociações sobre um marco legal e a Lei-Quadro constituem uma cadeia
ininterrupta de concessões e o reconhecimento de Öcalan por todas as partes
negociadoras como o interlocutor indispensável do processo. No entanto, esse
sucesso tem um preço. Quanto mais eficazmente Öcalan conseguir o desarmamento
do PKK, mais Erdoğan se sentirá confiante de que pode separar a resolução do
conflito armado do progresso da Turquia rumo a um Estado de Direito, aos
direitos humanos e à democracia. Assim, a Lei-Quadro permanece histórica e
deliberadamente limitada diante de demandas históricas colossais. Ela
regulamenta a pacificação, o processo penal e a reintegração, mas deixa as
demandas curdas sem solução. Não oferece nenhuma promessa ou apelo por direitos
curdos, nenhuma democracia local, nenhum retorno dos prefeitos substituídos por
interventores nomeados pelo governo, nenhuma anistia para prisioneiros de
consciência e nenhuma indicação sobre o futuro status de Öcalan.
Este é
o mundo político para o qual os antigos guerrilheiros do PKK retornarão após
sua libertação.
<><>
O avanço do Yeni Parti
Aforça
política que derrotou a aliança governante nas eleições locais de 2024, com
apoio decisivo dos curdos, foi posteriormente desmantelada por intervenção
judicial. Após a justiça impor o retorno do ex-presidente do CHP, Kemal
Kılıçdaroğlu, a maioria do grupo parlamentar, da liderança local e da
organização de base do partido reagrupou-se no recém-fundado Yeni Parti, sob a
liderança de Özgür Özel, mantendo seu compromisso com uma solução negociada
para a questão curda e apoiando a Lei-Quadro. No entanto, a votação parlamentar
revelou uma profunda contradição. A maioria dos deputados do Yeni Parti votou
contra a legislação que poderia libertar membros do PKK presos e suspender
processos judiciais pendentes. Independentemente das credenciais democráticas mais
amplas do partido, muitos eleitores curdos interpretaram esse voto como uma
oposição à libertação imediata de seus familiares presos.
O Yeni
Parti não está tão poderoso quanto antes da votação — uma medida que
enfraqueceu sua posição dentro do eleitorado curdo, embora não
irreversivelmente. Ainda há espaço para Özel e sua liderança reconstruírem uma
alternativa democrática que ligue o fim do conflito armado a uma democratização
mais ampla. O sucesso dessa estratégia poderá se tornar uma das questões
políticas decisivas da próxima fase.
<><>
A opinião curda
Amaioria
dos curdos apoia o “processo”. Contudo, isso não deve ser confundido com
confiança em Erdoğan. Eles observam atentamente como a legislação será
implementada. Ela está deixando de ser apenas retórica e se tornando lei; há
motivos para esperar o fim do conflito armado, a libertação dos prisioneiros e
a normalização da vida política. Contudo, ainda persiste a memória do colapso
do processo de paz anterior, entre 2013 e 2015, e a realidade contínua de
municípios controlados por administradores judiciais, processos em massa e a
instrumentalização do judiciário contra aqueles que reivindicam os direitos
curdos. Portanto, se os curdos estão se voltando para a paz, isso de forma
alguma significa que estejam se abrindo para a autocracia de Erdoğan. Eles aprenderam
uma lição amarga: se não se empoderarem, permanecerão impotentes. A contínua
repressão aos municípios do Yeni Parti cria um dilema intenso dentro do
eleitorado curdo. Um eleitor curdo pode acreditar simultaneamente que Öcalan
está certo em buscar negociações, que o fim do conflito armado é historicamente
necessário e que o tratamento dado pelo governo ao Yeni Parti é
fundamentalmente antidemocrático.
Os
métodos agora utilizados contra o Yeni Parti — investigações criminais,
destituição de autoridades eleitas, detenções prolongadas e processos judiciais
politizados — assemelham-se muito aos métodos há muito utilizados contra as
municipalidades curdas. Em vez de aproximar a política curda de Erdoğan, isso
pode reforçar uma conclusão diferente: as negociações podem pôr fim à guerra,
mas as garantias democráticas devem tornar-se universais. As perspectivas
atuais do governo e a governança efetiva não demonstram qualquer indício de
transformação democrática. Elas podem ser melhor compreendidas como um conjunto
de pactos seletivos de não agressão sob um regime autoritário mais amplo. O
Estado está flexibilizando um eixo histórico de coerção enquanto intensifica
outro.
O
conflito armado há muito desapareceu da antiga zona de guerra entre a Turquia e
o PKK. A questão decisiva já não é se haverá conflito armado ou se o PKK
deixará as montanhas. A questão agora é se o espaço político aberto pelo apelo
à deposição de armas se tornará um espaço democrático para todos ou apenas um
espaço monopolizado pelo Estado de Erdoğan e seu complexo militar-industrial.
¨
O CONFLITO ENTRE TURQUIA E GRUPOS ARMADOS CURDOS
Aproximadamente
trinta milhões de
curdos
vivem no Oriente Médio, principalmente no Irã, Iraque, Síria e Turquia. Na
Turquia, os curdos representam
quase um quinto da população.
