quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Autoridades argentinas propõem dividir controle do Estreito de Magalhães com o Chile, e Kast reage com militarismo

Recentes declarações de autoridades civis e militares argentinas, minimizando a soberania chilena sobre territórios e o mar austral e sugerindo um controle binacional do Estreito de Magalhães, fizeram com que o presidente ultradireitista do Chile, José Antonio Kast, reagisse com tendências ao militarismo, à geopolítica e à subordinação, afirma um especialista em temas de defesa.

Em entrevista ao La Jornada, Mladen Yopo, doutor em Ciência Política pela Universidade de Leiden e mestre em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, afirma que essas declarações, somadas à compra de armamentos realizada pela Argentina e pelo Peru, fizeram com que a geopolítica ganhasse prioridade nas análises estratégicas chilenas.

“Há vários elementos em jogo, não existe uma única causa. Os questionamentos apontam para dotar as Forças Armadas argentinas de maior capacidade logística, deteriorada há décadas. O Chile sempre considerou as Malvinas uma questão de descolonização e de soberania argentina, mas eles levantam a questão de Magalhães.

Isso tem relação com a má situação interna de Milei, que pode perder as eleições. É sabido que questões externas são utilizadas na política interna”, afirma.

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Além disso, “sempre existiu na Argentina uma perspectiva de expansão geopolítica. O tratado de limites de 1881 garante que o Chile é dono do Estreito de Magalhães perpetuamente, mas eles levantam essa questão na perspectiva de ir construindo uma capacidade expansiva”.

Soma-se a isso a Antártida, em relação à qual “há uma questão geopolítica em disputa, o alinhamento da política externa, uma subordinação da Argentina, que ofereceu aos Estados Unidos uma base militar permanente na Patagônia, como prolongamento de sua presença na região”.

Isso, acrescenta, busca “limitar a presença da China” no continente, uma questão extremamente complexa porque o país asiático é o principal parceiro comercial de vários países, entre eles o Chile. Dessa forma, “os Estados Unidos vão contra a autodeterminação, a soberania, o respeito ao direito internacional e o fortalecimento do multilateralismo”.

Tudo se complica com “a cereja do bolo: o escudo de segurança proposto pelos Estados Unidos, supostamente contra a criminalidade, mas que bombardeia embarcações a torto e a direito no Caribe, sem qualquer respeito ao direito humanitário dos pescadores da região”.

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O Escudo das Américas, afirma, representa “a militarização das forças estadunidenses e nacionais na região, reflexo do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca de 1947, criado contra o comunismo”.

“É contra a China, a Rússia, o Irã e outros que consideram inimigos estratégicos.”

Existe o risco, afirma, de uma corrida armamentista a partir da exigência estadunidense de aumento dos gastos militares, porque “quando faltam confiança e cooperação, aumentam os nacionalismos e as tensões por territórios, recursos, rotas estratégicas ou pela competição entre potências”.

E, quando prevalece esse realismo, os países procuram ampliar seu poderio militar para aumentar sua capacidade de dissuasão, gerando um círculo vicioso, porque o fortalecimento militar de um Estado é interpretado pelos demais como uma ameaça, incentivando novas aquisições, e assim sucessivamente.

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Trata-se de uma corrida que só termina por decisão política e mediante ações positivas, conclui Yopo.

¨      Cristina Kirchner entra com ação na ONU por devolução de direitos políticos

A equipe de defesa da ex-presidente argentina Cristina Kirchner apresentou, nesta terça-feira (30/09), um adendo formal ao Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, solicitando o fim imediato da proibição vitalícia que a impede de ocupar cargos públicos e a suspensão de sua pena de prisão de seis anos.

A proposta incorpora novos fatos e elementos probatórios com o objetivo de reverter a sanção judicial enquanto se analisam os méritos da reclamação internacional. Entre os principais pontos levantados no documento, os advogados destacaram diversas situações que consideram atos de intimidação e assédio contra a ex-presidente.

O documento menciona declarações públicas de juízes envolvidos no caso Vialidad, medidas restritivas contra seus bens e publicações nas redes sociais do presidente argentino Javier Milei dirigidas a ela.

