Os
séculos de uso político da imagem de Aparecida
O então
príncipe regente do Brasil D. Pedro visitou o santuário que havia sido
erguido em homenagem a "Mãe Aparecida" poucas semanas antes do brado da Independência. Na época, os feitos
da imagem achada por pescadores no Rio Paraíba mais de um século antes se
tornavam conhecidos em todo o país. Segundo a tradição registrada por biógrafos
e fontes ligadas ao Santuário, o futuro imperador teria rezado diante da santa
e prometido consagrar o Brasil a ela caso sua situação política se resolvesse
favoravelmente.
A
passagem de D. Pedro pela Capela da Mãe Aparecida, no local onde hoje está a
Basílica Histórica, abre um dos primeiros relatos de uma figura pública
recorrendo à santa como símbolo de unidade nacional. Ao longo dos dois séculos
seguintes, Nossa Senhora Aparecida seria reivindicada por diferentes grupos
políticos, chegando a ser tomada como padroeira da ditadura militar e, mais
recentemente, entrando no centro da disputa eleitoral entre os
presidenciáveis
Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
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A construção de um símbolo nacional
Há
duzentos anos, D. Pedro não cumpriu a promessa, já que pediu ao Vaticano que
São Pedro de Alcântara fosse escolhido como padroeiro do Brasil após a
independência. O pedido foi confirmado pelo papa Leão 12 em 1826.
Isso
não diminuiu o peso de Aparecida, cuja devoção se manteve na família imperial.
A princesa Isabel, filha de D. Pedro
2º e herdeira do trono brasileiro, esteve no santuário duas vezes. Na
primeira, em 1868, foi acompanhada pelo marido, o Conde d'Eu, e ofereceu à
imagem um manto adornado com 21 brilhantes. Em 1884, presenteou a santa com uma
coroa de ouro de 24 quilates, com 300 gramas e cravejada de brilhantes.
Naquele
momento, o Brasil se aproximava da proclamação da República e da instituição do
Estado laico, em 1889. A mudança de regime fez a Igreja Católica perder a
proteção que recebia do Estado imperial e passar a elaborar uma visão do Brasil
a partir de uma perspectiva católica, afirma a historiadora Jessica Rabello em sua
dissertação de mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF).
A
Igreja entra na busca por símbolos nacionais associados à fé, e Aparecida
aparece como um caminho posto. A santa acumulava forte devoção popular, estava localizada
no eixo político entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e a imagem
negra incorporava simbolicamente uma população que havia acabado de sair da
escravidão. A coroação da imagem, em 1904, realizada um dia depois das
comemorações do 7 de Setembro, foi um marco desse processo e abriu caminho para
que a santa fosse proclamada padroeira do Brasil, em 1931.
Naquele
ano, os católicos eram maioria no país e setores da Igreja criticavam o
laicismo do Estado. Getúlio Vargas, que havia chegado
ao poder em 1930 como chefe do Governo Provisório, viu na aproximação com a
Igreja uma forma de fortalecer seu projeto político.
A
confirmação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país ocorreu durante
uma grande programação religiosa no Rio de Janeiro, que reuniu autoridades
religiosas, políticos e militares. Na principal celebração, a imagem foi
beijada pelo cardeal dom Sebastião Leme e, em seguida, por Vargas, segundo
artigo do pesquisador e jornalista José Cordeiro.
A
iconografia de Nossa Senhora Aparecida ganha especial apelo a partir de 1927,
quando a revista da Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida passou a
apresentar a imagem da santa em composições ao lado da igreja, do rio Paraíba
ou do globo terrestre, afirma Cordeiro. Foi também nesse período que ela passou
a receber elementos patrióticos, aproximando o manto da ideia de união cívica.
"Na
década de 1950, surgem os símbolos nacionais como a bandeira, o brasão do
estado de São Paulo ou a bandeira do Brasil e a bandeira do Vaticano, mesclados
aos históricos bordados", escreve Cordeiro.
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Da Era Vargas ao combate ao comunismo
Segundo
o autor, em 1945, meses antes da eleição que encerraria o Estado Novo, a imagem
deixou o santuário pela segunda vez, rumo à Sé de São Paulo. "A Estrela do
Brasil para Salvar o Brasil, espetáculo cívico religioso" era o nome
do evento. A vigília ocorreu pouco antes de uma mobilização em torno de Luís Carlos Prestes, líder comunista que
concorria a um cargo político, e foi vista como uma vigília contra a volta do
Partido Comunista Brasileiro (PCB) à legalidade.
A santa
voltou a protagonizar momentos políticos em 1964. Segundo o historiador Mathews
Nunes Mathias, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em artigo publicado na
revista Estudos Históricos, da FGV, esquerda e direita disputaram o catolicismo na véspera do golpe
militar, mas por caminhos diferentes.
O então presidente João Goulart chegou a
"buscar abrigo nos mantos da padroeira" ao depositar nos pés da
imagem um pedido pelas reformas de base, mas setores da esquerda faziam maior
aposta na autoridade papal como forma de mobilização, explica Mathias.
