Os
desafios do SUS — e o que crise do sistema de saúde britânico pode ensinar
A
médica brasileira Ana Luíza Gibertoni Cruz conhece de perto os dois lados de
uma comparação frequente entre sistemas públicos de saúde. Formada no Brasil,
fez residência no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, e
trabalhou na atenção primária do SUS em postos de saúde
de Campinas, no interior do Estado. Em 2012, se mudou para o Reino Unido e,
desde então, trabalha no NHS, o sistema público de saúde
britânico
que serviu como uma das referências para a criação do SUS. Hoje, atua em um
hospital de Oxford, em uma unidade que tenta solucionar um dos problemas mais
graves enfrentados pelo NHS: como dar atendimento primário adequado à população
sem sobrecarregar ainda mais prontos-socorros e hospitais.
O
sistema que durante décadas foi motivo de orgulho para os britânicos atravessa
uma de suas maiores crises. Em 2025, o governo lançou um plano de dez anos para
tentar reformá-lo, baseado em três grandes mudanças: transferir parte do
atendimento dos hospitais para as comunidades, acelerar a digitalização e
ampliar o foco na prevenção de doenças. Para Ana Luíza, as dificuldades
enfrentadas hoje pelo NHS são resultado de uma combinação que também traz
alertas para o Brasil: anos de baixo crescimento dos investimentos, aumento da
demanda e uma população que vive mais, mas passa mais tempo convivendo com
doenças crônicas. "A crise atual me parece o resultado de mais de uma
década de restrição de investimentos, em conjunção com o aumento da expectativa
de vida, em que temos pessoas vivendo mais, mas não necessariamente anos com
saúde", diz a médica.
Os
paralelos entre os sistemas britânico e brasileiro têm raízes históricas.
Quando o Reino Unido criou o NHS, em 1948, estabeleceu um dos modelos mais
conhecidos de saúde universal do mundo. Quatro décadas depois, o Brasil se
inspirou em experiências como a britânica para criar o SUS. Especialistas
ouvidos BBC News Brasil apontam que alguns dos desafios que hoje pressionam o
sistema britânico tendem a ganhar peso também no Brasil. E dizem que tanto os
acertos quanto as dificuldades enfrentadas pelo Reino Unido podem oferecer
lições sobre como se preparar para eles. Longas esperas por atendimento
primário, desigualdades regionais e falta de profissionais são alguns dos
obstáculos comuns atravessados por ambos os modelos hoje. O dilema de como
obter mais financiamento para a saúde pública ao mesmo tempo em que se gerencia
bem os fundos já disponíveis também aproxima realidades que podem parecer
bastante distantes à primeira vista. Tudo isso em um momento de profunda
mudança demográfica, com um acentuado aumento da demanda puxada pelo
envelhecimento da população.
<><>
Como reduzir desigualdades?
Apesar
de universais, tanto o SUS quanto o NHS enfrentam dificuldades para garantir
que todos os pacientes tenham o mesmo acesso e a mesma qualidade de atendimento
independentemente de onde vivem. Filas, disponibilidade de profissionais e
acesso a exames e tratamentos especializados podem variar significativamente
entre diferentes regiões dos dois países.
No
Reino Unido, os serviços oferecidos nas quatro nações constituintes —
Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte — são distintos devido à
natureza descentralizada do NHS, mas também têm hoje diferenças significativas
em financiamento e desempenho. Dados mais recentes mostram, por exemplo, que o
País de Gales gastava mais por habitante que a Inglaterra, mas apresentava
filas maiores. Dentro da Inglaterra também há contrastes significativos. Em
setembro de 2025, por exemplo, a lista de espera para tratamento eletivo na
Grande Manchester era oito vezes maior do que a registrada na região da
Cornualha e Ilhas Scilly, no sudoeste do país.
Ana
Luíza Gibertoni Cruz diz vivenciar de perto essa desigualdade em seu dia a dia
como médica infectologista e clínica geral no Hospital John Radcliffe, em
Oxford, cidade localizada a cerca de 90 quilômetros de Londres. A brasileira
reconhece que o município em que trabalha fica em uma região extremamente
privilegiada, com mais recursos do que muitas outras pelo país. "A
desigualdade não para de crescer e percebemos isso, por exemplo, no tipo de
paciente e no tipo de problema que chega no hospital", diz. Ana atua
especificamente na Unidade de Avaliação Aguda (ou AAU, na sigla em inglês) do
Hospital John Radcliffe. Criada em 2010, esse tipo de clínica se especializa no
atendimento rápido de pacientes com condições médicas urgentes.
