Como
funcionam as pesquisas eleitorais
As
pesquisas de intenção de voto influenciam estratégias de campanha, ganham as
manchetes dos noticiários, alimentam debates públicos e, não raro, despertam
críticas dos próprios políticos.
Em um
país marcado pela polarização e por um eleitorado de mais de 150 milhões de
pessoas, os levantamentos são frequentemente tratados como um termômetro da
disputa, mas também se tornam alvo de desconfiança e questionamentos.
Por
trás dos percentuais divulgados, porém, existe um processo complexo que envolve
planejamento estatístico, extensa coleta de dados e regras rígidas de
transparência estabelecidas pela Justiça Eleitoral.
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Questionário e desenho amostral
A
realização de uma pesquisa eleitoral começa muito antes do trabalho de campo. A
primeira etapa desse processo é a elaboração do questionário. Nessa fase, são
definidas as perguntas e a ordem em que elas serão apresentadas aos
entrevistados.
A
sequência é considerada fundamental para evitar vieses. "Costumamos
começar o questionário perguntando ao entrevistado se já escolheu em quem vai
votar, sem nenhum tipo de estímulo anterior", explica o cientista político
Felipe Nunes, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e sócio-fundador da
Quaest Pesquisa e Consultoria.
Essa é
a chamada pesquisa espontânea de intenção de voto, que busca entender se o
eleitor já tem um candidato em mente, o que indicaria uma tendencia mais
consolidada. A lista de candidatos é apresentada depois, na chamada pesquisa
estimulada.
Para
definir quem será entrevistado, é realizado um planejamento amostral. A amostra
é construída a partir de bases de dados de fontes como o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) e o próprio Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), e precisa garantir uma representação fiel do conjunto de eleitores
brasileiros, em termos de gênero, raça, escolaridade, renda e região, por
exemplo.
Os
municípios onde a pesquisa será realizada são definidos por meio de sorteio,
mas devem seguir os critérios do planejamento amostral.
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Metodologia de coleta de dados
Existem
hoje três métodos principais para a realização de pesquisas eleitorais: a
coleta de dados presencial, por telefone e pela internet, cada um com vantagens
e desvantagens.
As
pesquisas realizadas presencialmente conseguem garantir uma maior cobertura,
explica Nunes, especialmente de eleitores das classes C, D e E. O encontro face
a face também permite ao entrevistador analisar se o entrevistado compreendeu
as perguntas, respondeu voluntariamente e no tempo adequado.
Dentro
da categoria presencial, há dois modelos principais: a pesquisa domiciliar,
realizada a partir de um mapeamento das residências dos entrevistados; e a
pesquisa em pontos de fluxo, em que entrevistadores abordam pessoas em locais
de grande circulação.
Em
contrapartida, trata-se de um modelo caro. Sua execução exige uma rede de
entrevistadores distribuída por todo o país, e implica custos com deslocamento,
seguros e sistemas de monitoramento, como as tecnologias de GPS instaladas nos
tablets utilizados em campo.
As
pesquisas por telefone possuem custo inferior ao das entrevistas face a face, e
permitem uma execução mais rápida do trabalho de campo. Mas há dificuldades na
construção da amostragem, já que hoje não existe uma lista telefônica oficial
capaz de servir de base para esse processo. Além disso, cresce o número de
pessoas que se recusam a atender ou participar de entrevistas por telefone.
"A taxa de não resposta está muito alta", comenta Nunes.
Já as
pesquisas por internet também possuem como principal vantagem a velocidade e o
baixo custo. No entanto, apresentam um desafio metodológico conhecido como
"alta taxa de não resposta não ignorável". "Há o risco de que
alguém muito motivado queira responder a pesquisa, mas é mais difícil chegar
naquele eleitor que vai votar, mas não está fazendo campanha para nenhum
candidato", explica Nunes.
Para
Nunes, a transparência com o método escolhido é o mais importante. "Eu
ousaria dizer que amostras híbridas, com uma combinação de metodologias de
coleta de dados, serão cada vez mais comuns nas próximas eleições",
acrescenta.
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Registro no TSE
No
Brasil, a Lei das Eleições determina que as pesquisas sejam registradas junto à
Justiça Eleitoral, num prazo de até cinco dias antes da divulgação dos
resultados. No registro, devem ser informados: quem contratou a pesquisa; valor
e origem dos recursos; metodologia e período de realização; plano amostral e
área física de realização; intervalo de confiança e margem de erro; sistema
interno de controle e verificação; questionário completo e quem pagou pela
realização do trabalho.
Os
registros das pesquisas ficam disponíveis para consulta pública no portal do
TSE. "O registro é a garantia que os partidos políticos, candidatos,
jornalistas e a sociedade em geral têm de poder fiscalizar o trabalho que está
sendo feito", diz Nunes.
Durante
o período eleitoral, enquetes ou sondagens feitas sem registro, plano amostral
e utilização de método científico estão proibidas. A divulgação de pesquisa
fraudulenta constitui crime, punível com detenção de seis meses a um ano e
multa.
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As pesquisas erram?
Felipe
Nunes ressalta que, apesar de terem um papel importante no processo
democrático, as pesquisas eleitorais não são capazes de prever o resultado de
uma eleição. "Pesquisa não é bet. O
nosso papel não é tentar adivinhar o que vai acontecer", afirma.
Para
ele, as pesquisas são sempre um retrato do passado, e não do futuro. "A
gente olha para trás para explicar o comportamento do eleitorado".
Fonte:
DW Brasil

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