Já
grupos conservadores se apoiavam na devoção popular. O general Olympio Mourão
Filho, que lideraria as tropas que partiram de Minas Gerais em direção ao Rio
de Janeiro, escreveu em seu diário, em 1962, que rezava em Aparecida pedindo
forças para "salvar a Pátria", sob a liderança de "um Chefe
graduado com 4 estrelas".
No
Santuário Nacional de Aparecida, padres redentoristas também pregavam contra o
comunismo, afirma Mathias. Em 29 de março de 1964, receberam na Basílica o
então presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, que anunciou aos
fiéis que Jango tinha os dias contados.
Depois
da queda do presidente, a vitória "sem sangue" foi atribuída à santa.
Em Juiz de Fora, de onde partiram as tropas de Mourão, ela foi alçada a
"generalíssima do Exército". Sua imagem foi projetada no palanque da
Marcha da Vitória, no Rio de Janeiro, e exibida ao lado do retrato de Castello
Branco em Niterói, afirma o historiador.
Em 13
de maio daquele ano, cerca de 10 mil pessoas participaram da Marcha de
Aparecida, que proclamou a santa "padroeira da revolução".
O
presidente Humberto de Alencar Castelo Branco não esteve presente, mas a
cerimônia reuniu o prefeito da cidade, um deputado federal e representantes
militares. A memória da santa como "padroeira da revolução"
justificou um pedido posterior do presidente para que a imagem deixasse o
Santuário e percorresse diversos estados, em 1965, em uma peregrinação que
celebrava a vitória sobre o comunismo.
Outros
presidentes da ditadura também mantiveram proximidade com o Santuário. Em 1972,
o Santuário transformou os festejos dos 150 anos da Independência em um
"Ano Marial" alinhado ao governo Médici, seguindo apelo do
próprio presidente, escrevem os historiadores Janaina Martins Cordeiro e
Mathews Mathias em artigo na Revista Brasileira de História das Religiões.
Uma procissão com a imagem após missa na Praça da Sé terminou aos gritos de
"Viva Médici!". Pouco antes, o regime tinha inaugurado a Passarela da
Fé, obra bancada com recursos federais. Em 1980, o também presidente da
ditadura João Figueiredo sancionou a lei que fez do 12 de outubro feriado
nacional.
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Aparecida nas disputas religiosas e eleitorais
A
imagem de Nossa Senhora Aparecida voltou ao centro das disputas religiosas e
políticas em 1995. Em 12 de outubro, durante um programa religioso transmitido
pela Record, o então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio Von
Helde, atacou com chutes e socos uma réplica da santa, além de ridicularizar
seu uso como objeto de fé.
A
partir desse episódio, a oposição à figura de Nossa Senhora Aparecida como
padroeira também ganhou espaço em determinados setores evangélicos, com
diferentes justificativas.
Em
2007, um projeto de lei apresentado pelo então
deputado
federal Victório Galli, de Mato Grosso, propôs retirar de Nossa Senhora
Aparecida o título de "padroeira do Brasil" e substituí-lo por
"padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O projeto
foi arquivado em 2008.
A
proposta voltaria ao debate público anos depois, inclusive por meio de
informações falsas que associavam Jair Bolsonaro e, mais recentemente, seu
filho Flávio Bolsonaro à ideia de retirar de Aparecida o título de padroeira do
Brasil.
Em
2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro esteve no Santuário Nacional de Aparecida
em 12 de outubro, dia dedicado à santa. Sua presença, ao lado do então
candidato ao governo de São Paulo Tarcísio de Freitas, foi marcada por aplausos
e vaias.
Na
atual disputa eleitoral, Aparecida voltou ao debate político, e sua imagem
novamente passou a ser reivindicada como símbolo de união nacional. A polêmica
começou após publicações associarem falsamente uma fala de Flávio Bolsonaro à
retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.
Em um
vídeo divulgado em agosto, Flávio Bolsonaro afirmou que "quando for
presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor
Jesus Cristo". A declaração passou a ser associada nas redes sociais à
suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do
Brasil.
O
assunto ganhou enorme repercussão, levou a uma disputa de despachos no Supremo
Tribunal Federal (STF) e passou a ser explorado pelos dois presidenciáveis em
suas agendas eleitorais.
Em
entrevista ao programa Canal Livre, da Band, Lula disse que "mexer com
Nossa Senhora Aparecida não é aceitável", antes de ser confrontado sobre o
fato de a informação não ter fundamento. "Eu não sei se foi fake news. O
dado concreto é que isso está na rede social muito forte", respondeu.
Após a
polêmica, a imagem de Nossa Senhora também apareceu nas agendas dos dois
candidatos. Flávio a levantou durante uma atividade em São Paulo, ao lado de
Tarcísio de Freitas, e também levou o tema para um podcast. Lula, por sua vez,
ergueu uma imagem de Nossa Senhora durante um comício em Belém.
Fonte:
DW Brasil

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