Um dos
pilares do NHS é o sistema de general practitioners (GPs), médicos
generalistas que funcionam como a principal porta de entrada do serviço de
saúde. Em geral, o paciente precisa procurar primeiro seu GP, responsável por
acompanhar seu histórico clínico, oferecer atendimento inicial, monitorar
doenças crônicas e decidir se há necessidade de encaminhamento para exames ou
especialistas.
As AAUs
foram criadas para atuar em parceria com esses médicos, servindo como uma porta
de entrada para pacientes encaminhados por eles, além de outros que chegam via
ambulância ou são transferidos de pronto-socorros mais lotados. A médica
brasileira explica que o serviço oferecido nessas unidades é totalmente voltado
para estadias curtas, com o objetivo de poupar leitos em hospitais maiores ou
grandes departamentos de emergência. Ali, após uma triagem rápida, realização
de exames e estabilização, o paciente recebe alta para casa ou é transferido
para uma enfermaria especializada conforme a necessidade de internação
prolongada, diz.
"Atendemos
de 1.500 a 1.700 pacientes por mês", diz. "O modelo de hospital custa
muito caro e acaba sendo ineficiente também."
No
Brasil, o SUS implementou as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em 2007 com
um objetivo similar. Mas os as UPAs e as AAUs são um pouco diferentes, diz
Maitê Gadelha, outra médica brasileira que acompanha de perto os dois modelos.
"A UPA é uma unidade de atendimento aberto, em que qualquer paciente pode
chegar para ser atendido", diz. "Já esse modelo britânico é como um
departamento. dentro dos hospitais para tratar coisas mais rápidas." Hoje
responsável técnica pela UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Rio das Pedras,
Maitê Gadelha cursou um Mestrado em Saúde Pública pela Universidade de
Edimburgo e comparou NHS e SUS durante seus estudos. Segundo ela, os dois
sistemas são muito mais parecidos do que se imagina. A médica ressalta, porém,
que o desafio brasileiro diante da desigualdade é muito maior devido à extensão
do território, à população — que é aproximadamente três vezes maior — e aos
obstáculos criados pelo financiamento deficitário em algumas áreas. Mas ela
também aponta muitas congruências. "Tanto no SUS como no NHS existem
muitas diferenças em termos do tamanho das filas, por exemplo, mas também dos
desafios enfrentados. O que um profissional encontra na Escócia e no País de
Gales é muito diferente, assim como é em São Paulo e em Belém do Pará",
diz.
Para
Walter Cintra, professor de Gestão em Saúde da FGV, um dos maiores desafios do
SUS hoje é aprofundar a regionalização para garantir que pacientes do interior
tenham acesso a serviços especializados sem precisar enfrentar desigualdades em
relação aos grandes centros urbanos. O Brasil já é visto como exemplo para o
resto do mundo por sua Estratégia Saúde da Família (ESF). Esse modelo,
implantado em boa parte do território nacional, depende do trabalho dos agentes
comunitários de saúde, que visitam as casas das famílias e fazem um
acompanhamento de sintomas, incômodos, doenças crônicas e outros aspectos que
podem impactar a vida e o bem-estar das pessoas. Mas segundo especialistas, a
regionalização de verdade, com ampla descentralização e autonomia para gestores
locais e contratos de desempenho, ainda precisa ser mais trabalhada.
Essa é
justamente uma das bases do plano lançado em 2025 pelo Reino Unido para
reformar o NHS: mais investimentos para a criação de uma rede de serviços de
bairro e maior oferta de atendimento perto da casa dos pacientes. A ideia é que
o grande foco dos atendimentos passem a ser os centros de saúde locais e os
GPs, ao invés dos grandes hospitais. O britânico Andy Brooks, presidente da
National Association of Primary Care (Associação Nacional de Cuidados
Primários, ou NAPC, na sigla em inglês), explica que o país ainda depende muito
do trabalho dos grandes hospitais, que acabam recebendo mais financiamento,
profissionais capacitados e novas tecnologias do que as clínicas de bairro.
Para tornar o acesso mais universal e distribuir melhor as demandas, diz, é preciso
aproximar o atendimento dos cidadãos.
Segundo
Brooks, sistemas organizados em torno das necessidades de cada comunidade, e
não das estruturas burocráticas de diferentes instituições, tendem a funcionar
melhor. Isso permite adaptar melhor os serviços à realidade local e evitar
duplicações de atendimento. Um modelo mais próximo das comunidades também ajuda
a reduzir as desigualdades entre diferentes regiões do país, permitindo, ao
mesmo tempo, a adaptação local, afirma o especialista, que também é pesquisador
do The King's Fund, uma instituição de caridade independente que trabalha para
melhorar a saúde no Reino Unido.
<><>
Mais médicos ou melhor distribuição?
O
Brasil também enfrenta um desafio que é específico da realidade local: a
quantidade de médicos por habitante. Segundo a edição de 2025 da pesquisa
Demografia Médica no Brasil, por exemplo, a região Sudeste possui 3,77 médicos
por 1.000 habitantes, enquanto o Norte tem apenas 1,70, menos da metade. Para
Maitê Gadelha, o problema não é necessariamente a falta de médicos, mas sua
distribuição desigual pelo território e a necessidade de garantir melhor
qualificação profissional. "Nós temos muitos profissionais formados, mas
não temos tantos profissionais qualificados. Isso é um grande problema",
diz. "Houve um aumento muito grande da quantidade de novos profissionais
médicos formados no país. O que não acompanhou esse número de formação foi o
número de vagas de residência, por exemplo."
No
Reino Unido, o NHS sofre especialmente com a redução relativa dos médicos de
atenção primária, os chamados GPs, segundo Andy Brooks. Segundo ele, o sistema
acabou formando mais especialistas hospitalares do que profissionais voltados
para a atenção básica, justamente a área considerada fundamental para prevenir
doenças, coordenar cuidados e evitar hospitalizações. "Definitivamente,
erramos na distribuição [dos médicos pelo país] e no treinamento", diz
Brooks. "Há evidências de que investir em médicos generalistas melhora a
qualidade de vida e reduz internações hospitalares." Maitê Gadelha aponta
ainda uma dificuldade grande do NHS em reter profissionais devido à grande
carga de trabalho e estresse.
Em
dezembro de 2025, cerca de 100 mil postos equivalentes a tempo integral estavam
vagos no NHS da Inglaterra, o equivalente a aproximadamente 6,7% de todas as
vagas. Ao mesmo tempo, entre março de 2024 e março de 2025, quase 152 mil
funcionários deixaram o serviço. Para tentar contornar o problema, uma das
estratégias observadas é investir no bem-estar das equipes, com iniciativas
voltadas para apoio à saúde mental do profissional e organização das agendas
para reduzir a sobrecarga. Segundo Gadelha, o sistema britânico tem trabalhado
para "conseguir manter o profissional no serviço, pensando na comodidade,
benefícios e saúde mental", uma abordagem que considera mais avançada do
que a adotada atualmente no Brasil. Para a especialista, o SUS poderia se
inspirar nessas políticas de retenção de trabalhadores, sobretudo na atenção
primária, onde o desgaste profissional e o burnout também são desafios
frequentes.
<><>
Longas esperas
Para o
Reino Unido, reduzir a dependência dos hospitais e melhorar a distribuição dos
profissionais de saúde significa também atacar um dos sintomas mais visíveis da
crise: as longas esperas. Ana Luíza convive com elas no dia a dia. "Nos
pronto-socorros aqui, casos não muito graves podem ficar a noite inteira para
serem atendidos e às vezes nem chegam a ser vistos", afirma. Ela também
menciona as esperas por atendimento especializado como um dos problemas do
sistema.
Dados
da Associação Médica Britânica (BMA), o sindicato e órgão profissional que
representa médicos e estudantes de Medicina no país, indicam que, em agosto de
2026, 75% das pessoas que deram entrada em pronto-socorros foram internadas,
transferidas ou receberam alta em até 4 horas. Mas segundo a organização, um
dos sintomas mais evidentes das longas filas de espera nos serviços de
emergência são os chamados 'atendimento de corredor', com pacientes nos
departamentos de emergência passando cada vez mais tempo aguardando tratamento
ou internação em espaços não clínicos, incluindo salas de espera, depósitos,
filas de ambulâncias além dos corredores do hospital. Já em termos de cuidados
secundários, como são chamados os serviços médicos de média complexidade prestados
por especialistas e unidades especializadas, mais de 6,2 milhões de pacientes
individuais estavam na fila aguardando tratamento em julho de 2026, segundo a
BMA. O tempo médio de espera é de 12 semanas para o início do tratamento — um
aumento significativo em relação ao tempo médio de espera pré-pandemia de
covid-19, que era de 7,3 semanas em julho de 2019.
