Mensagens
mostram atuação de ACM Neto e Rueda para levar Master a fundos de previdência
Mensagens
extraídas pela Polícia Federal (PF) revelam a atuação de Antônio Rueda,
presidente do União Brasil, e ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e dirigente da
legenda, em articulações que favoreceram o acesso do Banco Master a institutos
de previdência estaduais. Os diálogos mostram contatos com executivos da
instituição financeira, negociações para captar centenas de milhões de reais e
referências à influência política dos dois dirigentes em diferentes estados. As
informações foram divulgadas pelo UOL, nesta sexta-feira (16).
Daniel
Vorcaro, controlador do Banco Master, afirmou em uma proposta de delação
premiada que Rueda e ACM Neto teriam atuado para viabilizar aplicações de
recursos previdenciários no banco em troca de comissões equivalentes a 10% dos
valores captados. A proposta de colaboração foi rejeitada pela PF e pela
Procuradoria-Geral da República (PGR).
Documentos
citados pela reportagem apontam que o Master transferiu R$ 6,4 milhões a
escritórios de advocacia ligados a Rueda e outros R$ 5,4 milhões a uma empresa
de consultoria de ACM Neto, totalizando R$ 11,8 milhões.
As
conversas analisadas pelos investigadores indicam que os dois dirigentes eram
considerados importantes para abrir canais de negociação com fundos de
aposentadoria administrados por governos estaduais. A partir desse material, a
PF solicitou mandados de busca e apreensão em endereços relacionados aos
políticos, mas as medidas não chegaram a ser autorizadas pelo Supremo Tribunal
Federal (STF).
Apesar
das referências a pagamentos de comissões a intermediários, as mensagens
divulgadas não comprovam o repasse direto de comissões de 10% a Rueda ou ACM
Neto. Ambos negam irregularidades e afirmam que os valores recebidos decorreram
de serviços profissionais efetivamente prestados.
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Mensagens apontam articulação para captar recursos previdenciários
Os
primeiros contatos identificados entre Rueda e Vorcaro ocorreram em novembro de
2023. No dia 12 daquele mês, Fernando Mascarenhas, então diretor comercial do
Master, informou ao banqueiro que havia recebido uma ligação do dirigente
partidário.
“Rueda
me ligou aqui, vai tá no banco amanhã? Boas notícias”, escreveu Mascarenhas, em
mensagem originalmente registrada com a expressão final em inglês.
Vorcaro
marcou uma reunião com Rueda para o dia seguinte. Pouco depois, Mascarenhas
apresentou um roteiro de viagens a estados onde o banco pretendia ampliar a
captação de recursos de institutos previdenciários.
“Aquele
nosso amigo marcou de irmos segunda final da tarde em Porto Alegre e terça em
Rondônia e Amazonas! Posso confirmar?”, perguntou o executivo.
A
viagem foi realizada em um avião particular de Vorcaro. Entre os passageiros
estavam Mascarenhas, Rueda e dois intermediários identificados como Ricardo e
Raphael. O roteiro incluía compromissos em Rondônia e Manaus.
Em 21
de novembro, Mascarenhas demonstrou entusiasmo com as perspectivas comerciais
abertas pela articulação.
“Irmão,
o negócio vai ficar gigante, nosso amigo até final do ano resolve 1,2 b”,
escreveu.
Vorcaro
respondeu: “Foguete”.
A
referência a “1,2 b” indicava uma expectativa de captação de R$ 1,2 bilhão,
embora as mensagens não demonstrem que esse montante tenha sido efetivamente
transferido ao banco.
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Amapá: aprovação de recursos e pedido para apagar mensagens
Uma das
operações mais detalhadas nas conversas envolve a Amapá Previdência,
responsável pela administração de recursos previdenciários de servidores
públicos do estado.
Em
abril de 2024, Mascarenhas comunicou a Vorcaro o avanço das negociações.
“Amapá,
confirmado 400”, escreveu, em referência a uma captação de R$ 400 milhões.
