Outubro
de chumbo
Flávio
Bolsonaro, herdeiro designado de um ex-presidente condenado por tentativa de
golpe de Estado, chegou em primeiro lugar no primeiro turno com 47% dos votos
válidos contra 45% de Lula. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada
de um único partido desde a Constituição de 1988, e ocupará 28 das 81 cadeiras
do Senado.
O
segundo turno está em aberto e precisa ser disputado voto a voto, mas o fato já
está dado, seja qual for o desfecho: a extrema direita é a principal força
política de massa do país. Tratar isso como efeito das redes sociais ou desvio
moral de metade do eleitorado é ficar na superfície.
Na
Europa, os partidos de extrema direita tinham em média 5,3% dos votos em 1995 e
17,3% em 2023. Donald Trump voltou à Casa Branca. Giorgia Meloni governa a
Itália com um partido que conserva no símbolo a chama tricolor do MSI, a
agremiação que recolheu os restos do regime de Mussolini no pós-guerra. Durante
as três décadas pós 1945 o fascismo esteve reduzido a grupúsculos. Como e por
que se reergueu da tumba? Com mais capitalismo.
Entre
1945 e 1975, os chamados trinta gloriosos, os países centrais do capitalismo
viveram sob um compromisso entre capital, trabalho organizado e Estado:
salários que cresciam com a produtividade, sindicatos fortes, saúde, educação e
previdência públicas, tributação progressiva. Foram os menores índices de
desigualdade da história do capitalismo.
A
partir do fim dos anos 1960 a taxa média de lucro caiu e a resposta foi mais
capitalismo. Em 1971, o advogado empresarial Lewis Powell, logo depois nomeado
por Nixon para a Suprema Corte, propôs à Câmara de Comércio uma ofensiva
organizada sobre universidades, mídia e Congresso em defesa do “sistema de
livre empresa”.
Vieram
os think tanks, o dinheiro, depois Ronald Reagan e Margaret Thatcher: “quem é a
sociedade? Não existe tal coisa! Existem homens e mulheres, indivíduos, e
existem famílias, e nenhum governo pode fazer nada a não ser por meio das
pessoas, e as pessoas olham primeiro para si mesmas”, dizia Thatcher.Em 1997, o
presidente do banco central americano podia declarar ao Congresso, sem
escândalo, que o sucesso econômico dependia da insegurança dos trabalhadores.
O
pós-fordismo, um novo modo de acumulação para resolver a queda da taxa média de
lucro, e o neoliberalismo trouxeram emprego precário, sindicatos enfraquecidos,
serviços públicos desmontados e consumo sustentado pela dívida, não pelo
salário. O Estado deixou de garantir direitos, mas continuou garantindo o
capital financeiro. A rigor, nada exatamente original. Clara Mattei mostrou que
políticas de austeridade serviram ao mesmo tempo (década de 20 do século
passado) ao governo fascista de Mussolini e ao Estado liberal inglês. O que
mudou foi a correlação de forças. Nos trinta gloriosos, o movimento operário e
o medo do socialismo faziam diferença.
O
salário-mínimo federal nos EUA atingiu seu maior poder de compra no fim dos
anos 60: 1,60 dólar por hora, o equivalente a 10,10 dólares de 2013, segundo
Thomas Piketty. Depois ficou congelado em 3,35 dólares de 1981 a 1990 e em 5,15
de 1997 a 2007, enquanto a inflação o corroía. Chegou a 7,25 em 2009 e aí
parou: em 2026 o valor é o mesmo, há dezessete anos sem reajuste, o período
mais longo desde a criação do mínimo, em 1938.
Pelos
cálculos do Center for Economic and Policy Research, em 2024 ele já comprava
quase 40% menos do que no auge. Ainda segundo os dados de Thomas Piketty, os
10% mais ricos ficaram com 75% de todo o crescimento da economia dos Estados
Unidos entre 1977 e 2007; para os outros 90%, a renda cresceu menos de 0,5% ao
ano. A distância entre os 10% dos salários mais baixos e o salário médio
aumentou significativamente nos anos 80, reduziu-se nos anos 90 e cresceu
novamente nos anos 2000
O
Relatório sobre a Desigualdade Mundial 2026 do World Inequality Lab, coordenado
por Lucas Chancel, Ricardo Gómez-Carrera, Rowaida Moshrif e Thomas Piketty,
mostra o quadro global. Os 10% mais ricos ganham mais do que os outros 90%
somados e possuem três quartos de toda a riqueza; a metade mais pobre da
humanidade fica com menos de 10% da renda e 2% da riqueza. Menos de 60 mil
pessoas, o 0,001% do topo, controlam três vezes mais riqueza do que essa metade
inteira.
