Da
urna ao algoritmo: quem controlará as eleições do futuro?
Big
data e inteligência artificial estão transformando as campanhas eleitorais. A
democracia precisa aproveitar as novas possibilidades sem permitir que o poder
de processar informações se converta em vantagem política opaca.
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Durante
décadas, as campanhas eleitorais foram organizadas em torno de comícios,
visitas, cabos eleitorais, material impresso, rádio, televisão e debates
públicos. O desafio era alcançar o maior número possível de eleitores,
apresentar propostas e conquistar votos. Pesquisas de opinião, experiência
política e organização territorial orientavam as decisões.
Esse
modelo não desapareceu, mas deixou de ser suficiente. Hoje, pesquisas,
resultados eleitorais, informações territoriais, interações digitais e dados
socioeconômicos podem ser integrados para identificar padrões, estimar
comportamentos e adaptar mensagens. Com a inteligência artificial, é possível
produzir conteúdos em diferentes formatos, testar argumentos e modificar
estratégias quase em tempo real.
A
mudança vai muito além da substituição do panfleto pelo vídeo ou do comício
pela transmissão ao vivo. Estamos diante de uma nova arquitetura da disputa
política, na qual dados, capacidade computacional e conhecimento sobre os
eleitores se tornam recursos estratégicos de poder.
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Do eleitorado de massa ao eleitor mapeado
Na
campanha eleitoral convencional, uma mensagem era divulgada para públicos
amplos, com adaptações limitadas. Hoje, ferramentas de análise preditiva
permitem identificar grupos, reconhecer preocupações territoriais e produzir
comunicações específicas. A inteligência artificial generativa reduz o custo e
o tempo necessários para criar textos, imagens, áudios e vídeos, inclusive em
diferentes idiomas e estilos.
Para
além de ser um grande volume de informações, o big data constitui a capacidade
de integrar e processar dados diversos para orientar decisões precisas. Com a
inteligência artificial, torna-se possível reconhecer padrões, testar hipóteses
e estimar quais mensagens podem alcançar determinados públicos segmentados
previamente.
A
campanha passa a funcionar como um sistema de observação, experimentação e
intervenção. Cada publicação gera indicadores de alcance e interação que podem
orientar novas decisões. O planejamento deixa de depender exclusivamente de
pesquisas periódicas e incorpora sinais digitais continuamente.
Isso
não significa que os algoritmos conheçam com certeza as intenções dos
eleitores. Modelos produzem estimativas, podem reproduzir preconceitos e errar.
Tampouco significa que o contato presencial, os partidos e os debates perderam
importância. A novidade está na integração entre território, organização
política e inteligência computacional.
O risco
é que o cidadão deixe de ser tratado como participante da vida pública e passe
a ser visto apenas como um perfil comportamental a ser influenciado.
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O mundo já experimenta essa transformação
A
experiência internacional demonstra que a inteligência artificial já integra as
campanhas eleitorais. Na Índia, por exemplo, as ferramentas generativas foram
utilizadas para produzir mensagens, áudios e vídeos em línguas e dialetos
locais, ampliando o alcance da comunicação política.
A
tecnologia permite adaptar conteúdos a diferentes realidades culturais, mas
também facilita a fabricação de falsidades e a simulação de manifestações de
candidatos. Por isso, a eleição presidencial de 2024 em Taiwan foi acompanhada
por episódios de conteúdo sintético e operações de influência digital.
Exemplos
que evidenciam o quanto a disputa informacional ultrapassa fronteiras e pode
envolver atores externos ao processo eleitoral. Nos Estados Unidos, uma chamada
telefônica com voz artificial semelhante à de Joe Biden foi utilizada para
transmitir uma mensagem enganosa a eleitores durante as primárias de New
Hampshire, em 2024. A clonagem de voz mostrou como uma tecnologia acessível
pode ser empregada para confundir eleitores e prejudicar a participação
política.
Constata-se,
assim, o fenômeno de dimensão global. Pelo levantamento do International Panel
on the Information Environment identificou ocorrências de inteligência
artificial generativa em 80% dos 50 países com eleições nacionais competitivas
examinados em 2024. A pesquisa reuniu 215 incidentes reportados, muitos
envolvendo conteúdos criados ou manipulados digitalmente.
Os
dados não representam todos os usos da tecnologia nem demonstram, isoladamente,
impacto sobre os resultados eleitorais, mas evidenciam a amplitude do desafio.
Mas a lição é clara, uma vez que a inteligência artificial tem ampliado o
acesso à informação e comunicação política. Também contribui para baratear a
produção de falsidades, acelera ataques e dificulta a distinção entre conteúdos
autênticos e artificiais.
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O poder de decidir o que ganha visibilidade
A
campanha contemporânea depende de infraestruturas digitais que oferecem
publicidade segmentada, recomendação de conteúdos, mensuração de resultados e
acesso a públicos. Os seus sistemas influenciam quais mensagens ganham
visibilidade, quem é alcançado e como a informação circula.
Não
seria correto presumir que toda decisão algorítmica favoreça deliberadamente um
candidato. Mas tampouco se deve considerar neutro um sistema cujo funcionamento
não pode ser examinado adequadamente por partidos, pesquisadores, autoridades
eleitorais e sociedade.
Uma
mudança nas regras de recomendação, uma falha técnica ou uma decisão de
moderação pode alterar a circulação de conteúdos políticos. Sem transparência,
torna-se difícil distinguir erro, decisão comercial, aplicação desigual de
regras ou interferência intencional.
Há
também uma dimensão econômica. As campanhas destinam recursos crescentes à
publicidade e aos serviços digitais, enquanto parte relevante da infraestrutura
tecnológica pertence a empresas globais. A questão não é demonizar essas
empresas, mas compreender quem concentra os dados, as ferramentas e a
capacidade de distribuição da informação.
A
democracia não pode depender exclusivamente de sistemas privados cujos
critérios fundamentais permanecem inacessíveis ao escrutínio público.
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O Brasil precisa ir além da reação às falsidades
O país
avançou ao atualizar as regras eleitorais para enfrentar os riscos da
inteligência artificial. Resoluções do TSE definem tanto obrigações
relacionadas à identificação de conteúdos sintéticos quanto proíbem o uso de
deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas.
A
evolução tecnológica, porém, exige acompanhamento permanente e aperfeiçoamento
institucional. Isso porque não basta remover um vídeo falso depois que ele
alcançou milhões de pessoas. É necessário desenvolver capacidade para prevenir
abusos, preservar evidências, fiscalizar a publicidade política e assegurar
mecanismos de contestação às decisões que afetem a circulação de conteúdos
eleitorais.
Uma
agenda propositiva poderia começar por avançar em novos compromissos como a
transparência na publicidade eleitoral, pois financiadores, valores, critérios
de segmentação e públicos alcançados precisam ser identificáveis, com arquivos
públicos de anúncios acessíveis à fiscalização e à pesquisa independente.
Da
mesma forma, auditoria independente seria necessária para examinar como os
sistemas de recomendação e moderação afetam a circulação de conteúdos
políticos, preservando dados pessoais e evitando interferências partidárias. A
própria rastreabilidade da inteligência artificial deveria ser acompanhada por
conteúdos sintéticos identificados de maneira clara, com procedimentos rápidos
para enfrentar falsificações capazes de comprometer a liberdade de escolha.
Sem a
igualdade de condições, as regras aplicadas às candidaturas podem ser
intransparentes, inconsistentes e não passíveis de contestação. A capacidade
financeira ou tecnológica não pode se transformar em privilégio incontestável
na disputa democrática.
Por
fim, o salto necessário na capacidade pública de análise de dados que requer
investimentos em equipes, pesquisa, segurança digital e ferramentas próprias.
As autoridades não podem depender exclusivamente das informações fornecidas
pelas empresas que devem fiscalizar.
São
iniciativas que não significam rejeitar a inovação, mas justamente assegurar
que ela seja compatível com a liberdade política e o interesse público.
<><>Uma
inteligência artificial a serviço da democracia
A mesma
tecnologia que permite direcionar mensagens de forma opaca pode ajudar a
traduzir propostas, ampliar a acessibilidade, responder a dúvidas dos cidadãos,
comparar programas e identificar problemas coletivos. Também pode fortalecer o
jornalismo, a verificação de informações e a fiscalização cidadã, desde que
existam transparência, pluralidade e responsabilização.
O
desafio é mudar a perspectiva, pois em vez de utilizar dados apenas para
descobrir como influenciar eleitores, utilizá-los também para ampliar a
capacidade de compreensão e participação da sociedade. Enquanto a campanha
convencional organizava a disputa em torno da presença física e da comunicação
de massa, a atual acrescenta uma camada
de inteligência computacional que conecta dados, mensagens, publicidade e
comportamento. Ignorar essa transformação seria tentar compreender a economia
digital com os instrumentos de outra época.
Aceitar,
contudo, a mudança sem estabelecer limites seria entregar uma dimensão
essencial da democracia ao poder privado dos algoritmos. Isso porque o processo
eleitoral se transformou profundamente, não apenas por disputas por quem
mobiliza mais pessoas ou apresenta as melhores propostas, mas também por quem
controla os dados, interpreta comportamentos e influencia a circulação da
informação.
A
resposta democrática não passa por voltar ao passado nem temer os avanços
tecnológicos da era digital. A construção da soberania digital requer
transparência e capacidade pública para que a inteligência artificial amplie a
liberdade de escolha, em vez de convertê-la em objeto de manipulação.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em Brasil 247

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