Bifo:
O abismo raivoso do gerontofascismo
Manhã
de início do outono em Bolonha. Ainda se sente o calor do verão. Caminho pelas
ruelas do centro histórico da cidade velha, que preserva de forma incomparável
os vestígios de um passado medieval. Entre velhas portas de madeira com telas e
decorações em ferro fundido, varandas, arcos e galerias intermináveis sobre as quais se
erguem edifícios monumentais construídos em tijolo ou
pedra, ando pelas ruas estreitas desenhadas para uma vida de antes do automóvel.
Até chegar ao apartamento de Franco Berardi (Bolonha, 1949):
um prédio estranhamente construído em cima de uma antiga igreja, no lugar do
que deveria ser uma tradicional cúpula, ou seja, uma inusitada reformulação
arquitetônica que permite fazer todo tipo de brincadeiras e que poderia até
funcionar como símbolo da singularidade do pensamento do intelectual italiano.
Essa entrevista é o resultado de dois encontros. Bifo Berardi me recebe em seu
escritório, repleto de livros, onde conversamos por várias horas.
LEIA A
ENTREVISTA
·
Como sair da camisa de força do neoliberalismo, que nos
prende à ideia de que não há saída?
Bifo
Berardi – Na
minha percepção, na minha reconstrução da história da modernidade tardia, vejo
1977 como um ano crucial, em que houve uma virada radical na história cultural
do Ocidente. Há três ou mais coisas que para mim são relevantes. Uma delas é a
morte de Charles Chaplin. Sua morte é o desaparecimento da cortesia, da
gentileza, do sentimento ingênuo da modernidade. O homem que viveu a
industrialização com um sorriso desaparece. Com ele, metaforicamente, perece o
aspecto humano do capitalismo. Ao mesmo tempo, o Partido Conservador de
Margaret Thatcher toma o poder, preparando-se para vencer as eleições na
Inglaterra. Em uma entrevista de 1981, Thatcher diz uma frase que me parece
central: não há nada que possa ser definido como sociedade, existem apenas
famílias e indivíduos que competem entre si. Com ela, a humanidade acaba. Não
há humanidade como a entendíamos até então. Há uma guerra de todos contra
todos. Thatcher descreve a realidade como Charles Darwin, mas ao mesmo tempo
esquecendo que a modernidade foi um esforço para suspender uma guerra de todos
contra todos. Paradoxalmente, a modernidade importa uma civilização social. Não
uma que me interesse, mas que traz valores como a empatia, herança do
cristianismo, que mais tarde se expressaria no humanismo europeu, depois no
iluminismo e, finalmente, no socialismo. Essa virada termina brutalmente com o
surgimento do neoliberalismo.
·
É o que vivemos hoje?
Não há
diferença entre o neoliberalismo thatcherista e o nazismo. [A ideia comum é
que] se os fortes vencerem, o conjunto da sociedade se tornará mais forte.
É o mesmo ponto de vista do nazismo, que deixa de fora os fracos. Na mesma
época, Steve Jobs e Steve Wozniak – especialmente este – conceberam o primeiro
computador pessoal sob o lema democrático de que a informação capacita as
pessoas, fortalecendo-as politicamente. O de Wozniak é um conceito anárquico,
que me parece interessante. Em 1977, também, o então diretor da KGB, Yuri
Andropov, escreve uma carta a Leonid Brejnev na qual diz que o Ocidente está
vencendo a batalha da informação e que, se não houver progresso nesse campo,
seria o fim do regime comunista. Previsão que dez anos depois se tornaria realidade.
É o ano, em suma, em que a história progressiva da humanidade atinge um estágio
de realização e uma nova força emerge, o neoliberalismo, que, junto com o
surgimento de uma cultura diferente em nível tecnológico e antropológico, dará
origem a uma nova classe social que antes pertencia, em parte, à classe
trabalhadora, mas que terá um novo caráter e que chamei de cognitariado.