A ação judicial também contesta as medidas tomadas contra o apartamento localizado no número 1111 da Rua San José, imóvel onde Cristina Kirchner se encontra atualmente em prisão domiciliar. Segundo a defesa, esse conjunto de circunstâncias viola as garantias do devido processo legal e afeta diretamente o direito legítimo de apresentar queixas e defesas perante órgãos internacionais de direitos humanos.

No âmbito probatório, os advogados incorporaram nova documentação oficial relacionada com o destino dos fundos da chamada Fonte 14 e do fundo fiduciário rodoviário SISVIAL, elementos que haviam sido rejeitados no julgamento original.

A inclusão de planilhas oficiais, fornecidas em agosto de 2016 por um auditor no contexto do caso Notebooks, permitiu à defesa encomendar uma auditoria contábil independente.

Os resultados deste relatório técnico sustentam que, dos 51 projetos investigados no caso Vialidad, apenas 17 receberam fundos da Fonte 14 e, de um total de 3.855 faturas pagas com esses fundos, apenas 36 correspondiam a esses projetos de construção.

Além disso, a análise detalha que, de um total aproximado de US$ 2,2 bilhões desembolsados, o Grupo Austral recebeu US$ 18,66 milhões, o equivalente a 0,85% — dados com os quais a defesa busca desmantelar as premissas fundamentais da condenação.

Por fim, o adendo questiona a divulgação, pela mídia, de material audiovisual da operação policial de 2018 na casa da líder em Recoleta, classificando-a como uma violação de privacidade.

Todo esse arcabouço jurídico e judicial adquire um peso político significativo na corrida para as eleições presidenciais de 2027, após Máximo Kirchner ter confirmado a intenção de sua mãe de se candidatar caso recupere seus plenos direitos políticos por meio de uma resolução favorável da ONU.

¨      EUA revogam visto do procurador-geral da Bolívia em meio a investigações sobre Cerimedo

O Procurador-Geral da Bolívia, Roger Mariaca, condenou nesta segunda-feira (28/09) a revogação de seu visto pelos Estados Unidos e denunciou interferência estrangeira, atribuindo a decisão às investigações conduzidas pelo Ministério Público boliviano sobre temas sensíveis, como o caso do ex-conselheiro presidencial argentino Fernando Cerimedo e o caso conhecido como “Gasolina Lixo”.

De Sucre, na sede do Ministério Público, Mariaca afirmou, acompanhado por funcionários da instituição,  que as decisões adotadas por Washington pegaram as autoridades locais de surpresa. Eles exigiram respeito à soberania da Bolívia e ao princípio da não interferência.

Mariaca argumentou que o trabalho do Ministério Público gera desconforto nos setores políticos, tanto a nível nacional como internacional, mas sublinhou que nenhuma pressão impedirá a investigação dos fatos que devem ser esclarecidos.

Referindo-se especificamente a Fernando Cerimedo, investigado por tentativa de feminicídio e lavagem de dinheiro, o chefe do Ministério Público indicou que o caso gerou preocupação em vários setores, mas reafirmou que ele não recuará “nem um centímetro”.

Ele lembrou precedentes históricos de atritos diplomáticos, como a suspensão do visto do ex-presidente Jaime Paz Zamora e a expulsão de um embaixador dos Estados Unidos durante o governo de Evo Morales, observando que esses episódios demonstram que a soberania deve estar acima da situação política.

<><> Parlamento boliviano solicita informações

Em resposta às sanções anunciadas nesta segunda-feira (28/09) pelo governo de Donald Trump, a Assembleia Legislativa da Bolívia reagiu solicitando a intervenção do Ministério das Relações Exteriores. Os Estados Unidos revogaram vistos de 13 autoridades bolivianas, atuais e antigas, além da permissão de um empresário, sob acusações de corrupção e de minar governos democraticamente eleitos,

O presidente do Senado, Diego Ávila, e o presidente da Câmara dos Deputados, Roberto Castro, anunciaram um pedido formal ao Ministério das Relações Exteriores para que solicite informações oficiais disponíveis sobre as alegações junto ao Departamento de Estado norte-americano.

Ávila argumentou que a gravidade das acusações exige uma resposta séria e responsável, lembrando que “uma acusação não é uma sentença e nenhum cidadão pode ser condenado sem provas”. Ele solicitou ao vice-presidente e presidente da Assembleia Legislativa, Edmand Lara, a convocação de uma sessão parlamentar urgente para tratar do assunto.

