quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Luís Nassif: O país começa a acordar para a batalha eleitoral das nossas vidas

Eleições não são processos lineares. Estão sujeitas a ondas de opinião, mudanças de percepção e acontecimentos capazes de alterar o ambiente político em poucos dias.

Um dos fenômenos estudados é a “espiral do silêncio”: pessoas podem ocultar opiniões que percebem como minoritárias. Tensões também podem se acumular durante algum tempo sem produzir mudanças expressivas nas pesquisas. Até que um acontecimento funcione como catalisador, levando parte do público a rever suas posições. O que parecia imóvel muda de repente — embora a transformação já estivesse sendo preparada.

As próprias pesquisas, quando divulgadas, podem se tornar acontecimentos políticos. Há dois efeitos conhecidos: o “efeito adesão”, pelo qual eleitores passam a apoiar quem percebem como provável vencedor; e o “efeito azarão”, que pode mobilizar apoio em favor de quem parece estar perdendo. Não são leis automáticas, mas possibilidades que ajudam a compreender a dinâmica de uma campanha.

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Lembro tudo isso porque considero possível uma virada neste final de campanha. O acontecimento capaz de deflagrá-la foi a estupenda participação dos jovens nas concentrações da Avenida Paulista, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em outras capitais e em um sem-número de cidades médias.

De repente, a rapaziada parece ter sido tomada por um sentimento de urgência, diante do temor de que o país caia nas mãos do crime organizado. Em muitas décadas acompanhando eleições, raramente vi essa urgência tão disseminada. Os riscos que uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro representa, a meu ver, para o país e para o próprio sentido de Nação parecem ter despertado inúmeros setores, especialmente o movimento estudantil.

Manifestações não se convertem automaticamente em votos, nem permitem medir, por si sós, o humor de todo o eleitorado. Mas podem alterar o ambiente da disputa. As próximas pesquisas ajudarão a mostrar se essa mobilização encontrou correspondência nas intenções de voto — e em que dimensão.

Se houver melhora consistente nos indicadores de Lula, ela poderá reforçar a percepção de que a vitória é possível. É aí que o sentimento de virada pode ganhar força: uma candidatura vista como ameaçada recupera viabilidade; eleitores antes apáticos voltam a se envolver; entusiasmo e esperança passam a disputar espaço com o receio da derrota.

O ponto central é este: a percepção de uma virada pode modificar o comportamento do eleitor antes mesmo que ela se confirme nas intenções de voto. Não importa apenas a posição de uma candidatura nas pesquisas, mas também a direção em que ela parece se mover.

Um experimento com eleitores holandeses, publicado no International Journal of Public Opinion Research, encontrou um resultado relevante: a apresentação isolada dos números não alterou significativamente as intenções de voto, mas a ênfase no crescimento de uma candidatura produziu um efeito positivo sobre o apoio posterior. O estudo sugere que a informação sobre a trajetória pode influenciar preferências, e não apenas a posição ocupada na disputa.

As manifestações pró-Lula poderão, portanto, estimular o comparecimento às urnas e reduzir a apatia de parte de seus apoiadores. Também poderão levar eleitores antes desmobilizados a se empenhar na conquista de novos votos. Se esse movimento se combinar com uma melhora nas pesquisas, uma dinâmica poderá alimentar a outra.

Se essa mobilização contribuir para a reeleição de Lula e se mantiver depois das urnas, poderá produzir dois marcos históricos. O primeiro será a reação espontânea em defesa dos valores nacionais e da democracia. O segundo, a formação de uma frente capaz de receber de Lula o bastão dessa defesa.

Nas últimas quatro décadas, Lula foi o principal fiador da democracia brasileira. Em momentos decisivos, carregou um peso desproporcional ao de seu partido e de seus aliados. Para garantir a governabilidade, contou com companheiros das Diretas Já e da Constituinte. Com o “mensalão”, perdeu parte da capacidade de articulação representada por José Dirceu, José Genoino e Luiz Gushiken. Sem esses quadros no centro da formulação política, o PT se tornou uma corporação quase anódina, com pouca capacidade de corrigir rumos ou dialogar de igual para igual com sua principal liderança.