·
Essa nova classe social que surge com as políticas
neoliberais, o cognitariado, é a mesma classe homogênea e não politizada
da sociedade de consumo de que Pier Paolo Pasolini falou em seus artigos no
Corriere della Sera nos anos 1970, reunidos em Escritos corsários
(1975)?
Essa
visão de Pasolini me parece bastante simplista e populista. É exatamente o
oposto do meu pensamento. Pasolini representa uma visão pré-industrial: a
verdade e a espontaneidade do camponês, a ingenuidade, a defesa de valores
bastante conservadores, algo como um passado genuíno não contaminado. Gosto
muito dele como cineasta, mas não como poeta ou ensaísta.
·
Então, como definir o cognitariado?
O
conceito de cognitariado nasceu da leitura de um filósofo alemão pouco
conhecido, que morreu muito jovem, Hans Jürgen Krahl. Ele escreveu uma tese
sobre o trabalho técnico científico, que li em meados dos anos 1970 junto com
meu grupo político. Seu olhar remodela a figura do intelectual. Já não é puro,
porque passa a ter relações com o processo de produção, com os salários e a
exploração. Ele tem problemas materiais, está envolvido com as condições de
produção do seu trabalho. Ele é um sujeito técnico, precário, um tipo de
trabalhador que não precisa mais da fábrica. Ele é flexível, pode trabalhar 24
horas por dia, sete dias por semana. Não estabelece uma relação territorial, o
que abre ao capital a possibilidade de se libertar da lei, do caráter contratual
que caracterizou a forma industrial. O trabalhador cognitivo não tem a força da
massificação. É mais forte ao nível da produção, mas politicamente é mais
fraco. O que muda radicalmente são as condições de produção. Isso gera
consequências na relação com a linguagem, obviamente. Algo que tem sido levado
ao extremo hoje.
·
Em sua juventude, nos anos 1970, você foi um líder
estudantil em Bolonha e esteve na fundação de mídias alternativas como a Rádio
Alice, a primeira rádio pirata italiana, e a revista A/Traverso. Qual é
o papel desempenhado por trabalhadores e estudantes neste momento de mudança
radical na história?
Acho
que o movimento estudantil e operário dos anos 1970 estava parcialmente ciente
do que estava acontecendo naquela época. Mas há mais um elemento: a revista A/Traverso
estava ligada à Rádio Alice, o que também foi muito importante para as lutas
que estávamos realizando. Em meados dos anos setenta, as radiofrequências que
antes eram totalmente controladas foram liberadas e isso permitiu o surgimento
de grupos de radialistas anárquicos e intelectuais técnicos, que fundaram a
Rádio Alice, da qual fiz parte como membro do grupo editorial, juntamente com
semiólogos, filósofos, hippies, militantes radicais, músicos e novos grupos
tecnológicos. Formávamos uma espécie de “inteligência científica
auto-organizada”. Citando uma frase famosa de Mao, que falava de médicos
descalços que andavam em campo, nos referíamos a nós mesmos como “engenheiros
descalços”. Nossa ideia era intervir na realidade. Naquela época eu estava
tendo aulas em uma escola técnica. Misturávamos professores, trabalhadores,
estudantes de arte e música ligados à escola de Umberto Eco, e havia um forte
movimento feminista que também explodia nessa época. Essa conjunção de
ativismos era um perigo para os grupos de poder, e isso, somado à ação
subversiva armada, como a das Brigadas Vermelhas de Milão, gerou um clima muito
alvoroçado de protesto e repressão. Tive alguns contatos com as Brigadas
Vermelhas, mas não me interessava a forma de violência com que agiam. Eu não
concordava com isso. Em Bolonha não havia grupos armados, mas a repressão foi
brutal. Em Roma, um estudante morreu nas mãos de grupos fascistas. Em Bolonha,
um amigo médico foi assassinado pela polícia. A Rádio Alice convocou uma
rebelião geral e 10 mil pessoas saíram às ruas para destruir tudo. Não fomos
contra as pessoas, mas contra a propriedade. Como resultado de tudo isso,
fiquei preso por um mês.