O senador do partido governista também sugeriu que o Procurador-Geral se afastasse temporariamente de suas funções enquanto as acusações fossem esclarecidas, para salvaguardar as instituições democráticas e a transparência das investigações.

Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, assim que chegarem, as informações de Washington serão encaminhadas às autoridades competentes para que sejam adotadas as medidas legais e parlamentares cabíveis.

Castro enfatizou que, se os crimes forem comprovados, as responsabilidades e as sanções deverão ser estabelecidas por lei, enquanto que, se as alegações forem infundadas, será necessário esclarecer a questão perante o país.

<><> Âmbito das sanções dos EUA

A medida anunciada pelo Departamento de Estado dos EUA restringe a entrada de cidadãos afetados e seus familiares imediatos, citando a seção 212 da Lei de Imigração e Nacionalidade e a Lei de Dotações para Segurança Nacional.

Segundo o comunicado oficial de Washington, as ações dos indivíduos mencionados colocariam em risco os esforços de combate ao narcoterrorismo e minariam as instituições democráticas que o Estado boliviano busca fortalecer por meio de sua participação no Escudo das Américas.

¨      Governo de De la Espriella enfrenta denúncias de abusos em três operações de segurança na Colômbia. Por Jairo Gómez

Sem completar dois meses de governo, o ultradireitista Abelardo de la Espriella enfrenta um duro revés em sua política de segurança, com o ressurgimento dos chamados falsos positivos — execuções extrajudiciais — e o retorno da polícia aos abusos contra a população.

Três casos despertaram indignação no país e levaram os órgãos de controle cidadãos a pedir explicações ao governo colombiano: Ricardo Martínez, morto em uma operação da Polícia contra uma estrutura armada ilegal; Luis Carlos Mojica Guzmán, desaparecido por ação do Exército; e Donovan Balanta, membro das comunidades afrodescendentes que vivem em Bogotá, assassinado pela polícia.

Sobre Martínez, de 18 anos, sabe-se que era um trabalhador rural e diarista que trabalhava por empreitada na zona rural próxima à cidade caribenha de Santa Marta, cenário de confrontos do Estado contra forças paramilitares dedicadas ao narcotráfico e ao controle político da região há 40 anos.

Sua mãe, Marelvis Rodríguez, junto com o marido e as filhas, denunciou o assassinato de Ricardo, afirmando que ele “nada tinha a ver com organizações criminosas, pois era simplesmente um trabalhador diarista que ganhava a vida para ajudar a família”.

Na mesma semana do assassinato de Ricardo Martínez, considerado um falso positivo, nas ruas de Bogotá, capital do país, a polícia, em uma operação desproporcional, capturou e torturou até a morte Donovan Balanta, um afrodescendente deslocado.

Imagens exclusivas do @Canal91mas revelam claramente o momento da detenção de Balanta, a violência com que foi imobilizado e o uso de uma “pistola elétrica” por sete policiais, que posteriormente foram afastados da instituição.

O terceiro caso é o do camponês Luis Carlos Mojica Guzmán que, segundo a Junta de Ação Comunal de La Macarena, no departamento de Meta, sul da Colômbia, foi vítima de desaparecimento por parte de uma unidade militar da região.

A Defensoria do Povo pediu ao governo do ultradireitista De La Espriella uma investigação rigorosa e o esclarecimento dos três casos. Sobre Balanta, acrescentou que sua morte pode ter resultado de um ato de discriminação racial que “merece ser castigado”.

Segundo o Indepaz, instituição privada que acompanha o conflito, a comunidade denunciou que o Exército Nacional assassinou o camponês Mojica Guzmán e depois ocultou seu corpo, “constituindo-se em um claro falso positivo, que a instituição deve esclarecer imediatamente”, fazendo eco às reivindicações da comunidade.

Esses três casos ocorrem no contexto de uma política que prioriza a segurança e na qual o ultradireitista caminha por cima de cadáveres envoltos em sacos, aparece em público com um revólver na cintura e transforma a captura de criminosos em espetáculo nas redes sociais e nos meios de comunicação.