O Partido dos
Trabalhadores do Curdistão (PKK) , fundado por Abdullah Öcalan em 1978, trava uma
insurgência no sudeste da Turquia desde 1984. Embora o PKK inicialmente
buscasse estabelecer um Estado curdo independente, mudou seus objetivos em 2005 para buscar
maiores direitos culturais e políticos dentro da Turquia. O Estado turco
restringiu historicamente o uso da língua curda e da expressão cultural,
adotando políticas que visam assimilar os curdos a uma identidade turca única.
O governo turco considera o PKK uma organização terrorista e a principal ameaça à
segurança
do país. O conflito turco-curdo em geral resultou em quase quarenta mil mortes. Além do
território turco, as forças armadas da Turquia têm atacado bases do PKK no
Iraque, onde os Estados Unidos ajudaram os curdos iraquianos a estabelecer uma
região semiautônoma federal em 1992. O exército turco e milícias apoiadas pela
Turquia operam no nordeste da Síria contra grupos curdos sírios, como as Unidades de Proteção
Popular (YPG)
, inicialmente criadas com o apoio do PKK. O YPG é um componente das Forças Democráticas
da Síria (SDF)
, uma aliança de combatentes árabes e curdos criada em 2015 para combater o
autoproclamado Estado Islâmico (EI). Devido aos laços do YPG com o PKK, a
Turquia considera tanto o YPG quanto as organizações terroristas do SDF. Desde
2016, os Estados Unidos se alinharam ao SDF como a única
força capaz e disposta a enfrentar o EI.
As
negociações de paz entre Ancara e o PKK, conhecidas como Abertura Curda , resultaram na
cessação das hostilidades em 2013. Em julho de 2015, um atentado suicida,
perpetrado por militantes do Estado Islâmico, matou quase trinta curdos em
Suruç, perto da fronteira com a Síria. O PKK retaliou matando dois policiais
turcos. Os ataques foram colocados fim à trégua de dois anos entre o PKK e Ancara
e inauguraram uma nova fase, mais intensa, do conflito. Em resposta, a
Turquia lançou uma campanha de contrainsurgência nas principais cidades
curdas
do sudeste do país, deslocando centenas de milhares de pessoas. As autoridades
turcas empurraram a maioria dos combatentes para áreas rurais e montanhosas do
sudeste e do vizinho Iraque , onde militantes do
PKK e as forças armadas turcas estabeleceram novas bases. Na última
década, sete mil pessoas morreram nos
combates. As ordens entre as autoridades turcas
e os grupos curdos
diminuíram desde o fim das negociações formais de paz em 2015. Após
uma tentativa de golpe militar em julho de 2016, o presidente turco, Recep
Tayyip Erdoğan, reprimiu os suspeitos de
conspiração, prendendo cerca de cinquenta
mil pessoas, incluindo dez mil soldados e centenas de generais. Enquanto o
exército turco reduzia suas operações para reestruturar seu comando militar, o
PKK aproveitou-se da fragilidade das forças armadas e manteve seus ataques mortais,
porém de baixa intensidade , contra as forças de segurança.
Erdoğan
reprimiu o Partido Democrático dos Povos (HDP), o primeiro partido pró-curdo a
entrar no Parlamento, em sua ampla repressão à dissidência. Embora o PKK e
outros grupos curdos não tenham participado diretamente na tentativa de golpe,
Erdoğan usou o incidente como pretexto para prender membros do
HDP
sob acusações relacionadas ao terrorismo e sugeriu que o PKK tinha ligações com
a chamada Organização Terrorista Fetullah Gülen (FETO), que Ancara acusou de
orquestrar o golpe. Desde 2018, as forças armadas turcas têm atacado
regularmente bases do PKK no norte do Iraque, particularmente nas montanhas de
Qandil. Em campanhas como a Operação Garra, lançada em 2019 e que continua em
fases, a Turquia circula uma rede crescente de postos militares
e bases operacionais em território
iraquiano, muitas vezes com a aprovação tácita ou a tolerância passiva do
governo regional do Curdistão. Embora Ancara alegue que essas ações são
permitidas para a segurança nacional, elas têm sido alvo de críticas de Bagdá e
de alguns grupos curdos locais por violarem a soberania iraquiana e causarem o
deslocamento de civis. Em julho de 2024, Erdoğan anunciou que a campanha mais
recente
das forças armadas turcas para garantir a segurança da fronteira com o norte do
Iraque terminaria em breve. No entanto, a Turquia mantém uma presença militar na região.
Entretanto, a presença de organizações armadas curtas na Síria — e a sua
aliança com os Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico — tornou-se uma
fonte de conflito com a Turquia. Em setembro de 2014, Öcalan convocou os curdos para
iniciarem uma “resistência total” para combater o Estado Islâmico. Nesse
processo, as Forças Democráticas Sírias (FDS) realizaram uma região curda
semiautônoma
no norte da Síria.
