Luís
Nassif: O país começa a acordar para a batalha eleitoral das nossas vidas
Eleições
não são processos lineares. Estão sujeitas a ondas de opinião, mudanças de
percepção e acontecimentos capazes de alterar o ambiente político em poucos
dias.
Um dos
fenômenos estudados é a “espiral do silêncio”: pessoas podem ocultar opiniões
que percebem como minoritárias. Tensões também podem se acumular durante algum
tempo sem produzir mudanças expressivas nas pesquisas. Até que um acontecimento
funcione como catalisador, levando parte do público a rever suas posições. O
que parecia imóvel muda de repente — embora a transformação já estivesse sendo
preparada.
As
próprias pesquisas, quando divulgadas, podem se tornar acontecimentos
políticos. Há dois efeitos conhecidos: o “efeito adesão”, pelo qual eleitores
passam a apoiar quem percebem como provável vencedor; e o “efeito azarão”, que
pode mobilizar apoio em favor de quem parece estar perdendo. Não são leis
automáticas, mas possibilidades que ajudam a compreender a dinâmica de uma
campanha.
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Lembro
tudo isso porque considero possível uma virada neste final de campanha. O
acontecimento capaz de deflagrá-la foi a estupenda participação dos jovens nas
concentrações da Avenida Paulista, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em outras
capitais e em um sem-número de cidades médias.
De
repente, a rapaziada parece ter sido tomada por um sentimento de urgência,
diante do temor de que o país caia nas mãos do crime organizado. Em muitas
décadas acompanhando eleições, raramente vi essa urgência tão disseminada. Os
riscos que uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro representa, a meu ver, para
o país e para o próprio sentido de Nação parecem ter despertado inúmeros
setores, especialmente o movimento estudantil.
Manifestações
não se convertem automaticamente em votos, nem permitem medir, por si sós, o
humor de todo o eleitorado. Mas podem alterar o ambiente da disputa. As
próximas pesquisas ajudarão a mostrar se essa mobilização encontrou
correspondência nas intenções de voto — e em que dimensão.
Se
houver melhora consistente nos indicadores de Lula, ela poderá reforçar a
percepção de que a vitória é possível. É aí que o sentimento de virada pode
ganhar força: uma candidatura vista como ameaçada recupera viabilidade;
eleitores antes apáticos voltam a se envolver; entusiasmo e esperança passam a
disputar espaço com o receio da derrota.
O ponto
central é este: a percepção de uma virada pode modificar o comportamento do
eleitor antes mesmo que ela se confirme nas intenções de voto. Não importa
apenas a posição de uma candidatura nas pesquisas, mas também a direção em que
ela parece se mover.
Um
experimento com eleitores holandeses, publicado no International Journal of
Public Opinion Research, encontrou um resultado relevante: a apresentação
isolada dos números não alterou significativamente as intenções de voto, mas a
ênfase no crescimento de uma candidatura produziu um efeito positivo sobre o
apoio posterior. O estudo sugere que a informação sobre a trajetória pode
influenciar preferências, e não apenas a posição ocupada na disputa.
As
manifestações pró-Lula poderão, portanto, estimular o comparecimento às urnas e
reduzir a apatia de parte de seus apoiadores. Também poderão levar eleitores
antes desmobilizados a se empenhar na conquista de novos votos. Se esse
movimento se combinar com uma melhora nas pesquisas, uma dinâmica poderá
alimentar a outra.
Se essa
mobilização contribuir para a reeleição de Lula e se mantiver depois das urnas,
poderá produzir dois marcos históricos. O primeiro será a reação espontânea em
defesa dos valores nacionais e da democracia. O segundo, a formação de uma
frente capaz de receber de Lula o bastão dessa defesa.
Nas
últimas quatro décadas, Lula foi o principal fiador da democracia brasileira.
Em momentos decisivos, carregou um peso desproporcional ao de seu partido e de
seus aliados. Para garantir a governabilidade, contou com companheiros das
Diretas Já e da Constituinte. Com o “mensalão”, perdeu parte da capacidade de
articulação representada por José Dirceu, José Genoino e Luiz Gushiken. Sem
esses quadros no centro da formulação política, o PT se tornou uma corporação
quase anódina, com pouca capacidade de corrigir rumos ou dialogar de igual para
igual com sua principal liderança.