Em seu
plano de reforma, o governo estabeleceu uma meta de 18 semanas para que todos
os pacientes recebam tratamento especializado após encaminhamento da atenção
primária. Mas cerca de 2,53 milhões de pacientes estão na fila de espera há
mais do que isso. Para contornar o problema, o NHS tem investido em atendimento
digital e virtual — além de em sua estratégia base focada em redes de serviço
de bairro. Enfermarias virtuais, triagem remota e telemedicina para casos não
urgentes foram implementadas desde 2021. O serviço inglês também conta muito
com enfermeiros e farmacêuticos clínicos para cuidados na linha de frente,
gerenciando doenças crônicas e prescrevendo medicamentos de forma eficaz.
O
Nuffield Trust, um centro de estudos independente sobre saúde e assistência
social, calcula que mais de 98 mil profissionais clínicos não médicos em todo o
Reino Unido — incluindo enfermeiros, farmacêuticos e diferentes tipos de
paramédicos — possuem licença para prescrever medicamentos, o que representa
quase um quarto da força de trabalho qualificada para tal função em todo o
país. Não é incomum, por exemplo, que um paciente procure o médico generalista
atribuído a sua família pelo NHS com um caso simples e seja encaminhado para
uma farmácia, onde pode se consultar e receber medicamentos. Remédios tomados
de forma continua também são prescritos e ajustados pelos farmacêuticos
associados às clínicas locais.
Atendimentos
ginecológicos de rotina são conduzidos por enfermeiras especializadas e o
acompanhamento pré-natal feito primordialmente por obstetrizes treinadas. A
médica brasileira Ana Luíza Cruz cita ainda os fisioterapeutas e terapeutas
ocupacionais, que podem atender pacientes encaminhados diretamente pela
triagem. Na atenção especializada, há ainda enfermeiros dedicados, por exemplo,
a doenças crônicas específicas, diz. Para ela, contar com outros profissionais
de saúde é também uma estratégia para lidar com a falta de mão de obra. Mas faz
uma ressalva importante: a ampliação de atribuições só funciona com treinamento
adequado, regulamentação e acesso a médicos como retaguarda para casos mais
complexos. "A Inglaterra sempre teve o sistema de saúde bastante aberto às
outras profissões, com foco muito multidisciplinar", afirma a
infectologista. "No Brasil, tudo ainda ainda é muito focado no médico como
autoridade final."
A
também médica Maitê Gadelha nota que, uma diferença importante é que, no
sistema britânico, a triagem inicial pode direcionar o paciente diretamente ao
profissional mais adequado, em vez de colocá-lo automaticamente na fila para um
médico. Ela vê aí uma lição para o Brasil, onde esses profissionais já existem,
mas nem sempre estão disponíveis em todas as unidades e ou têm a mesma
autonomia: "Por que um idoso que está com dificuldade para tomar uma
medicação precisa ficar numa fila durante duas ou três semanas para uma
consulta com o médico, se pode ser muito bem atendido pelo farmacêutico que vai
poder explicar de forma didática como proceder?", questiona. Outro ponto
importante levantado por Maite Gadelha é a gestão das filas: "qualificar"
quem está na espera, em vez de simplesmente seguir a ordem de chegada. Para
isso, considera fundamental fortalecer a atenção primária e os GPs como uma
espécie de "porteiros" do sistema, responsáveis por avaliar quem são
os pacientes que realmente deveriam estar ali.
Nesse
sentido, Andy Brooks, do King's Fund, diz que houve recentemente uma redução
das listas de espera no NHS que se deve, em parte, a uma revisão para
determinar quem ainda precisava realmente estar na fila. "Não é que
realizamos mais procedimentos, é que algumas pessoas saíram da fila",
explica. Brooks menciona ainda a prática de oferecer incentivos financeiros a
hospitais e clínicas que consigam aumentar sua atividade e melhorar os
indicadores ao fim de cada ano. Segundo ele, a estratégia tem se mostrado
efetiva, mas ainda restam dúvidas sobre a capacidade do NHS de sustentar a
melhora dos indicadores em períodos em que não há nenhum tipo de bônus.
