Paulo
Kliass: O “tesouraço” de Flávio
Os
resultados das eleições gerais de 4 de outubro significaram o avanço das forças
políticas de extrema direita no conjunto do país. Apesar de os grupos de
esquerda e centro-esquerda terem mantido sua participação relativa no Congresso
Nacional que tomará posse em fevereiro do ano que vem, os candidatos
identificados com o bolsonarismo avançaram sobre os espaços ocupados até agora
pelo fisiologismo do Centrão. Vários governadores apoiados por Bolsonaro
conseguiram ser eleitos neste primeiro turno, além de várias duplas de
senadores que venceram no pleito.
Por
outro lado, o resultado mais preocupante foi a votação de Bolsonarinho nesta
primeira etapa, uma vez que ele conseguiu superar o número de votos obtidos por
Lula. A perspectiva de poder que se anuncia com esse movimento passou a atrair
de forma mais efetiva um conjunto de forças políticas e interesses econômicos
para o campo da extrema-direita. Essa novidade na conjuntura terminou por
colocar a candidatura de Flávio em uma postura de “salto alto”, com a sensação
do “já ganhou” subida à cabeça dos envolvidos. Os nomes para composição de
eventual ministério, caso ele seja eleito, começam a ganhar espaço na grande
imprensa. O próprio candidato já adiantou que iria conseguir a libertação de
seu pai para subir a rampa do Palácio do Planalto no dia da posse para,
simbolicamente, lhe entregar a faixa presidencial.
Como
costuma acontecer nestes momentos, a área econômica é a que recebe mais atenção
por parte dos interessados e dos analistas. A memória da desastrosa gestão de
Paulo Guedes à frente do Ministério da Economia sempre volta à cena. Afinal,
ele havia conseguido que o pai do atual candidato o nomeasse como um
superministro em 2019, concentrando os poderes de 4 pastas tradicionais da
nossa composição da administração pública federal. Com isso, ele tornou-se o
responsável pela Fazenda, pelo Planejamento & Orçamento, pelo Trabalho e
pela Indústria & Comércio. A estratégia dele no momento atual é a de se
retirar da cena e dos holofotes, afirmando que não teria interesse em retornar
à Esplanada.
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Bolsonarinho é a barbárie à vista
No
entanto, Flávio chamou para a coordenação da área econômica de sua campanha
pessoas que haviam ocupado lugar de destaque na equipe de Paulo Guedes durante
o governo de seu pai. Gabriela Marques e Adolfo Sachsida estão respondendo pela
economia, assim como ocorria com a figura do “Posto Ipiranga” na campanha de
2018. Ambos foram contratados pelo financismo privado depois da vitória de
Lula. Eles têm uma visão extremamente conservadora do fenômeno econômico e já
alertaram que a inspiração maior de eventual governo de Flávio seria o modelo
adotado por Javier Milei na Argentina.
Isso
significa que a tragédia bolsonarista teria uma continuidade para muito além do
que significou o genocídio de 700 mil pessoas na época da covid ou da
liberalização geral de garimpos ilegais, invasão de terras indígenas e
quilombolas pelos grupos do agronegócio. Ainda que Paulo Guedes não tenha
conseguido apoio para levar à frente seu plano de privatização da totalidade de
empresas estatais do governo federal à época, a gestão da política econômica de
seu governo foi marcada pela obediência cega aos ditames da cartilha
neoliberal.
Flávio
promete agora seguir pelo mesmo caminho. Sua assessoria econômica já anunciou
um plano de realizar cortes nas despesas orçamentárias equivalentes a 2% do PIB
a partir do início de seu eventual mandato. Assim, a ideia é promover um
“tesouraço” de R$ 250 bilhões com golpes nos benefícios previdenciários, além
da eliminação dos pisos constitucionais da saúde e da educação. Estas e outras
medidas estariam presentes em dispositivos de uma Proposta de Emenda
Constitucional (PEC), inspirada na estratégia de Lula com a PEC da transição no
final da campanha de 2022. Ocorre que o conteúdo é diametralmente oposto.
Enquanto Lula buscava, durante o período entre o anúncio do resultado do pleito
e a posse do novo governo, assegurar mais recursos para cumprir com seu
programa, Flávio já pretende iniciar o jogo com cortes e mais cortes no
orçamento.