“Quero
ver nosso amigo apertar o enter”, respondeu o banqueiro.
A
aprovação da operação ocorreu em 12 de julho de 2024, mesmo dia em que uma
reportagem revelou problemas envolvendo a Caixa Asset e títulos emitidos pelo
Banco Master.
Diante
da repercussão, o tesoureiro da instituição, Alberto Felix, informou a Vorcaro
que a transferência não seria realizada naquele momento “por causa da notícia
da CEF”.
Felix
também mencionou a participação de Rueda na condução das operações.
“A
reunião lá do Amapá está acontecendo. Mas o Rueda que disse que ia segurar as
operações”, escreveu.
Às
11h45 daquele dia, depois de apagar dez mensagens consecutivas da conversa,
Rueda enviou uma orientação a Vorcaro: “Apaga essas mensagens”.
Cerca
de uma hora depois, Mascarenhas comunicou uma nova aprovação.
“Aprovado
200 M agora no Amapá. Nesse minuto”, informou.
Ainda
em 12 de julho, o diretor comercial encaminhou uma relação das principais
negociações em andamento.
“400
Amapá, 350 RJ, 250 Amazonas, 160 Campos dos Goytacazes, 500 Maricá, 100 BH, 200
Alagoas”, escreveu.
Os
números indicavam negociações que, somadas, alcançavam R$ 1,96 bilhão. A
relação, entretanto, não significa que todos esses recursos tenham sido
efetivamente aplicados no Master.
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Comissões milionárias aparecem nas conversas
As
mensagens também detalham pagamentos a intermediários envolvidos na operação do
Amapá.
Em
julho de 2024, Alberto Felix perguntou sobre uma comissão relacionada à
consultoria de Ricardo e Raphael.
“Deu
8,9 mm. Já pediram para pagar”, escreveu o tesoureiro, utilizando a abreviação
para milhões.
No dia
seguinte, Vorcaro autorizou a emissão de uma nota no valor de R$ 8 milhões.
Em 1º
de agosto, a tesouraria registrou outro pagamento: “Pagamos 11 mm contas a
pagar, comissão Amapá”.
Naquele
momento, a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões ao Banco
Master.
Segundo
o UOL, a consultoria mencionada nas mensagens é atribuída a Ricardo Siqueira
Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, identificado pela PF como lobista de
Vorcaro em operações relacionadas ao Rioprevidência.
Os
diálogos indicam que a consultoria de Ricardo Gordo trabalhava com uma comissão
de 10% sobre operações realizadas com o Master.
O
percentual coincide com aquele mencionado por Vorcaro em sua proposta de
colaboração premiada ao descrever um suposto acordo com Rueda e ACM Neto.
Entretanto, o material divulgado não apresenta comprovação de pagamentos dessa
comissão diretamente aos dois políticos.
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Influência de Rueda também é mencionada no Amazonas e no Rio
Outras
conversas mostram que executivos e intermediários do Banco Master associavam
Rueda à possibilidade de obter recursos de institutos previdenciários em
diferentes regiões.
Em
junho de 2024, Mascarenhas informou a Vorcaro sobre uma operação envolvendo a
previdência estadual do Amazonas.
“Amazonprev
50 M líquida amanhã”, escreveu, em aparente referência a uma aplicação de R$ 50
milhões.
Em
julho de 2025, o lobista Julio Cezar Avelino, que buscava investimentos de
fundos previdenciários para o Master, mencionou conexões políticas entre
Amazonas e Rondônia.
“No
Amazonas vai dar certo, porque Rondônia é o mesmo grupo de influência”,
afirmou.
Em
outra mensagem, acrescentou: “Lá é sócio do Rueda”.
O
executivo Luiz Rennó também destacou a importância do dirigente partidário em
conversas sobre operações no Rio de Janeiro.
Ao
tratar de um “assunto RJ, caixa Rueda”, Rennó afirmou a Vorcaro: “Rueda seria
nosso cara! Precisaria ter entrado no banco mais cedo! Ele tem alguns estados”.