<><>
Envelhecimento da população
Mas
talvez uma das liç'oes mais valiosas que o NHS pode dar ao Brasil, segundo os
especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, está relacionada à atenção ao
envelhecimento da população. É entre os idosos que Ana Luíza observa com mais
clareza como a crise da saúde extrapola as paredes dos hospitais no Reino
Unido. Ela descreve situações de "internação social": idosos que não
necessariamente precisam permanecer no hospital por razões médicas, mas que já
não conseguem viver sozinhos ou dependem de um cuidador que também envelheceu e
não consegue mais dar conta de suas necessidades.
Na
região em que trabalha, parte desses casos é encaminhada para equipes
comunitárias formadas inclusive por fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.
Elas podem avaliar o paciente em casa, fazer adaptações e acionar serviços de
assistência social. Há ainda pacotes públicos de cuidados que podem prever
visitas ao longo do dia para ajudar o idoso a tomar remédios, se alimentar, se
limpar ou entrar e sair da cama. Segundo a médica brasileira, a crescente
integração entre saúde e assistência social se tornou fundamental no país em
que a população de mais de 65 anos cresceu cerca de 69% em 50 anos, chegando a
quase 20% da população. Estima-se que até 2050 cerca de 1 em cada 4 pessoas no
Reino Unido terá mais de 65 anos
Maitê
Gadelha explica que uma população mais envelhecida significa lidar cada vez
mais com pacientes que acumulam múltiplas doenças e necessitam de
acompanhamento contínuo por diferentes profissionais, o que pressiona o sistema
de saúde. "Quanto mais idoso mais probabilidade do paciente se tornar o
que chamamos de multimórbido, ou seja, ter mais de um problema de saúde que
precisa ser tratado", explica. "E o problema não é apenas a
quantidade de problemas, mas a complexidade das patologias, justamente por essa
interseção. E isso claramente vai gerar uma sobrecarga no sistema."
Andy
Brooks, da NAPC, concorda que a demografia tem impacto sobre o sistema, mas diz
que essa é apenas parte da explicação. "Frequentemente se fala sobre o
envelhecimento da população, a maior fragilidade da população e o aumento da
gravidade dos casos. Há algo disso, mas boa parte [da pressão] é impulsionada
por novas tecnologias e tratamentos", afirma. Segundo Brooks, a medicina
hoje consegue oferecer a um mesmo paciente uma variedade muito maior de
intervenções do que há uma década. "Há 10 anos, as pessoas iam ao hospital
e só podíamos fazer os procedimentos A, B ou C. Agora, podemos fazer também D,
E e F", diz. "Isso está elevando muito os custos.
O
alerta talvez seja ainda maior para o Brasil.
Martha
Oliveira, médica que foi diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar
(ANS) e atualmente é CEO do Grupo Laços, voltado ao público 60+, ressalta que o
país passa pela mesma transformação, mas de forma muito mais acelerada. Entre
2010 e 2022, o número de brasileiros com 65 anos ou mais saltou de 14 milhões
para 22,2 milhões, um crescimento de 57,4% em apenas 12 anos. Em termos
relativos, enquanto o grupo de mais de 65 anos cresceu cerca de 46% em relação
ao total da população no Reino Unido nos últimos 50 anos, no Brasil ele cresceu
173% entre 1980 e 2022. Ou seja, o Brasil está envelhecendo muito mais
rapidamente e com menos capacidade financeira e menos tempo para preparar seus
sistemas de saúde e proteção social, diz Oliveira. "O NHS sempre foi visto
como inspiração de um sistema público que funcionava bem. Só que com o
envelhecimento e uma maior carga de custos, nem eles aguentaram", aponta.
"E somos um país continental e muito mais pobre."
Por
tudo isso, a especialista enxerga a experiência do NHS menos como uma previsão
distante e mais como um alerta tardio sobre uma transformação que já começou no
Brasil. "Daqui a pouco teremos 30% da população acima de 60 anos. E aí?
