quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A "máquina secreta de matar" do regime do Irã

Omid, cujo nome verdadeiro não pode ser divulgado, alistou-se nas forças de segurança do Irã aos 18 anos e nutria "um profundo compromisso com o país". Na academia, contou à DW, os cadetes ficavam sob o controle do regime "dia e noite", desde o treinamento militar até as orações e os discursos diários. "Eles moldam a mente dos jovens cadetes", relatou.

Segundo ele, alguns desses recrutas acabam subindo na estrutura de segurança iraniana até chegar a um grupo de elite de oficiais que planeja missões, sequestros e assassinatos dentro e fora do Irã, dispondo de recursos e pessoal ilimitados. Ele diz que participou de reuniões desse grupo.

<><> Um desertor fala

Quando Omid, um homem corpulento que carrega cicatrizes acumuladas ao longo de décadas de serviço como comandante das forças especiais de elite do Irã, entrou em contato com a DW, no início de 2026, surgiram dúvidas: teria ele sido enviado para fornecer desinformação e mentiras a fim de desacreditar a emissora, cujo serviço em persa é sancionado pelo regime do Irã? Estaria tentando prejudicar a DW ou seus funcionários iranianos?

Ao longo de vários meses, jornalistas da equipe investigativa e do departamento persa da DW mantiveram contato com ele. Omid compartilhou registros e fotos de seu treinamento, que incluía prática de tiro de precisão, vigilância, combate de rua, controle de distúrbios e cursos de paraquedismo. Também forneceu fotos, vídeos, documentos e localizações de um centro secreto de monitoramento e de conjuntos residenciais reservados a membros de alto escalão das forças de segurança iranianas.

Unidos por sua lealdade absoluta ao líder supremo do Irã, afirmou ele, integrantes de um círculo clandestino de oficiais de alto escalão planejam e executam assassinatos e sequestros de opositores do regime.

O testemunho de Omid ofereceu uma rara visão do poderoso e opaco aparato de segurança iraniano e da vida dos homens que estão no núcleo da República Islâmica, permitindo que a DW montasse um quadro de como o regime conseguiu manter forças profundamente leais apesar de amplos movimentos de protesto, sanções internacionais, inflação crescente e ataques recentes de seus dois principais inimigos, Israel e Estados Unidos, que eliminaram grande parte de sua liderança militar e política.

A DW corroborou partes substanciais do relato de Omid com documentos, fotos, vídeos e entrevistas com especialistas. Um intermediário colocou a equipe de investigação em contato com um segundo desertor de alto escalão, cujo relato confirmou detalhes centrais fornecidos por Omid. Embora a DW tenha verificado a identidade dos dois homens, certos detalhes foram omitidos para protegê-los, bem como às suas famílias.

O regime do Irã já perseguiu dissidentes e ativistas da oposição no exterior, incluindo jornalistas.

A DW solicitou comentários da Embaixada do Irã em Berlim e do Gabinete do Líder Supremo sobre as descobertas. O gabinete não respondeu. A embaixada em Berlim recusou-se a comentar as acusações específicas e declarou que "a República Islâmica do Irã rejeita firmemente essas alegações e as conclusões delas derivadas".

<><> Privilégios e controle

Como membro de alto escalão das forças especiais, Omid tinha acesso aos privilégios concedidos pelo regime aos que lhe são leais: incentivos financeiros, contratos econômicos lucrativos para suas empresas e conjuntos habitacionais exclusivos, com mesquitas, escolas e hospitais próprios, onde antenas parabólicas particulares são proibidas e a observância religiosa é obrigatória.

Esses privilégios têm um preço, disse Omid. "Controle, nada além de controle." Os oficiais são rigidamente monitorados. "Você não pode simplesmente ir a um casamento ou viajar", afirmou. "Eles confiscam seu passaporte e decidem até em quais escolas seus filhos podem estudar."

O controle se estende até as futuras esposas dos soldados, que passam por uma triagem prévia do regime. Mesmo assim, Omid afirmou que não tinha permissão para revelar à esposa a verdadeira natureza de seu trabalho. "Isso é algo que corrói você por dentro", disse.

Ao separar esses agentes dos demais iranianos, o regime consegue vigiá-los melhor, afirmou o cientista político Saeid Golkar, da Universidade do Tennessee, que pesquisa extensivamente a estrutura de comando do aparato de segurança da República Islâmica. "Eles conseguem criar pressão dos pares e doutrinar de forma muito mais eficaz", explica.

Além disso, forças de segurança amplamente segregadas da população tendem a hesitar menos em usar a força contra seus próprios compatriotas.

<><> Um desertor do Ministério da Informação

Um mês após o início dos contatos com Omid, um intermediário apresentou à DW outro desertor de alto escalão. O homem, chamado aqui de Reza, trabalhou para o Ministério da Informação, a agência de inteligência iraniana.

Como muitos recrutados para o aparato de segurança, Reza vem de uma família religiosa. Ele sorriu ao mostrar à DW, em seu celular, uma foto sua quando jovem, ostentando a longa barba e o turbante usados pelos mais devotos no Irã. Muitos de seus parentes ainda ocupam cargos importantes no regime iraniano, disse.

Nos primeiros anos, Reza era um defensor fervoroso do regime e às vezes chorava durante as orações, disse, sabendo que estava servindo seu povo e a República Islâmica e que "talvez até morresse como mártir pelo islã".

Ele contou que passou gradualmente a se voltar contra o regime ao testemunhar a repressão aos manifestantes. Ao longo dos anos, forças de segurança balearam, prenderam e espancaram iranianos que protestavam contra a deterioração das condições de vida e contra as rígidas leis de "moralidade".

Hoje, Reza usa seu cabelo curto.

<><> "Anos servindo a um sistema cruel"

Na noite de 8 de janeiro, em meio a um bloqueio quase total da internet, forças de segurança abriram fogo contra iranianos que protestavam contra a escassez generalizada e a inflação em alta. A dimensão do massacre lentamente veio à tona, à medida que imagens documentando as atrocidades do regime saíam do país.

Milhares de manifestantes foram mortos em todo o Irã. Tanto Omid quanto Reza afirmaram que essas mortes em massa, que segundo organizações de direitos humanos incluíram o assassinato de manifestantes desarmados em leitos hospitalares, os deixaram horrorizados. Foi essa brutalidade contínua que os levou a conversar com a DW, dizem.

Omid insistiu que jamais atirou contra manifestantes nem ordenou que seus subordinados o fizessem, embora a DW não tenha conseguido confirmar essa afirmação. Quando questionado, reconheceu que presenciou a morte de manifestantes.

Reza disse que o sentimento de culpa por ter "desperdiçado 10, 11 anos servindo a um sistema cruel" o levou a falar publicamente, apesar dos riscos para si e sua família. "A verdade é que, quando seu adversário é um regime que não segue nenhum valor moral, você precisa estar preparado para qualquer coisa", afirmou.

<><> Salas de vigilância e repressão

Omid e Reza descreveram centros secretos de comando que desempenham papel central na repressão aos protestos. Membros de alto escalão de todas as unidades e agências se reúnem numa sala de monitoramento onde, segundo ambos, enormes telas exibem imagens ao vivo de inúmeras câmeras de vigilância espalhadas por Teerã. Eles afirmam que existem salas semelhantes em outras regiões do país.

As marchas de protesto também são monitoradas por drones. E, segundo Reza, "informações obtidas por pessoas nos protestos e do Twitter, Telegram e de outras redes sociais, bem como dados obtidos por dispositivos de vigilância e interceptação, tudo isso é reunido ali".

Agentes à paisana frequentemente se infiltram nos grupos de protesto. Segundo Omid, às vezes eles são usados para direcionar as marchas para locais onde as forças de segurança estão à espera.

Um representante do líder supremo do Irã tinha "carta branca" para ordenar operações a partir do centro de comando, afirmou Omid, além de decidir "com que dureza os manifestantes deveriam ser tratados".

Quando a polícia já não consegue conter os protestos, unidades de elite da Guarda Revolucionária e da polícia, frequentemente vestidas inteiramente de preto e com o rosto coberto por balaclavas, são enviadas para concluir a operação, disseram Omid e Reza.

Organizações de direitos humanos documentaram o uso de metralhadoras automáticas e semiautomáticas e até de metralhadoras pesadas montadas em picapes para reprimir manifestações.

"O fato de as forças de segurança estarem equipadas com armas de uso militar, desenvolvidas para situações de combate, e as utilizarem para responder a protestos demonstra que o assassinato de manifestantes no país é intencional", afirmou a pesquisadora Raha Bahreini, da Anistia Internacional e autora de um relatório sobre a cadeia de comando do regime durante os protestos de 2022 após a morte de Jina Mahsa Amini sob custódia.

<><> Dakhme, a "máquina de matar"

Após meses de contatos, Omid indicou à DW um local aparentemente comum em Shahr-e Rey, nos arredores de Teerã: uma sala de orações situada entre uma clínica de terapia ocupacional e uma farmácia. Embora a sala de orações seja conhecida como Beit al Shohada, ou Casa dos Mártires, Omid disse que muitos oficiais a chamam de Dakhme, palavra que significa cripta ou túmulo.

Segundo Omid, oficiais de alto escalão reuniam-se sob o telhado de zinco do local para planejar operações clandestinas que contornavam as estruturas formais do governo. Ele afirmou ter participado de várias reuniões em Dakhme, "onde se tomam decisões sobre assassinatos: é uma máquina de matar".

Embora tenha insistido repetidamente que comparecia apenas por ordem de superiores e nunca participou das operações ali planejadas, Omid listou assassinatos e sequestros dentro e fora do Irã que, segundo ele, foram organizados naquele local. A DW não conseguiu verificar esses casos, mas constatou que algumas das pessoas mencionadas por ele realmente morreram em circunstâncias não esclarecidas.

Diversos especialistas consultados pela DW conheciam Dakhme em conexão com uma tentativa de assassinato contra um assessor de um presidente reformista há mais de duas décadas. Outros jamais tinham ouvido falar do local. Nenhum conseguiu confirmar que o local continue sendo usado.

Os especialistas concordam, porém, que uma instalação como Dakhme é plausível. "A República Islâmica provavelmente sente agora uma necessidade ainda maior de ter grupos desse tipo", afirma Miad Maleki, ex-funcionário do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos que, até recentemente, elaborava sanções contra o Irã.

Segundo ele, operações militares planejadas clandestinamente em Dakhme provavelmente oferecem ao regime a possibilidade de negar responsabilidade em casos de assassinatos.

<><> Religiosos e implacáveis

Devido ao sigilo que envolve Dakhme, muito do que segue baseia-se apenas no relato de Omid e nas raras imagens obtidas pela DW de cerimônias religiosas realizadas no local.

Segundo ele, as reuniões secretas geralmente começam sob a aparência de rituais e cerimônias religiosas, num grande salão frequentemente decorado com tecidos verdes e símbolos religiosos. Após um jantar coletivo, apenas os integrantes do círculo interno permanecem.

Os presentes entregam seus celulares, que são guardados a chave. Em seguida, disse Omid, "especialistas veteranos das forças especiais e das operações de inteligência do Irã" discutem assassinatos e sequestros até altas horas da noite. "Para essas pessoas, o cargo de alguém não é tão importante", afirmou. "Se consideram alguém uma ameaça ao líder supremo da República Islâmica, levam isso extremamente a sério e agem."

Após cada operação, disse Omid, os homens retornam às suas funções regulares dentro do aparato de segurança iraniano, até voltarem a se reunir secretamente.

¨      Como ataque a aeroporto na Arábia Saudita eleva tensão em um Oriente Médio já explosivo

O ataque de sábado (10/10) ao Aeroporto Rei Khalid, em Riad, é mais um momento perigoso em uma região já marcada por tensões e conflitos.

Pelo menos 12 pessoas morreram e 309 ficaram feridas em um ataque no sábado ao aeroporto internacional de Riad, na Arábia Saudita, segundo autoridades locais.

Entre as vítimas fatais, estavam quatro sauditas, duas pessoas de Bangladesh e cidadãos de Estados Unidos, Jordânia, Palestina, Síria, Sudão e Egito, confirmou a autoridade de aviação civil saudita.

As operações no Aeroporto Internacional Rei Khalid foram suspensas após o ataque, o mais mortal no reino desde maio de 2015.

Uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita prometeu responder ao ataque, que classificou como um “crime de guerra” e atribuiu aos houthis do Iêmen.

Os houthis não comentaram o ataque de sábado, mas afirmaram ser os responsáveis pelos ataques ao mesmo aeroporto na quinta-feira, que mataram três pessoas e danificaram um avião.

A Arábia Saudita não estava preparada para isso.

Nas últimas semanas, os houthis do Iêmen intensificaram seus ataques em solo saudita, incluindo a infraestrutura crítica do país — como o principal aeroporto da capital — penetrando com facilidade as defesas aéreas sauditas.

Os houthis são um grupo político e religioso armado do norte do Iêmen que defende a minoria muçulmana xiita do país, os zaiditas.

Eles se declaram parte do “eixo da resistência” liderado pelo Irã contra Israel, os EUA e o Ocidente em geral, juntamente com grupos armados como o Hamas e o movimento Hezbollah do Líbano.

Os danos físicos dos ataques dos houthis na Arábia Saudita podem ser reparados rapidamente, mas a reputação do país como um refúgio seguro e estável está sendo duramente atingida.

Além de todos os ataques a aeroportos, os houthis têm procurado assumir o controle de posições estrategicamente importantes ao longo da costa do Mar Vermelho e ao redor do Estreito de Bab el-Mandeb. Isso aumenta ainda mais o risco para a segurança da navegação nesse corredor marítimo vital, embora o governo iemenita afirme ter “garantido” a segurança do estreito.

A guerra civil no Iêmen entre o governo do país – reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita – e os houthis, apoiados pelo Irã, já dura mais de uma década. Ela deixou milhares de mortos e mergulhou o Iêmen em uma das piores crises humanitárias do mundo.

Trata-se de um conflito geopolítico complexo e frequentemente confuso, e essa escalada recente precisa ser vista no contexto mais amplo da tensão entre o Irã, os EUA e Israel.

Desde a insurgência da Al-Qaeda em meados dos anos 2000, a Arábia Saudita não enfrentava uma ameaça tão séria.

O governo saudita superou esse desafio por meio de uma eficaz campanha de conquista de corações e mentes na região. Em seguida, resistiu aos levantes da Primavera Árabe em toda a região, que derrubaram líderes na Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen.

O país até mesmo ignorou – com certa irritação – um ataque de mísseis balísticos iranianos contra Riad em março.

Mas este caso é diferente. A Arábia Saudita tem uma das forças aéreas mais poderosas do Oriente Médio e vem realizando ataques aéreos devastadores contra posições houthis. Apesar disso, as forças opositoras conseguiram tomar grandes porções do país, principalmente no norte e oeste.

Mas os houthis sabem exatamente onde contra-atacar: na economia saudita.

Como parte do “eixo da resistência”, os houthis são um parceiro estratégico vital para o Irã. De Jizan, no Mar Vermelho, ao complexo petroquímico de Khurais, os houthis estão lançando drones explosivos e mísseis com precisão letal.

A rota marítima do Mar Vermelho tornou-se cada vez mais importante, porque o Estreito de Ormuz, do outro lado do Golfo, ainda não foi totalmente reaberto, uma vez que os EUA e o Irã não conseguiram chegar a um acordo para pôr fim à guerra.

Atacar navios no Mar Vermelho é outra forma pela qual os houthis tentam exercer pressão – os ataques causam danos econômicos globais, o que é uma importante moeda de troca para Teerã.

No início de setembro, a Casa Branca declarou que não interviria diretamente no conflito do Iêmen, mas que poderia fornecer apoio de inteligência aos sauditas. Posteriormente, confirmou que estava fornecendo informações de inteligência e que havia enviado especialistas militares à Arábia Saudita.

No entanto, a situação pode ter tomado um novo rumo após o último ataque em Riad, que matou um cidadão americano.

Em declarações à imprensa, o presidente dos EUA, Donald Trump, classificou o ataque de sábado como “terrível” e indicou que poderá intervir militarmente junto aos sauditas.

“Acabamos de tomar conhecimento do ataque recente, então tomaremos uma decisão. Agimos muito rapidamente”, disse Trump.

Mas isso agora parece improvável, pelo menos antes das cruciais eleições de meio de mandato nos EUA no próximo mês.

Ao ser reeleito em 2024, Trump prometeu acabar com o envolvimento dos EUA em guerras ao redor do mundo. Apesar disso, os EUA estão atualmente envolvidos em três conflitos não resolvidos no Oriente Médio: em Gaza, no Líbano e no Irã.

Caso Trump se envolva em mais uma polêmica, desta vez no Iêmen, é improvável que isso seja bem recebido pelos eleitores.

Agora tudo indica que esta guerra irá se intensificar antes de terminar em mais uma trégua instável – com ou sem a participação dos EUA.

 

Fonte: DW Brasil/BBC News Arabic

 

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