·
Como foi a experiência na prisão? Que relação pode ser
estabelecida entre prisão e criação intelectual, para além das condições de
reclusão?
Fui
preso cinco vezes na vida, em momentos diferentes. Em 1969 (três meses), 1972
(seis meses), 1976 (um mês), 1978 (um mês) e 1979, em Paris (15 dias). Em
Bolonha, foi replicada nas paredes uma frase que dizia “Bifo livre”. Era como
uma piada. Naturalmente, eu li e escrevi muito lá. Paradoxalmente, é uma
oportunidade para pensar muito. Descobri a literatura de Borges, de García
Márquez. Meu primeiro conhecimento da América Latina foi através dessas
leituras na prisão. Leio muita poesia também. Além disso, as condições de
confinamento não eram as mesmas de agora. As prisões eram prédios antigos, de
500 anos, no meio da cidade. Uma das prisões em que eu estava ficava a 500
metros da minha casa, dava para ouvir o barulho lá fora, tudo parecia muito
próximo. Nada a ver com as prisões especiais de hoje que são construídas longe
da cidade e que realmente acentuam o isolamento e buscam quebrar
psicologicamente as pessoas.
·
Em relação à Rádio Alice e A/Traverso, que
importância você dá à posse dos meios de produção para a criação
artístico-intelectual?
Devemos
continuar pensando nas condições técnicas de produção para sustentar a
emancipação. Criar as condições técnicas para a produção é extremamente
importante. Tínhamos um engenheiro na Rádio Alice que se mostrou fundamental.
Quando a polícia cortava a nossa rádio, graças a ele pudemos reabri-la
rapidamente a cada vez em outro lugar. Isso permitiu sustentar nosso trabalho
de criação e reflexão radical, nossa tentativa de transformar completamente a
vida cotidiana. Eu tinha sido expulso do Partido Comunista Italiano, tínhamos
diferenças, tensões, mas éramos amigos. Com a Rádio Alice nos abrimos aos
movimentos de dissidência sexual, às lutas feministas, e toda essa abertura
gerou um panorama intelectual que pouco tinha a ver com o passado do movimento
operário, era muito mais amplo. A Rádio Alice, portanto, tornou-se um meio de
comunicação inesperado que canalizou diversas lutas, que teve contato real com
a comunidade. Chegou a ter mais de 30 mil ouvintes. Recebíamos ligações e as
pessoas contavam seus problemas. Não havia uma grade programática fechada, era
aberta. Havia música, poesia, conversa; tudo o que se quisesse fazer. Foi,
portanto, uma experiência de liberdade não mediada por nenhuma força ou
interesse concreto ou comercial. Respondendo à sua pergunta, é essencial ter
meios de produção, claro. Agora, A/Traverso era uma revista muito mais
programática. Víamos o transversalismo como uma forma de multiplicação do
significado. Usamos muita ironia, jogos de linguagem, para gerar um efeito não
só nos enunciados, mas também nos receptores. Nesse sentido, estávamos mais
próximos das influências da semiótica de um Umberto Eco do que do radicalismo
milanês de um Toni Negri. Ambas foram experiências coletivas extraordinárias. O
rádio era mais espontâneo, a revista mais programática. Mas ambos tinham como
objetivo compartilhar comunitariamente. A/Traverso não era uma revista
para o povo, era mais para poetas, intelectuais.
·
Você também participou de um projeto de televisão
comunitária, TV Orfeo.