Em
2019, a Turquia e milícias reforçadas pela Turquia, incluindo o Exército
Nacional Sírio (ENS), lançaram a Operação Fonte da Paz para tomar
território das FDS e criar uma “zona segura”, o que resultou na incidência de
dezenas de milhares de curdos. Diante do desafio de acolher milhões de
refugiados sírios, Erdoğan afirmou que o norte da Síria seria usado para
facilitar sua repatriação. A Turquia se sente ainda mais ameaçada pela presença
dos curdos em sua fronteira e pela parceria cada vez
mais estreita
com os Estados Unidos. À medida que as Forças Democráticas Sírias (FDS)
expandiam o seu controle territorial, Erdoğan temia que os Estados Unidos
ajudassem as FDS a estabelecer uma região
totalmente autônoma na Síria, como Washington fez no Iraque ao final da Guerra
do Golfo. Em meio às intervenções militares turcas em curso, as Forças
Democráticas da Síria (FDS) chegaram a um acordo mediado
pela Rússia
com o regime de Bashar al-Assad, que permitiu o destacamento de forças do
governo sírio em áreas estratégicas fronteiriças como uma barreira contra o
avanço dos novos turcos. Esse tenso status quo persistiu até a queda do regime
de Assad no final de 2024. Durante a ofensiva para o ataque a Assad, o Hay'at
Tahrir al-Sham (HTS) lançou um ataque no noroeste da Síria, enquanto o Exército
Nacional Sírio (SNA) iniciou a Operação Aurora da Liberdade no norte de Aleppo.
Ambos os grupos tinham posições alvo do regime, mas operavam de forma
independente. A Operação Aurora da Liberdade também visava as Forças Democráticas Sírias
(SDF)
, com o objetivo de expandir o território controlado pela Turquia e interromper
as rotas de abastecimento curtas.
<><>
Desenvolvimentos
Em
outubro de 2024, Devlet Bahçeli — o líder ultranacionalista turco do Partido do
Movimento Nacionalista (MHP) — propôs que Öcalan poderia pedir ao PKK que se dissolvesse
em troca de uma possível clemência ou libertação. Dada a longa hostilidade de
Bahçeli em relação a Öcalan e aos movimentos políticos curdos, a medida
surpreendeu muitos observadores. Mais tarde naquele mês, militantes do
PKK atacaram uma
instalação da Turkish Aerospace Industries no distrito de Kahramankazan, ao
norte de Ancara. Os aventureiros abriram fogo ao entrar na instalação, matando
cinco pessoas e ferindo vinte e duas. Enquanto os políticos turcos condenavam o
ataque, os militares realizaram ataques
retaliatórios
no Iraque e na Síria, alegando ter matado pelo menos trinta
militantes do PKK
.
Erdoğan
também intensificou a sua campanha para remover autoridades
e prefeitos pró-curdos e substituir os funcionários estatais nomeados. Os
prefeitos — muitos dos quais pertencem ao Partido da Igualdade e Democracia dos
Povos (DEM) — foram acusados de
crimes de terrorismo e de terem ligações com o PKK. Em
fevereiro de 2025, Erdoğan já havia demitido
pelo menos dez
prefeitos
. Após visitar Öcalan na prisão, uma delegação pró-curda
afirmou
que ele estava trabalhando na elaboração de um acordo para o conflito de
quarenta anos entre a Turquia e o PKK. Em 27 de fevereiro, Öcalan pediu ao PKK
que depusesse as armas em uma declaração oficial, afirmando que a luta armada
havia se tornado obsoleta. O PKK acatou prontamente o pedido em 1º de março,
declarando um cessar-fogo. No início de maio de 2025, o PKK convocou seu
conselho de liderança, que votou esmagadoramente a favor da dissolução do
grupo.
Agora,
o PKK afirma estar aguardando a resposta de Ancara antes de se desarmar. Na
troca de desmobilização, o PKK poderia buscar anistia para seus combatentes, a
libertação de membros presos e políticos do Partido Democrático da Malásia
(DEM), a libertação condicional de Öcalan para prisão domiciliar e emendas
constitucionais para ampliar os direitos culturais, incluindo o ensino da
língua curda. Ainda não está claro como a dissolução do PKK afetará as
Forças Democráticas Sírias (FDS), que, apesar dos laços históricos, mantiveram
sua independência operacional e política na Síria. Após o apelo de
Öcalan, a liderança das FDS
declarou
que o cessar-fogo se aplicava apenas ao PKK e não dizia respeito às suas
próprias atividades na Síria; o grupo não se posicionou desde que o PKK
anunciou sua dissolução. As FDS apoiaram um acordo para integrar suas
forças às forças armadas do novo governo sírio, incluindo a dissolução das
estruturas de comando das Unidades de Proteção Popular (YPG) e a retirada de
quadros estrangeiros do PKK, ambas as medidas saudadas pela Turquia. Apesar das
objeções dos Estados Unidos, a Turquia continua seus ataques contra áreas
controladas pelas FDS.
Fonte:
Por Ertuğrul Kürkçü - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/cfr.org

Nenhum comentário:
Postar um comentário