A
pedagogia da servidão
Há
derrotas eleitorais que cabem nas urnas. Outras apenas aparecem nelas. O
resultado do primeiro turno de 2026 pertence à segunda espécie. A votação de
Flávio Bolsonaro não pode ser tratada como acidente, erro estatístico ou
simples desinformação. Luis Felipe Miguel tem razão ao recusar os eufemismos:
não se trata de imaginar um eleitor inteiramente enganado, incapaz de saber
quem escolheu, nem de supor que uma revelação de última hora dissolverá
vínculos políticos consolidados.
Seu
texto acerta também ao deslocar o olhar para os milhões que não votaram ou
votaram em branco e nulo. Mas há um ponto em que convém avançar. Quando
“burrice” e “perversidade” passam de indignação moral a categorias
explicativas, corremos o risco de encerrar o problema justamente onde ele
começa. O voto é individual; sua formação é histórica. A escolha tem
responsabilidade, mas a responsabilidade não elimina as condições sociais que
produziram o campo no qual determinadas escolhas se tornaram plausíveis, desejáveis
e até virtuosas para milhões de pessoas.
O que
apareceu nas urnas não nasceu na campanha. Vem de muito antes, de uma formação
social na qual direitos foram longamente ensinados como favores, a igualdade
foi administrada como ameaça e a obediência foi convertida em virtude cívica. O
Brasil republicano carregou para dentro de suas instituições muito do léxico
político da casa-grande: manda quem pode, pede quem precisa, agradece quem
recebe.
A
cidadania formal avançou, sobretudo com a Constituição de 1988, mas não
destruiu a pedagogia do favor. Em muitos espaços, o direito continuou chegando
com rosto, nome, padrinho, pastor, chefe, deputado, prefeito ou autoridade
local. Quando o acesso ao que deveria ser universal aparece como concessão,
aprende-se menos a reivindicar do que a agradecer. E quem agradece tende a
reconhecer hierarquias como se fossem naturais. É aí que a pedagogia do favor
se transforma em pedagogia da servidão: não apenas aceitar a desigualdade, mas
perder a legitimidade subjetiva para discutir quem decide, em nome de quê e com
quais consequências.
Francisco
de Oliveira ensinou que o atraso brasileiro nunca foi simples sobrevivência do
passado. O chamado arcaico não permaneceu intacto diante do moderno; foi
reorganizado por ele. A razão dualista erra precisamente quando imagina dois
Brasis, um avançado e outro atrasado, aguardando que o primeiro absorva o
segundo.
O que
temos é uma unidade contraditória: o moderno se alimenta do precário, a
formalidade convive com a informalidade, a tecnologia de ponta pode coexistir
com relações políticas fundadas no favor, e a concentração da riqueza pode
prosperar sob instituições democráticas. O bolsonarismo não é, portanto, um
fóssil que sobreviveu por descuido.
Ele é
uma forma contemporânea de organizar ressentimentos, medos, expectativas e
hierarquias em uma sociedade modernizada sem democratização substantiva
equivalente. Sua linguagem é digital, sua circulação é algorítmica, sua
economia política é financeirizada, mas seus afetos mobilizadores são antigos:
autoridade, punição, família hierárquica, medo do diferente, desprezo pelos de
baixo e fascínio pelos que mandam.
É por
isso que não basta dizer que parte do eleitorado vota contra os próprios
interesses materiais. A questão é saber como esses interesses são percebidos e
por que, em certas conjunturas, deixam de organizar o voto.
Trabalhadores
que dependem do SUS podem escolher candidatos que defendem políticas de
austeridade; famílias pressionadas pelo custo de vida podem apoiar programas
econômicos que ampliam a insegurança; jovens sem horizonte podem aderir a
discursos que celebram a ordem de um mundo que lhes oferece pouco. A
contradição é real, mas não se resolve chamando-a de irracionalidade.
Há uma
disputa pela definição do que seja interesse. Segurança pode se impor sobre
renda; identidade religiosa, sobre proteção social; ressentimento, sobre
expectativa de futuro; desejo de pertencimento, sobre cálculo econômico. A
extrema direita compreendeu que a política não se move apenas pela carteira.
Ela produz narrativas nas quais perda material pode ser convertida em
superioridade moral, e frustração social pode ser redirecionada contra
mulheres, negros, pobres, migrantes, homossexuais, professores, artistas,
cientistas e servidores públicos.
Esse
deslocamento não acontece no vazio. Desde 2008, o capitalismo mundial entrou
numa configuração em que o futuro passou a ser administrado cada vez mais pelo
presente financeiro. Não se trata apenas de uma nova crise cíclica, semelhante
às de 1873, 1929 ou 1973. A expansão do capital fictício aprofundou uma mutação
na forma social do tempo: famílias, governos, universidades, empresas e
indivíduos passaram a viver sob antecipações permanentes, dívidas, metas,
avaliações, vencimentos e urgências que comprimem a duração.