Apesar
dos estudos da Fundação Perseu Abramo, os governos Lula não ousaram romper com
os dogmas dominantes da economia e do orçamento. Não havia como enfrentar, sem
uma base social organizada e permanente, uma elite desnacionalizada, uma mídia
amplamente subordinada aos interesses da financeirização e um Congresso
dominado pelas forças mais conservadoras.
Se Lula
for reeleito, os jovens que agora ocupam as ruas estarão entre os avalistas
políticos dessa vitória. E terão legitimidade para cobrar do quarto governo não
apenas a preservação do que existe, mas o desenho do país do futuro.
Esse é
o desafio que começa a aparecer por trás da disputa eleitoral: transformar a
urgência de impedir um retrocesso em força organizada para construir outro
horizonte. Receber o bastão não será apenas defender Lula. Será exigir que a
democracia volte a abrir caminhos para um país que não pode mais esperar.
¨
A juventude nas ruas pode devolver a Lula o viço da
vitória. Por João Lister
Há um
vigor nas manifestações estudantis em apoio a Lula que merece ser compreendido
para além das imagens de multidões. Jovens que ocupam as ruas, organizam
assembleias e assumem publicamente uma posição estão produzindo um
acontecimento político: transformam a inquietação com o futuro em disposição
para construí-lo. Essa energia pode devolver à campanha de Lula o viço de uma
consciência que se renova e, com ele, a possibilidade da vitória.
A
mobilização ganhou expressão imediatamente após o primeiro turno. Em 5 de
outubro, estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram do campus do
Gragoatá e percorreram ruas de Niterói. No dia seguinte, a agenda divulgada
pela Mídia NINJA já reunia mais de 40 assembleias, plenárias e atos em 14
estados e no Distrito Federal, com atividades previstas até 13 de outubro. O
calendário compreende encontros realizados e novas convocações, revelando uma
articulação que vai além das passeatas.
Em 7 de
outubro, secundaristas e universitários caminharam da Candelária à Cinelândia,
no Rio de Janeiro. Segundo a Agência Brasil, suas reivindicações incluíam
educação pública, direitos sociais, democracia e o fim da escala de trabalho
6×1. São temas que aproximam a experiência estudantil da vida de milhões de
brasileiros: estudar, trabalhar, ter tempo para viver e poder planejar o
amanhã.
No dia
8, a mobilização alcançou outras cidades. A CNN registrou manifestações em São
Paulo, Curitiba e Brasília, além de atividades em universidades de diferentes
regiões. UNE e coletivos estudantis participaram das convocações, e a defesa da
educação pública, da permanência nos estudos e do Pé-de-Meia apareceu entre as
pautas.
O
significado político desse movimento está na passagem da preocupação individual
à ação coletiva. Quem acompanha uma eleição sozinho, diante de uma tela, pode
sentir que o resultado já está decidido e que sua participação pouco importa.
Ao encontrar outras pessoas dispostas a agir, percebe que possui voz e
capacidade de intervenção. A presença compartilhada pode converter ansiedade em
coragem e desalento em responsabilidade.
Essa
mudança tem especial importância para Lula. Uma liderança com longa trajetória
precisa continuar oferecendo um horizonte de futuro. Sua experiência ganha
força quando encontra demandas que ainda não foram atendidas, expectativas que
permanecem abertas e gerações que desejam participar das decisões. Os
estudantes podem renovar esse encontro.
O
rejuvenescimento de uma campanha acontece quando novas vozes passam a
participar de seu sentido. Uma jovem que reivindica condições para permanecer
na universidade, um estudante que trabalha e questiona a escala 6×1, um
pesquisador preocupado com a continuidade de sua formação trazem problemas
concretos para o debate. Com eles, o apoio eleitoral ganha conteúdo e a
candidatura pode recuperar capacidade de inspirar.
Há
também uma potência sociológica nessa circulação. O estudante pertence
simultaneamente a diferentes espaços: instituição de ensino, família, trabalho,
bairro, amizades e redes digitais. As questões discutidas numa assembleia podem
chegar à mesa de uma casa e à conversa entre colegas. A defesa da universidade
pública passa, assim, a dialogar com o esforço de pais e mães que desejam
melhores oportunidades para seus filhos.
Esse
movimento expressa uma ideia de país. Educação, ciência, trabalho digno e
democracia integram a possibilidade de ascensão social e de autonomia nacional.
Ao colocá-los nas ruas, os estudantes afirmam que o futuro brasileiro deve ser
uma construção pública, acessível também a quem depende de políticas sociais
para estudar e viver com dignidade.
A força
dessa juventude inclui sua capacidade de cobrar. Apoiar Lula pode coexistir com
exigir mais recursos para a educação, melhores condições de permanência e
respostas às dificuldades cotidianas. Uma consciência política viva interroga,
propõe e participa. A campanha se renova quando reconhece essa autonomia e
permite que ela tenha consequências em seus compromissos.
Naturalmente,
manifestações não permitem antecipar o resultado das urnas. A dimensão dos
atos, por si só, não mede a opinião de todo o eleitorado. Seu valor está em
abrir uma possibilidade: ampliar a participação, recolocar questões
substantivas no debate e recuperar a confiança de que a ação democrática pode
produzir mudanças.
É esse
o viço de consciência que a juventude pode oferecer a Lula. A experiência
histórica de uma liderança encontra a urgência de quem tem a maior parte da
vida pela frente. Nesse encontro, a campanha pode voltar a falar com convicção
sobre o país que ainda precisa ser construído.
Os
estudantes estão tornando visível sua disposição de participar dessa
construção. Sua presença pode dar à candidatura de Lula uma energia renovada,
capaz de sustentar a caminhada até a vitória. Ao reivindicar o próprio futuro,
essa juventude oferece ao Brasil uma razão concreta para voltar a ter
esperança.
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Estudantes vão às ruas e apontam o rumo para derrotar
Flávio Bolsonaro e os podres poderes. Por Milton Alves
A
reação estudantil foi imediata após o resultado do primeiro turno. A onda de
mobilização começou na noite de segunda-feira (5), na Universidade Federal
Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), e se espalhou por todo o país ao longo da
semana. As manifestações ocorreram em quase vinte estados e em mais de 60
universidades públicas e privadas do país, reunindo milhares de estudantes
universitários, secundaristas e jovens trabalhadores.
Assembleias
numerosas nos campi universitários, plenárias e manifestações apontam
claramente o rumo para o vira-voto na rua, nas redes sociais, com mobilização e
uma campanha combativa para derrotar o candidato da extrema direita, que obteve
47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, abrindo uma diferença de 2,2
milhões de votos.
No
cenário de polarização, a onda de manifestações é um poderoso sopro de energia
para a campanha de Lula, que ainda busca atrair os votos dos indecisos e dos
mais de 33 milhões que se abstiveram.
As
manifestações têm levantado as bandeiras populares de defesa da universidade
pública, o fim da escala 6×1, o fim das privatizações, fortalecimento do SUS,
tarifa zero, a reforma política e do Judiciário, entre outras pautas do povo,
que a campanha do presidente Lula precisa incorporar na batalha eleitoral em
curso.
Novas
manifestações já estão programadas, ampliando a marca mobilizadora da campanha
de Lula no segundo turno.
Nós do
Diálogo e Ação Petista – DAP Associação – que acreditamos na rapaziada seguimos
juntos na onda das manifestações, construindo a vitória de Lula.
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A Campanha Lula como desafio histórico. Por Paulo Maldos
Acredito
que a mobilização em torno da reeleição de Lula Presidente precisa transcender
o caráter de um mero processo eleitoral para adquirir um caráter de defesa do
país, do Estado de Direito, da Constituição de 88, dos direitos individuais,
sociais e políticos, do direito à vida, da soberania nacional e do nosso futuro
como nação.
O apelo
à participação neste segundo turno deve ter essa amplitude, essa chave de
convocação e de compreensão, para aprofundar e ampliar as mobilizações
estudantis e populares em curso e gerar um imenso e diverso movimento de
massas, de dimensão histórica como foram as Diretas Já e o processo de
participação popular na Constituinte.
E creio
que não seria o presidente Lula a proclamar esse caráter amplo, patriótico e
histórico desse movimento, mas uma ampla frente política e social, que abrigue
todos democratas, de todos setores sociais, e todos lutadores sociais do país.
O voto
em Lula é o gesto concreto e necessário para uma defesa que vai muito além de
mantê-lo na presidência da República, mas sintetiza a defesa da integridade do
nosso país, dos direitos do nosso povo e do nosso futuro como nação soberana.
Fonte:
Jornal GGN/Brasil 247

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