Seria
a cultura woke de direita?
O
chamado woke acabou ganhando repercussão nos últimos anos, em grande medida por
conta do combate feito contra ele pela extrema direita trumpista e, em menor
escala, por seus seguidores em outros países, como o bolsonarismo no Brasil. Em
meio ao discurso distorcido e ilógico da extrema direita, o woke surge quase
como uma versão moderna do marxismo e da revolução, supostamente propondo
transformações que viriam a afetar a sociedade em sua radicalidade. Essa
ideologia pretensamente revolucionária teria se introjetado em Hollywood, a
ponto de dominar as produções de cinema e televisão, e, inclusive, tomado a
direção do Partido Democrata, levando Kamala Harris a se referir ao tema nas
últimas eleições presidenciais.
Contudo,
esse é o mundo irreal do trumpismo e de sua versão brasileira. Não é possível
pensar que Hollywood e o Partido Democrata, representante do imperialismo, são
de esquerda ou até mesmo progressistas. Pelo contrário, eles são burgueses e
apoiadores do capitalismo, incapazes de assumir uma pauta de transformação
radical da sociedade. Entretanto, de forma dialética, não seria errado dizer
que os democratas talvez sejam realmente woke. E é possível dizer inclusive que
seriam os principais representantes das ideias woke, afinal incorporam em sua
retórica os elementos de uma crítica superficial e pretensamente progressista
de sociedade.
Susan
Neiman, em um livro bastante instigante, tentou definir o woke. Segundo a
filósofa, o woke “começa com a preocupação com pessoas marginalizadas e termina
reduzindo cada uma delas ao prisma de sua marginalização”. Neiman aponta que “o
woke enfatiza as maneiras pelas quais grupos específicos tiveram a justiça
negada e sua busca por retificação e reparação dos danos sofridos”. Não existe
uma preocupação mais ampla com classes ou exploração do trabalho. Segundo a
Neiman,
“[…] o
que é confuso no movimento woke é que ele se originou das emoções tradicionais
da esquerda: empatia pelos marginalizados, indignação com a situação dos
oprimidos, determinação na busca de que os erros históricos sejam corrigidos.
Essas emoções, entretanto, são afetadas por uma série de suposições teóricas
que acabam por enfraquecê-las”.
O woke
se caracteriza por fazer a crítica aos problemas mais aparentes da sociedade,
como a menor presença de mulheres ou de negros em determinados ramos da
economia, propondo, para isso, medidas paliativas de inclusão, como as cotas.
Segundo Neiman, “as universidades e corporações são mais propensas ao exagero
woke do que os líderes comunitários que trabalham in loco no dia a dia das
comunidades. Os piores abusos são os do capitalismo woke, que se apropria das
demandas por diversidade em busca de maior lucro”.
Esse
tipo de pretensa solução para problemas estruturais – como as cotas e outras
ações de inclusão – sempre enfatiza, na perspectiva woke, o aspecto individual,
isolado, fragmentado. Portanto, a solução para esses problemas não passaria por
ações que envolvam o conjunto da classe trabalhadora, mas por medidas
localizadas que auxiliem os segmentos isolados que levantam a reivindicação.
Para Neiman, “o woke se tornou uma política de símbolo em vez de uma
perspectiva que apontasse para a transformação social”.
Essas
medidas se tornaram muito mais ações simbólicas com impacto imediato do que
ações que visem a melhoria da vida das pessoas. O mais importante passa a ser o
impacto gerado em termos de engajamento em redes sociais ou aplicativos de
comunicação, e não o impacto da realidade material concreta. Na lógica woke, o
exemplo de uma ação benéfica postado na internet que alcança visualizações e
curtidas é mais importante do que o impacto de uma ação concreta sobre os
segmentos mais amplos da classe trabalhadora.
Portanto,
trata-se de uma perspectiva cujas ações desviam os problemas reais para
questões que, mesmo sendo importantes, representam pequenos fragmentos. O woke
se constitui em saídas burguesas para mitigar problemas da exploração
capitalista sem lutar contra o capitalismo e superar essa sociedade. O
resultado disso passa pela fragmentação e pelo enfraquecimento do coletivo,
afinal
“[…] a
atuação de seus membros se dá em termos de identidades, resultando, inclusive,
em alianças entre indivíduos que em termos de classe deveriam estar em guerra
ou então resulta, por outro lado, em batalhas fraticidas entre indivíduos que
deveriam, enquanto membros de uma mesma classe, estar unidos na luta contra o
inimigo comum”.
O
próprio pensamento neoliberal aponta para propostas de mitigação das
contradições do capitalismo, sendo possível encontrar inclusive em orientações
do próprio Banco Mundial e de outros órgãos imperialistas. Nesse processo, “as
classes dominantes promoveram uma ofensiva na direção das bandeiras ideológicas
da esquerda, tradicionalmente vinculadas às lutas igualitárias. O que antes era
um ideal progressista passou a ter significados políticos e culturais
conservadores”. Pautas fundamentais como racismo, machismo e homofobia foram
apropriadas pelo capital, fazendo com que
“[…] as
organizações que pautam as demandas identitárias em sentido e formas
organizativas convenientes para a manutenção e reforço lucrativo do capitalismo
recebem incentivos que vão desde investimentos diretos até apoios ideológicos
na mídia e nos aparelhos ideológicos de Estado e empresas voltadas para a
formatação da visão do mundo e do universo cultural e ideológico das pessoas”.
Contudo,
isso nem foi inventado pelos neoliberais na década de 1990. Em momentos
anteriores, a burguesia buscava cooptar segmentos críticos ou mesmo socialistas
para reivindicações que pudessem amenizar as tensões sociais, em especial a
partir de uma política de mitigação das contradições sociais. Na década de
1960, marcado por avanços nas lutas por direitos civis, a população negra
norte-americana enxergava a impossibilidade de lutar por dentro da
institucionalidade, procurando alternativas de organização política, como o
Partido dos Panteras Negras. Naquele contexto,
“[…] a
Fundação Ford, utilizando de instrumentos de financiamento, passou a disputar
com a agenda política do Poder Negro já em 1965, quando o foco sobre os
direitos civis se reorientou para as políticas redistributivas, o controle
comunitário, a elevação da autoestima e a valorização cultural”.
Essa
perspectiva também ganhou contornos de política governamental, em particular a
partir do primeiro mandato de Lyndon Johnson (1963-65). Na figura do secretário
Daniel Patrick Moynihan,
“Para
ele, o governo precisava se antecipar às expectativas da população negra, que
se reorientariam, após a conquista de direitos civis e as oportunidades abertas
em um mercado de trabalho mais desagregado, para a busca da “igualdade social”.
Tratava-se, segundo Moynihan, de uma oportunidade política: aproveitava-se o
descenso do Movimento de Direitos Civis, que não havia avançado agenda
específica nesse tema, para abrir ao governo, pela primeira vez em anos, a
chance de ditar o debate racial”.
O woke
se apropria de reivindicações fundamentais das lutas dos explorados e oprimidos
e as transforma em mercadoria. Com isso, empresas e governos vendem a imagem de
que estão fazendo ações contra o racismo, o machismo e a homofobia, enquanto,
em realidade, estão apenas buscando peças de marketing. Quando abrem vagas de
emprego específicas ou fazem campanhas de conscientização estão apenas dando
migalhas de atenção para os setores mais explorados e pauperizados da
sociedade, sem que suas ações tenham qualquer impacto sobre a realidade
concreta. Nesse sentido,
“[…] as
políticas de cotas e demais bandeiras inclusivas da política identitária
minimizam a eficácia dos métodos de exploração da mais-valia absoluta, forçando
os capitalistas a se modernizarem, a desenvolverem as forças produtivas e,
assim, a recolocarem a exploração prioritariamente sobre as bases da mais-valia
relativa, capacitando as empresas a atender às demandas identitárias sem que
isso represente perdas na lucratividade, pelo contrário”.
O woke,
por apontar para pautas comuns aos progressistas, acaba por sofrer ataques dos
setores mais reacionários, da extrema direita e do fascismo. Para esses
setores, qualquer medida, qualquer ação que signifique a melhoria da situação
de vida por parte dos mais pobres, deve ser combatida. Nesse sentido, as
políticas de cotas, mesmo que sejam medidas de cooptação dos setores mais
oprimidos da sociedade, são vistas pelos reacionários como medidas que devem
ser duramente combatidas.
Esses
delírios da extrema direita fazem com que se evite fazer críticas ao woke ou
até mesmo que se defendam suas medidas. Contudo, ao assumir essa postura, o que
se faz é fortalecer medidas que visam a manutenção da exploração capitalista.
Ou seja, entre o burguês perverso e o burguês bem-intencionado, opta-se por
fortalecer o segundo, mesmo que este, no futuro, possa vir a ser tão cruel como
os monstros que se combate de forma prioritária no presente. Neiman
corretamente afirma:
“Mas os
perigos não serão afastados fingindo que o woke não é um problema ou que é um
fantasma que a direita inventou para reprimir toda reivindicação de justiça
social. Ao contrário, se os liberais de esquerda não podem combater o excesso
de woke, eles não só continuarão a se sentir politicamente desabrigados, mas
seu silêncio levará para os braços da direita aqueles cujas orientações
políticas são mais obscuras”.
Portanto,
quem é de esquerda, mesmo que eventualmente defenda temas em comum, não pode se
identificar politicamente com o woke. Este é uma forma de desviar a explosão
social dos trabalhadores para pautas fragmentadas e superficiais, que, em vez
de fortalecer a luta, fazem com que as mobilizações sejam arrefecidas por
aparentes conquistas pontuais. Essas conquistas nada mais são que migalhas que
caem da mesa da burguesia e que serão retiradas quando a situação de convulsão
social estiver controlada.
Neiman
procura, em seu livro, destacar alguns dos princípios que sempre guiaram a
esquerda, como o universalismo, destacando que são métodos woke coisas como
“cultura do cancelamento, insistência na pureza, intolerância à nuance e
preferência pelos dualismos”. Em vez de identitarismo, Neiman prefere usar o
termo tribalismo, que “é uma descrição do colapso civil que ocorre quando as
pessoas, de qualquer tipo, veem a diferença humana fundamental como aquela
entre nossa espécie e todas as outras”. Em oposição, afirma que “ser
universalista significa que é possível encontrar fascinação e alegria em todas
as maneiras pelas quais as pessoas diferem – e, ainda assim, voltar-se para os
ossos que nos sustentam e nos unem”.
O
fragmento enquanto luta atomizada e de identidades particulares é uma forma de
defesa da ordem capitalista. Nesse sentido, o woke ou qualquer outra ideologia
que leva à fragmentação da classe trabalhadora não passa de uma postura da
direita.
Fonte:
Por Michel Goulart da Silva, em Outras Palavras

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