POLÍTICAS
PÚBLICAS: A crise também é civilizatória
Quando
a fome, a violência e o abandono deixam de causar indignação, o problema não
está apenas nas instituições, mas na sociedade que aprendemos a aceitar
Há uma
cena que se repete diariamente nas grandes cidades brasileiras. Uma pessoa está
caída na calçada, dormindo sob uma marquise ou tentando proteger seus poucos
pertences da chuva. Ao redor dela, a cidade continua funcionando. Pessoas
caminham apressadas, carros atravessam os sinais, restaurantes servem seus
clientes e lojas abrem suas portas. Alguém talvez desvie o caminho. Outro
segura a bolsa com mais força. Quase ninguém pergunta quem é aquela pessoa,
como chegou até ali ou por que permanecer viva se tornou uma tarefa tão
difícil.
A
repetição transformou o sofrimento em parte da paisagem. É nesse momento que a
crise social revela sua dimensão mais profunda. Ela deixa de ser apenas
econômica, política ou administrativa. Torna-se uma crise civilizatória.
Uma
sociedade não entra em colapso somente quando suas instituições deixam de
funcionar. Ela também entra em colapso quando passa a conviver com a fome, a
violência e o abandono como acontecimentos inevitáveis; quando a presença de
pessoas vivendo nas ruas já não produz espanto; quando a morte de jovens negros
se transforma em estatística recorrente; quando a pobreza é interpretada como
falha individual e não como resultado de escolhas políticas, estruturas
econômicas e desigualdades históricas.
Os
números ajudam a dimensionar aquilo que os olhos se acostumaram a não enxergar.
Em 2024, aproximadamente 18,9 milhões de domicílios brasileiros ainda
enfrentavam algum grau de insegurança alimentar. O dado representa uma melhora
em relação ao ano anterior, mas também revela que milhões de famílias
continuavam sem a certeza de que teriam acesso regular e suficiente à
alimentação.
Em
dezembro de 2025, registros administrativos reunidos a partir do Cadastro Único
apontavam 365.809 pessoas em situação de rua no país. Desse total, 70,58% eram
negras. Os números não correspondem a um censo nacional definitivo, ainda
previsto para 2028, mas oferecem uma dimensão concreta do abandono e de sua
distribuição racial.
Esses
dados deveriam produzir uma ruptura moral. Deveriam interromper a normalidade,
reorganizar prioridades públicas e provocar um profundo questionamento
coletivo. Entretanto, frequentemente são recebidos como mais uma informação
entre tantas outras. A tragédia é reconhecida, comentada por alguns minutos e
rapidamente substituída pelo próximo assunto.
A crise
civilizatória começa justamente nessa perda da capacidade de interrupção. Não
se trata de exigir que cada pessoa viva permanentemente em estado de sofrimento
diante das injustiças do mundo. Trata-se de perceber que a indiferença não é
neutra. Ela permite que determinadas formas de violência continuem existindo
sem provocar reação proporcional à sua gravidade. Quando uma sociedade
naturaliza o abandono, ela também estabelece, ainda que silenciosamente, quais
vidas merecem proteção e quais podem ser expostas à fome, ao medo, ao frio e à
morte.
No
Brasil, essa distribuição do reconhecimento nunca foi igualitária. A herança da
escravidão, a concentração de renda, o racismo estrutural e a desigualdade no
acesso à terra, à moradia, à educação e ao trabalho produziram diferentes
níveis de humanidade socialmente reconhecida. Algumas pessoas são tratadas como
cidadãs, portadoras de direitos e dignas de proteção. Outras precisam provar
permanentemente que são trabalhadoras, honestas, inocentes ou merecedoras de
ajuda.
Para
elas, a dignidade deixa de funcionar como condição inerente à pessoa humana e
passa a ser apresentada como recompensa por bom comportamento.
Essa
lógica aparece quando alguém pergunta o que uma pessoa fez para terminar nas
ruas antes de perguntar quais políticas falharam. Aparece quando a fome é
atribuída à falta de esforço, como se trabalho e sobrevivência mantivessem
entre si uma relação automática. Aparece quando a violência contra jovens
negros é relativizada pela busca imediata de antecedentes, fotografias ou
informações capazes de tornar a vítima menos digna de solidariedade.