As
referências reforçam que, dentro do Master, a capacidade de articulação
política de Rueda era considerada relevante para a estratégia de expansão das
captações previdenciárias.
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Vorcaro ofereceu aviões e hospedagem de luxo a Rueda
Além
das negociações financeiras, as mensagens revelam uma relação de proximidade
entre Vorcaro e Rueda.
Em
dezembro de 2023, o banqueiro colocou suas aeronaves executivas à disposição do
dirigente do União Brasil.
“Usa
como seu”, escreveu.
Em maio
de 2024, Vorcaro enviou um avião para transportar familiares de Rueda a Miami,
nos Estados Unidos, onde ocorreu uma etapa da Fórmula 1.
Outra
conversa, de março daquele ano, registra um pedido de Rueda ao banqueiro.
“Cuida
de mim”, escreveu o político.
Vorcaro
respondeu: “Arrumei o apto? arrumei o Rosewood”, mencionando um apartamento e o
Rosewood, hotel de luxo localizado em São Paulo.
Em
agosto de 2024, o departamento jurídico do Master apresentou a Vorcaro uma
contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados para atuar em quatro
processos, com valores que totalizavam R$ 15,4 milhões.
A
reportagem também aponta que Rueda intermediou contatos entre Vorcaro e a
direção do Banco de Brasília (BRB).
Em
julho de 2024, após visitar a residência de Rueda em Brasília, Vorcaro enviou
sua primeira mensagem ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Dois
dias depois, o dirigente do União Brasil voltou a mencionar o executivo.
“PH
precisando falar c vc”, escreveu Rueda ao banqueiro.
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ACM Neto aparece em encontros e conversas com Vorcaro
As
mensagens também registram contatos entre ACM Neto, Rueda e Vorcaro ao longo de
2024.
Em
setembro daquele ano, os dois dirigentes do União Brasil passaram um fim de
semana na residência do banqueiro em Trancoso, no litoral da Bahia. O deputado
federal Elmar Nascimento (União-BA) também participou do encontro.
No mês
seguinte, ACM Neto solicitou uma reunião com Vorcaro envolvendo Rueda.
“Eu,
você e Rueda”, escreveu o ex-prefeito de Salvador.
O
encontro ocorreu em uma sala reservada de uma charutaria em São Paulo.
Nove
dias depois, ACM Neto enviou uma mensagem ao banqueiro comentando o cenário
político em Brasília.
“As
coisas em Brasília estão consolidadas e, felizmente, saiu tudo como desejávamos
na política”, afirmou.
Na
semana seguinte, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como seu
operador financeiro, informou ao banqueiro que estava sendo procurado por
Marcos Moura, empresário conhecido como “rei do lixo”.
“Marcos
Moura (ACM) me chamando. O que eu faço?”, perguntou Zettel.
Vorcaro
respondeu: “Pega com Gustavo / E Minas”.
Marcos
Moura integra a Executiva do União Brasil e é investigado por suspeitas de
irregularidades em licitações relacionadas a grupos políticos da legenda.
Já
“Minas” seria uma referência a Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado na
proposta de delação de Vorcaro como responsável pela geração de recursos em
espécie.
Segundo
a reportagem do UOL, o banqueiro afirmou, na proposta rejeitada pela PF e pela
PGR, que ACM Neto teria recebido dinheiro em espécie proveniente de recursos
gerados por Freixo.
Outras
mensagens de Zettel mencionam a procura por pessoas associadas ao ex-prefeito.
“Cara
do ACM está aqui em SP na minha cola”, escreveu.
Em
outra ocasião, afirmou: “Gustavo me encontrou. Minas tenho que buscar também?”.
Os
diálogos divulgados não esclarecem se houve entrega de recursos, tampouco
identificam valores ou destinatários de eventuais pagamentos.
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Acesso do Master a lista do Ministério da Previdência
A
atuação atribuída a ACM Neto também aparece em informações sobre o acesso do
Banco Master aos institutos de previdência.