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Entre Milei e Trump: Flávio quer acabar com o Brasil
Ora, se
a inspiração declarada de Bolsonarinho é o modelo que vem sendo levado a cabo
pelo governo da Argentina, as perspectivas para nosso país não são nada
otimistas. Aliás, muito pelo contrário. Nossos vizinhos estão atravessando uma
combinação perversa de crise econômica e crise social bastante grave, com o
fechamento de dezenas de milhares de empresas e com a elevação substantiva do
desemprego. A inflação em patamares preocupantes e a redução do poder de compra
da massa salarial têm provocado a redução da capacidade de demanda em geral da
economia. Assim, são bastante perversas as consequências econômicas e sociais
advindas de tal caminho implementado pelo Ministro da Economia, Luiz Caputo.
Não
existe a menor sombra de dúvida de que a eventual eleição de Bolsonarinho seria
uma verdadeira tragédia para o Brasil e para o povo brasileiro. A perda
completa de qualquer espaço para a afirmação da nossa soberania nacional fica
bastante evidente com a submissão completa da família a Donald Trump e aos
interesses do governo dos Estados Unidos. Se olharmos o atual mapa da América
do Sul, percebemos que a absoluta maioria dos países desta porção meridional do
continente fez recentemente uma guinada à extrema direita. Caso o Brasil siga
pelo mesmo caminho, a Casa Branca nem precisará realizar grandes esforços para
implementar as diretrizes de sua atualização da doutrina Monroe. Essa mesma,
que foi exposta há pouco em documento oficial do governo estadunidense e que
vem sendo chamada de Donroe, em analogia ao prenome de Trump — Donald.
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Poucos dias para virar voto
Lula e
a coordenação de campanha deveriam se utilizar mais dos exemplos da crise
vivenciada pelos argentinos para demonstrar os equívocos e as maldades do
programa apresentado pela equipe de Flávio. E, também, o nosso presidente
deveria incorporar para si mesmo a necessária autocrítica em relação aos rumos
da política econômica implementada pelo seu governo desde janeiro de 2023.
Afinal, uma das principais, senão a principal, razões para as elevadas taxas de
desaprovação de Lula e sua equipe nas pesquisas de opinião encontra-se na
adoção do modelito neoliberal de juros elevados e austeridade fiscal. A falácia
da narrativa “não temos recursos” impediu o governo de levar em frente inúmeros
programas e políticas públicas que certamente dariam uma percepção muito mais
positiva por parte da população e do eleitorado, caso tivessem sido
implementados.
As
medidas de ajuste anunciadas por Flávio são, com toda a certeza, uma verdadeira
tragédia. No entanto, as respostas apresentadas pela equipe de Lula não deixam
de ser igualmente mais desastrosas. O atual ministro da Fazenda, ao invés de
criticar os aspectos perversos da proposta bolsonarista, faz observações que
consideram a proposta pouco ousada, uma vez que não apresentaria os caminhos
para realizar o ajuste de cortes de despesas. Uma loucura! Para ele, o problema
não é a ideia de realizar um corte superior a R$ 200 bi. Mas o fato de a equipe
do Bolsonarinho não apontar a origem das reduções das despesas. Fica até
parecendo competição para ver quem é mais eficiente na condução do
austericídio.
O Lula
candidato precisa dar um chega prá lá no Lula Presidente e em sua equipe
ministerial. Tudo o que não precisamos no momento é de um adepto da austeridade
fiscal cega e burra a nos criar problemas nesta reta final de uma campanha que
segue disputada no voto a voto. As manifestações públicas nos últimos dias
estão demonstrando que estamos em um momento de virada. Mas, para isso, seria
bom que alguém de peso desse um cala-boca nesse Dario Durigan, cujo verbo e
ação mais atrapalham do que ajudam.
• O novo Brasil que a política (ainda)
ignora. Por Marcio Pochmann
O
resultado eleitoral de 2026 pode ser lido para além da disputa entre candidatos
e partidos. Ele revela uma sociedade que mudou profundamente nas últimas
décadas e cuja transformação ainda não foi plenamente incorporada pela
política, pelas instituições e pelas próprias categorias convencionais
utilizadas para compreender o Brasil.
O país
que vota hoje já não é mais o mesmo daquele para o qual foram desenhadas muitas
das instituições econômicas, trabalhistas e políticas da Nova República.
Durante grande parte do século XX, o desenvolvimento brasileiro foi pensado a
partir da sociedade urbana e industrial, como fábricas, grande empresa, emprego
assalariado, sindicato, estabelecimento comercial, jornada de trabalho,
previdência e Estado regulador.
