quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Extrema-direita, antissemitismo e o feminismo

Marie Le Pen e Jordan Bardella, líderes do partido de extrema direita francês foram comemorar, numa missa solene no centro de Paris a vitória de seu partido o Reunião Nacional. O partido e seus aliados acabavam de conquistar 14 cadeiras no Senado e multiplicando o número de representantes antes das eleições presidenciais do ano 2027. Esse salto mostra que das 384 cadeiras do Senado o partido que tinha 2 senadores em 2014, 3 em 2023, tem condições agora de se candidatar à Presidência da República.

Por outro lado, Emmanuel Macron, o Presidente da França defende que políticos antissemitas se tornem inelegíveis e, em declaração no jardim do Palácio do Eliseu, onde ele plantou um carvalho em homenagem à vítima de um crime de ódio contra os judeus ocorrido há 20 anos ele declarou: “Para o futuro, desejo que uma pena de inelegibilidade obrigatória seja instituída para atos e declarações antissemitas, racistas e discriminatórias” (Folha de S. Paulo).

A direita na França tem como projeto reorganizar o país excluindo população não branca e não católica. Esse ideal racista e xenófobo me leva a retomar um texto escrito há cerca de 10 anos pois, ao relê-lo, vejo que estamos à beira do mesmo racismo, antissemitismo e do perigo que a direita representa não apenas para os judeus mas para toda a humanidade.

Revejo um monumento colocado numa praça onde está o Velódromo de Inverno de Paris: La Place des Martyrs Juifs du Vélodrome d’Hiver (Praça dos Judeus Martires no Velódromo de Inverno). Esse monumento foi erigido em lembrança à “prisão e deportação” de judeus na França durante a Segunda Guerra Mundial. “Não esqueceremos jamais”, está inscrito junto às faces esculpidas de judeus perseguidos pelo racismo e antissemitismo, homens, mulheres, de todas as idades, e crianças.

A homenagem lembrava que ali, ao lado do Sena, no Quai de Grenelle, havia no passado o Velódromo de Inverno, ponto para partida de corridas de bicicletas. Mas em 16 e 17 de julho de 1942, nesse mesmo local foram aprisionados 13.152 judeus, dos quais 3.000 crianças. O motivo: eram judeus.

Os presos amontoados no Quai podiam ser vistos e ouvidos pelos moradores vizinhos, durante os quatro dias que lá ficaram em condições inimagináveis até serem deportados. Os nazistas, com o apoio incondicional do governo de Vichy, usou a polícia francesa para prendê-los, separar as famílias e enviá-los para Auschwitz. Poucos adultos restaram. Nenhuma criança sobreviveu.

Na terra da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que na minha adolescência aprendi a amar e respeitar, deu-se essa deportação. Não foi a única, houve outras (Blay, 2013. O curioso é que esse memorial, tão pouco visto, fica pertíssimo de um local muito visitado por turistas, a Tour Eiffel.

Marine Le Pen, a voz da direita, nega a participação da França nessa deportação. Emmanuel Macron, em plena campanha eleitoral, ousou se contrapor a Le Pen e, presidente, convidou Benjamin Netanyahu a visitar a França e participar dessa comemoração. Ousado o gesto de Emmanuel Macron, num importante momento em que Israel é atacada de todos os lados, pela direita, pela esquerda, etc., sionismo e antissemitismo são colocados como sinônimos.

Qual a razão de se confundir um eventual primeiro-ministro israelense, que será sucedido amanhã por outro, com o direito à existência de Israel? Legitimo discordar-se das ações políticas de um governo, mas daí a negar o direito à existência de Israel como país, é na verdade uma visão racista, antissemita. Nós, brasileiros, que vivemos a ditadura militar, nunca confundimos o Brasil com seu governo ditatorial, felizmente transitório.

Afinal, o que tem a ver o antissemitismo, o antissionismo, o racismo e o encontro entre dois governantes tão distintos? O que havia na França de Vichy, racista e xenófoba, que perseguia os judeus – franceses ou estrangeiros? E como explicar esse encontro entre dois políticos tão distintos? O que mudou para permitir essa aproximação?

<><> O Marechal, o racismo e o “feminino eterno”

Na França, o antissemitismo, o racismo, o espírito colonialista antecederam o governo do Marechal Pétain, mostra Francine Muel–Dreyfus. No governo Vichy o Marechal, no governo, com os olhos voltados para o passado, pretendeu realizar a “Revolução Nacional” com a qual a França retornaria à “idade do ouro”, onde uns seriam incluídos e outros excluídos. Para o idolatrado vencedor de Verdun, os “inassimiláveis deveriam ser excluídos”.

A ideologia racista, xenófoba era prévia a Vichy e perdurou após o fim da Segunda Guerra. Robert Badinter, célebre advogado, exemplifica essa permanência lembrando o pronunciamento de Charpentier, presidente da Ordem dos Advogados em 1949 que afirmava: “Na Ordem (dos Advogados) de Paris há sempre a questão judaica. Esta se agravou há alguns anos com a chegada de refugiados políticos que, com as facilidades de naturalização, entraram para a Ordem. Eles têm uma concepção de justiça diferente da nossa (…)”.

