Quase
11 anos após crime, reparação ainda não chegou às mulheres, denuncia MAB
Cinco
entidades foram pré-selecionadas para executar o Programa para Mulheres,
iniciativa prevista no Novo Acordo de Reparação dos danos provocados pelo
rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015, sob
responsabilidade das mineradoras Samarco, Vale e BHP-Biliton. Com orçamento de
R$ 1 bilhão, a ação deverá atender mulheres dos 49 municípios reconhecidos como
atingidos em Minas Gerais e no Espírito Santo. Para o Movimento dos Atingidos
por Barragens (MAB), embora a criação do programa represente uma conquista de
anos de mobilização, ainda há preocupações sobre a suficiência dos recursos e
os critérios que serão utilizados para definir quem terá acesso à reparação.
“Esse
R$ 1 bilhão ainda é muito pouco pela quantidade de mulheres atingidas. O
quantitativo é muito alto”, afirma Varner de Santana Moura, conhecida como Val,
integrante do Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce.
Segundo ela, o reconhecimento dos direitos das mulheres representa uma vitória
depois de mais de uma década de luta, mas o montante não será suficiente para
reparar todas as atingidas nos dois estados. “Esse R$ 1 bilhão representa para
nós uma grande vitória. Mas a gente sabe que R$ 1 bilhão não dá para ressarcir
ou para indenizar todas as mulheres do território atingido, Minas e Espírito
Santo”, avalia.
O
resultado da pré-seleção foi divulgado pelas instituições de Justiça na
terça-feira (6). Foram classificadas a Associação Amigos da Justiça, Cidadania,
Educação e Arte; a Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST); a Fundação
Getulio Vargas (FGV); a Fundação Severino Sombra (FUSVE); e o Instituto de
Desenvolvimento Ambiental e Socioeconômico (Idase). A Associação de Pescadores
de Linhares (APDL) foi desclassificada por não atender aos requisitos técnicos
previstos no edital.
A
iniciativa integra o acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF),
firmado entre a União, os governos estaduais, instituições de Justiça e as
empresas responsáveis pelo crime socioambiental — Samarco, Vale e BHP. O
recurso será repassado em 13 parcelas anuais, até 2036. A expectativa é que os
trabalhos comecem no primeiro semestre de 2027.
A
próxima etapa prevê a seleção da entidade executora, com prazo de até 60 dias
para a Samarco conduzir o processo. Depois, as propostas técnicas e comerciais
serão avaliadas pelo Ministério Público Federal (MPF), pelos ministérios
públicos estaduais e pelas defensorias públicas, que terão a palavra final
sobre a escolha.
Uma das
principais preocupações do MAB é que mulheres atingidas que não conseguiram
acessar os programas anteriores de reparação acabem novamente excluídas. Val
questiona a possibilidade de utilização de cadastros antigos das empresas como
referência para identificar as beneficiárias, já que muitas mulheres não foram
registradas individualmente. “Se você pegar esses cadastros, estão defasados.
Tem muita mulher que ficou fora, que não conseguiu fazer cadastro, porque era o
homem que era o chefe da casa, muitos foram embora”, relata.
Ela
também chama atenção para as dificuldades enfrentadas por mulheres analfabetas
ou com pouca escolaridade, que podem ter encontrado obstáculos para comprovar
os danos sofridos e acessar os mecanismos de reparação. Outro desafio é a
extensão do território atingido e a dificuldade de chegar a comunidades
isoladas, em ilhas e às margens do Rio Doce. “A nossa preocupação é que essas
pessoas que mais necessitam não consigam receber, que não consigam alcançar
essa indenização”, afirma.
A
representante do MAB também demonstra preocupação com os custos de contratação
e execução do programa, que incluem levantamentos e consultas às atingidas para
identificar quem atende aos critérios de participação. Na avaliação dela, esses
gastos precisam ser considerados para que os recursos disponíveis cheguem
efetivamente às mulheres. “Já começa com um ponto negativo, porque desse R$ 1
bilhão já não é mais R$ 1 bilhão”, diz. Ela questiona ainda quais parâmetros
serão utilizados pela entidade responsável e como será garantido que as
mulheres que mais precisam sejam contempladas.
De
acordo com Val, as instituições de Justiça ouviram mulheres nos territórios
para identificar como gostariam que os recursos fossem aplicados. Segundo ela,
a maioria optou pela indenização, diante do número de atingidas que ficaram de
fora dos mecanismos anteriores. O movimento, porém, também defendia o
investimento em projetos capazes de ampliar a autonomia econômica das mulheres.
“Foi feita uma escolha e a gente respeita a democracia. Foi feita uma votação”,
afirma.
A
dirigente ressalta que a pauta do MAB não se limita à indenização individual e
inclui saúde, educação e condições para que as mulheres conquistem
independência financeira. Ela defende ainda que o recorte de gênero seja
incorporado a outras iniciativas de reparação, para ampliar a participação
feminina na execução de projetos nos territórios.Como exemplo, Val cita o Anexo
6 do acordo, no qual, segundo ela, o movimento conseguiu estabelecer que 50%
dos projetos sejam administrados ou executados por mulheres. A proposta é
estender essa participação a outros eixos da reparação. “É o que nós defendemos
e lutamos: que nos outros anexos tenham o recorte para as mulheres”, afirma.
A
reivindicação dialoga com a pauta apresentada pelo MAB em março deste ano,
durante a plenária “Atingidas em luta por direitos, por soberania e pela paz”,
realizada em Vitória. Na ocasião, mulheres de diferentes territórios entregaram
a instituições de Justiça e órgãos públicos um documento com propostas de
formação, geração de renda, participação política e fortalecimento comunitário.
Entre
as demandas estavam alfabetização, Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursos
profissionalizantes, formação em educação popular em saúde e políticas de
permanência, como bolsas de estudo e estruturas comunitárias que permitam a
participação das mulheres nas atividades. O documento também propôs iniciativas
específicas para diferentes grupos. Para agricultoras, foram reivindicados
quintais produtivos agroecológicos, irrigação e viveiros de mudas. Para
pescadoras, a pauta incluiu unidades de beneficiamento administradas por
associações de mulheres, acesso a programas públicos de aquisição de alimentos
e um programa de saúde específico. Para as atingidas que vivem em áreas
urbanas, foram apresentadas propostas de cooperativas e quintais produtivos
urbanos.
Outro
ponto foi o reconhecimento do trabalho de cuidado familiar como atividade
passível de reparação, além da criação de espaços permanentes de diálogo com os
órgãos responsáveis pelas políticas previstas no acordo. Quase 11 anos após o
rompimento da barragem de Fundão, Val avalia que a reparação avança lentamente
e que a retomada econômica ainda não chegou de forma efetiva às comunidades.
Ela cita o Programa de Transferência de Renda (PTR), voltado a pescadores e
agricultores, como uma das iniciativas que não alcançaram todas as mulheres
atingidas.
Segundo
a representante, o acesso ao benefício exigia documentos como o Cadastro
Nacional da Agricultura Familiar (CAF) ou o Registro Geral da Atividade
Pesqueira (RGP), o que dificultou a inclusão de mulheres que não conseguiram
obter a documentação a tempo. “Mas as mulheres continuam na mesma. Quer dizer,
a retomada econômica ainda não chegou nos territórios. O fortalecimento das
mulheres ainda não chegou, nós estamos aguardando”, afirma.
Para
Val, a burocracia é um dos entraves para que os recursos e projetos previstos
na reparação cheguem a quem precisa. Ela também destaca a importância do
Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce como espaço para
levar as reivindicações das comunidades e ampliar a participação das atingidas
nas decisões. A representante cita ainda os editais voltados à execução de
projetos nas comunidades, incluindo uma linha estruturante de R$ 225 milhões,
que o movimento aguarda. A expectativa é que essas iniciativas contribuam para
fortalecer as organizações locais e promover mudanças duradouras nos
territórios.
Apesar
das preocupações, Val considera que o Programa para Mulheres representa um
avanço no reconhecimento de impactos que historicamente ficaram invisíveis nos
processos de reparação. Para o MAB, entretanto, o desafio será garantir que os
critérios de acesso não reproduzam as exclusões anteriores e que a reparação
alcance mulheres com diferentes condições sociais, econômicas e territoriais.
O
rompimento da barragem, em 5 de novembro de 2015, matou 19 pessoas e lançou
cerca de 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos na Bacia do Rio Doce,
atingindo comunidades, pescadores, agricultores, povos tradicionais e moradores
de dezenas de municípios até a foz, em Regência, Linhares. Ao longo dos anos,
mulheres atingidas denunciaram perdas de renda, sobrecarga do trabalho de
cuidado e dificuldades de acesso a direitos.
A
criação do programa reconhece que os danos não foram vividos da mesma forma por
todos os grupos sociais. Para o MAB, a efetividade da iniciativa, contudo, vai
depender de como as beneficiárias serão identificadas, de sua participação nas
decisões e da capacidade de fazer os recursos chegarem a quem permaneceu à
margem dos mecanismos de reparação.
Fonte:
Por Mariah Friedrich, no Século Diário

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