Banquetaço:
Para a democracia não sair da mesa brasileira
Quem
atua há alguns anos nas organizações sociais ligadas à busca da Soberania
Alimentar jamais se esquece de duas datas que representaram guinadas no setor.
Uma delas é lembrada com indignação e pesar; a outra, com satisfação e
esperança. Acredito que, em seu chocante contraste, elas podem expressar a
encruzilhada em que nos encontramos neste momento histórico do país.
No dia
primeiro de janeiro de 2019, o recém empossado presidente Jair Messias
Bolsonaro deu uma canetada que varreu do mapa conquistas fundamentais da
população brasileira. Entre as medidas adotadas, estava a extinção do Conselho
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), responsável pela
elaboração de políticas públicas agroalimentares que se tornaram referência
mundial, ao tirar, em 2014 e pela primeira vez na história, nosso país do Mapa
da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU).
Rapidamente,
a surpresa manifestada pelos movimentos ativistas pela comida boa no prato em
relação a essa brusca medida governamental foi substituída pelo sentimento de
revolta e de recusa em aceitar passivamente tamanho autoritarismo e insensatez.
Assim, nasceu a primeira ação nacionalizada do Banquetaço, iniciativa que,
desde 2017, vem mobilizando redes e ruas por meio da realização de
manifestações criativas envolvendo a comensalidade. E uma faísca se irradiou
por todas as regiões do país, instigando ativistas de mais de 40 cidades a
fazerem atos comensais, protestando contra o governo federal e reivindicando a
permanência do CONSEA.
Apesar
de todo o agito e da sólida argumentação pró-manutenção do Conselho, ele jamais
veria a luz do dia durante toda a gestão do então presidente, que atualmente
está cumprindo prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, o que só
comprova seu desprezo pela democracia.
As
consequências dessa extinção foram dramáticas, impulsionadas também por outras
medidas anti-alimentares, como o esvaziamento dos galpões da Companhia Nacional
de Abastecimento (CONAB), responsável por garantir os estoques de comida em
épocas de necessidade, como nas que há o combate à alta dos preços ou o
enfrentamento de desastres socioambientais.
Com a
chegada da pandemia e a insistência do governo Bolsonaro em adotar uma postura
negligente e até negacionista em relação ao cenário gravíssimo que
enfrentávamos, o resultado não poderia ser outro: voltamos para o fatídico Mapa
da Fome em 2021.
Nem
mesmo a gigantesca dedicação de milhares de pessoas que se organizaram para
fornecer uma marmita nutritiva para quem não tinha nada na barriga pôde evitar
que o número de brasileiras e brasileiros famintos aumentasse de 3,4 milhões,
ao sair do Mapa em 2014, para 33 milhões, em meados de 2022.
Por
trás desses números, encontramos moradias desestruturadas; agricultores e
agricultoras familiares sem apoio para cultivar suas roças; ecossistemas
destruídos com uma fúria inédita, estimulada pelo próprio poder público e pela
bancada ruralista; e uma sociedade na qual a exclusão e a exploração voltaram a
imperar sem o menor pudor.
Mas não
sem resistência! E aqui podemos retomar a conversa sobre datas marcantes, já
que, após anos de muita luta, conseguimos dar um basta no desgoverno de Jair e
companhia, eleger Lula presidente novamente e testemunhar, no dia 1.º de
janeiro de 2023, a volta do CONSEA.
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Voltando a encher as panelas
Se nos
empenhamos tanto na luta contra o agrofascismo, fazendo um enfrentamento nas
instâncias participativas que ainda existiam, e agindo em rede para levar outra
perspectiva de vida aos setores mais vulnerabilizados da população — o que
permitiu mudar o rumo do comando nacional do país em relação à Soberania e
Segurança Alimentar e Nutricional —, merecíamos celebrar. E foi o que fizemos,
organizando novamente a comunidade do Banquetaço para fazer ações comensais nas
ruas e gritar com toda a alegria: o CONSEA voltou!
Com o
Conselho e os programas por ele criados e apoiados de volta, começamos uma
caminhada em direção à redução dos pratos vazios nas mesas. O Programa Nacional
de Alimentação Escolar (PNAE) teve finalmente um reajuste em seus valores e,
posteriormente, passou a exigência na quantidade de alimentos provenientes da
Agricultura Familiar nas escolas públicas de 30% para 45% do total. Desse modo,
ele não apenas permitiu que crianças e jovens se alimentassem melhor, como
estimulou quem cultiva familiarmente a aumentar a produção, gerando renda no
campo e nas áreas urbanas e periurbanas em que há a presença de hortas.
Passo a
passo, os estoques da CONAB foram sendo formados novamente, algo fundamental
nestes tempos de emergência climática, em que secas, inundações, incêndios e
outros fenômenos extremos tornaram-se frequentes. E, embora o agronegócio
monocultor continue recebendo as benesses governamentais que permitem que ele
não quebre frente à própria insustentabilidade de seu modelo, e o Plano Safra
conceda, ano a ano, mais recursos a ele, a Agricultura Familiar voltou a
respirar, tendo sua verba aumentada de R$ 53,61 bilhões, em 2022, para R$ 97,3
bilhões, neste ano.
O
aumento real do salário mínimo, a isenção de impostos para quem ganha até 5 mil
reais, a ampliação do Bolsa Família e outras medidas tomadas pelo governo Lula,
durante o atual mandato, contribuíram para que a parcela da população que tinha
sido excluída da mesa voltasse a sentar em torno dela, compartilhando os
alimentos necessários para encarar os desafios da rotina imposta por uma
sociedade capitalista como a nossa. As filas para pegar os ossos descartados
pelos mercados feitas pelas pessoas que estavam com fome, que revelaram a
dimensão do estrago feito pelo governo de Jair, sumiram dos noticiários e do
cotidiano das cidades.
Mas não
foram apenas as antigas políticas públicas que voltaram. Uma das inovações que
mais impactaram a rede de organizações e pessoas dedicadas ao combate à fome
foi a criação do Programa Cozinhas Solidárias. Ele garante apoio financeiro
para que uma ampla teia de cozinheiras e cozinheiros de todos os municípios do
país produza quentinhas para distribuição para quem ainda não pode arcar com os
custos dos alimentos de que necessita. E se engana quem pensa que esses espaços
são somente assistencialistas. Eles vão muito além e se tornaram locais de
convívio, de aprendizado e de articulação social e política, impulsionando a
cidadania nas comunidades.
Então
veio a notícia: em meados de 2025, a ONU anunciou que o Brasil havia saído,
pela segunda vez em sua trajetória de 500 anos de país invadido e colonizado,
do Mapa da Fome!
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Alimentando as urnas
E
chegamos em outubro de 2026, mês em que se comemora o Dia Mundial da Soberania
Alimentar (16/10) e que, neste ano, inclui a data do segundo turno das nossas
eleições majoritárias (25/10). Vamos definir quem se sentará na cadeira
presidencial pelos próximos quatro anos, caso o sistema da democracia
representativa em que vivemos se mantenha, algo que está sob ameaça frente às
investidas do bolsonarismo contra a constituição e o judiciário. O fato
concreto é que as duas candidaturas já mostraram a que vieram.
O clã
Bolsonaro, agora representado pelo filho primogênito de Jair, o atual senador
Flávio Bolsonaro, arrasta em sua trilha uma montanha de ações contrárias ao
combate à fome, além de tantas outras posturas adotadas para esmagar os
direitos do povo. Enquanto as pessoas se amontoavam na fila do osso, a rede de
amigos da família, ligada abertamente a milicianos, se refestelava com
rachadinhas, lojas suspeitas de práticas ilegais, compras de casas com dinheiro
vivo e festinhas em que garotas de programa e uísque importado eram feijão com
arroz.
Já o
governo Lula, embora engessado por uma composição de frente ampla, em que
interesses conflituosos se digladiam, e por um Congresso Nacional que controla
boa parte do orçamento, por meio das tais emendas parlamentares impositivas,
tem em sua bagagem a inclusão de milhões de pessoas no grupo de quem toma café
da manhã, almoça e janta todos os dias, entre muitas outras conquistas. Sabemos
que ainda está longe de ser suficiente e temos feito críticas contundentes a
muitas das medidas tomadas e, principalmente, à ausência de tantas outras que
são necessárias. Mas é impossível não reconhecer a brutal diferença em relação
ao seu oponente.
É por
isso que não vamos ficar de braços cruzados, apenas assistindo a essa disputa
acirrada entre os atuais candidatos à presidência, como se não houvesse uma
diferença essencial entre ambos no que se refere à garantia da comida no prato.
Vamos às ruas, vamos às redes e vamos às urnas.
O
Banquetaço 2026 está na ativa, irradiando sua alegria criativa pelo país, e
convidando as pessoas que acreditam que é possível conquistar uma sociedade em
que todas, todos e todes tenham acesso a uma alimentação saudável, saborosa e
integrada à cultura e à natureza a somarem suas energias nessa jornada.
Participe
das atividades espalhadas pelos territórios, chame as pessoas amigas, divulgue
em seus canais digitais e na vizinhança. Contribua com nosso Compartilhaço no
dia 16 às 12 horas. É o momento de juntar as panelas, de juntar as vontades, de
superar as desigualdades econômicas, de unir os sonhos relativos a uma forma de
viver em harmonia com a Mãe Terra, e de mostrar que temos voz e vez — e jamais
nos calaremos nem nos conformaremos com a injustiça, a exclusão e a exploração
de seres viventes.
Traga
sua caneca e seu esperançar para chacoalharmos este mês decisivo, em que a
Soberania Alimentar é alvo de atenção e as urnas esperam pelos votos
conscientes e responsáveis, que vão nutrir a nossa (ainda frágil, mas sempre
sagrada) democracia.
Fonte:
Por Susana Prizendt, em Outras Palavras

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