A
cidade baiana contaminada por chumbo há mais de 60 anos
Aos 69
anos, Adailton Santos ainda convive com problemas de saúde que associa aos anos
em que trabalhou na fundição de chumbo instalada em Santo Amaro, no Recôncavo
Baiano. Contratado em maio de 1978, passou pela refinaria, pela sinterização e
pela chamada "casa do forno", onde participava do processamento do
minério. "Nós trabalhávamos com material sem nenhuma instrução. Tinha
colega nosso que nem sabia o nome do material. Saía aquela poeira amarela, e
era um material muito fino e tóxico", afirma.
A
história de Adailton se cruza com a de trabalhadores e moradores expostos à
contaminação deixada pela indústria que funcionou no município por mais de três
décadas. A Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac), então ligada à
multinacional Peñarroya, começou a operar no município baiano em 1960.
O
minério extraído em Boquira, no centro-sul da Bahia, era levado para a cidade,
onde passava pelo processamento para a produção de ligas de chumbo. Ao longo de
33 anos de atividade, a fábrica comercializou cerca de 900 mil toneladas de
liga de chumbo e gerou aproximadamente 500 mil toneladas de escória – resíduo
sólido resultante do processamento do minério –, com concentração de chumbo
estimada entre 2% e 3%.
Diagnosticado
com saturnismo, intoxicação causada pela exposição ao chumbo, em 1993, Adailton
relata que ainda sente gosto metálico na boca, falta de apetite, insônia e
fraqueza nas pernas. Afastado pela doença, permaneceu formalmente empregado até
1999 e depois conseguiu a aposentadoria por invalidez. Hoje, diz receber pouco
mais de um salário mínimo e ter que arcar com muitos medicamentos.
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Não só trabalhadores contaminados
A
contaminação não ficou restrita aos trabalhadores nem ao terreno da indústria.
Segundo estudos reunidos pelo Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), resíduos
contendo chumbo e cádmio atingiram o solo, a água e o entorno da fábrica. Parte
da escória também foi utilizada no calçamento de ruas e em construções da
cidade.
Materiais
usados nos filtros das chaminés também foram levados por trabalhadores e
moradores para dentro de casa e reutilizados como tapetes e outros objetos.
Estudos realizados ainda na década de 1970 já haviam identificado níveis
elevados de chumbo e cádmio na água do rio Subaé e, posteriormente, em
sedimentos e mariscos consumidos na região.
A
fábrica encerrou as atividades em dezembro de 1993, mas a contaminação deixada
por mais de três décadas de funcionamento permaneceu. Parte da escória
continuou no antigo terreno industrial e em diferentes pontos da cidade,
enquanto trabalhadores e moradores passaram as décadas seguintes reivindicando
acompanhamento de saúde, descontaminação das áreas atingidas e reparação.
"Eu sou um vitimado por chumbo", diz Adailton que espera há anos
por uma indenização da empresa.
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Mobilização de moradores
Antônio
Firmo de Jesus, 81 anos, também passou parte da vida profissional na fundição
da Cobrac. Entrou e saiu da empresa três vezes e, na última passagem, iniciada
em 1979, permaneceu por pouco mais de dez anos. Com idade avançada e memória
debilitada por conta da idade, ele diz que fica confuso quando lembra dos anos
em que trabalhou dentro da fábrica.
Na
época, trabalhava junto aos fornos, em uma atividade que, segundo ele, exigia
esforço físico e o uso constante de marretas. Em 1990, foi afastado da área de
produção depois que exames apontaram uma concentração de 80 µg/dL de chumbo no
sangue.
Antônio
afirma que os trabalhadores eram afastados sem compreender a dimensão da
exposição. "A empresa dava um laudo, mandava para casa, mas não sabíamos
que estávamos contaminados", diz. Depois de passar por atendimento médico
em Santo Amaro e Salvador, acabou aposentado. Hoje, relata tremores, reumatismo
e limitações nos movimentos das mãos.
