Morto,
amordaçado. O que há de errado com a democracia
Em 8 de
janeiro de 2023, Jair Messias Bolsonaro, do Partido Liberal, tentou tomar o
poder por meio de um golpe fracassado, que o levou à prisão. Nas eleições de
2026, o Partido Liberal tornou-se o maior partido tanto na Câmara dos
Deputados, com 121 das 513 cadeiras; como no Senado, com uma bancada de 28 dos
81 parlamentares.
Em 8 de
novembro de 1923, Adolf Hitler, do Partido Nazista, também tentou tomar o poder
por meio de um golpe fracassado, que o levou à prisão. Nas eleições de 1932, o
Partido Nazista tornou-se o maior partido do Parlamento alemão, com 230 das 608
cadeiras. Em 1933, a partir de negociações com as elites conservadoras, Hitler
foi nomeado chanceler e o Parlamento aprovou, em total desacordo com a ordem
constitucional, uma lei que conferiu a Hitler plenos poderes para legislar e
governar o país sem o consentimento parlamentar. A Lei de Plenos Poderes ao
chanceler foi aprovada sob condições de repressão e intimidação dos
parlamentares e abriu caminho para o completo desmantelamento da democracia
alemã.
O III
Reich, concebido para durar um milênio, durou intermináveis 12 anos e mergulhou
a Alemanha e o mundo em uma das maiores catástrofes da história, destruição,
morte e um rastro de sofrimento que invadiu a humanidade. Embora tenha nascido
depois da Segunda Guerra Mundial, vivi os horrores da guerra desde sempre,
sendo filho de dois sobreviventes de uma família que perdeu nove em cada dez de
seus membros – ele como escravo em campos de concentração, ela deportada para a
Sibéria.
Por
obra do destino, nos últimos dias de 1953, ancoramos no Novo Mundo, nestas
terras de imigrantes, que, de nativos, só têm os indígenas – quando aqui
chegamos, nem sequer sabíamos que existia um país com o nome de Brasil. Poucos
meses depois Getúlio Vargas se suicidou e, em 1961, fomos surpreendidos pela
crise política desencadeada pela renúncia de Jânio Quadros. Meus pais pouco
entendiam o que aqui se passava e, para desgosto deles, seu filho, que aqui
escreve, aos dezesseis anos de idade, envolveu-se em política e acabou preso e
torturado durante a Ditadura Militar que tomou conta do país por longos 21
anos.
No
sábado, 10 de outubro de 2026, entre os dois turnos da eleição presidencial,
voltando do Parque da Água Branca, fui fisgado pela Revelação, que o motorista
do ônibus ia cantarolando enquanto seguia pela Avenida São João: “quando a
gente tenta, de toda maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto,
amordaçado, volta a incomodar”.
O que
há de errado com a democracia quando ela elege deputados e senadores que apoiam
um governo que valoriza a ditadura, debocha da Constituição, arquiteta um golpe
fracassado e, ainda assim, conquista maioria no Congresso?
O que
buscam os eleitores? Sonham com o bezerro de ouro? Querem se apossar da
Amazônia e acossar ainda mais uma vez os povos indígenas exterminados desde o
“descobrimento” e, mais recentemente, com a ocupação do Planalto Central, a
construção de um museu futurista a céu aberto, a expansão da fronteira agrícola
e a abertura da Transamazônica? Querem flexibilizar as regras ambientais e
favorecer o garimpo, o agronegócio e a exploração dos recursos naturais? Querem
suprimir os já parcos direitos trabalhistas e sociais e privatizar o Estado?
Querem escolas cívico-militares e facilitar o acesso às armas? Querem utilizar
o voto para extinguir o próprio voto e instaurar um regime militar? Servem-se
do voto para acabar com as eleições e a democracia? Um voto suicida?
O que
há de errado com uma democracia quando o voto é usado para abolir as próprias
regras do jogo democrático? Acordei no meio da noite impelido a escrever este
texto e agora me deu um cansaço medonho…
… saio
para fazer aula de Tai Chi – isto deve me fazer bem. Mas, no caminho, lembro
que estou sem a roupa apropriada e a sapatilha. Mas não faz mal, isso se
ajeita. Também estou sem o documento que devo apresentar para fazer a aula e
sequer lembro o meu número de matrícula. Consegui o número de matrícula e vou
apanhar o ônibus que vai me levar à aula de Tai Chi. Mas agora não lembro mais
meu número de matrícula, não sei qual ônibus devo tomar, nem onde fica a
academia. Mas não faz mal…
… fico
angustiado. Não faz mal? Isso poderia ser corriqueiro para uma pessoa normal,
não para mim, que sou extremamente metódico, que é a forma que me faz
sobreviver neste mundo caótico. Então acordo do sonho e volto a escrever este
texto para dizer que não estou com a roupa apropriada, estou sem a minha
carteira, não sei meu número de matrícula, qual é o ônibus que devo apanhar,
nem qual é o caminho que devo seguir…
Nota:
Durante as eleições municipais de outubro de 2024, eu estava viajando. Na
volta, levei os cartões de embarque e fiquei na fila para justificar o meu
(não) voto. Mas a funcionária da Justiça Eleitoral disse: “Meu senhor, com a
sua idade, o senhor não precisa mais justificar o seu (não) voto”. No dia 4 de
outubro de 2026, tive um problema com a burocracia estatal: levei meu título de
eleitor original e a cópia autenticada da carteira de identidade que carrego
comigo. O mesário disse que a minha foto (de 1982), na cópia, estava
irreconhecível. Informou que eu poderia apresentar a carteira de trabalho,
desde que fosse original (e eu expliquei que a foto na carteira era de boa
qualidade, mas que eu tinha então 17 anos de idade). Voltei para casa e trouxe a
carteira de trabalho, mas ele não aceitou. Dentro dela, contudo, estava minha
carteira de identidade original, que acabou sendo aceita. Mas não acabou por
aí: ele queria a digital; informei que não funcionava; tentaram várias vezes e,
por fim, a mesária usou a digital dela, que funcionou (achei estranho, mas faz
parte das normas) e consegui votar. Agora, para o segundo turno, já sei, devo
levar a carteira de identidade original.
Fonte:
Por Samuel Kilsztajn, em A Terra é Redonda

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