O
relatório extrai a consequência política. Nas democracias ocidentais, quem
tinha menos renda e menos escolaridade tradicionalmente votava na esquerda.
Esse alinhamento se desfez: os trabalhadores hoje se dividem entre partidos de
esquerda e de direita, ou não se veem representados por nenhum. Ao mesmo tempo,
as campanhas eleitorais são financiadas sobretudo pela faixa que está no topo.
Dividida a base e concentrado o dinheiro, diz o relatório, enfraquece-se a
maioria política necessária para enfrentar a desigualdade.
A
passagem dos trinta gloriosos para o pós-fordismo e neoliberalismo teve um
tremendo impacto político porque se deu no tempo de duas gerações: a que
conheceu alguma proteção e a perdeu, e a que só sabe que seus pais viveram
melhor. Pesquisas com dados de dezenas de países mostram quem a desigualdade
empurra para a extrema direita – sobretudo os que estão um degrau acima do
fundo e temem o declínio, gente que tem pouco e sente que ainda tem a perder.
Na Europa, o eleitor padrão da extrema direita é um homem de 30 a 60 anos, de
baixa escolaridade, morador de áreas rurais ou periféricas, empregado em
setores atingidos pela globalização e com a percepção de perda de status.
A
ideologia que acompanhou essa virada não é uma novidade histórica, uma inédita
visão de mundo ou formadora de um sujeito novo. É a clássica ideologia burguesa
em poderosa ofensiva. O indivíduo livre, proprietário de si, que só se
relaciona com os outros pelo contrato e responde sozinho por seu destino, é a
figura clássica da ideologia burguesa desde o século XVIII. No Livro I de O
capital, Karl Marx ironizava o mercado de trabalho.
Nele,
patrão e empregado se encontram como contratantes livres e iguais, o que
denominou de o éden dos direitos do homem em que reinam liberdade, igualdade,
propriedade e… Bentham. Bentham era o filósofo inglês do cálculo do interesse
próprio: cada um cuida só de si. O “empreendedor de si mesmo” é o velho
vendedor livre da própria força de trabalho com outro nome, agora arcando
também com os riscos.
O
fascismo emerge quando a deterioração das condições de vida não é atribuída à
estrutura capitalista, mas desloca-se o sujeito da imputabilidade para temas e
sujeitos expiatórios. Para abstrações, como “o sistema”, que diz tudo sem dizer
nada e dá à massa a ilusão de conhecer a causa de seus males, ou para sujeitos
concretos, comunistas e judeus no fascismo histórico, imigrantes no fascismo
reinventado da Europa e dos Estados Unidos. A sociedade deixa de ser vista como
um todo atravessado por uma contradição e passa a ser um corpo são ameaçado por
elementos nocivos. Essa negação da totalidade é a arquitetura básica do
fascismo. O resto, camisas, ritos e milícias, é contingente.
A
extrema direita, como representante dos interesses das frações mais
reacionárias e agressivas das classes dominantes, dá forma política à
consciência caótica dessa base social. O Tea Party nasceu em 2009, na crise das
subprimes, momento em que cerca de 2,5 milhões de famílias perdiam suas casas,
de uma frase de um comentarista de TV que criticava um tímido programa de ajuda
aos mutuários: “quantos de vocês querem pagar a hipoteca do vizinho que tem um
banheiro extra e não consegue pagar as contas?”. Sobre os 700 bilhões de
dólares despejados nos bancos pelo Estado, silêncio.
Depois
do Holocausto o espaço público ficou impermeável ao racismo explícito, mas o
fascismo reinventou sua linguagem. Nos Estados Unidos, há o fenômeno que o
jurista Ian Haney López, professor de Direito Constitucional em Berkeley,
nomeou como apito de cachorro (dog whistle). O apito de adestramento emite um
som que só os cães ouvem. Na política, o apito de cachorro é a linguagem
racista em código: o público a que se destina entende a mensagem, e quem a
emite pode sempre dizer “não estou falando de raça”.
Com
Richard Nixon, o código era “lei e ordem”, que associava os protestos dos
negros à desordem e ao crime. Ronald Reagan, em campanha, falava da “rainha da
assistência social” (welfare queen): a mulher negra, mãe solo, que fraudaria os
programas sociais para viver à custa de quem trabalha. Nunca mencionou raça,
nem precisava: o eleitor branco ouvia “negro- pobre-falha de caráter”. O apito
de cachorro de Donald Trump é “imigrantes criminosos e estupradores” – ouve-se
latinos e árabes.
No
Brasil é “bandido” – ouve-se o jovem negro da periferia; outro é “vagabundo” –
ouve-se nordestino que vive do auxílio do Estado; ou ainda “cidadão de bem” –
nomeia quem pertence e todos entendem quem fica de fora. Na Europa o racismo
biológico foi substituído pelo “etnopluralismo”, o racismo diferencialista,
formulado em outra linguagem: não somos superiores a eles, apenas diferentes
demais para viver juntos.
O PT
governou nos limites do neoliberalismo por meio das políticas de foco. Em vez
de garantir direitos, selecionam-se os mais pobres por critério de renda e se
lhes transfere um auxílio, como o Bolsa Família. É a receita do Banco Mundial:
aliviar a pobreza extrema a baixo custo, mantendo intacta a política econômica
que a produz.
As
políticas sociais dos trinta gloriosos, que eram também o sentido da nossa
Carta de 1988, tinham outro princípio, direitos universais à saúde, educação,
previdência, emprego, financiados por tributação progressiva, que reduziam a
desigualdade e não apenas a miséria. A focalização administra os efeitos,
conserva a causa e deixa de fora os que vem a constituir a base de massa da
extrema direita, as baixas camadas médias e trabalhadores.
Nos
governos do PT o salário-mínimo teve ganho real e o emprego formal cresceu. Não
foi pouco para quem vivia disso. Mas, de 2003 a 2014, foram ganhos viabilizados
pelo ciclo das commodities, preservando o modo de acumulação. O arcabouço
fiscal de 2023 substituiu o teto de gastos por um limite mais frouxo, mas
manteve o princípio: a despesa com políticas públicas tem limite de
crescimento; a despesa com os juros da dívida, não.
Os
juros seguiram entre os mais altos do mundo, a tributação seguiu regressiva, e
a inclusão se fez no padrão pós-fordista e neoliberal, pelo crédito e pelo
consumo, não por direitos. Na reforma trabalhista de 2017 não se tocou, seguiu
firme e forte. O que não vira direito universal se desfaz na primeira crise.
O
fascismo habitualmente chega ao poder sob as formas do Estado liberal, porque
tem apoio de massa, esvazia-as progressivamente e seu projeto é a a ditadura
aberta. Benito Mussolini assumiu em 1922 e só em 1925-26 destruiu o Parlamento
e os partidos. Adolf Hitler fez o mesmo percurso em semanas. Donald Trump, no
segundo mandato, anistiou a turba do Capitólio, praticamente governa por
decreto, instrumentalizou o sistema de justiça e ressuscitou no ICE as squadre
d’azione do fascismo italiano e a SA nazista. Na Hungria, Victor Orbán
denominou o seu regime de “democracia iliberal”, submeteu o Judiciário e a
mídia, reescreveu as regras eleitorais.
Jair
Bolsonaro tentou o salto para a segunda fase e fracassou. O que as urnas de 4
de outubro devolveram ao bolsonarismo foram a via institucional para retomar a
primeira fase e um Congresso em que a anistia aos golpistas e o cerco ao
Supremo se tornam possibilidades concretas.
Derrotar
o fascismo bolsonarista no dia 25 de outubro não é o suficiente. Em 2022 ele
perdeu a Presidência e voltou maior. Enquanto a vida seguir precária,
endividada e insegura preservam-se os mecanismos que geram o fascismo.
Antifascismo não é passar pito na massa, denunciá-la como burra nas redes
sociais ou refletir abstratamente sobre a questão da subjetividade.
É
devolver à política o que o fascismo oculta: a relação entre a vida precária da
maioria e a concentração de renda e riqueza no topo. Antifascismo é dar um
basta no enxugamento de gelo do neoliberalismo. Se os trabalhadores não têm
representação política real, a extrema direita fala sozinha. Vistos de hoje, os
trinta gloriosos é que foram a excepcionalidade histórica, não o fascismo.
Capitalismo é o nome da besta.
Fonte:
Por Marcio Sotelo Felippe, em A Terra é Redonda

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