Esse
mundo não desapareceu. Mas deixou de ser suficiente para explicar a totalidade
do país. A economia brasileira tornou-se predominantemente de serviços,
enquanto a digitalização modificou a própria forma de produzir e distribuir. A
residência pode ser simultaneamente moradia, escritório, cozinha produtiva,
loja, estúdio e espaço de prestação de serviços. O telefone celular
transformou-se em instrumento de trabalho, comercialização, pagamento,
publicidade e relacionamento com clientes.
Em
2025, por exemplo, 95% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet e
97,4% possuíam telefone celular. São aproximadamente 76 milhões de domicílios
conectados. O dado não representa apenas inclusão tecnológica, pois revela a
formação de uma nova infraestrutura social e econômica no país.
É
preciso, porém, ir além da ideia convencional de economia digital. Ela costuma
aparecer como se fosse mais um setor ao lado da indústria, da agropecuária e
dos serviços. Essa definição tornou-se insuficiente. A economia digital é, cada
vez mais, uma infraestrutura que atravessa praticamente todos os setores.
Está no
aplicativo bancário que permite receber e transferir dinheiro, no sistema de
pagamento utilizado pelo pequeno comerciante, no aplicativo que leva o alimento
produzido em uma cozinha doméstica até o consumidor, no marketplace que
transforma uma residência em ponto de venda, no algoritmo que distribui
publicidade ao produtor de conteúdo, na plataforma que conecta motorista e
passageiro, no software que organiza uma pequena empresa, na nuvem que hospeda
seus dados, na inteligência artificial que começa a participar da produção
intelectual.
Por
isso, uma pergunta mais importante do que quantos brasileiros trabalham no
chamado num setor digital é buscar saber quantos dependem diretamente da
infraestrutura digital para realizar seu trabalho e obter renda? Não existe
ainda uma estatística nacional oficial, capaz de medir integralmente esse
universo.
Mas,
considerando trabalhadores de aplicativos, comércio eletrônico, produtores de
conteúdo, prestadores de serviços mediados por plataformas, produtores de
alimentos comercializados digitalmente, atividades profissionais realizadas
pela internet e outras formas de trabalho cuja produção, venda ou remuneração
depende diretamente de plataformas e dados, pode-se estimar cerca de um quarto
dos ocupados brasileiros já tenha dependência direta da infraestrutura digital
para seu trabalho e sua renda.
Um
motorista, por exemplos, que dependa de uma plataforma para encontrar
passageiros está vinculado a economia digital, ainda que pertença ao setor de
transporte. Do mesmo modo, o restaurante que dependa de aplicativos para
receber pedidos segue vinculado ao setor alimentação, assim como o pequeno
vendedor que dependa de marketplace, redes sociais e meios digitais de
pagamento está vinculado ao setor do comércio.
Por
outro lado, as atividades desenvolvidas na residência como o produtor de
alimentos que atenda a demanda de consumidores ou a psicóloga que preste
serviços remotamente, ambos por plataformas, estão conectados pela economia
digital. Os produtores de conteúdo conseguem transformar a audiência em renda
por meio das redes sociais.
São
inenris exemplos que a digitalização, portanto, não está apenas criando novas
atividades. Está reorganizando atividades antigas e modificando a forma pela
qual milhões de pessoas acessam o mercado, trabalham, vendem, recebem e obtêm
renda.
Essa é
uma transformação decisiva para compreender o Brasil contemporâneo, bem como
contribuiu também para interpretar os resultados eleitorais recentes.
A
sociedade brasileira tornou-se mais conectada, mas não necessariamente mais
protegida. A autonomia para trabalhar pode crescer ao mesmo tempo em que
aumenta a dependência das plataformas. O pequeno produtor pode escapar da
necessidade de possuir uma loja física, mas passa a depender do algoritmo para
alcançar seus clientes. O trabalhador pode deixar de ter um patrão
convencional, mas pode ser submetido a sistemas de avaliação, ranqueamento,
preços dinâmicos e regras que não controla.
É uma
nova relação de poder, uma vez que a produção se descentraliza, enquanto a
intermediação pode se concentrar. Na sociedade industrial, o poder econômico
estava associado sobretudo à propriedade das fábricas, máquinas, terras, lojas
e redes físicas. Na sociedade digital, acrescentam-se o controle dos dados, das
plataformas, dos algoritmos, dos meios de pagamento, da computação em nuvem e
das redes de intermediação.
