O
dilema entre democracia/soberania e retrocesso/barbárie
Contrariando
a maior parte das sondagens, os resultados das recentes eleições no Brasil,
para além de reforço da extrema direita em governadores, senadores/as e
deputados/as eleitos/as evidenciam que Flávio Bolsonaro soma na primeira
volta 56.104.503 votos, ou seja, mais 2.224.965 votos sobre a votação em Lula
da Silva com 53.879.538 votos (47,03% versus 45,16%).
Considerando
a candidatura de Flávio Bolsonaro, este tem um passado de ligação a milícias,
de operador de ‘rachadinhas’ apropriando-se da maior parte de salários de
contratos fictícios na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, de abertura de
loja de chocolates de fachada para lavagem de dinheiro, de compra, juntamente
com familiares do clã Bolsonaro, de mais de 100 imóveis dos quais 50 com
dinheiro vivo e uma mansão de 6 milhões de reais – tudo sob proteção do
pai-Presidente e da Abin.
Mais,
desde agosto de 2025, pôde contar com o juiz André Mendonça do Supremo Tribunal
Federal (STF) a ocultar ‘doação’ de 61 milhões de reais do banqueiro corruptor
Daniel Vorcaro do Banco Master, alegadamente para um filme designado de Dark
Horse relativo à figura do seu pai Jair Bolsonaro, viagens do candidato no
jato privado do banqueiro e ‘farras íntimas’!
Não se
vislumbra qualquer melhoria socio-econômica para a maioria do povo brasileiro;
pelo contrário, subsiste um programa de privatizações de empresas públicas, de
entrega de terras raras e da própria soberania brasileira aos Estados Unidos da
América (EUA) de Donald Trump, o provável impeachment de juízes do STF
no Senado e Decreto de amnistia do pai condenado a 27 anos de prisão por ter
liderado uma tentativa de golpe de Estado desde 2021, bem como o assalto
vandálico ao Palácio do Planalto, ao Congresso e ao STF a 8 de Janeiro de 2023.
Além
disso, é de referir a cumplicidade de Flávio Bolsonaro com a política do pai
Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil (2019-2022), com todos os retrocessos
socio-políticos para o país e o povo: uso de orçamento secreto e emendas
parlamentares para interesses privados; privatização da Electrobras, invasões
de terras indígenas e usurpações de terras públicas, madeiras e minérios;
devastação ambiental de 2 milhões de hectares com desmatamentos e queimadas
predatórias na Amazónia, na Mata Atlântica e no Pantanal; aumento de 4,5
milhões de desempregados; perda de poder de compra; conjunto de 33 milhões de
pobres, dos quais 20 milhões de desempregados e desencorajados; cortes no
Serviço Único de Saúde (SUS), na Educação, na Investigação e na Cultura,
perseguição a Reitores democratas; assassinatos de líderes populares por
‘jagunços’ a mando de fazendeiros sem qualquer punição nem sequer processo
judicial.
E, por
fim, mas não menos importante, a morte desnecessária de centenas de milhares de
brasileiros/as por negacionismo da ciência, publicidade enganosa sobre
cloroquina para a Covid19 e consciente rejeição no acesso atempado a vacinas.
Em
contrapartida, Lula, originário de família pobre, dirigente sindical e fundador
do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato presidencial vencido nos anos
1980-90 mas vencedor em 2002 e 2006 – seguido das vitórias do PT com Dilma
Rousseff em 2010 e 2014 –, viria a ser objeto da operação Lava Jato, uma
armadilha judicial aliciada pela CIA e conduzida pela quadrilha composta pelo
Juiz Moro e pelo Procurador Deltan Dellagnol.
Esta
operação resultaria no fraudulento processo lawfare para inviabilizar a
candidatura de Lula em 2018, aliás precedida duma hedionda prisão com
espetáculo mediático e condenação sem provas, vindo mais tarde a ser absolvido
deste e doutros processos pelo STF após 580 dias de prisão!
Os
governos de Lula da Silva e Dilma Roussef entre 2003 e 2016 e, de novo, neste
último de Lula (2023-2026) traduziram-se em diversas políticas públicas: melhor
infraestrutura e saneamento; criação de mais de 30 milhões de empregos;
aumentos sucessivos do salário mínimo; reforço de direitos laborais;
acesso à alimentação básica por meio do Bolsa-Família; retirada de mais
de 30 milhões de brasileiros da pobreza extrema; melhoria do SUS e subsidiação
da habitação para famílias carenciadas pelo programa ‘Minha Casa, Minha Vida’;
investimento na formação, nomeadamente no Ensino Superior, passando de 3 para 8
milhões de diplomados; reconhecimento dos direitos dos povos indígenas,
afro-descendentes e das comunidades tradicionais, defesa do meio ambiente; e,
na política externa, diversificação de parceiros comerciais, nomeadamente com
os BRICS; relativa diminuição de dependência e afirmação de soberania face aos
EUA de Donald Trump, arauto da doutrina Monroe e práticas gangsterianas na
América Latina e no Mundo; solidariedade com países e povos agredidos como
Cuba, Venezuela, Irã e sobretudo Palestina, vítima de genocídio por Israel e
EUA.
Perante
uma sociedade perpassada de profundas desigualdades socio-espaciais (de classe,
étnico-raciais e de género) e perante estes dois quadros traçados, coloca-se a
pertinente questão: como e porquê 58 milhões de brasileiros/as votaram em Jair
Bolsonaro em 2018 e em 2022 e agora de novo 56 milhões em 2026 no filho Flávio?
Como explicar o problema da discrepância entre as reais condições objetivas de
vida degradadas das classes populares e a votação maciça não só das elites e de
classes intermédias mas também de parte das classes populares pobres
nomeadamente no Centro-Oeste, no Sul e Sudeste do Brasil?
Tal não
ocorreu porque o povo brasileiro possua um arquétipo essencialista de
passividade ou de sentimento masoquista – pois há exemplos de movimento e luta
contra ditadura e por direitos laborais e sociais – nem tão pouco por fruir, na
generalidade, de uma vida folgada conducente à acomodação passiva, mas
certamente porque pessoas trabalhadoras e pobres, ressentidas e desesperadas
mas sem consciência da classe a que objetivamente pertencem.
As
pessoas são manipuladas por narrativas dos media hegemónicos (Record,
SBT, Band, Globo, corresponsáveis do velho ‘antipetismo’ e
favoráveis a Flávio Bolsonaro), por fake news de redes sociais dominadas
pelos algoritmos das Big-Techs sediadas nos EUA e sobretudo pelo
controle manipulativo e alienante, por parte de caciques, patronos, sobretudo
grande parte de pastores evangélicos neopentecostais, que capturam as vidas das
famílias pobres a nível não só espiritual como de sobrevivência existencial e,
consequentemente, na orientação político-eleitoral.
Se
adicionarmos a crescente incorporação institucionalizada da vida
político-partidária das esquerdas, nomeadamente do PT, parte considerável da
população trabalhadora e pobre, sentindo-se desamparada, socorre-se de pastores
evangélicos para não piorar a situação, sobreviver e não morrer de fome em nome
da segurança socio-económica mínima (safety first).
Isso
converge com a tese sustentada por teóricos da ‘economia moral’ (Thompson, Wolf
e Scott), enquanto conjunto de experiências e sentimentos de injustiça
enraizados nas suas condições materiais de existência, sem organização e apoio
suficiente de forças de esquerda e do próprio Estado social e, ainda por cima,
rotulados de ‘gado’ ou, pior, de ‘fascistas’ por certos urbanitas de
esquerda. Que fazer?
Dado
estar em causa o dilema entre democracia/soberania e retrocesso/barbárie, há
que aproximar-se com compreensão e respeito junto de eleitores
abstencionistas (33 milhões) e inclusive junto de votantes pobres,
esclarecendo-os das consequências nefastas da eleição de Flávio Bolsonaro para
suas vidas: perda ou destruição de direitos sociais e laborais, alteração da
Constituição de 1988, perda de soberania e subjugação face aos EUA, maior
insegurança face ao reforço de milícias e crime organizado, total captura das
instituições estatais para interesses privados.
Apesar
do cenário complicado, se cada um/a, para além do uso das redes sociais, se
envolver de modo comprometido na rua, nos locais de trabalho e de residência,
poder-se-á ainda virar o jogo e ter de novo Lula como Presidente!
Fonte:
Por Manuel Carlos Silva, em A Terra é Redonda

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