Primeiro
se investiga a vida de quem sofreu. Somente depois, talvez, se questione a
violência.
A
desumanização não começa necessariamente com declarações explícitas de ódio.
Muitas vezes, ela se constrói por meio da repetição de pequenas permissões: o
comentário que transforma pobreza em defeito moral; a piada que rebaixa
determinado grupo; a suspeita orientada pela cor da pele; a arquitetura que
impede alguém de se deitar; a retirada de pertences de pessoas em situação de
rua; a crença de que oferecer comida ou acolhimento estimularia a pobreza.
Pouco a
pouco, a presença do outro deixa de despertar reconhecimento e passa a ser
percebida como ameaça, inconveniência ou obstáculo à ordem urbana.
É
significativo que a mesma sociedade que demonstra enorme capacidade de
mobilização diante de determinadas tragédias permaneça indiferente a
sofrimentos permanentes e previsíveis. Isso acontece porque a comoção pública
também é seletiva. Nem todas as dores encontram espaço na narrativa nacional.
Nem todas as vítimas recebem nome, história e fotografia. Algumas mortes são
apresentadas como acontecimentos extraordinários; outras são incorporadas à
rotina.
Essa
seletividade não surge por acaso. Ela acompanha as hierarquias de raça, classe,
território e gênero que organizam a sociedade brasileira. Quanto mais distante
uma pessoa estiver do modelo socialmente construído de cidadão respeitável,
menor tende a ser a indignação provocada pela violência que a atinge.
A
crise, portanto, não pode ser enfrentada somente com apelos individuais à
solidariedade. A caridade pode aliviar uma necessidade imediata, mas não
substitui direitos. Distribuir alimento é necessário diante da fome, mas não
resolve as estruturas que produzem insegurança alimentar. Oferecer um cobertor
protege alguém durante uma noite, mas não substitui uma política habitacional.
Acolher uma pessoa importa, mas não dispensa serviços públicos permanentes de
saúde, assistência social, documentação, trabalho e moradia.
Transformar
indignação em política pública é uma das tarefas fundamentais da democracia.
Isso
exige orçamento, planejamento, dados confiáveis, integração entre diferentes
áreas governamentais e continuidade administrativa. Exige também abandonar
políticas que tratam pessoas vulneráveis como problemas a serem removidos dos
espaços valorizados da cidade. Uma cidade não se torna mais segura ou
organizada quando esconde sua pobreza. Torna-se apenas mais eficiente em
afastar dos olhos aquilo que não deseja enfrentar.
Mas
políticas públicas, embora indispensáveis, não encerram a questão. A
reconstrução precisa alcançar também a cultura, a linguagem e os vínculos
sociais. Precisamos reaprender a olhar o outro sem perguntar primeiro se ele
merece existir com dignidade. Precisamos recusar a ideia de que direitos
fundamentais estão condicionados à produtividade, à aparência, ao endereço ou à
aprovação moral da maioria.
Uma
sociedade civilizada não é aquela que protege somente as pessoas consideradas
exemplares. É aquela que estabelece limites para o poder e assegura dignidade
mesmo quando não existe identificação, simpatia ou proximidade.
A
democracia depende desse reconhecimento. Ela não se sustenta apenas em
eleições, tribunais e Constituições. Depende da convicção de que nenhuma pessoa
pode ser descartada e de que o sofrimento de alguém que não conhecemos ainda
diz respeito a todos nós. Sem essa disposição, os direitos tornam-se
privilégios protegidos para alguns e promessas abstratas para os demais.
A crise
social brasileira é material. Está na fome, na falta de moradia, na
precariedade do trabalho, na violência e na desigualdade racial. Mas ela também
é moral e política. Está na facilidade com que aprendemos a passar ao lado
dessas realidades sem permitir que elas alterem nosso caminho.
Talvez
uma crise civilizatória não comece quando a barbárie aparece de forma
espetacular. Talvez comece antes, quando a barbárie se torna cotidiana e
deixamos de reconhecê-la como tal.
A
reconstrução do país exige mais do que crescimento econômico ou estabilidade
institucional. Exige recuperar a capacidade de se indignar, reconhecer o outro
como sujeito de direitos e transformar essa indignação em responsabilidade
coletiva. Enquanto houver vidas tratadas como descartáveis, não estaremos
diante apenas de uma crise social. Estaremos diante de uma sociedade que
precisa decidir, novamente, o que entende por humanidade.