O
futuro deixa de funcionar como horizonte coletivo e se torna obrigação
antecipada. A política também muda. Em vez de projetos históricos, oferecem-se
reações imediatas. Em vez de transformação, proteção contra ameaças. Em vez de
duração, choque. A extrema direita prospera nesse tempo curto porque fala a uma
sociedade exausta, sitiada pelo presente e cada vez menos capaz de imaginar
coletivamente o que ainda não existe. O medo é instantâneo; a construção
democrática é lenta. O primeiro mobiliza com facilidade aquilo que a segunda
precisa organizar pacientemente.
Paulo
Arantes chamou atenção para a experiência de um tempo histórico fechado, no
qual a catástrofe deixa de ser exceção futura e passa a compor a normalidade do
presente. A lucidez, nessa circunstância, não consiste em anunciar serenamente
que tudo terminará bem. Consiste em perceber o fechamento sem se render a ele.
Esse ponto é decisivo depois do primeiro turno. O desânimo é compreensível; a
desistência, não. Quando a extrema direita transforma a ausência de horizonte
em método de governo, resistir significa reconstruir duração.
Vinte
dias de campanha podem parecer pouco, mas política não é cronômetro vazio. Um
dia pode conter milhares de conversas, visitas, argumentos, reencontros e
decisões. A disputa pelos que se abstiveram ou votaram em branco e nulo é
central não porque sejam uma reserva eleitoral homogênea, mas porque ali existe
uma relação menos cristalizada com o bolsonarismo. É preciso falar com essas
pessoas sem tratá-las como massa ignorante a ser corrigida e sem romantizá-las
como portadoras espontâneas de consciência popular.
Há
também uma razão institucional para que essa disputa seja urgente. Uma vitória
da extrema direita não se limita à troca de ocupante do Palácio do Planalto.
Ela pode redefinir o ambiente no qual funcionam a universidade pública, a
pesquisa científica, o serviço público, as políticas sociais e as liberdades
acadêmicas. Não é necessário prever mecanicamente cada medida para perceber a
direção do conflito.
Onde a
ciência é apresentada como suspeita, a universidade tende a ser tratada como
inimiga; onde o servidor é descrito como privilégio, o arrocho salarial ganha
aparência de justiça; onde a cultura crítica é convertida em ameaça, a censura
pode reaparecer sob formas administrativas, orçamentárias ou disciplinares;
onde o fundo público é submetido à lógica da austeridade permanente, bolsas,
laboratórios, equipes, hospitais universitários e políticas de permanência
tornam-se vulneráveis. O ataque raramente começa anunciando que destruirá a
universidade. Começa dizendo que vai “corrigir excessos”, “combater ideologia”,
“premiar eficiência” e “fazer mais com menos”.
A
universidade brasileira conhece essa linguagem. Sua história não é linear e
tampouco pode ser reduzida à submissão. Durante a ditadura, disciplinas como
Educação Moral e Cívica e Estudos de Problemas Brasileiros procuraram produzir
conformidade política, enquanto intervenções, cassações e vigilância atingiram
docentes e estudantes. Ao mesmo tempo, dentro das próprias instituições
cresceram pesquisa crítica, organização científica, associações docentes,
movimentos estudantis e formas de contestação que participariam da
redemocratização.
A
universidade é contraditória porque a sociedade é contraditória. Ela pode
reproduzir hierarquias, mas pode também produzir os instrumentos de sua
crítica. Pode formar para o mercado, mas pode formar para a cidadania. Pode
naturalizar o presente, mas pode ensinar a historicizá-lo. Por isso incomoda
tanto qualquer projeto autoritário. Não porque seja naturalmente progressista,
e sim porque preserva, quando existe autonomia material e intelectual, uma
instituição na qual decisões podem ser questionadas e finalidades coletivas
podem ser discutidas publicamente, sem autorização prévia do poder.
A
Constituição de 1988 transformou educação em direito e reconheceu princípios
como liberdade de ensinar e aprender, pluralismo de ideias e autonomia
universitária. Essas palavras não são ornamentos jurídicos. Elas estabelecem
uma direção normativa cuja realização depende de condições concretas:
financiamento estável, infraestrutura, pessoal, carreira, pesquisa, extensão e
liberdade para divergir. A autonomia sem meios materiais torna-se formalidade.
A
liberdade acadêmica sem proteção institucional pode virar coragem individual de
alto custo. A pesquisa sem continuidade financeira perde duração e passa a
viver de editais, emergências e interrupções. É nesse ponto que a dependência
contemporânea revela sua dimensão temporal. Controlar a universidade não exige
apenas censurar conteúdos. Pode significar controlar o seu tempo: encurtar
projetos, descontinuar equipes, impor avaliações incessantes, tornar incerto o
financiamento, deslocar prioridades e obrigar pesquisadores a responder
continuamente ao imediato. Quem controla a duração controla, em grande medida,
aquilo que pode ser pensado e aquilo que jamais chega a amadurecer.
