sábado, 17 de outubro de 2026

Seria a cultura woke de direita?

O chamado woke acabou ganhando repercussão nos últimos anos, em grande medida por conta do combate feito contra ele pela extrema direita trumpista e, em menor escala, por seus seguidores em outros países, como o bolsonarismo no Brasil. Em meio ao discurso distorcido e ilógico da extrema direita, o woke surge quase como uma versão moderna do marxismo e da revolução, supostamente propondo transformações que viriam a afetar a sociedade em sua radicalidade. Essa ideologia pretensamente revolucionária teria se introjetado em Hollywood, a ponto de dominar as produções de cinema e televisão, e, inclusive, tomado a direção do Partido Democrata, levando Kamala Harris a se referir ao tema nas últimas eleições presidenciais.

Contudo, esse é o mundo irreal do trumpismo e de sua versão brasileira. Não é possível pensar que Hollywood e o Partido Democrata, representante do imperialismo, são de esquerda ou até mesmo progressistas. Pelo contrário, eles são burgueses e apoiadores do capitalismo, incapazes de assumir uma pauta de transformação radical da sociedade. Entretanto, de forma dialética, não seria errado dizer que os democratas talvez sejam realmente woke. E é possível dizer inclusive que seriam os principais representantes das ideias woke, afinal incorporam em sua retórica os elementos de uma crítica superficial e pretensamente progressista de sociedade.

Susan Neiman, em um livro bastante instigante, tentou definir o woke. Segundo a filósofa, o woke “começa com a preocupação com pessoas marginalizadas e termina reduzindo cada uma delas ao prisma de sua marginalização”. Neiman aponta que “o woke enfatiza as maneiras pelas quais grupos específicos tiveram a justiça negada e sua busca por retificação e reparação dos danos sofridos”. Não existe uma preocupação mais ampla com classes ou exploração do trabalho. Segundo a Neiman,

“[…] o que é confuso no movimento woke é que ele se originou das emoções tradicionais da esquerda: empatia pelos marginalizados, indignação com a situação dos oprimidos, determinação na busca de que os erros históricos sejam corrigidos. Essas emoções, entretanto, são afetadas por uma série de suposições teóricas que acabam por enfraquecê-las”.

O woke se caracteriza por fazer a crítica aos problemas mais aparentes da sociedade, como a menor presença de mulheres ou de negros em determinados ramos da economia, propondo, para isso, medidas paliativas de inclusão, como as cotas. Segundo Neiman, “as universidades e corporações são mais propensas ao exagero woke do que os líderes comunitários que trabalham in loco no dia a dia das comunidades. Os piores abusos são os do capitalismo woke, que se apropria das demandas por diversidade em busca de maior lucro”.

Esse tipo de pretensa solução para problemas estruturais – como as cotas e outras ações de inclusão – sempre enfatiza, na perspectiva woke, o aspecto individual, isolado, fragmentado. Portanto, a solução para esses problemas não passaria por ações que envolvam o conjunto da classe trabalhadora, mas por medidas localizadas que auxiliem os segmentos isolados que levantam a reivindicação. Para Neiman, “o woke se tornou uma política de símbolo em vez de uma perspectiva que apontasse para a transformação social”.

Essas medidas se tornaram muito mais ações simbólicas com impacto imediato do que ações que visem a melhoria da vida das pessoas. O mais importante passa a ser o impacto gerado em termos de engajamento em redes sociais ou aplicativos de comunicação, e não o impacto da realidade material concreta. Na lógica woke, o exemplo de uma ação benéfica postado na internet que alcança visualizações e curtidas é mais importante do que o impacto de uma ação concreta sobre os segmentos mais amplos da classe trabalhadora.

Portanto, trata-se de uma perspectiva cujas ações desviam os problemas reais para questões que, mesmo sendo importantes, representam pequenos fragmentos. O woke se constitui em saídas burguesas para mitigar problemas da exploração capitalista sem lutar contra o capitalismo e superar essa sociedade. O resultado disso passa pela fragmentação e pelo enfraquecimento do coletivo, afinal

“[…] a atuação de seus membros se dá em termos de identidades, resultando, inclusive, em alianças entre indivíduos que em termos de classe deveriam estar em guerra ou então resulta, por outro lado, em batalhas fraticidas entre indivíduos que deveriam, enquanto membros de uma mesma classe, estar unidos na luta contra o inimigo comum”.

O próprio pensamento neoliberal aponta para propostas de mitigação das contradições do capitalismo, sendo possível encontrar inclusive em orientações do próprio Banco Mundial e de outros órgãos imperialistas. Nesse processo, “as classes dominantes promoveram uma ofensiva na direção das bandeiras ideológicas da esquerda, tradicionalmente vinculadas às lutas igualitárias. O que antes era um ideal progressista passou a ter significados políticos e culturais conservadores”. Pautas fundamentais como racismo, machismo e homofobia foram apropriadas pelo capital, fazendo com que

“[…] as organizações que pautam as demandas identitárias em sentido e formas organizativas convenientes para a manutenção e reforço lucrativo do capitalismo recebem incentivos que vão desde investimentos diretos até apoios ideológicos na mídia e nos aparelhos ideológicos de Estado e empresas voltadas para a formatação da visão do mundo e do universo cultural e ideológico das pessoas”.

Contudo, isso nem foi inventado pelos neoliberais na década de 1990. Em momentos anteriores, a burguesia buscava cooptar segmentos críticos ou mesmo socialistas para reivindicações que pudessem amenizar as tensões sociais, em especial a partir de uma política de mitigação das contradições sociais. Na década de 1960, marcado por avanços nas lutas por direitos civis, a população negra norte-americana enxergava a impossibilidade de lutar por dentro da institucionalidade, procurando alternativas de organização política, como o Partido dos Panteras Negras. Naquele contexto,

“[…] a Fundação Ford, utilizando de instrumentos de financiamento, passou a disputar com a agenda política do Poder Negro já em 1965, quando o foco sobre os direitos civis se reorientou para as políticas redistributivas, o controle comunitário, a elevação da autoestima e a valorização cultural”.

Essa perspectiva também ganhou contornos de política governamental, em particular a partir do primeiro mandato de Lyndon Johnson (1963-65). Na figura do secretário Daniel Patrick Moynihan,

“Para ele, o governo precisava se antecipar às expectativas da população negra, que se reorientariam, após a conquista de direitos civis e as oportunidades abertas em um mercado de trabalho mais desagregado, para a busca da “igualdade social”. Tratava-se, segundo Moynihan, de uma oportunidade política: aproveitava-se o descenso do Movimento de Direitos Civis, que não havia avançado agenda específica nesse tema, para abrir ao governo, pela primeira vez em anos, a chance de ditar o debate racial”.

O woke se apropria de reivindicações fundamentais das lutas dos explorados e oprimidos e as transforma em mercadoria. Com isso, empresas e governos vendem a imagem de que estão fazendo ações contra o racismo, o machismo e a homofobia, enquanto, em realidade, estão apenas buscando peças de marketing. Quando abrem vagas de emprego específicas ou fazem campanhas de conscientização estão apenas dando migalhas de atenção para os setores mais explorados e pauperizados da sociedade, sem que suas ações tenham qualquer impacto sobre a realidade concreta. Nesse sentido,

“[…] as políticas de cotas e demais bandeiras inclusivas da política identitária minimizam a eficácia dos métodos de exploração da mais-valia absoluta, forçando os capitalistas a se modernizarem, a desenvolverem as forças produtivas e, assim, a recolocarem a exploração prioritariamente sobre as bases da mais-valia relativa, capacitando as empresas a atender às demandas identitárias sem que isso represente perdas na lucratividade, pelo contrário”.

O woke, por apontar para pautas comuns aos progressistas, acaba por sofrer ataques dos setores mais reacionários, da extrema direita e do fascismo. Para esses setores, qualquer medida, qualquer ação que signifique a melhoria da situação de vida por parte dos mais pobres, deve ser combatida. Nesse sentido, as políticas de cotas, mesmo que sejam medidas de cooptação dos setores mais oprimidos da sociedade, são vistas pelos reacionários como medidas que devem ser duramente combatidas.

Esses delírios da extrema direita fazem com que se evite fazer críticas ao woke ou até mesmo que se defendam suas medidas. Contudo, ao assumir essa postura, o que se faz é fortalecer medidas que visam a manutenção da exploração capitalista. Ou seja, entre o burguês perverso e o burguês bem-intencionado, opta-se por fortalecer o segundo, mesmo que este, no futuro, possa vir a ser tão cruel como os monstros que se combate de forma prioritária no presente. Neiman corretamente afirma:

“Mas os perigos não serão afastados fingindo que o woke não é um problema ou que é um fantasma que a direita inventou para reprimir toda reivindicação de justiça social. Ao contrário, se os liberais de esquerda não podem combater o excesso de woke, eles não só continuarão a se sentir politicamente desabrigados, mas seu silêncio levará para os braços da direita aqueles cujas orientações políticas são mais obscuras”.

Portanto, quem é de esquerda, mesmo que eventualmente defenda temas em comum, não pode se identificar politicamente com o woke. Este é uma forma de desviar a explosão social dos trabalhadores para pautas fragmentadas e superficiais, que, em vez de fortalecer a luta, fazem com que as mobilizações sejam arrefecidas por aparentes conquistas pontuais. Essas conquistas nada mais são que migalhas que caem da mesa da burguesia e que serão retiradas quando a situação de convulsão social estiver controlada.

Neiman procura, em seu livro, destacar alguns dos princípios que sempre guiaram a esquerda, como o universalismo, destacando que são métodos woke coisas como “cultura do cancelamento, insistência na pureza, intolerância à nuance e preferência pelos dualismos”. Em vez de identitarismo, Neiman prefere usar o termo tribalismo, que “é uma descrição do colapso civil que ocorre quando as pessoas, de qualquer tipo, veem a diferença humana fundamental como aquela entre nossa espécie e todas as outras”. Em oposição, afirma que “ser universalista significa que é possível encontrar fascinação e alegria em todas as maneiras pelas quais as pessoas diferem – e, ainda assim, voltar-se para os ossos que nos sustentam e nos unem”.

O fragmento enquanto luta atomizada e de identidades particulares é uma forma de defesa da ordem capitalista. Nesse sentido, o woke ou qualquer outra ideologia que leva à fragmentação da classe trabalhadora não passa de uma postura da direita.

 

Fonte: Por Michel Goulart da Silva, em Outras Palavras

 

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