Robert Badinter não ignora que, ao lado da xenofobia e do antissemitismo, também havia aqueles com forte apego republicano e que pregavam a liberdade, mas a política na Ordem era claramente xenófoba, evidenciada pela seguinte decisão: em 1 8 de setembro de 1940, bem no início da adesão ao nazismo, a Ordem dos Advogados determinava que “Ninguém pode se manter ou se inscrever na Ordem dos Advogados (…) se não possuir a nacionalidade francesa obtida por nascimento de um pai francês”.

A interdição imposta aos judeus entre 1940-1944 ficava escrita através do “estatuto dos judeus”. Em Le droit antisémite de Vichy, lê-se que o estatuto se desdobra em vários capítulos como: “A qualidade do Judeu”; “O Judeu ‘incapaz ‘”; “O judeu ‘não cidadão’”; “O Judeu proibido de trabalhar”;” “O Judeu privado da nacionalidade francesa”; “A arianização dos bens”; “A arianização e as finanças no exterior”; “A exclusão dos judeus da administração pública” e assim por diante.

A Revolução Nacional, com a qual a França retornaria à “idade do ouro”, definia toda a estrutura e o comportamento da sociedade e nela um pilar fundante: a mulher. Recolocar ordem no mundo significava “retornar a uma divisão sexual rígida em que cada sexo teria funções específicas e naturais”. O Marechal não estava sozinho e, como diz Francine, na sociedade de 1940, literatos, homens da Igreja e cientistas se apoiavam na noção de que era necessário voltar às desigualdades naturais, biologicamente definidas, e não as construídas pela história ou pela cultura.

Era a busca e o retorno do “eterno feminino”. Em um estado autoritário se podia propor e garantir a existência de um “eterno feminino” em que o destino das mulheres era a submissão e a resignação. O ar de total impotência está expresso na face de uma mulher deportada, incapaz de defender seus filhos, a família, pois era ela própria uma das inassimiláveis. Excluída dos direitos humanos, dos direitos pessoais, sua vida estava disponível para os poderosos.

Daniel Halévy em 1941 afirma que o primeiro fator da “degenerescência“ da França era a “denatalidade”, ou seja, a baixa natalidade, e que seria fundamental “regenerar o instinto maternal”. A isso ele somava o “alcoolismo e o afluxo de allogènes”, o aborto, o trabalho feminino. Acata o estatuto dos judeus – que os limita até à expulsão do país, e enaltece o mundo rural e seus costumes.

Em suma, Daniel Halévy via na voz do Marechal “a voz de um pai e de um chefe” que lideraria a redenção da França. Raymond Aron critica a posição conservadora de Daniel Halévy (1943-1993), cheia de preconceitos, que valoriza o campesinato, hostiliza o operariado e que se volta para uma França anterior à Revolução de 1789.

Qual seria o papel ideal da mulher na Revolução Nacional? Qual é seu pecado? Em que ela é responsável pela desordem?

Para a Revolução Nacional, o fundamental era ter a família como base, além de aumentar a natalidade. Completar-se-ia a estrutura com a exaltação de uma cultura feminina católica hegemônica somada a uma escola de base religiosa. Controlar essas decisões seria tarefa do Estado. Impunha-se a total separação entre o masculino e o feminino em todas as atividades sociais, culturais, sexuais.

Nos alicerces dessa ideologia estão as desigualdades biológicas, tidas como indiscutíveis. “A representação de uma ordem biológica, imutável, natural, necessária, legitima a representação de uma ordem social imutável, natural e necessária”. Daí que “o retorno do eterno feminino permite pensar um mundo onde todas as desigualdades são naturais e se inscrevem na ordem eterna das coisas. Esse quadro impõe uma sociedade cuja ‘limpeza’ era obsessiva: segue a mesma lógica, para limpar o corpo social se deve rejeitar o inassimilável, o estrangeiro, o judeu”.

O autoritarismo do Estado no período Vichy estende suas leis a todas as áreas onde o indivíduo necessariamente trafega: a casa, a família, a escola, o trabalho, etc. A partir da diferença “natural” a mulher é parte do universo doméstico, festeja-se o “dia das mães”. Contrapõe-se a família ao indivíduo, a escola não é para as mulheres, e sobretudo as elites adquirem uma condição viril, hierárquica. Além do aborto ser considerado um crime contra o Estado, institui-se o exame pré-nupcial para que se garanta a defesa da raça.

<><> Presente e futuro: impasses

A França de Emmanuel Macron reverte todos aqueles padrões arcaicos de dominação de um grupo alicerçado na submissão da mulher. Ele está muito perto de Raymond Aron ao se despir do culto ao rural, do ódio aos estrangeiros, da exaltação do instinto materno. Emmanuel Macron, ao lembrar a deportação dos judeus franceses, em 1942 acentua a importância da laicidade e a luta incondicional contra toda forma de antissemitismo. e delineia como conduziria a política interna francesa. Do ponto de vista da política externa, ele afirmava a importância de garantir Israel e o destino dos palestinos.

Parecia pois que novos ventos pairavam sobre a França e a Europa. Mas como mostrei no início desse texto a extrema direita se recompôs e ganhou eleições. As décadas seguintes serão turbulentas, os valores democráticos encontrarão resistências. Mais uma vez teremos que lutar para garantir a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

 

Fonte: Por Eva Alterman Blay, em A Terra é Redonda

 

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