• Dinheiro na economia real: duas medidas
que fortalecem o empreendedorismo. Por Rodrigo Soares
Duas
medidas anunciadas pelo governo federal vão fazer o dinheiro circular onde ele
gera oportunidades, emprego, renda digna e desenvolvimento. O fim das bets e o
Desenrola Brasil 3.0 são iniciativas que protegem as famílias, recuperam sua
capacidade financeira e fortalecem a economia real.
O fim
das bets, além do impacto sobre o bolso de quem aposta, possui uma dimensão
social e de saúde pública. Os problemas associados às apostas podem provocar
endividamento, perda de qualidade de vida, ansiedade, depressão e outros
impactos que acabam sendo compartilhados por toda a sociedade. Dados do
Ministério da Saúde mostram que os atendimentos relacionados a jogos on-line e
problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. O governo
federal estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos,
sendo R$ 30,6 bilhões relacionados à saúde.
Uma
parcela significativa da renda das famílias estava sendo direcionada para
apostas e deixava de circular em atividades que geram emprego e renda nos
territórios. Os pequenos negócios do comércio e serviços eram impactados, pois
estão na ponta do consumo das famílias.
Tomando
como base R$ 65 bilhões por ano de perda líquida dos apostadores e aplicando um
multiplicador entre 1,3 e 1,7, compatível com o perfil de consumo das classes
C, D e E que concentram o público das apostas, esse montante devolvido ao
consumo geraria entre R$ 85 bilhões e R$ 110 bilhões de PIB adicional. Com uma
carga tributária efetiva em torno de 32%, isso significa algo entre R$ 27
bilhões e R$ 35 bilhões de arrecadação nas três esferas de governo, contra
cerca de R$ 7,8 bilhões obtidos hoje com a alíquota de 12% sobre a receita das
operadoras. O saldo fiscal favorável ao consumo fica entre R$ 19 bilhões e R$
30 bilhões por ano, sem contar os custos evitados com endividamento e saúde
mental, e o maior beneficiário direto seria o varejo de bairro, exatamente onde
estão os pequenos negócios brasileiros.
Mais do
que uma transferência de recursos, trata-se de recolocar dinheiro em
circulação: no supermercado, na loja do bairro, no salão de beleza, no
restaurante, na oficina, no pequeno prestador de serviço. É aí que a economia
acontece todos os dias.
Por sua
vez, o Desenrola Brasil 3.0 atua em outra frente, que é a recuperação da
capacidade financeira das famílias. A Medida Provisória nº 1.393/2026 criou uma
modalidade emergencial de renegociação de dívidas de pessoas físicas
inadimplentes, com deságio mínimo de 90% na aquisição das carteiras elegíveis e
limite de até R$ 15 bilhões em despesas da União. O programa poderá alcançar
milhões de brasileiros e tem duração prevista até junho de 2028.
Quando
uma família deixa a inadimplência, ela recupera a capacidade de consumir, de
planejar, de acessar crédito e de voltar a participar plenamente da economia. E
isso também chega aos pequenos negócios.
O
empreendedor não vive isolado. Ele depende do consumidor que entra na loja,
contrata um serviço, compra um produto, frequenta um restaurante ou faz uma
reforma. Por isso, a saúde financeira das famílias é também uma questão de
saúde dos pequenos negócios.
É
preciso olhar para essas medidas, portanto, para além dos números fiscais ou
financeiros. Existe uma dimensão de desenvolvimento econômico. De um lado,
reduzir a drenagem de renda provocada pelas apostas. De outro, recuperar a
capacidade de pagamento e de consumo de milhões de brasileiros.
O
dinheiro precisa circular, movimentar o comércio, os serviços, o emprego e a
renda. Quando ele chega aos pequenos negócios, ajuda a transformar consumo em
produção, renda em investimento e sonhos em oportunidades.
Fortalecer
a economia real é criar condições para que o brasileiro possa voltar a
consumir, empreender, investir e crescer.
Fonte:
Por Fernanda Macedo , no Le Monde/Brasil 247

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