quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Paulo Kliass: O “tesouraço” de Flávio

Os resultados das eleições gerais de 4 de outubro significaram o avanço das forças políticas de extrema direita no conjunto do país. Apesar de os grupos de esquerda e centro-esquerda terem mantido sua participação relativa no Congresso Nacional que tomará posse em fevereiro do ano que vem, os candidatos identificados com o bolsonarismo avançaram sobre os espaços ocupados até agora pelo fisiologismo do Centrão. Vários governadores apoiados por Bolsonaro conseguiram ser eleitos neste primeiro turno, além de várias duplas de senadores que venceram no pleito.

Por outro lado, o resultado mais preocupante foi a votação de Bolsonarinho nesta primeira etapa, uma vez que ele conseguiu superar o número de votos obtidos por Lula. A perspectiva de poder que se anuncia com esse movimento passou a atrair de forma mais efetiva um conjunto de forças políticas e interesses econômicos para o campo da extrema-direita. Essa novidade na conjuntura terminou por colocar a candidatura de Flávio em uma postura de “salto alto”, com a sensação do “já ganhou” subida à cabeça dos envolvidos. Os nomes para composição de eventual ministério, caso ele seja eleito, começam a ganhar espaço na grande imprensa. O próprio candidato já adiantou que iria conseguir a libertação de seu pai para subir a rampa do Palácio do Planalto no dia da posse para, simbolicamente, lhe entregar a faixa presidencial.

Como costuma acontecer nestes momentos, a área econômica é a que recebe mais atenção por parte dos interessados e dos analistas. A memória da desastrosa gestão de Paulo Guedes à frente do Ministério da Economia sempre volta à cena. Afinal, ele havia conseguido que o pai do atual candidato o nomeasse como um superministro em 2019, concentrando os poderes de 4 pastas tradicionais da nossa composição da administração pública federal. Com isso, ele tornou-se o responsável pela Fazenda, pelo Planejamento & Orçamento, pelo Trabalho e pela Indústria & Comércio. A estratégia dele no momento atual é a de se retirar da cena e dos holofotes, afirmando que não teria interesse em retornar à Esplanada.

<><> Bolsonarinho é a barbárie à vista

No entanto, Flávio chamou para a coordenação da área econômica de sua campanha pessoas que haviam ocupado lugar de destaque na equipe de Paulo Guedes durante o governo de seu pai. Gabriela Marques e Adolfo Sachsida estão respondendo pela economia, assim como ocorria com a figura do “Posto Ipiranga” na campanha de 2018. Ambos foram contratados pelo financismo privado depois da vitória de Lula. Eles têm uma visão extremamente conservadora do fenômeno econômico e já alertaram que a inspiração maior de eventual governo de Flávio seria o modelo adotado por Javier Milei na Argentina.

Isso significa que a tragédia bolsonarista teria uma continuidade para muito além do que significou o genocídio de 700 mil pessoas na época da covid ou da liberalização geral de garimpos ilegais, invasão de terras indígenas e quilombolas pelos grupos do agronegócio. Ainda que Paulo Guedes não tenha conseguido apoio para levar à frente seu plano de privatização da totalidade de empresas estatais do governo federal à época, a gestão da política econômica de seu governo foi marcada pela obediência cega aos ditames da cartilha neoliberal.

Flávio promete agora seguir pelo mesmo caminho. Sua assessoria econômica já anunciou um plano de realizar cortes nas despesas orçamentárias equivalentes a 2% do PIB a partir do início de seu eventual mandato. Assim, a ideia é promover um “tesouraço” de R$ 250 bilhões com golpes nos benefícios previdenciários, além da eliminação dos pisos constitucionais da saúde e da educação. Estas e outras medidas estariam presentes em dispositivos de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), inspirada na estratégia de Lula com a PEC da transição no final da campanha de 2022. Ocorre que o conteúdo é diametralmente oposto. Enquanto Lula buscava, durante o período entre o anúncio do resultado do pleito e a posse do novo governo, assegurar mais recursos para cumprir com seu programa, Flávio já pretende iniciar o jogo com cortes e mais cortes no orçamento.