E é
justamente aí que aparece o descompasso do Estado atual. Grande parte da
regulação brasileira ainda foi construída para identificar empresa,
estabelecimento, empregador, empregado, jornada e território. A nova economia
embaralha essas fronteiras.
Onde
está o estabelecimento de uma atividade realizada dentro de casa e
comercializada por aplicativo? Quem é o empregador quando a jornada é
organizada por um algoritmo? Como proteger alguém que combina emprego formal,
trabalho por aplicativo, atividade autônoma e produção digital? Como tributar
uma atividade cujo mercado, pagamento e infraestrutura estão distribuídos entre
diferentes plataformas e países?
O
problema brasileiro não é simplesmente ter um Estado grande ou pequeno. É ter
instituições construídas para uma sociedade que mudou. Isso, por fim, rebate
inexoravelmente no processo eleitoral que não pode ser reduzido a uma reação
automática à economia. Nenhum resultado possui uma única causa.
Quando
a eleição ocorre em um país no qual o desemprego caiu a níveis historicamente
baixos sem que tenham desaparecido a informalidade, a insegurança econômica e a
desigualdade de renda e proteção, o problema social deixa de ser apenas a
ausência de emprego. Passou a envolver a qualidade da inserção econômica, a
autonomia, a proteção, o tempo disponível, a renda e o controle sobre os meios
pelos quais cada indivíduo consegue trabalhar.
É uma
sociedade em que milhões de pessoas podem estar economicamente conectadas e,
simultaneamente, socialmente vulneráveis. A política, em geral, ainda fala
frequentemente com categorias da sociedade industrial, pois trata da antiga
convenção do trabalhador versus empresário, emprego versus desemprego, fábrica
versus serviço, público versus privado.
A
realidade, contudo, tornou-se muito mais híbrida. A nova questão social está
espalhada pelas casas, pelas ruas, pelos aplicativos e pelas plataformas. Por
isso, a agenda brasileira precisa mudar.
Não
parece suficiente regular o emprego tradicional. É preciso construir proteção
social para trajetórias profissionais descontínuas. Não basta fiscalizar
empresas convencionais. É preciso regular plataformas. Não basta discutir
inclusão digital como acesso à internet. É necessário discutir quem controla os
dados e as infraestruturas que organizam o trabalho e a renda.
Também
não basta medir quantos brasileiros trabalham no setor digital. É preciso medir
quanto da economia brasileira depende da infraestrutura digital.
Essa
mudança de perspectiva é fundamental. Assim como a eletricidade transformou a
indústria, o comércio e a vida doméstica sem ser apenas mais um setor
econômico, dados, conectividade, plataformas e inteligência artificial estão se
tornando infraestrutura geral da produção contemporânea.
O
Brasil entrou nessa transformação sem ter completado sua industrialização e sem
ter superado suas desigualdades históricas. Por isso, vive uma transição
híbrida, contendo a indústria avançada e desindustrialização relativa, o
agronegócio tecnológico e o trabalho informal, os serviços sofisticados e as
ocupações de baixa produtividade, os bancos digitais e a exclusão, a
inteligência artificial e a precarização.
O
desafio não parece estar na escolha entre indústria e serviços, Estado e
mercado, passado e futuro, mas em construir um Estado capaz de governar essa
sociedade nova. Um Estado que reconheça o domicílio como espaço potencialmente
produtivo, o dado como infraestrutura econômica, a plataforma como nova forma
de intermediação, a inteligência artificial como tecnologia estratégica e o
trabalhador digital como sujeito de direitos.
A
questão decisiva para o Brasil das próximas décadas talvez seja justamente
definir quem controlará as infraestruturas digitais das quais dependerá uma
parcela crescente do trabalho e da renda dos brasileiros. Se a resposta estiver
exclusivamente nas grandes plataformas globais, a descentralização da produção
poderá conviver com uma concentração inédita do poder econômico.
Se o
Brasil conseguir construir infraestrutura pública de dados, capacidade
tecnológica, regulação democrática, proteção social e soberania digital, a
mesma transformação poderá ampliar a autonomia produtiva de milhões de
brasileiros. A eleição de 2026 não criou essa escolha, porém acontece no
momento em que ela começa a se tornar incontornável.
O
Brasil mudou. A questão é saber se sua política e seu Estado conseguirão mudar
com ele.
Fonte:
Outras Palavras

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