A TV
Orfeo foi uma coisa completamente diferente, o que aconteceu bem mais tarde, em
2002. Muitos de nós que criamos a TV Orfeo viemos da Rádio Alice. A internet já
existia, o Partido Comunista Italiano praticamente acabou, e uma nova força
surgiu, o Partido Democrático de Esquerda, um partido bastante ambíguo em
vários aspectos, mas eles me pediram para criar esse experimento e eu assumi de
imediato, porque sempre me interessei pelo poder das comunicações. Eu estava
voltando de Nova York e Califórnia, e parecia uma boa oportunidade. Nesse
momento, Berlusconi assumiu o poder. O caráter de seu governo não poderia ser
definido como fascista: havia uma forte marca mafiosa, havia uma influência
significativa da direita pós-fascista, mas também havia um caráter
anarcocapitalista e barroco que era a marca essencial da cultura berlusconiana.
Apesar disso, a cultura da resistência sempre encontra suas formas de
expressão. Vimos na criação de uma televisão comunitária a possibilidade de
resistir a esse neofascismo e, especificamente, à homogeneização da televisão
na era Berlusconi. Foi assim que um amigo engenheiro nos deu a ideia e
nos ajudou a criar esse meio, apenas com uma antena de televisão. É uma coisa
muito técnica, mas basicamente o ponto era que, se uma antena pode receber
emissões, ela também pode enviá-las. Ele virou a antena e começamos a
transmitir. Seu alcance era pequeno, não passava de 500 metros, mas era algo
muito interessante. Se conseguíssemos multiplicar a existência de canais de
televisão gratuitos, poderíamos cobrir todo o território e de maneira legal.
Rapidamente, organizamos um Congresso Nacional de Televisões Livres e 62
equipes se reuniram. Em um ano, já éramos 200 e conseguimos compartilhar
ideias, interesses, preocupações. Tratava-se principalmente de canais
comunitários de televisão que tinham um campo de atuação limitado, mas muito
simbólico, que conseguiram resistir à hegemonia comunicativa do governo. Jovens
produtores vieram com seus vídeos e demos espaço para eles divulgarem suas criações.
Mas foi meio curto. Em 2004 surgiu o YouTube e gerou-se outra realidade,
uma dispersão que fez com que um meio como a TV Orfeo deixasse de fazer sentido
nas condições em que surgiu. A Rádio Alice foi uma experiência tecnicamente
eficaz. O efeito da TV Orfeo foi mais simbólico, pois não poderia seguir um
caminho técnico.
·
Voltando ao ano chave, 1977, o que aconteceu a seguir?
Nos
mesmos dias, em Londres, no Jubileu da Rainha, os Sex Pistols organizam o caos
anarquista no Tâmisa. Eles não tinham horizonte político, sua visão era
bastante apocalíptica: não há futuro, diziam. No future. A new wave
tinha um pouco disso, mas era mais como Nova York, mais intelectualizada, com
grupos como Talking Heads, por exemplo. A new wave em Londres, por outro
lado, acabou sendo muito mais superficial, muito mais radicalizada e cética.
Há, portanto, uma forte consciência de uma mudança de época, o que chamo de fim
da imaginação, fechando o ciclo dos movimentos estudantis dos anos 1960. Nós, é
claro, percebíamos isso de maneira parcialmente consciente. Sabíamos apenas que
havia uma profunda crise política e social e uma maravilhosa efervescência
cultural. Nesse período falávamos muito sobre a permanência do futurismo
histórico, por exemplo. Pensávamos que a vanguarda tinha finalmente se tornado
algo massivo. O sequestro de Aldo Moro, no entanto, foi uma tragédia que
desencadeou uma repressão ainda mais forte, que culminou em 1979 com a prisão
de 300 intelectuais em toda a Itália. Como resultado disso, fugi para os
Estados Unidos e lá trabalhei como crítico de música, como crítico cultural. E
depois disso se instalou uma anestesia generalizada, uma intoxicação em massa
alienante, permitindo que a frase No future entrasse no inconsciente
coletivo catastrofista.
·
Quanto tempo dura essa anestesia geral?