Apesar dos estudos da Fundação Perseu Abramo, os governos Lula não ousaram romper com os dogmas dominantes da economia e do orçamento. Não havia como enfrentar, sem uma base social organizada e permanente, uma elite desnacionalizada, uma mídia amplamente subordinada aos interesses da financeirização e um Congresso dominado pelas forças mais conservadoras.

Se Lula for reeleito, os jovens que agora ocupam as ruas estarão entre os avalistas políticos dessa vitória. E terão legitimidade para cobrar do quarto governo não apenas a preservação do que existe, mas o desenho do país do futuro.

Esse é o desafio que começa a aparecer por trás da disputa eleitoral: transformar a urgência de impedir um retrocesso em força organizada para construir outro horizonte. Receber o bastão não será apenas defender Lula. Será exigir que a democracia volte a abrir caminhos para um país que não pode mais esperar.

¨      A juventude nas ruas pode devolver a Lula o viço da vitória. Por João Lister

Há um vigor nas manifestações estudantis em apoio a Lula que merece ser compreendido para além das imagens de multidões. Jovens que ocupam as ruas, organizam assembleias e assumem publicamente uma posição estão produzindo um acontecimento político: transformam a inquietação com o futuro em disposição para construí-lo. Essa energia pode devolver à campanha de Lula o viço de uma consciência que se renova e, com ele, a possibilidade da vitória.

A mobilização ganhou expressão imediatamente após o primeiro turno. Em 5 de outubro, estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram do campus do Gragoatá e percorreram ruas de Niterói. No dia seguinte, a agenda divulgada pela Mídia NINJA já reunia mais de 40 assembleias, plenárias e atos em 14 estados e no Distrito Federal, com atividades previstas até 13 de outubro. O calendário compreende encontros realizados e novas convocações, revelando uma articulação que vai além das passeatas.

Em 7 de outubro, secundaristas e universitários caminharam da Candelária à Cinelândia, no Rio de Janeiro. Segundo a Agência Brasil, suas reivindicações incluíam educação pública, direitos sociais, democracia e o fim da escala de trabalho 6×1. São temas que aproximam a experiência estudantil da vida de milhões de brasileiros: estudar, trabalhar, ter tempo para viver e poder planejar o amanhã.

No dia 8, a mobilização alcançou outras cidades. A CNN registrou manifestações em São Paulo, Curitiba e Brasília, além de atividades em universidades de diferentes regiões. UNE e coletivos estudantis participaram das convocações, e a defesa da educação pública, da permanência nos estudos e do Pé-de-Meia apareceu entre as pautas.

O significado político desse movimento está na passagem da preocupação individual à ação coletiva. Quem acompanha uma eleição sozinho, diante de uma tela, pode sentir que o resultado já está decidido e que sua participação pouco importa. Ao encontrar outras pessoas dispostas a agir, percebe que possui voz e capacidade de intervenção. A presença compartilhada pode converter ansiedade em coragem e desalento em responsabilidade.

Essa mudança tem especial importância para Lula. Uma liderança com longa trajetória precisa continuar oferecendo um horizonte de futuro. Sua experiência ganha força quando encontra demandas que ainda não foram atendidas, expectativas que permanecem abertas e gerações que desejam participar das decisões. Os estudantes podem renovar esse encontro.

O rejuvenescimento de uma campanha acontece quando novas vozes passam a participar de seu sentido. Uma jovem que reivindica condições para permanecer na universidade, um estudante que trabalha e questiona a escala 6×1, um pesquisador preocupado com a continuidade de sua formação trazem problemas concretos para o debate. Com eles, o apoio eleitoral ganha conteúdo e a candidatura pode recuperar capacidade de inspirar.

Há também uma potência sociológica nessa circulação. O estudante pertence simultaneamente a diferentes espaços: instituição de ensino, família, trabalho, bairro, amizades e redes digitais. As questões discutidas numa assembleia podem chegar à mesa de uma casa e à conversa entre colegas. A defesa da universidade pública passa, assim, a dialogar com o esforço de pais e mães que desejam melhores oportunidades para seus filhos.

