Como
'Breaking Bad' e RJ Mitte mudaram a percepção sobre a paralisia cerebral
O ator
americano RJ Mitte, conhecido por interpretar Walter White Jr. na série
Breaking Bad, morreu na segunda-feira (12/10) no Texas, aos 34 anos.
Seus
representantes disseram à agência de notícias Reuters que o artista cometeu
suicídio.
Natural
de Jackson, Mississippi, Mitte sofreu uma lesão cerebral ao nascer e foi
diagnosticado com paralisia cerebral leve aos três anos.
Sua
experiência com essa deficiência lhe permitiu trazer autenticidade à sua
interpretação de Walter Jr.
Em
Breaking Bad, o protagonista, Walter White, é um professor de química do ensino
médio no Novo México que, após ser diagnosticado com câncer, entra no mundo do
narcotráfico para garantir o futuro financeiro de sua família.
À
medida que afunda no submundo do tráfico de metanfetamina, ele se afasta de seu
filho, Walt Jr.
Fora
das telas, Mitte usou sua popularidade para defender os direitos das pessoas
com deficiência e promover uma maior representação desse grupo na indústria do
entretenimento.
Nesse
processo, colaborou com a entidade United Cerebral Palsy, da qual foi
embaixador.
"Tenho
paralisia cerebral, mas nunca deixei que ela me impedisse de seguir em
frente", afirmou Mitte em um artigo publicado no site HuffPost em 2014.
Ao
recordar como aprendeu a enfrentar o bullying durante a infância, acrescentou:
"Isso não deveria definir você. Eu simplesmente tenho paralisia
cerebral".
O mesmo
acontecia com seu personagem na série, recentemente escolhida pelo The New York
Times como a melhor produção televisiva do século 21.
"O
que eu realmente gostava era que ele aparecia na televisão interpretando um
personagem com paralisia cerebral, mas a história não girava em torno da
deficiência dele", explica Emma Livingstone, fundadora e
diretora-executiva da UP-The Adult Cerebral Palsy Movement — uma instituição de
caridade britânica.
"Ver
RJ Mitte na tela interpretando um papel e, ao mesmo tempo, saber que ele tem
paralisia cerebral foi algo realmente muito poderoso."
<><>
Legado importante
Susan
Sellers, presidente e diretora-executiva da United Cerebral Palsy, destaca o
trabalho de Mitte, que também criou a Fundação Mitte, que oferecia subsídios a
iniciativas comunitárias em sua cidade natal no Texas.
"Seu
trabalho em defesa dos direitos das pessoas com deficiência foi baseado no
compromisso de garantir que pessoas com paralisia cerebral e outras
deficiências fossem vistas e ouvidas, e tivessem a oportunidade de desenvolver
todo o seu potencial."
O
legado de Mitte é especialmente significativo para artistas com deficiência.
É o que
afirma a atriz Ruth Madeley, que interpreta a ativista dos direitos das pessoas
com deficiência Judy Heumann no filme A Arte de Ser Heumann.
Madeley
tem espinha bífida, uma malformação congênita.
"Se
você não vê [pessoas com deficiência atuando em filmes], não acredita que seja
possível. Quando eu era mais jovem, atuar nem sequer estava entre minhas
opções. Eu nem pensava que pudesse seguir essa carreira", disse ela à BBC.
"Ter
alguém como ele [Mitte] na tela era muito importante para tantos jovens que
veem as artes como uma indústria na qual gostariam de construir uma carreira.
Ele foi um magnífico exemplo de que isso era possível", prosseguiu.
"Mas
ele não era apenas uma pessoa com deficiência rompendo barreiras na indústria.
Era um talento extraordinário, e acho que é isso que mais vamos sentir
falta."
Outro
ator, Keron Day, que participou da série de sucesso da Netflix Sex Education,
disse à BBC: "A maior homenagem que posso prestar a RJ e a tudo o que ele
fez é que hoje estou falando com vocês do set de um programa de
televisão".
"Esse
é o legado dele: pessoas com deficiência podendo desenvolver carreiras
profissionais nas indústrias criativas. Se eu algum dia conseguisse ter metade
do impacto que RJ teve, me sentiria imensamente orgulhoso. É um dia triste
tanto para a nossa indústria quanto para a nossa comunidade."
O
comediante e roteirista Laurence Clark concorda: "Quanto mais
representação houver na televisão, mais pessoas com deficiência se sentirão
inspiradas a considerar essa profissão como uma opção para elas."
"As
coisas mudaram muito desde que Breaking Bad estreou em 2008, mas ainda há um
longo caminho a percorrer."
Mitte
foi escolhido para integrar o elenco de Breaking Bad aos 14 anos.
Em
2016, ele declarou à Channel 4 News que a série "abriu muitas portas na
televisão e incentivou muitos roteiristas a serem mais ousados".
No
entanto, também advertiu que ainda havia muito a ser feito: "Ainda temos
um longo caminho a percorrer... continua sendo um negócio e precisamos avançar
pouco a pouco."
<><>
O que é paralisia cerebral?
O
Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) descreve a
paralisia cerebral como um grupo de condições que afetam o movimento e a
coordenação.
Elas
são causadas por lesões no cérebro ou por um desenvolvimento anormal dele,
geralmente antes do nascimento, durante o parto ou pouco depois do nascimento.
As
causas podem variar e incluir infecções durante a gravidez ou falta de oxigênio
no cérebro antes, durante ou logo após o parto.
O NHS
afirma que, em muitos casos, não é possível determinar a causa exata da
paralisia cerebral.
Os
sintomas e sua gravidade variam consideravelmente de uma pessoa para outra.
Entre
os sinais mais frequentes estão atrasos no desenvolvimento de habilidades como
sentar ou andar, fraqueza nos braços ou nas pernas e movimentos involuntários
ou descontrolados.
Algumas
pessoas também andam na ponta dos pés.
Embora
algumas pessoas com paralisia cerebral precisem de apoio durante toda a vida,
outras podem viver de forma independente.
Nem
todas usam cadeira de rodas, e a condição pode se manifestar de diferentes
formas.
Outros
sintomas podem incluir dificuldades para engolir ou falar, problemas de visão e
dificuldades de aprendizagem.
A
paralisia cerebral não piora com o tempo, embora os sintomas possam mudar ao
longo da vida de uma pessoa.
<><>
Tem cura?
A
paralisia cerebral não tem cura, mas existem tratamentos que podem ajudar as
pessoas que convivem com a condição a se manterem ativas e a viver de forma
independente.
Entre
eles estão a fisioterapia, a terapia da fala e a terapia ocupacional, que
identifica os problemas que o paciente enfrenta ao realizar tarefas cotidianas
e sugere maneiras de facilitá-las.
Também
podem ser considerados medicamentos e cirurgias que ajudam a aliviar alguns
sintomas.
A
Scope, uma organização beneficente britânica que trabalha pela igualdade das
pessoas com deficiência, afirma que, em geral, as pessoas com paralisia
cerebral têm expectativa de vida semelhante à do restante da população.
Estima-se
que mais de 17 milhões de pessoas em todo o mundo vivam com paralisia cerebral.
Fonte:
BBC Culture

Nenhum comentário:
Postar um comentário