Segundo
o UOL, integrantes da instituição financeira atribuíram ao ex-prefeito
participação em articulações que teriam contribuído para incluir o banco em uma
relação do Ministério da Previdência de instituições habilitadas a receber
aplicações de regimes próprios de previdência social.
ACM
Neto nega ter interferido nesse processo.
Em
manifestação encaminhada à reportagem, afirmou que “nunca teve qualquer tipo de
participação no governo federal, o que afasta a possibilidade de interferência
em decisões administrativas do Ministério da Previdência e da inclusão do Banco
Master na lista exaustiva de instituições elegíveis para receber recursos de
RPPS”.
O
ex-prefeito também negou ter atuado para direcionar aplicações de fundos
previdenciários ao Master, inclusive no caso da Amapá Previdência.
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Rueda e ACM Neto negam irregularidades
Procurado
pelo UOL, Rueda afirmou que sua relação com o Banco Master era “eminentemente
profissional” e que os serviços advocatícios contratados foram realizados com
emissão de notas fiscais e pagamento dos tributos correspondentes.
O
dirigente também criticou a divulgação das mensagens.
Em
nota, declarou lamentar “o uso político de trechos isolados de informações que
deveriam estar sob sigilo, mas que foram retirados de contexto com o propósito
de criar suspeitas infundadas e atingir sua reputação”.
Acrescentou
que “adotará as medidas cabíveis para resguardar sua honra e sua imagem diante
da divulgação de acusações falsas e distorções dos fatos”.
ACM
Neto, por sua vez, classificou os vazamentos como “seletivos, manipulados e
fora de contexto” e atribuiu a divulgação a uma tentativa de desgaste político
promovida pelo governo federal.
O
ex-prefeito afirmou ainda que desconhece Fabiano Zettel e rejeitou qualquer
associação com os diálogos envolvendo o cunhado de Vorcaro.
Segundo
sua manifestação, ele “sequer conhece Fabiano Zettel, razão pela qual considera
absurda e criminosa qualquer ilação feita na tentativa de associar seu nome a
supostos diálogos dos quais não participou e com alguém que jamais teve
contato”.
ACM
Neto sustentou que os pagamentos recebidos do Master decorreram de um contrato
de consultoria iniciado em janeiro de 2023, com prestação efetiva de serviços,
emissão de documentos fiscais e recolhimento de impostos.
Também
informou que se colocou à disposição das autoridades desde março de 2026 para
fornecer esclarecimentos sobre o caso.
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Investigações atingem fundos previdenciários de três estados
As
suspeitas relacionadas à atuação política em favor do Master integram o
contexto da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal para
investigar possíveis fraudes envolvendo a instituição financeira.
Na
proposta de colaboração rejeitada pelas autoridades, Vorcaro atribuiu a Rueda
participação em articulações que teriam facilitado o acesso do banco a
institutos previdenciários do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, além da
Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).
Os
fundos previdenciários dos três estados foram alcançados por desdobramentos da
investigação.
No Rio
de Janeiro, a PF apura operações do Rioprevidência que destinaram
aproximadamente R$ 2 bilhões ao Banco Master.
O
ex-presidente do instituto, Deivis Marcon Antunes, foi preso pela Polícia
Federal em fevereiro de 2026. Segundo a investigação, sua indicação ao cargo
teria ocorrido por influência de Rueda, em articulação com o então governador
Cláudio Castro (PL).
No
Amapá, a aplicação de R$ 400 milhões foi aprovada por um comitê presidido por
Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre
(União Brasil-AP), que o indicou para a função.
No
Amazonas, a autorização para uma operação de R$ 50 milhões foi assinada por um
dirigente que havia assumido a presidência do instituto previdenciário apenas
28 dias antes. Ele havia atuado como contador da campanha de reeleição do
governador Wilson Lima (União Brasil).
As
investigações procuram esclarecer as circunstâncias das aplicações, a
participação de intermediários e a eventual existência de vantagens indevidas
associadas à destinação de recursos previdenciários ao Banco Master.
Fonte:
Brasil 247

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