sábado, 17 de outubro de 2026

Como a doença dos papas deixou de ser um tabu

O recém divulgado diagnóstico de câncer do papa Leão 14 provocou manifestações de solidariedade em todo o mundo. Mas há outro aspecto que chama a atenção: atualmente, é relativamente normal que se divulguem informações sobre a saúde de um pontífice. Nem sempre foi assim. De fato, durante séculos, ocorreu justamente o contrário. As doenças dos papas pertenciam ao campo da discrição, dos rumores e, muitas vezes, do mistério.

"Antigamente, não existiam relatórios oficiais sobre as doenças de um papa; no máximo, circulavam rumores pela cidade de Roma", explica o historiador da Igreja Jörg Ernesti.

Por isso, boa parte do que sabemos sobre a saúde de pontífices do passado provém de cartas, testemunhos e reconstruções feitas posteriormente por historiadores da medicina.

Alguns papas, contudo, deixaram pistas. Gregório Magno, que liderou a Igreja Católica entre os anos 590 e 604, escreveu sobre suas dores insuportáveis e os longos períodos em que precisava ficar de cama. Ele sofria de gota, uma doença que reapareceria repetidamente entre seus sucessores.

Um estudo divulgado em 2021 na publicação científica Journal of Nephrology identificou 25 papas acometidos por essa doença. O último da lista é Pio 8, falecido em 1830, após apenas um ano e meio de pontificado.

<><> Gota e malária também reinaram em Roma

A doença podia ter consequências muito concretas. Em 21 dos 25 casos, há indícios de que a gota dificultava as atividades cotidianas dos pontífices. Em 17 deles, foram descritas também doenças renais, incluindo cálculos.

Existiam também algumas ameaças ainda mais ligadas à própria geografia de Roma. Outro estudo, dos pesquisadores Natale Gaspare De Santo, Carmela Bisaccia e Luca Salvatore De Santo, examinou o impacto da malária, que, segundo as estimativas, teria acometido 21 dos 99 papas do período entre os anos 999 e 1644.

A explicação estava próxima. As áreas pantanosas nas redondezas de Roma favoreciam a presença de mosquitos, e a malária afetava não apenas os pontífices, mas também cardeais e membros de seu séquito.

No caso de outras doenças, é muito mais difícil estabelecer diagnósticos retrospectivos. Antes do século 20, praticamente não existem registros confiáveis de câncer entre os papas. As fontes mencionam "úlceras", "endurecimentos", problemas estomacais ou uma deterioração inexplicável da saúde – descrições imprecisas demais para que se possa saber, séculos mais tarde, de que doença eles realmente sofriam.

<><> Dos rumores aos boletins médicos

Essa longa cultura da discrição começou a mudar em tempos recentes. A Sala de Imprensa do Vaticano foi criada em 1966 e, desde então, são divulgadas informações oficiais sobre as doenças dos pontífices. Para Ernesti, essa maior abertura representa um avanço, embora ele recomende não aceitar automaticamente cada comunicado como uma descrição completa da situação.

Como exemplo, ele cita a última doença do papa Francisco. Segundo o historiador, em retrospectiva, ficou claro que houve momentos em que seu estado de saúde era mais grave do que o Vaticano reconhecia publicamente. Surge, assim, um paradoxo: os próprios papas podem estar mais dispostos a mostrar sua fragilidade com maior clareza do que aqueles que administram a comunicação institucional.

João Paulo 2º levou essa exposição a um terreno especialmente simbólico. Durante seus últimos anos, ele não escondeu sua deterioração física. Ernesti recorda sua última aparição pública, dois dias antes de falecer. Após passar por uma traqueostomia, o pontífice teve de dar a bênção em silêncio. A multidão reunida na Praça de São Pedro respondeu com um longo aplauso.

<><> A vulnerabilidade pode fortalecer um papa?

Aquela imagem transmitia também uma ideia profundamente ligada à mensagem de João Paulo 2º, de que a dignidade humana não desaparece com a doença nem com a dependência.

Em sua encíclica Evangelium vitae, de 1995, ele defendeu que o sofrimento e a doença fazem parte da existência e não devem ser excluídos da sociedade. Ao final de sua vida, ele acabou encarnando publicamente essa convicção.

É aí que reside uma das diferenças fundamentais entre o passado e o presente. Informar sobre a saúde de um papa já não significa apenas comunicar um diagnóstico. Isso também levanta uma questão sobre a maneira de exercer uma autoridade que está sujeita, como a de qualquer outra pessoa, aos limites do corpo.

Para Ernesti, falar abertamente sobre uma doença ou um procedimento médico pode, inclusive, fortalecer a credibilidade. A grande solidariedade despertada por um pontífice doente estaria relacionada, também, a essa exposição de seu lado humano.

Durante séculos, a doença do papa era algo que devia permanecer atrás dos muros do Vaticano. Hoje, pode se tornar parte de sua presença pública. Talvez seja esse o paradoxo final: um pontífice nem sempre precisa aparentar força para conservar sua autoridade. Reconhecer sua vulnerabilidade pode ser, justamente, outra forma de exercê-la.

 

Fonte: DW Brasil

 

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