“Pela razão ou pela força. Viva Cristo Rei!”, é seu slogan, dois meses depois de assumir a Presidência da Colômbia.

¨      Governo e oposição da Venezuela concluem novo diálogo com acordos sobre Judiciário e mídia

A segunda rodada de conversações entre o governo venezuelano e a delegação de ex-deputados da Assembleia Nacional eleita em 2015 terminou na sexta-feira (25) de setembro, em Caracas. As negociações ocorreram ao longo de sete sessões de trabalho, divididas em duas plenárias e cinco mesas técnicas.

A delegação do governo foi chefiada por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, enquanto o grupo opositor foi liderado pela ex-deputada Dinorah Figuera. A iniciativa se insere no marco do Programa Nacional de Convivência Democrática, lançado pela presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, após o bombardeio dos Estados Unidos em 3 de janeiro deste ano, e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada nacional Cília Flores.

Entre os principais resultados do encontro está a criação do Conselho de Revisão de Credenciais e Requisitos para os candidatos ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), um desdobramento do que foi acordado na primeira rodada de diálogos, quando se decidiu pela renovação de todos os magistrados da máxima corte do país.

O conselho será formado por sete juristas indicados por ambas as partes e tem como objetivo acompanhar o processo de renovação do Tribunal Supremo. O acordo também prevê a publicação de um cronograma público e o avanço da comissão encarregada das postulações judiciais.

Na saída da reunião, o deputado Jorge Rodríguez foi questionado sobre a negociação de um possível calendário eleitoral, após a presidenta em exercício ter dito em seu discurso na Organização das Nações Unidas (ONU) que haverá eleições no país. O presidente da Assembleia Nacional afirmou que a convocação deverá obedecer aos prazos estipulados pela Constituição.

“Claro que haverá eleições. Haverá quatro eleições. O que temos pela frente são eleições parlamentares, eleições de prefeitos, eleições de governadores e eleições presidenciais nos prazos estabelecidos pela Constituição”, disse o parlamentar.

As últimas eleições presidenciais foram realizadas em 2024. Já governadores, prefeitos e deputados tiveram os cargos renovados em uma única eleição realizada em 2025. Segundo a Constituição do país, o mandato do presidente da República é de seis anos, enquanto para deputados nacionais é de cinco anos.

Já prefeitos e governadores têm mandato de quatro anos cada. Desse modo, se não houver mudança constitucional, as próximas eleições regionais seriam em 2029, e as nacionais, ou seja, presidente e deputados, em 2030.

<><> Outros resultados

Na área de comunicação, as partes pactuaram o levantamento de medidas administrativas impostas a páginas de notícias e meios digitais. O governo confirmou a liberação do acesso a diversos portais informativos que estavam bloqueados por terem participado de ações e planos golpistas contra o Estado.

Como desdobramento das conversas, o governo realizou 39 novas excarcelações no fim de semana. Entre os libertados estão seis investigados pelo caso conhecido como Operação Gedeão, quando as autoridades conseguiram interceptar e prender um grupo de paramilitares que tentou invadir o país pela costa norte.

“Algo que sim foi dito hoje nas discussões da mesa foi o repúdio que todos temos a qualquer forma de expressão violenta no contexto de tentar obter dividendos políticos com ações violentas isoladas. Penso que estamos indo muito bem no trabalho que vem sendo realizado nesta mesa de diálogo. Acredito que alcançamos acordos muito importantes, que são acordos concretos e tangíveis”, disse Jorge Rodríguez.

As delegações do governo e da oposição ratificaram o compromisso de manter o canal de diálogo permanente. Um terceiro ciclo de reuniões está agendado para meados de outubro de 2026, quando as partes devem dar continuidade às discussões para a estabilidade institucional e a convivência democrática na Venezuela.

Na primeira rodada de negociações, realizada no mês de agosto, oposição e governo concordaram com a renovação do sistema de Justiça, a nomeação de novos magistrados do TSJ, bem como a renovação do Conselho Nacional Eleitoral, e o trabalho conjunto para viabilizar o desbloqueio de ativos da Venezuela na Inglaterra.

 

Fonte: Por Aldo Anfossi, em La Jornada/Opera Mundi/Brasil de Fato

 

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