O
resultado eleitoral, portanto, deve ser lido também como sintoma de uma disputa
pelo tempo histórico. A extrema direita promete restaurar uma ordem que nunca
existiu tal como é narrada, mas sua força está justamente em oferecer uma
imagem simples para um presente caótico. A esquerda, ao contrário, muitas vezes
responde com programas corretos e linguagem administrativa, como se a
racionalidade das políticas bastasse para produzir vínculo político.
Não
basta. É preciso reconstruir um vocabulário de futuro que seja materialmente
verificável. Falar do SUS não como sigla, mas como consulta, remédio, vacina e
cirurgia. Falar da universidade não como abstração corporativa, mas como
hospital, professor, laboratório, inovação, formação de profissionais, pesquisa
agrícola, tecnologia, cultura e mobilidade social.
Falar
de jornada de trabalho não como índice macroeconômico, mas como tempo
recuperado para viver. Falar de salário não apenas como renda, mas como
capacidade de planejar. A política democrática precisa voltar a conectar
direito, experiência cotidiana e horizonte.
É aqui
que discordo respeitosamente da ideia de que a principal verdade revelada pelas
urnas seja a perversidade de metade do eleitorado. Há perversidade social, sem
dúvida, e há escolhas que precisam ser moral e politicamente responsabilizadas.
Racismo, misoginia, homofobia, apologia da violência e desprezo pelos pobres
não podem ser relativizados em nome de qualquer sociologia indulgente. Mas
transformar milhões de pessoas em um bloco moralmente degradado é
analiticamente frágil e politicamente desastroso.
Se
estão perdidas de antemão, resta apenas contê-las. E se a política democrática
se reduz à administração de inimigos irrecuperáveis, começamos a imitar a
gramática que pretendemos combater. A história mostra que consciências mudam,
lealdades se deslocam, identidades políticas se recompõem. Isso não ocorre por
iluminação súbita nem por sermão. Ocorre quando experiências, contradições,
organizações e linguagens alteram a maneira como indivíduos compreendem a
própria vida. A tarefa é longa, mas começa agora, não depois da eleição.
O
problema brasileiro é que a pedagogia da servidão atravessa séculos e reaparece
com novas roupas. Ela ensina que autoridade vale mais que argumento, que ordem
vale mais que justiça, que pobre deve agradecer, que servidor deve pedir
desculpas por existir, que professor deve ensinar sem incomodar, que
universidade deve pesquisar sem questionar os fins, que política é assunto de
profissionais e que o cidadão participa apenas quando convocado a votar.
O
bolsonarismo radicaliza essa pedagogia ao convertê-la em espetáculo de
agressão. Seu mérito político, se a palavra mérito puder ser usada aqui, foi
compreender que humilhação também produz comunidade: quem se sente pequeno pode
experimentar grandeza simbólica ao participar da humilhação de alguém
apresentado como inferior, perigoso ou privilegiado. A saída democrática exige
romper esse circuito. Não oferecendo outra humilhação, agora contra o eleitor
adversário, mas restituindo às pessoas a experiência de que podem compreender,
decidir, contestar e transformar.
Isso
vale especialmente para as classes populares, mas também para as classes
médias, onde o ressentimento político encontrou terreno fértil. A deterioração
das expectativas de mobilidade, o endividamento, a precarização do trabalho
qualificado e o medo de perda de posição social criam uma combinação explosiva.
Quando o futuro prometido pela escolarização e pelo esforço individual se
fecha, alguém precisa ser responsabilizado.
A
extrema direita oferece uma lista pronta: Estado, impostos, universidade,
políticas afirmativas, feminismo, sindicatos, direitos humanos, cultura,
imprensa, intelectuais. O capital financeiro desaparece da cena; a estrutura da
desigualdade também. O conflito vertical entre os que concentram riqueza e os
que vivem do trabalho é substituído por conflitos horizontais entre grupos
sociais próximos.
Francisco
de Oliveira percebeu esse mecanismo ao mostrar como a modernização brasileira
produz integração desigual. Hoje, sob financeirização, ele ganha nova potência:
a insegurança se espalha, mas sua causa é deslocada para alvos politicamente
convenientes, enquanto o comando econômico permanece quase invisível.
Por
isso a batalha do segundo turno não pode ser apenas uma operação de marketing.