Casos
como os de Antônio e Adailton se somaram às reivindicações de outros
ex-funcionários após o encerramento da fábrica, em 1993. Segundo Ulisses
Amorim, 49, sócio-fundador da Associação das Vítimas da Contaminação por
Chumbo, Cádmio, Mercúrio e Outros Elementos Químicos (Avicca), a primeira
reação foi articulada principalmente por antigos trabalhadores e pelo Sindicato
dos Metalúrgicos de Santo Amaro. A ação, porém, ainda ocorria de forma
dispersa. "Quando a fábrica abandonou os trabalhadores em 1993, no dia 31
de dezembro, dali já surgiu um movimento de revolta", afirma.
Foi
apenas dez anos depois, em 2003, que parte desse movimento se organizou na
Avicca. A associação nasceu com o objetivo de concentrar as reivindicações por
reparação, indenizações, direitos previdenciários e medidas relacionadas à
contaminação ambiental.
A
criação da entidade deu uma estrutura formal a uma mobilização que, até então,
era conduzida principalmente por ex-trabalhadores e sindicatos. A "luta”
também se apoiava em um problema que pesquisadores da Universidade Federal da
Bahia (UFBA) já investigavam desde a década de 1970: a exposição de
trabalhadores e moradores ao chumbo e ao cádmio.
Para
Amorim, a trajetória da contaminação também alterou a relação dos moradores com
uma cidade que, antes da chegada da indústria, tinha sua economia ligada, entre
outras atividades, à produção de cana-de-açúcar e ao rio Subaé, que atravessa a
cidade e teve papel histórico na circulação de mercadorias pelo Recôncavo
Baiano.
Segundo
Amorim, a instalação da fundição havia sido associada à expectativa de empregos
e desenvolvimento. Porém, depois de anos, a percepção mudou. "O progresso
veio, contaminou a cidade e a deixou menor e menos próspera do que ela era
antes", afirma.
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Contaminação se espalhou
O
processo de produção da Cobrac gerava resíduos sólidos, efluentes líquidos e
emissões atmosféricas, criando diferentes caminhos para a dispersão desses
metais pesados. A escória acabou também fora do terreno industrial.
O uso
do material no espaço urbano ampliou as possibilidades de contato da população
com os metais, explica a engenheira química Bruna Tarciana Cavalcante Bezerra,
coordenadora dos cursos de Engenharia da Unifanor Wyden (CE). "Uma vez
presente em ruas e quintais, o material pode se fragmentar e integrar a poeira
levantada pelo tráfego, por obras ou pelo vento", diz.
Partículas
também podem ser carregadas pela chuva e pela erosão para outros terrenos e
cursos d'água. Para crianças, uma das formas de exposição é a ingestão
acidental da poeira ou do solo contaminado depois de levar as mãos e objetos à
boca.
E o
problema não desaparece com o passar dos anos, afirmam os especialistas. Chumbo
e cádmio são elementos químicos e não se degradam como determinados
contaminantes orgânicos, explica Alessandro Bertolino, engenheiro ambiental,
doutor em gestão urbana e professor da Pontifícia Universidade Católica do
Paraná (PUCPR). O que pode mudar é a forma química em que os metais se
encontram e sua mobilidade.
As
características de Santo Amaro também interferem nessa dinâmica. Em uma região
úmida e sujeita a chuvas, a água pode transportar partículas contaminadas para
áreas mais baixas, sistemas de drenagem e cursos d'água. Durante o
funcionamento da fábrica, as emissões atmosféricas representavam outra fonte de
dispersão. Pesquisas realizadas na região já identificaram metais no solo e
também em sedimentos, plantas e organismos ligados ao sistema do rio Subaé.
Segundo Bezerra, isso significa que a avaliação atual da contaminação não pode
se restringir ao terreno da antiga fábrica ou aos locais onde a presença da
escória já é conhecida.
Determinar
onde ainda existe contaminação, porém, exige análises atuais de solo, poeira,
água e sedimentos. Os especialistas afirmam que não é possível delimitar as
áreas afetadas apenas pela distância da antiga fábrica. A retirada da escória
visível também não seria suficiente. Seria necessário localizar os focos,
avaliar as concentrações e os riscos e, a partir disso, definir medidas de
remoção, contenção ou tratamento e monitoramento. "O fechamento de uma
indústria encerra uma atividade produtiva, mas não necessariamente encerra os
efeitos ambientais", afirma Bezerra.
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Os efeitos da exposição ao chumbo
As
primeiras pesquisas sobre a exposição da população de Santo Amaro começaram
ainda durante o funcionamento da fábrica. Fernando Carvalho, epidemiologista,
professor da pós-graduação da UFBA e um dos pesquisadores que acompanham o
caso, entrou nas investigações em 1976, inicialmente estudando pescadores da
bacia do rio Subaé.
Segundo
ele, análises de cabelo já apontavam concentrações elevadas de chumbo e cádmio.
Nas décadas seguintes, os estudos alcançaram trabalhadores, moradores e
centenas de crianças. "A documentação clínica é muito grande. A gente tem
exame da escória, dos mariscos, da biota comestível. Tem muita evidência de que
aquilo é um desastre ambiental", diz Carvalho. A exposição ao chumbo
ocorre principalmente pela inalação de partículas ou pela ingestão de água,
alimentos, poeira e outros materiais contaminados. A intoxicação é conhecida
como saturnismo e pode ser aguda ou crônica.
Segundo
Álvaro Pulchinelli Jr., toxicologista e presidente do Conselho de
Ex-Presidentes da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina
Laboratorial (SBPC/ML), a exposição prolongada pode atingir os sistemas nervoso
e renal e provocar anemia, além de alterações cognitivas. Nas crianças, a
preocupação é maior devido aos efeitos do metal sobre o organismo em
desenvolvimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que não há nível
de exposição ao chumbo conhecido como livre de efeitos nocivos à saúde.
Na
intoxicação crônica, os sintomas podem ser pouco específicos e incluem
dormência, formigamento e perda de força nos membros, além de alterações nos
rins e no fígado, explica Pulchinelli. O sistema nervoso também pode ser
afetado. Em crianças, a exposição está associada a dificuldades de aprendizagem
e alterações cognitivas e psicomotoras. Carvalho afirma que os estudos
realizados ao longo das décadas em Santo Amaro também identificaram alterações
renais entre pessoas expostas, um dos efeitos já relacionados à exposição
prolongada ao metal.
Uma das
dificuldades para avaliar os antigos trabalhadores e moradores está no tempo
transcorrido desde a exposição. Depois que ela termina, a concentração de
chumbo no sangue tende a cair, enquanto parte do metal pode permanecer
armazenada nos ossos por períodos mais longos. "Por isso, um resultado
baixo atualmente não significa necessariamente que não tenha ocorrido uma
exposição relevante no passado nem exclui danos já provocados", afirma
Pulchinelli. Para estabelecer essa relação décadas depois, é necessário
analisar o histórico de exposição, exames anteriores e atuais e a documentação
clínica de cada paciente.
O
tratamento depende da quantidade de chumbo no organismo, dos sintomas e dos
órgãos atingidos. Em determinados casos, pode ser indicada a quelação, terapia
que utiliza substâncias que se ligam ao metal para favorecer sua eliminação. O
procedimento, porém, tem limitações e pode provocar efeitos adversos. Segundo
Pulchinelli, alterações como anemia podem apresentar recuperação após a
interrupção da exposição e o tratamento, enquanto danos neurológicos ou renais
podem persistir, dependendo de sua extensão. "Já quadros neurológicos são
de mais difícil reversão", afirma.
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Apelos por justiça
A
tentativa de responsabilizar empresas e o poder público pelos danos no
município baiano atravessa mais de seis décadas. Ainda em 1961, um pedido de
fechamento da fábrica por causa da poluição do rio Subaé foi rejeitado. Depois
do encerramento das atividades, novas ações passaram a cobrar reparação
ambiental, acompanhamento de saúde e indenizações. Entre elas estão uma ação
civil pública apresentada pelo Ministério Público Federal, em 2002, e uma ação
coletiva ajuizada pela Avicca e pela Defensoria Pública da Bahia, em 2011.
Foi
nessa segunda ação que, em novembro de 2025, a Justiça baiana reconheceu
direitos de diferentes grupos atingidos, entre eles antigos trabalhadores,
pescadores, marisqueiras e moradores. A decisão estabeleceu indenizações e
medidas de reparação e considerou o racismo ambiental na definição dos valores.
Segundo Amorim, os montantes variam conforme o grupo atingido e, no caso dos
moradores, também levam em consideração a distância da antiga fábrica. A
sentença, porém, foi alvo de recursos e está em grau de apelação no Tribunal de
Justiça da Bahia.