Esse movimento expressa uma ideia de país. Educação, ciência, trabalho digno e democracia integram a possibilidade de ascensão social e de autonomia nacional. Ao colocá-los nas ruas, os estudantes afirmam que o futuro brasileiro deve ser uma construção pública, acessível também a quem depende de políticas sociais para estudar e viver com dignidade.

A força dessa juventude inclui sua capacidade de cobrar. Apoiar Lula pode coexistir com exigir mais recursos para a educação, melhores condições de permanência e respostas às dificuldades cotidianas. Uma consciência política viva interroga, propõe e participa. A campanha se renova quando reconhece essa autonomia e permite que ela tenha consequências em seus compromissos.

Naturalmente, manifestações não permitem antecipar o resultado das urnas. A dimensão dos atos, por si só, não mede a opinião de todo o eleitorado. Seu valor está em abrir uma possibilidade: ampliar a participação, recolocar questões substantivas no debate e recuperar a confiança de que a ação democrática pode produzir mudanças.

É esse o viço de consciência que a juventude pode oferecer a Lula. A experiência histórica de uma liderança encontra a urgência de quem tem a maior parte da vida pela frente. Nesse encontro, a campanha pode voltar a falar com convicção sobre o país que ainda precisa ser construído.

Os estudantes estão tornando visível sua disposição de participar dessa construção. Sua presença pode dar à candidatura de Lula uma energia renovada, capaz de sustentar a caminhada até a vitória. Ao reivindicar o próprio futuro, essa juventude oferece ao Brasil uma razão concreta para voltar a ter esperança.

¨      Estudantes vão às ruas e apontam o rumo para derrotar Flávio Bolsonaro e os podres poderes. Por Milton Alves

A reação estudantil foi imediata após o resultado do primeiro turno. A onda de mobilização começou na noite de segunda-feira (5), na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), e se espalhou por todo o país ao longo da semana. As manifestações ocorreram em quase vinte estados e em mais de 60 universidades públicas e privadas do país, reunindo milhares de estudantes universitários, secundaristas e jovens trabalhadores.

Assembleias numerosas nos campi universitários, plenárias e manifestações apontam claramente o rumo para o vira-voto na rua, nas redes sociais, com mobilização e uma campanha combativa para derrotar o candidato da extrema direita, que obteve 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, abrindo uma diferença de 2,2 milhões de votos.

No cenário de polarização, a onda de manifestações é um poderoso sopro de energia para a campanha de Lula, que ainda busca atrair os votos dos indecisos e dos mais de 33 milhões que se abstiveram.

As manifestações têm levantado as bandeiras populares de defesa da universidade pública, o fim da escala 6×1, o fim das privatizações, fortalecimento do SUS, tarifa zero, a reforma política e do Judiciário, entre outras pautas do povo, que a campanha do presidente Lula precisa incorporar na batalha eleitoral em curso.

Novas manifestações já estão programadas, ampliando a marca mobilizadora da campanha de Lula no segundo turno.

Nós do Diálogo e Ação Petista – DAP Associação – que acreditamos na rapaziada seguimos juntos na onda das manifestações, construindo a vitória de Lula.

¨      A Campanha Lula como desafio histórico. Por Paulo Maldos

Acredito que a mobilização em torno da reeleição de Lula Presidente precisa transcender o caráter de um mero processo eleitoral para adquirir um caráter de defesa do país, do Estado de Direito, da Constituição de 88, dos direitos individuais, sociais e políticos, do direito à vida, da soberania nacional e do nosso futuro como nação.

O apelo à participação neste segundo turno deve ter essa amplitude, essa chave de convocação e de compreensão, para aprofundar e ampliar as mobilizações estudantis e populares em curso e gerar um imenso e diverso movimento de massas, de dimensão histórica como foram as Diretas Já e o processo de participação popular na Constituinte.

E creio que não seria o presidente Lula a proclamar esse caráter amplo, patriótico e histórico desse movimento, mas uma ampla frente política e social, que abrigue todos democratas, de todos setores sociais, e todos lutadores sociais do país.

O voto em Lula é o gesto concreto e necessário para uma defesa que vai muito além de mantê-lo na presidência da República, mas sintetiza a defesa da integridade do nosso país, dos direitos do nosso povo e do nosso futuro como nação soberana.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

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