<><> Entre Milei e Trump: Flávio quer acabar com o Brasil

Ora, se a inspiração declarada de Bolsonarinho é o modelo que vem sendo levado a cabo pelo governo da Argentina, as perspectivas para nosso país não são nada otimistas. Aliás, muito pelo contrário. Nossos vizinhos estão atravessando uma combinação perversa de crise econômica e crise social bastante grave, com o fechamento de dezenas de milhares de empresas e com a elevação substantiva do desemprego. A inflação em patamares preocupantes e a redução do poder de compra da massa salarial têm provocado a redução da capacidade de demanda em geral da economia. Assim, são bastante perversas as consequências econômicas e sociais advindas de tal caminho implementado pelo Ministro da Economia, Luiz Caputo.

Não existe a menor sombra de dúvida de que a eventual eleição de Bolsonarinho seria uma verdadeira tragédia para o Brasil e para o povo brasileiro. A perda completa de qualquer espaço para a afirmação da nossa soberania nacional fica bastante evidente com a submissão completa da família a Donald Trump e aos interesses do governo dos Estados Unidos. Se olharmos o atual mapa da América do Sul, percebemos que a absoluta maioria dos países desta porção meridional do continente fez recentemente uma guinada à extrema direita. Caso o Brasil siga pelo mesmo caminho, a Casa Branca nem precisará realizar grandes esforços para implementar as diretrizes de sua atualização da doutrina Monroe. Essa mesma, que foi exposta há pouco em documento oficial do governo estadunidense e que vem sendo chamada de Donroe, em analogia ao prenome de Trump — Donald.

<><> Poucos dias para virar voto

Lula e a coordenação de campanha deveriam se utilizar mais dos exemplos da crise vivenciada pelos argentinos para demonstrar os equívocos e as maldades do programa apresentado pela equipe de Flávio. E, também, o nosso presidente deveria incorporar para si mesmo a necessária autocrítica em relação aos rumos da política econômica implementada pelo seu governo desde janeiro de 2023. Afinal, uma das principais, senão a principal, razões para as elevadas taxas de desaprovação de Lula e sua equipe nas pesquisas de opinião encontra-se na adoção do modelito neoliberal de juros elevados e austeridade fiscal. A falácia da narrativa “não temos recursos” impediu o governo de levar em frente inúmeros programas e políticas públicas que certamente dariam uma percepção muito mais positiva por parte da população e do eleitorado, caso tivessem sido implementados.

As medidas de ajuste anunciadas por Flávio são, com toda a certeza, uma verdadeira tragédia. No entanto, as respostas apresentadas pela equipe de Lula não deixam de ser igualmente mais desastrosas. O atual ministro da Fazenda, ao invés de criticar os aspectos perversos da proposta bolsonarista, faz observações que consideram a proposta pouco ousada, uma vez que não apresentaria os caminhos para realizar o ajuste de cortes de despesas. Uma loucura! Para ele, o problema não é a ideia de realizar um corte superior a R$ 200 bi. Mas o fato de a equipe do Bolsonarinho não apontar a origem das reduções das despesas. Fica até parecendo competição para ver quem é mais eficiente na condução do austericídio.

O Lula candidato precisa dar um chega prá lá no Lula Presidente e em sua equipe ministerial. Tudo o que não precisamos no momento é de um adepto da austeridade fiscal cega e burra a nos criar problemas nesta reta final de uma campanha que segue disputada no voto a voto. As manifestações públicas nos últimos dias estão demonstrando que estamos em um momento de virada. Mas, para isso, seria bom que alguém de peso desse um cala-boca nesse Dario Durigan, cujo verbo e ação mais atrapalham do que ajudam.

•        O novo Brasil que a política (ainda) ignora. Por Marcio Pochmann

O resultado eleitoral de 2026 pode ser lido para além da disputa entre candidatos e partidos. Ele revela uma sociedade que mudou profundamente nas últimas décadas e cuja transformação ainda não foi plenamente incorporada pela política, pelas instituições e pelas próprias categorias convencionais utilizadas para compreender o Brasil.

O país que vota hoje já não é mais o mesmo daquele para o qual foram desenhadas muitas das instituições econômicas, trabalhistas e políticas da Nova República. Durante grande parte do século XX, o desenvolvimento brasileiro foi pensado a partir da sociedade urbana e industrial, como fábricas, grande empresa, emprego assalariado, sindicato, estabelecimento comercial, jornada de trabalho, previdência e Estado regulador.

Esse mundo não desapareceu. Mas deixou de ser suficiente para explicar a totalidade do país. A economia brasileira tornou-se predominantemente de serviços, enquanto a digitalização modificou a própria forma de produzir e distribuir. A residência pode ser simultaneamente moradia, escritório, cozinha produtiva, loja, estúdio e espaço de prestação de serviços. O telefone celular transformou-se em instrumento de trabalho, comercialização, pagamento, publicidade e relacionamento com clientes.

Em 2025, por exemplo, 95% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet e 97,4% possuíam telefone celular. São aproximadamente 76 milhões de domicílios conectados. O dado não representa apenas inclusão tecnológica, pois revela a formação de uma nova infraestrutura social e econômica no país.

É preciso, porém, ir além da ideia convencional de economia digital. Ela costuma aparecer como se fosse mais um setor ao lado da indústria, da agropecuária e dos serviços. Essa definição tornou-se insuficiente. A economia digital é, cada vez mais, uma infraestrutura que atravessa praticamente todos os setores.

Está no aplicativo bancário que permite receber e transferir dinheiro, no sistema de pagamento utilizado pelo pequeno comerciante, no aplicativo que leva o alimento produzido em uma cozinha doméstica até o consumidor, no marketplace que transforma uma residência em ponto de venda, no algoritmo que distribui publicidade ao produtor de conteúdo, na plataforma que conecta motorista e passageiro, no software que organiza uma pequena empresa, na nuvem que hospeda seus dados, na inteligência artificial que começa a participar da produção intelectual.

Por isso, uma pergunta mais importante do que quantos brasileiros trabalham no chamado num setor digital é buscar saber quantos dependem diretamente da infraestrutura digital para realizar seu trabalho e obter renda? Não existe ainda uma estatística nacional oficial, capaz de medir integralmente esse universo.

Mas, considerando trabalhadores de aplicativos, comércio eletrônico, produtores de conteúdo, prestadores de serviços mediados por plataformas, produtores de alimentos comercializados digitalmente, atividades profissionais realizadas pela internet e outras formas de trabalho cuja produção, venda ou remuneração depende diretamente de plataformas e dados, pode-se estimar cerca de um quarto dos ocupados brasileiros já tenha dependência direta da infraestrutura digital para seu trabalho e sua renda.

Um motorista, por exemplos, que dependa de uma plataforma para encontrar passageiros está vinculado a economia digital, ainda que pertença ao setor de transporte. Do mesmo modo, o restaurante que dependa de aplicativos para receber pedidos segue vinculado ao setor alimentação, assim como o pequeno vendedor que dependa de marketplace, redes sociais e meios digitais de pagamento está vinculado ao setor do comércio.

Por outro lado, as atividades desenvolvidas na residência como o produtor de alimentos que atenda a demanda de consumidores ou a psicóloga que preste serviços remotamente, ambos por plataformas, estão conectados pela economia digital. Os produtores de conteúdo conseguem transformar a audiência em renda por meio das redes sociais.

São inenris exemplos que a digitalização, portanto, não está apenas criando novas atividades. Está reorganizando atividades antigas e modificando a forma pela qual milhões de pessoas acessam o mercado, trabalham, vendem, recebem e obtêm renda.

Essa é uma transformação decisiva para compreender o Brasil contemporâneo, bem como contribuiu também para interpretar os resultados eleitorais recentes.

A sociedade brasileira tornou-se mais conectada, mas não necessariamente mais protegida. A autonomia para trabalhar pode crescer ao mesmo tempo em que aumenta a dependência das plataformas. O pequeno produtor pode escapar da necessidade de possuir uma loja física, mas passa a depender do algoritmo para alcançar seus clientes. O trabalhador pode deixar de ter um patrão convencional, mas pode ser submetido a sistemas de avaliação, ranqueamento, preços dinâmicos e regras que não controla.

É uma nova relação de poder, uma vez que a produção se descentraliza, enquanto a intermediação pode se concentrar. Na sociedade industrial, o poder econômico estava associado sobretudo à propriedade das fábricas, máquinas, terras, lojas e redes físicas. Na sociedade digital, acrescentam-se o controle dos dados, das plataformas, dos algoritmos, dos meios de pagamento, da computação em nuvem e das redes de intermediação.

E é justamente aí que aparece o descompasso do Estado atual. Grande parte da regulação brasileira ainda foi construída para identificar empresa, estabelecimento, empregador, empregado, jornada e território. A nova economia embaralha essas fronteiras.

Onde está o estabelecimento de uma atividade realizada dentro de casa e comercializada por aplicativo? Quem é o empregador quando a jornada é organizada por um algoritmo? Como proteger alguém que combina emprego formal, trabalho por aplicativo, atividade autônoma e produção digital? Como tributar uma atividade cujo mercado, pagamento e infraestrutura estão distribuídos entre diferentes plataformas e países?

O problema brasileiro não é simplesmente ter um Estado grande ou pequeno. É ter instituições construídas para uma sociedade que mudou. Isso, por fim, rebate inexoravelmente no processo eleitoral que não pode ser reduzido a uma reação automática à economia. Nenhum resultado possui uma única causa.

Quando a eleição ocorre em um país no qual o desemprego caiu a níveis historicamente baixos sem que tenham desaparecido a informalidade, a insegurança econômica e a desigualdade de renda e proteção, o problema social deixa de ser apenas a ausência de emprego. Passou a envolver a qualidade da inserção econômica, a autonomia, a proteção, o tempo disponível, a renda e o controle sobre os meios pelos quais cada indivíduo consegue trabalhar.

É uma sociedade em que milhões de pessoas podem estar economicamente conectadas e, simultaneamente, socialmente vulneráveis. A política, em geral, ainda fala frequentemente com categorias da sociedade industrial, pois trata da antiga convenção do trabalhador versus empresário, emprego versus desemprego, fábrica versus serviço, público versus privado.

A realidade, contudo, tornou-se muito mais híbrida. A nova questão social está espalhada pelas casas, pelas ruas, pelos aplicativos e pelas plataformas. Por isso, a agenda brasileira precisa mudar.

Não parece suficiente regular o emprego tradicional. É preciso construir proteção social para trajetórias profissionais descontínuas. Não basta fiscalizar empresas convencionais. É preciso regular plataformas. Não basta discutir inclusão digital como acesso à internet. É necessário discutir quem controla os dados e as infraestruturas que organizam o trabalho e a renda.

Também não basta medir quantos brasileiros trabalham no setor digital. É preciso medir quanto da economia brasileira depende da infraestrutura digital.

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Assim como a eletricidade transformou a indústria, o comércio e a vida doméstica sem ser apenas mais um setor econômico, dados, conectividade, plataformas e inteligência artificial estão se tornando infraestrutura geral da produção contemporânea.

O Brasil entrou nessa transformação sem ter completado sua industrialização e sem ter superado suas desigualdades históricas. Por isso, vive uma transição híbrida, contendo a indústria avançada e desindustrialização relativa, o agronegócio tecnológico e o trabalho informal, os serviços sofisticados e as ocupações de baixa produtividade, os bancos digitais e a exclusão, a inteligência artificial e a precarização.

O desafio não parece estar na escolha entre indústria e serviços, Estado e mercado, passado e futuro, mas em construir um Estado capaz de governar essa sociedade nova. Um Estado que reconheça o domicílio como espaço potencialmente produtivo, o dado como infraestrutura econômica, a plataforma como nova forma de intermediação, a inteligência artificial como tecnologia estratégica e o trabalhador digital como sujeito de direitos.

A questão decisiva para o Brasil das próximas décadas talvez seja justamente definir quem controlará as infraestruturas digitais das quais dependerá uma parcela crescente do trabalho e da renda dos brasileiros. Se a resposta estiver exclusivamente nas grandes plataformas globais, a descentralização da produção poderá conviver com uma concentração inédita do poder econômico.

Se o Brasil conseguir construir infraestrutura pública de dados, capacidade tecnológica, regulação democrática, proteção social e soberania digital, a mesma transformação poderá ampliar a autonomia produtiva de milhões de brasileiros. A eleição de 2026 não criou essa escolha, porém acontece no momento em que ela começa a se tornar incontornável.

O Brasil mudou. A questão é saber se sua política e seu Estado conseguirão mudar com ele.

 

Fonte: Outras Palavras

 

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