Depois
disso, nos anos 1990, com a difusão da internet e a utopia comunicativa que ela
trouxe, ressurgiu a esperança. Organizei na Itália uma conferência sobre novas
tecnologias. As utopias dos anos sessenta foram ressuscitadas sob os beirais da
tecnologia. Mas seu voo seria curto. As pontocom e os grupos proletários
de engenharia entraram em colapso e as grandes empresas globais assumiram o
poder da rede até hoje. Em Gênova [onde em 2001 ocorreu um dos maiores
movimentos antiglobalização durante a cúpula do G8], ocorre o fracasso
global do projeto “outro mundo é possível”. Gênova foi uma experiência muito
traumática, culturalmente chegou-se à ideia de que não há possibilidade de
quebrar a rede financeira global. Berlusconi absorveu a energia da mídia e o
movimento de massa foi permanentemente reprimido. E para piorar a situação, o
ministro do Interior de Berlusconi era um fascista que vinha do partido de
Mussolini. Então veio o 11 de Setembro das Torres Gêmeas e o início de uma
guerra perpétua, cujos efeitos ainda estamos experimentando hoje.
·
Que relação você faz com a expressão neoliberal na
América Latina?
Tenho
uma relação próxima com a América Latina, com amigos brasileiros, argentinos e
chilenos, mas não chego a entender completamente o cenário latino-americano. A
política continua a desempenhar um papel relevante na América Latina, um papel
que na Europa parece um pouco perdido. O “estallido” chileno para mim
foi algo extraordinário, me lembrou muito o que acabei de contar sobre Bolonha
nos anos setenta. E na época eu pensava que onde tudo começava, tudo poderia
acabar; onde a ditadura nazi-liberal começou, ela também pode acabar. Mas a
vitória das forças conservadoras me faz pensar como estava errado, que talvez
agora não haja saída política para a situação global. Agora, meu esquema
teórico é baseado na impotência política, o que não significa que não podemos
continuar imaginando outra dimensão, mas de outro corte, não apenas de natureza
política. Esse esquema me parece funcionar em todo o mundo, mas a América
Latina continua sendo um espaço diferente. Permanece, para mim, um enigma
teórico. Talvez seja a última esperança.
·
No Chile, a ideia de que não há futuro e que não há outra
alternativa ao neoliberalismo começou a fazer muito sentido, pelo menos desde
os anos 2000 de forma mais generalizada. Para nós, o sistema de seguridade
social europeu, a social-democracia, parecia um mito que finalmente poderíamos
acessar para começar a pensar em uma sociedade mais igualitária. Qual é o seu
olhar neste momento?
O gesto
de escolher [Gabriel] Boric parece um tanto heroico. Você pode ganhar as
eleições, pode gerar algumas leis e promover pequenas mudanças, mas ainda não
consegue tocar os interesses das grandes corporações econômicas. Isso parece
inevitável.
·
Como você vê a ascensão das expressões neofascistas tanto
na Europa quanto na América Latina?
Não é
novo. Brexit, Trump, Grécia; tudo é expressão do triunfo do capitalismo
financeiro. Agiu de tal maneira que permitiu uma forma racionalizada da
economia. Isso tem a ver com uma mudança tecno-antropológica de tal
complexidade, com uma complexidade tão alta, uma velocidade de
circulação da informação tão sofisticada, que não conseguimos processar as
mudanças.
·
Os bots têm mais força que a vontade humana…
Claro,
a máquina não tem vontade. Mas ele tem uma força quase irrefreável. Pense no
que aconteceu na Grécia há alguns anos. A Grécia como país não existe. Tudo foi
vendido. Toda a sua riqueza foi destruída. A eletricidade, os portos, todo o
sistema econômico grego foi vendido ao exterior. E os serviços sociais foram
esmagados. Os jovens gregos estão emigrando. Todo o país foi esvaziado. Que
demonstração mais trágica do que essa?
·
Como o automatismo financeiro está ligado ao neofascismo?
O mundo
como o conhecíamos está desaparecendo. O poder político não pode fazer nada
contra algoritmos. Agora, o fascismo como o entendemos hoje não é assim. É
outra forma de fascismo. É uma violência, uma agressividade, uma psicopatia
agressiva desesperada que destrói a democracia, pois não resolve as condições
básicas da vida. Como ela não satisfaz o suficiente, destruímos a democracia. O
fascismo do século XX nasceu em uma condição de expansão imperialista e
econômica. Era um fascismo dos jovens, de uma pequena burguesia vital,
agressiva, exuberante. O fascismo de hoje eu defino como gerontofascismo,
porque a possibilidade de expansão acabou, o sentimento principal é de
exaustão, de depressão senil. Aqueles que votam pela direita também são jovens,
mas poucos; a maioria está na casa dos quarenta, cinquenta ou mais. O fascismo
do século XX propôs a colonização da África, agora são os africanos que vêm
para a Europa e não o contrário. Não se trata de euforia colonialista, trata-se
de medo de invasão. A fala de Giorgia Meloni, entre outras coisas, expressa e
canaliza esse medo e ódio.
·
A revolta no Chile foi uma emergência do caos, uma força
que disse “chega de abusos, chega desse modo de vida individualista”. A solução
política que poderia ter sido uma nova Constituição acabou sendo uma grande
derrota e hoje há um certo desencanto. Não há como voltar atrás?
A
loucura pode ser política. Pode ser potência criadora, esperança. Agora, a
condição psíquica prevalente foi mais uma vez a depressão. Mas quando falamos
da nova geração, aquela que aprendeu mais palavras com uma máquina do que com a
voz da mãe, acho que não podemos falar de depressão no mesmo sentido que Mark
Fisher falou em The Ghosts of My Life (2013). A depressão da geração
Fisher foi efeito da decepção, da queda de um desejo investido na felicidade,
na democracia, nos valores progressistas. Agora não há mais uma queda ou uma
decepção. Há uma recusa ao desejo, há uma forma de desinvestimento do desejo
que não podemos mais definir como depressão. Não é depressão, é deserção, eu
acho. Deserção da guerra do trabalho, da competição, do futuro… Deserção do
futuro, não depressão. Meu próximo livro, que ainda não foi traduzido para o
português, chama-se Deserção. A tese é que as novas gerações nunca
investiram seu desejo em uma esperança para o futuro. Eles não têm depressão
porque não perderam nada. Eles não foram conectados à realidade. Eles nunca
viveram a realidade. Isso me parece uma mudança política radical. A imersão
tecnológica está mudando as modalidades da atividade cognitiva e,
consequentemente, está mudando as expectativas para o futuro. Por isso, a
impotência do poder político é o ponto de partida desta geração. É algo que se
traduz mais em buscas de gratificação pessoal e somente os mais conscientes e
com mais recursos são capazes de pensar formas de vida comunitária, buscando
soluções coletivas para este problema.
·
O que fica para o resto?
O papel
de profeta me assusta. Parece-me que nos últimos 20, 25 anos imaginei um futuro
muito sombrio e as previsões se tornaram realidade. Eu decidi parar. O conceito
de extinção nunca havia sido pronunciado no campo da política e emergiu
fortemente nos últimos anos. Define muito bem o futuro da humanidade após 40
anos de ditadura neoliberal e as últimas décadas de ditadura digital. Essas
duas condições eliminaram a possibilidade de transformar politicamente os modos
de vida da maioria da população. Perdemos a guerra. A guerra acabou. Não sei se
as novas gerações serão capazes de criar novas formas de vida. O fim do futuro,
nesse contexto, é uma banalidade. Uma obviedade. Hoje, o senso comum é de que
não há futuro.
Fonte:
Por Franco “Bifo” Berardi em entrevista a Claudio Guerrero Valenzuela em
Palabra Pública | Tradução: Maurício Ayer, para Outras Palavras

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