Não temos estrutura de saúde, estrutura de calçadas, estrutura de transporte,
estrutura de socialização, nada disso pronto para esse aumento." Apesar do
cenário de pessimismo, Oliveira destaca dois aspectos das mudanças discutidas
no Reino Unido que podem servir de exemplo: tecnologia e cuidado fora dos
hospitais. "No Brasil seguimos a lógica de hospital para tudo: tive uma
emergência, vou para o hospital, tem que fazer um exame, vou para o hospital,
estou sentindo uma dor de cabeça, vou para o hospital", diz. "Mas os
idosos precisam de cuidado básico e prevenção em casa, sem necessidade de
deslocamento."
A
brasileira Ana Luiza também vê o modelo de atendimento domiciliar e de
assistência social britânico como um caminho. Fisioterapeutas e terapeutas
ocupacionais são enviados às casas para análises periódicas e podem
providenciar adaptações rápidas ou acionar a assistência social. Os idosos
necessitados recebem os chamados "packages of care", pacotes de
assistência adaptados ao grau de dependência do paciente. "São cuidadores
que vão, a depender da necessidade, de uma a até quatro vezes ao dia atender em
casa", diz Ana Luíza Gibertoni Cruz. As visitas podem ser curtas, mas
ajudam em atividades essenciais, como medicação, limpeza da casa, higiene
pessoal e alimentação. A médica destaca ainda o serviço de "hospital em
casa", destinado a pacientes que precisam de cuidados de menor
complexidade, como exames de sangue repetidos ou ajustes de medicação, que
podem ser realizados na própria residência. Para ela, a articulação entre
hospital, atendimento comunitário e assistência social funciona particularmente
bem em sua região: "Temos uma rede muito boa já organizada na
comunidade".
<><>
Financiamento e governança
Mas
nenhuma reforma é eficiente sem investimentos adequados e uma boa gestão,
afirmam os especialistas. O que a experiência britânica sugere, segundo os
especialistas, é que a pergunta não deve ser apenas quanto gastar, mas também
como e onde gastar. A melhor forma de comparar Reino Unido e Brasil é olhando
os investimentos feitos em saúde por habitante.
Segundo
a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2024, o
Brasil gastava cerca de US$ 1.898 por pessoa em saúde, contra US$ 6.747 no
Reino Unido. O gasto por habitante britânico era, portanto, cerca de 3,6 vezes
o do brasileiro. "Seja lá o que formos fazer para reorganizar o SUS, o
financiamento tem que ser resolvido primeiro. Não adianta, não tem
mágica", diz Walter Cintra, da FGV, sobre a situação brasileira.
Para o
especialista, além do SUS ser subfinanciado, administrar os recursos destinados
à saúde no Brasil é mais complexo devido à própria estrutura federativa
nacional. Municípios, Estados e União, ressalta, são entes federativos "em
igualdade de condição": "Não há uma hierarquia, não há uma
subordinação". Cintra também chama atenção para uma diferença adicional:
no Reino Unido, diz, a maior parcela dos gastos com saúde está no sistema
público, enquanto no Brasil boa parte dos recursos é privada e atende uma
parcela menor da população.
Mas
Andy Brooks também vê problemas no NHS, como as sucessivas reorganizações
administrativas e dificuldade em fazer com que dinheiro e profissionais
acompanhem as prioridades anunciadas pelos governos. O Reino Unido fala há
décadas em transferir o atendimento para as comunidades, por exemplo, sem
necessariamente transferir recursos na mesma proporção, diz. "Os hospitais
ainda recebem a maior parte do orçamento, apesar das promessas de direcionar
para as comunidades", diz.
Para
Brooks, uma possível solução seria descentralizar parte das decisões
financeiras: "delegar os orçamentos localmente" dentro das
prioridades nacionais, aponta. A ideia é que cada região possa aplicar recursos
conforme as necessidades da própria população, adaptando as prioridades
definidas nacionalmente. Outra lição importante deixadas pela experiência
britânica, diz Brooks, é evitar que governos confundam a apresentação de
grandes planos com sua execução. Segundo o especialista, governo falham em não
planejar a execução das medidas anunciadas em seus planos de reforma. É
preciso, diz, reorganizar financiamento, profissionais e treinamento com
antecedência para que as mudanças sejam entregues dentro dos mandatos
previstos. "O problema não é o conceito da política. O problema é a
implementação", diz. E acrescenta: é preciso também paciência para que
políticas se transformem em mudanças na prática: "Saúde pública é algo
realmente complexo. Não vai ficar tudo pronto em um ano."
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário