Quando
o Estado escolhe sua Terra Prometida, quem fica no deserto?
Uma
cidade também diz no que acredita quando decide o que construir. Em Santa Cruz,
na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a antiga Cidade das Crianças Leonel Brizola dá
lugar ao Parque Terra Prometida. O projeto reúne Jardim do Éden, Dez
Mandamentos, Caminho do Mar Vermelho, montes de oração, cinema e uma grande
área para eventos. A Prefeitura apresentou uma estimativa de R$ 190 milhões
para a etapa seguinte da obra. São informações necessárias para que se entenda
a dimensão da escolha. Mas a pergunta que me acompanha é outra: que cidade se
produz quando o poder público transforma uma narrativa religiosa em paisagem
comum?
Os
valores importam porque mostram que não se trata apenas de uma homenagem, uma
placa ou uma escultura. Terreno, arquitetura, orçamento e programação dão
duração a uma ideia. Naquele espaço havia um equipamento voltado às crianças,
com atividades educativas, culturais e esportivas, ainda que parte de suas
instalações estivesse degradada. A mudança de finalidade conta uma história
sobre prioridades. Quem decide que história merece ganhar corpo em pedra,
caminho, jardim e palco? E a quem pertence o direito de reconhecê-la como sua?
Não
tenho dificuldade em compreender que a Bíblia faça parte da vida de milhões de
brasileiros. Nem suponho que a presença de símbolos cristãos na cidade seja,
por si, uma agressão. O problema se desloca, inclusive semanticamente, quando
uma escolha feita pelo Estado é apresentada como expressão natural de todos.
Chamar o parque de espaço “ecumênico” não resolve a questão. O ecumenismo pode
aproximar denominações cristãs; não transforma o Éden, o Mar Vermelho e os Dez
Mandamentos numa narrativa compartilhada por toda a população. A palavra
acolhe, mas a arquitetura seleciona.
É aqui
que uma leitura sociosemiótica se torna necessária. Um nome não apenas
identifica um lugar: convida algumas pessoas a se sentirem em casa e pede a
outras que se reconheçam como visitantes. Uma sequência de símbolos orienta os
percursos possíveis, estabelece o que deve ser admirado e ensina que memória
terá aparência de patrimônio público. Quando o Estado escolhe uma gramática
religiosa para organizar um parque, essa gramática deixa de circular somente
entre fiéis. Passa a falar com a voz, o dinheiro e o território da cidade.
“Terra
Prometida” é uma expressão poderosa. Promessa é uma relação: alguém promete
algo a alguém. Qual é o sujeito dessa promessa quando quem a escreve no espaço
é a Prefeitura? Quem pode se imaginar no centro da cena e quem precisa traduzir
a própria existência para caber nela? Talvez uma criança de terreiro atravesse
o parque, brinque e aprecie seus jardins. Isso não significa que encontre ali a
sua memória. Circular por um espaço não é o mesmo que participar da linguagem
com que ele foi concebido.
Em meu
livro O perigo de uma religião única, examino o momento em que uma fé passa a
se apresentar como medida das demais formas de viver. O parque me devolve essa
inquietação em escala urbana. A questão não é se cristãos podem construir seus
lugares de devoção. Podem e devem exercer livremente sua fé. A questão é o que
acontece quando o Estado assume a tarefa de tornar uma tradição particular o
horizonte simbólico de uma cidade inteira. Nesse gesto, a disputa deixa de ser
apenas religiosa. Ela se torna política.
Há uma
conversão política em curso quando o poder público pede que todos leiam uma
escolha confessional como se fosse uma escolha universal. Não estou falando da
conversão íntima de alguém a uma religião, direito que precisa ser protegido.
Refiro-me à transformação de uma linguagem de fé em linguagem de governo. É uma
operação discreta: primeiro se afirma que ela representa a maioria; depois, que
por representar a maioria pode representar a cidade; por fim, quem questiona o
privilégio é tratado como alguém contrário à fé ou até como um inimigo. A
maioria deixa de ser dado social e passa a funcionar como autorização para
ocupar o comum.
A
laicidade não exige que a religião desapareça da vida pública. Ela exige que o
Estado não entregue a nenhuma religião o poder de definir, sozinha, a imagem de
todos. O direito da maioria de professar sua fé não diminui o direito das
demais pessoas de reconhecerem a cidade como sua. E essa pergunta pesa ainda
mais num país onde terreiros foram criminalizados, tiveram objetos sagrados
apreendidos e seguem enfrentando racismo religioso. Nossas casas sustentam
cuidado, alimento, memória, línguas, festas e vínculos. Mesmo assim, quando
reivindicamos proteção ou acesso digno ao espaço público, frequentemente
precisamos começar explicando que também produzimos cultura e cidadania.
Por
isso, comparar a escala do investimento com demandas de saúde e educação pode
ajudar a dimensionar uma prioridade, desde que não se finja que orçamentos
distintos sejam automaticamente intercambiáveis. O centro da discussão não é
uma conta imaginária na qual o parque seria convertido diretamente em cirurgias
ou merenda. É o sentido político de destinar recursos e território a uma
narrativa específica, enquanto outras presenças religiosas continuam tendo de
justificar até mesmo seu direito de existir sem violência. A pergunta pelo
dinheiro leva, inevitavelmente, à pergunta por quem tem o poder de definir o
que é público.
O Rio
não precisa esconder as marcas cristãs que o constituem. Precisa ser capaz de
olhar também para as marcas indígenas, africanas, afro-brasileiras, de outras
tradições e de quem não professa religião. Um espaço público não se torna
plural porque todos podem entrar por seus portões. Torna-se plural quando as
pessoas podem participar da decisão sobre seus sentidos, seus usos e sua
memória. Se a Prefeitura deseja sustentar que o parque pertence à cidade
inteira, deve tornar transparentes seu financiamento e sua gestão e abrir uma
discussão real sobre a programação, o acesso e o destino do antigo equipamento
infantil. Deve ouvir sobretudo os moradores de Santa Cruz, cuja paisagem está
sendo redesenhada.
Penso a
partir do terreiro porque aprendi ali que o mundo não precisa de uma voz única
para fazer sentido. Cada existência chega com sua história e sua
responsabilidade diante das outras. A cidade democrática deveria conseguir
fazer o mesmo: permitir que diferentes caminhos se encontrem sem exigir que um
deles se faça passar pelo caminho de todos.
Talvez
seja essa a questão que o nome Terra Prometida mais nos obriga a enfrentar.
Quem promete? A quem? Com o dinheiro e a terra de quem? Se a promessa é
pública, ninguém deveria precisar deixar sua memória do lado de fora para
atravessar o portão.
Se a
promessa é pública, pessoas de diferentes tradições religiosas e sem crença
deveriam poder caminhar de mãos dadas, dizendo umas às outras: “Eu também estou
aqui.”
Fonte:
Por Bàbálòrìṣà Sidnei Nogueira de Ṣàngó, no Le Monde

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