A
definição de quem deve responder pelos danos passa também pelas mudanças
societárias ocorridas desde a instalação da indústria. A Cobrac, ligada à
francesa Peñarroya Oxide, instalou-se na região nos anos 1950 e começou a
operar em 1960. Em 1988, a Peñarroya se uniu à alemã Preussag na formação da
Metaleurop. A partir de 1989, a operação brasileira passou à Plumbum Mineração
e Metalurgia, ligada ao Grupo Trevo, permanecendo em atividade até o fechamento
da fundição, em 1993.
Em
1994, a Glencore tornou-se acionista da Metaleurop e, anos depois, parte das
operações do grupo passou a atuar sob o nome Recylex. Na sentença de 2025, a
Justiça entendeu que as sucessivas alterações societárias e de denominação
dificultaram a responsabilização pelos danos. Entre as empresas incluídas na
ação estão Plumbum, Trevisa, Yara Brasil Fertilizantes, empresas do Grupo Trevo
e Metaleurop.
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Demora para reparação
A
disputa também chegou ao sistema interamericano de direitos humanos. Em
dezembro de 2022, pesquisadores ligados à UFBA apresentaram à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos uma denúncia contra o Estado brasileiro,
baseada, entre outros pontos, na demora para que as vítimas obtivessem
reparação. Segundo Julio Cesar de Sá da Rocha, professor da Faculdade de
Direito da UFBA e coordenador do Grupo de Pesquisa Historicidade do Estado,
Direito e Direitos Humanos, a petição e o pedido de medida cautelar foram
arquivados após a Comissão entender que as vias judiciais brasileiras ainda
precisavam ser esgotadas.
O grupo
decidiu apresentar uma nova petição, com apoio da Avicca e participação da
Defensoria Pública da Bahia. "O argumento é que a demora dos processos no
país permitiria aplicar uma exceção à exigência de esgotamento das vias
internas", explica Rocha. Diferentemente das ações que discutem a
responsabilidade das empresas no Brasil, a denúncia apresentada à Comissão
Interamericana busca responsabilizar o Estado brasileiro por supostas violações
à Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Procurada
pela reportagem, a Yara Brasil afirmou, por meio de nota, que não adquiriu nem
operou a Plumbum e que não realizou atividades de mineração de chumbo e cádmio
em Santo Amaro ou Boquira. Segundo a companhia, em 2000 ela adquiriu
exclusivamente a Adubos Trevo, fabricante de fertilizantes que integrava o
mesmo grupo econômico da Plumbum. "A Yara não realizou atividades de
mineração de chumbo e cádmio nas localidades mencionadas nem participou dos
fatos de contaminação alegados", afirmou. A empresa disse ainda que
discorda da decisão judicial e exerce seu direito de defesa nas instâncias
competentes.
A
Plumbum Comércio e Representações de Produtos Minerais e Industriais Ltda
afirmou que responde há anos a ações relacionadas à contaminação em Santo Amaro
e que mantém, junto ao Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia
(Inema), estudos sobre os rejeitos depositados na antiga área industrial.
Segundo a empresa, o objetivo é elaborar um projeto de intervenção que evite
novos riscos durante uma eventual remoção do material.
A
companhia também diz cumprir medidas judiciais para impedir o acesso à área.
Segundo a empresa, a Cobrac, ligada ao grupo Metaleurop, foi responsável pela
produção de ligas de chumbo entre 1960 e 1990 e seria a "verdadeira
beneficiária da exploração econômica". Para a Plumbum, a condenação
recebida em primeira instância foi "desproporcional, especialmente por não
contemplar a principal responsável". A empresa ressaltou ainda que a
sentença de novembro de 2025 não transitou em julgado e está sujeita a recursos.
A
Trevisa Investimentos S.A. não respondeu aos questionamentos da reportagem. O
Ministério Público Federal na Bahia, procurado para prestar esclarecimentos
sobre o andamento do caso, também não respondeu.
"Nós
estamos ansiosos para receber uma indenização. E olha, nem que seja a última
coisa que eu consiga antes de morrer, eu vou ir feliz se ver isso acontecer,
enfrentando chuva, sol, tudo", diz Adailton.
Fonte:
DW Brasil

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