Ela precisa ser também uma intervenção pedagógica no sentido mais forte da
palavra. Não uma pedagogia professoral, em que uma vanguarda esclarecida ensina
o povo a votar corretamente, mas uma prática de reconstrução de vínculos entre
escolha e consequência. O eleitor que teme perder acesso à saúde precisa ver a
relação entre orçamento e SUS.
Quem
depende da escola pública precisa perceber que sua qualidade não depende do
acaso: depende de decisões sobre orçamento, financiamento e responsabilidade do
Estado. Quem deseja que os filhos cheguem à universidade precisa compreender
que bolsas, laboratórios, bibliotecas e permanência estudantil existem porque
há investimento público continuado – e que cortes prolongados atingem
diretamente essas condições.
Quem
trabalha seis dias para descansar apenas um precisa entender que a duração da
jornada também resulta de escolhas políticas e de relações de força, não de uma
ordem natural das coisas. E quem vive com medo da violência precisa encontrar
respostas públicas sérias, capazes de garantir segurança sem transformar a
violência estatal em solução automática. A política popular começa justamente
aí: quando aquilo que parecia destino passa a ser reconhecido como resultado de
decisões coletivas e, portanto, como algo que também pode ser transformado.
A
esquerda também precisa examinar seus próprios erros. É preciso presença.
Presença em bairros, igrejas, sindicatos, escolas, universidades, associações,
locais de trabalho e espaços culturais. Presença que escute antes de
classificar. A extrema direita construiu capilaridade durante anos e aprendeu a
transformar redes religiosas, familiares e digitais em circuitos de
interpretação do cotidiano. Não se desmonta isso com um vídeo viral. Tampouco
com desprezo.
A
disputa política exige tempo longo justamente quando o regime social do
presente destrói o tempo longo. Essa é uma das contradições centrais do nosso
momento: precisamos reconstruir duração em uma sociedade organizada para
impedir que ela exista e para nos manter permanentemente ocupados com a
urgência.
Nos
próximos vinte dias, porém, a história não nos concede o conforto da longa
duração. Há uma eleição a disputar e uma diferença que pode ser revertida. Luis
Felipe Miguel está certo neste ponto: difícil não significa impossível. Mas a
virada exige mais que aritmética. Exige transformar abatimento em trabalho
político e indignação em linguagem capaz de chegar a quem ainda pode ser
alcançado.
Os
milhões que não compareceram às urnas não são um território vazio esperando
ocupação. São trabalhadores cansados, jovens descrentes, pessoas
desorganizadas, eleitores que não encontraram representação, cidadãos para quem
a política parece distante ou inútil. Aproximar-se deles requer humildade e
clareza. Não se trata de pedir um voto em nome de uma abstração chamada
democracia, mas de mostrar que democracia é também salário, hospital, escola,
pesquisa, aposentadoria, liberdade, comida, tempo e direito de não viver sob
ameaça permanente. É preciso devolver concretude a uma palavra que o uso ritual
esvaziou.
A
batalha decisiva é, portanto, contra o fechamento do futuro. O bolsonarismo
oferece disciplina, punição e inimigos; a democracia precisa oferecer direitos,
pertencimento e possibilidade histórica. Não há garantia de vitória. A lucidez
começa exatamente quando abandonamos a garantia. Mas lucidez não é cinismo. É
saber a gravidade do momento e agir mesmo assim.
Quem
passou a vida pública defendendo igualdade, universidade, ciência, salário,
saúde, educação e dignidade não pode descobrir, diante de uma derrota parcial,
que desistir era uma opção escondida no vocabulário. Não era. O importante
agora não é fantasiar que a sociedade brasileira seja melhor do que revelou
ser, nem concluir que está condenada a ser aquilo que mostrou nas urnas. Entre
essas duas ilusões existe política. E política é justamente o trabalho humano
de impedir que o presente tenha a última palavra. É o lugar em que a
necessidade encontra a ação organizada e deixa de parecer destino.
O
primeiro turno nos mostrou um país ferido por décadas de desigualdade,
financeirização, individualização e pedagogia da servidão. Mostrou também a
força de uma extrema direita que aprendeu a transformar ressentimento em
identidade e medo em voto. Nada disso deve ser minimizado. Mas a própria
existência de uma disputa aberta demonstra que o tempo histórico não está
completamente fechado.
Enquanto
houver conflito, há indeterminação; enquanto houver indeterminação, há
responsabilidade. A tarefa imediata é virar a eleição. A tarefa histórica é
maior: reconstruir uma sociedade na qual direitos deixem de ser favores,
obediência deixe de ser virtude, universidade deixe de ser tratada como luxo,
ciência deixe de ser suspeita e futuro deixe de ser propriedade dos que podem
comprá-lo.
O
segundo turno será uma batalha. Não a última. Talvez nem a mais difícil. Mas é
a batalha que temos diante de nós, e é nela que se decide, agora, se ainda
somos capazes de disputar o direito de ter futuro.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário