quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Educar em tempos de realismo fascista

O que podemos fazer em tempos de realismo fascista? Penso na frase que tem me guiado nos últimos anos: “O combate ao fatalismo imobilista que implica uma educação criticizadora continua uma necessidade imperiosa hoje”. Esse combate nunca foi tão necessário e difícil quanto agora, trinta anos depois da afirmação de Paulo Freire.

Em A ameaça interna (2026), Vladimir Safatle define o realismo fascista como “aquele que afirma não haver dia seguinte [às crises conexas nas quais nos encontramos]. Ou seja, não haverá um dia que olharemos para trás e diremos: ‘Enfim, a crise ecológica passou’ ou ‘Enfim, a crise econômica passou’ […] Ele consiste em dizer, nas entrelinhas: não há como continuar gerindo as crises do sistema capitalista a partir do próprio sistema. No entanto, como não há alternativa possível, o que resta é salvar uma parte da sociedade e deixar o resto perecer”.

Como se vê, o realismo fascista está ancorado no que Mark Fisher denominou de realismo capitalista, justamente o qual consiste em dizer que não há alternativa ao capitalismo. Ao longo dos anos 1990, Paulo Freire se referiu a esse discurso de defensores e apologistas do capitalismo como fatalismo neoliberal, o qual prega que “o capitalismo vitorioso é o futuro eterno em que já estamos”.

A denominação de Paulo Freire é importante pois ressalta o caráter profundamente fatalista desses realismos, cuja combinação transforma o capitalismo num fado que a humanidade está condenada a carregar para sempre e o futuro num destino apocalíptico do qual não podemos escapar e portanto contra o qual não adianta lutar. Também por isso, Mark Fisher fazia questão de salientar que o realismo capitalista “contém uma dose gigantesca de fatalismo”.

Paulo Freire também é fundamental para distinguirmos entre o realismo fascista como um instrumento utilizado para promover a resignação e o fatalismo como uma desesperança profunda à qual quase todos nós em certa medida temos sucumbido. Parafraseando Paulo Freire, o fatalismo não é simplesmente uma invenção dos fascistas atuais, mas sim um produto do nosso momento histórico desesperador, que inclui a possibilidade cada vez maior de uma extinção em massa. O realismo fascista se vale desse sentimento produzido pelo próprio capitalismo e busca reforçá-lo, inviabilizando a nossa rebeldia.

“Em lugar da posição fatalista que nos imobiliza proponho um crítico otimismo que nos engaja na luta por um saber que, a serviço dos explorados, se ache à altura do tempo”.

“O pensamento profético, que é também utópico, implica a denúncia de como estamos vivendo e o anúncio de como poderíamos viver. É um pensamento esperançoso, por isso mesmo”.

O que nós educadores podemos fazer para combater o realismo fascista e o fatalismo embutido nesse discurso que tenta nos convencer de que o fim do mundo é inevitável e até desejável? Na minha prática educativa, esse combate tem passado por dois movimentos interligados: pela denúncia desse discurso a partir de pensadores como Paulo Freire e Mark Fisher; e pelo anúncio do pensamento utópico ou utopismo como um pensamento crítico e esperançoso que nos engaja na busca por alternativas.

Partindo em especial de Paulo Freire, compreendo o utopismo como um pensamento ancorado em certas convicções indispensáveis. Uma delas é a de que mudar é difícil, mas é possível; ou, nas palavras de Roseli Caldart, uma das principais pedagogas do Movimento dos Sem Terra, a “convicção de que nada nos deve parecer impossível de mudar”.

Outra é a convicção de que a história é um tempo de possibilidade. Em sua análise do surgimento do capitalismo na Europa medieval em Calibã e a bruxa (2004), Silvia Federici demonstra que ver a história assim significa reconhecer que o capitalismo nunca esteve fadado a se consolidar, mas, pelo contrário, que seu avanço dependeu de uma contrarrevolução violentíssima, em especial contra mulheres camponesas, a qual a muito custo “destruiu outras possibilidades que haviam surgido das lutas antifeudais – possibilidades essas que, se realizadas, poderiam ter nos poupado da imensa destruição de vidas e do meio ambiente que caracterizou o avanço das relações capitalistas pelo mundo”.

Talvez a convicção mais importante hoje seja a de que o futuro é um problema. No sentido freiriano do termo, em primeiro lugar isso quer dizer que há diferentes futuros possíveis, nenhum dos quais é a priori inevitável ou impossível. O futuro capitalista-apocalíptico do novo fascismo é uma possibilidade que está posta. Mas não precisa e não pode ser a única. A questão é justamente imaginar outras e transformar esses sonhos ou utopias em projetos pelos quais lutar.

Encarar o futuro como um problema, portanto, também quer dizer encarar o anúncio de utopias, a elaboração de sonhos na forma de projetos de luta, como um desafio, como um problema a ser resolvido por nós. Podemos e devemos anunciar utopias pelas quais lutar aqui e agora. Acima de tudo, o utopismo é esse elo inquebrável entre a denúncia do capitalismo e o anúncio de utopias num duplo sentido: de futuros utópicos, pós-capitalistas, e de projetos que nos permitem prefigurar esses futuros e criar condições para que se tornem realidade.

Como estimular o utopismo que nos motiva a buscar alternativas em lugar da posição fatalista que nos imobiliza? Essa é a pergunta que tem me movido. Foi ela que me levou a escrever a minha tese de doutorado sobre utopia. Mais do que isso, foi ela que me fez aderir ao que Fredric Jameson certa vez descreveu como o “não declarado ‘partido da Utopia’ – um partido clandestino cujo número de integrantes é difícil de determinar; cujo programa permanece não divulgado e talvez até não formulado; cuja existência é desconhecida tanto pela população quanto pelas autoridades, mas cujos integrantes parecem se reconhecer por meio de sinais maçônicos secretos”.

Foi essa pergunta que também me levou a dar aulas no Instituto de Ecologia Social, ou ISE. Criado em 1974 por Murray Bookchin e Dan Chodorkoff, o ISE é um instituto independente e popular de ensino superior dedicado ao estudo da ecologia social, um conjunto de ideias e práticas que combina disciplinas como filosofia, sociologia, ciência política, antropologia e biologia e cuja orientação revolucionária se inspira principalmente no anarquismo e no feminismo. Além disso, segundo Bookchin, a ecologia social é uma disciplina que abraça “a indisciplina da fantasia, da imaginação e da criatividade” – ou seja, que abraça a indisciplina do utopismo.

Aqui, vale destacar a distinção feita há décadas por Murray Bookchin entre utopismo e futurismo, muito importante para pensarmos sobre um suposto utopismo do fascismo atual: “o que quer que digam esses futuristas sobre suas ‘visões’ ou ‘sonhos’, seus cenários se caracterizam por um aspecto principal: eles não oferecem desafio algum aos alicerces do status quo. O que projetam é apenas a extensão do presente – seja no ano ‘2000’, no espaço, no fundo do oceano ou embaixo da terra.

O status quo, na verdade, é reforçado em vez de desafiado”. Ou seja, esse suposto utopismo parte da premissa fatalista de que o capitalismo necessariamente continuará existindo sob uma ou outra forma. “Assim, o futuro se torna apenas o presente escrito em letras grandes (ou pequenas), revestido pelo verniz verbal de um vocabulário utópico”.

Para os integrantes do não declarado partido revolucionário da utopia de que falava Fredric Jameson, nunca foi tão importante não perder de vista essa distinção.

Em tempos de realismo fascista, uma coisa que podemos fazer é assumir a tarefa de estimular o pensamento utópico e sua busca por alternativas. Foi isso que me levou a elaborar dois cursos sobre utopia junto ao Instituto de Ecologia Social.

Um deles é um curso sobre literatura utópica centrado em três romances: Os despossuídos: uma utopia ambígua de Ursula K. Le Guin, de 1974; O ministério do futuro, de Kim Stanley Robinson, de 2020; e Tudo para todos: uma história oral da comuna de Nova York, 2052-2072 de Eman Abdelhadi and M. E. O’Brien, de 2022. O curso acompanha uma mudança recente de romances como Os despossuídos, que projetam alternativas ao capitalismo em outros planetas (no caso, uma sociedade anarcofeminista localizada no planeta Anarres) para romances como O ministério do futuro que imaginam o surgimento de alternativas aqui no nosso mundo em meio e em resposta às crises do capitalismo.

Esse tipo de literatura utópica que se recusa a abandonar o nosso planeta é crucial num momento em que representantes do novo fascismo se preparam para um futuro como o retratado no filme Elysium de Neill Blomkamp, de 2013, em que a divisão de classes da sociedade capitalista se dá entre os que vivem no que sobrou da Terra e os que, depois de a terem destruído, vivem numa estação espacial de luxo.

Os romances O ministério do futuro e Tudo para todos rejeitam tanto um utopismo que só imagina alternativas fora do nosso mundo quanto um tipo de distopismo que é incapaz de utilizar cenários apocalípticos como pretexto narrativo para o surgimento de outros modos de vida, como condenava Mark Fisher. O romance de Kim Stanley Robinson, cujo orientador de doutorado foi Fredric Jameson, se desenrola nos anos 2040 num contexto de crises capitalistas ainda mais acentuadas.

O primeiro capítulo se passa na Índia em meio a uma onda de calor terrível que mata milhões de pessoas. Na cena final do capítulo, os habitantes de uma cidade se submergem num rio até o pescoço numa última tentativa de se salvarem, e acabam todos por cozinhar até a morte, com exceção de um dos protagonistas, que sobrevive com sequelas profundas.

Na contramão da imensa maioria de filmes e romances distópicos atuais, em O ministério do futuro, esse e tantos outros acontecimentos servem de pretexto narrativo para o surgimento de diversas formas de luta, inclusive armada, e de diversos modos alternativos de vida. À medida que esses esforços se espalham pelo mundo e se interconectam, eles criam condições para a efetivação de mudanças sociais radicais na direção de uma economia política pós-capitalista, guiada por um princípio inspirado na ética da terra de Aldo Leopold: “Uma coisa é boa quando ela é boa para a biosfera”; não, por exemplo, quando gera lucro. Em vez de imaginar o fim do mundo e a perpetuação do capitalismo, o romance imagina o fim do capitalismo e a perpetuação do mundo.

Em seus escritos recentes sobre o que denominam de fascismo do fim dos tempos, Naomi Klein e Astra Taylor sublinham a importância de combater suas narrativas apocalípticas com “histórias sobre como sobreviver aos tempos ainda mais difíceis que estão por vir sem abandonar ninguém. Histórias capazes de neutralizar a atração macabra do fascismo do fim dos tempos e estimular um movimento disposto a arriscar tudo pela nossa sobrevivência coletiva. Histórias não do fim dos tempos, mas de tempos melhores […] Histórias não de fugir, mas de ficar aqui, fiéis à complexa realidade terrena com a qual estamos emaranhados”. O ministério do futuro é uma história assim. Utópica na verdadeira acepção do termo, ela conclui afirmando “Que não temos outro lar que não esse […] Que a única catástrofe que não pode ser desfeita é a extinção. Que podemos criar um bom lugar. Que podemos agarrar o destino nas mãos. Que não existe isso de destino”.

O outro curso que criei junto ao Instituto de Ecologia Social é sobre Paulo Freire e o Movimento dos Sem Terra. Por toda a sua obra, Freire nos convoca a pensar nas utopias como sonhos possíveis ou inéditos viáveis, rejeitando a ideia de que as utopias são necessariamente irrealizáveis.

Quando fala em utopia, ele fala do “sonho possível a ser viabilizado pela ação política”. Esse entendimento de utopia percorre em especial os escritos da última década da sua vida, por exemplo a segunda carta pedagógica de Pedagogia da indignação (2000), “Do direito e do dever de mudar o mundo”, inspirada pela histórica marcha do MST ocorrida em 1997, um ano depois do massacre de Eldorado dos Carajás em que dezenove Sem Terras foram assassinados pela polícia.

Na carta, Paulo Freire afirma que “Os sonhos são projetos pelos quais se luta. Sua realização não se verifica facilmente, sem obstáculos. Implica, pelo contrário, avanços, recuos, marchas às vezes demoradas. Implica luta”. Em seguida, ele menciona a reforma agrária, nos convidando a pensar na luta do Movimento dos Sem Terra como a luta por uma utopia, por um projeto de sociedade para o Brasil.

Quer dizer, se é Paulo Freire quem nos dá esse conceito de utopia, é o MST que nos dá um dos seus mais poderosos exemplos, o projeto de Reforma Agrária Popular que vem guiando a sua luta nas últimas décadas e cujo objetivo é produzir alimentos saudáveis de acordo com princípios agroecológicos, em antagonismo direto ao modelo capitalista do agronegócio.

Outros projetos utópicos do MST incluem o Instituto de Educação Josué de Castro onde hoje dou aulas de inglês, um misto de escola de ensino médio, ensino técnico na área de gestão de cooperativas agrícolas e de ensino político, a qual, nas palavras de Roseli Caldart, busca formar jovens Sem Terra “como trabalhadores, como militantes, como cidadãos, como sujeitos”– ou seja, como o que ela chama de continuadores da luta do povo.

Precisamos de narrativas utópicas para combater o realismo fascista. Mas também precisamos de projetos utópicos pelos quais lutar. De certo modo, as duas coisas sempre andaram juntas. O socialista utópico do século XIX Charles Fourier, por exemplo, dedicou grande parte da sua obra filosófica à elaboração detalhada de um projeto de comunidade autossuficiente, o chamado falanstério. Pelo mundo todo, inclusive no Brasil, grupos de pessoas tentaram realizar o projeto de Charles Fourier.

Além de propor novas ideias, o utopismo pode chamar a nossa atenção para projetos de movimentos sociais que já existem por toda parte. Essa é outra das importantes contribuições de O ministério do futuro. No capítulo 85, o autor utiliza um encontro fictício entre diversos movimentos do mundo todo para listar, de forma até entediante, mais de cem projetos ecológicos existentes.

O capítulo se resume a essa lista. No último parágrafo, um narrador anônimo conclui: “Há muitos outros projetos como os nossos espalhados pelo mundo […] Representamos apenas cerca de um por cento de todos os projetos que estão por aí fazendo coisas boas. E muitos outros estão esperando para nascer. Venha, converse com a gente. Ouça nossas histórias. Veja como pode ajudar. Crie seu próprio projeto […] Esse é o único mundo que temos”.

O utopismo é sobre isso: sobre ir atrás, apoiar ou mais ainda se unir a um dos tantos projetos de ímpeto anticapitalista que já existem, ou sobre criar novos com outras pessoas. Por isso que precisamos tanto dele hoje, quando muitas vezes sucumbimos ao discurso fatalista de que não há alternativa, mesmo com tantas alternativas por toda parte e tantas outras esperando por nascer.

 

Fonte: Por Guilherme E. Meyer, em A Terra é Redonda

 

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