Como
PF e PGR mapeiam suposta rede de exploração sexual de Vorcaro
A
Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) trabalham para mapear
a suposta rede de exploração sexual de mulheres que teria sido operada pelo
banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Duas
fontes ouvidas pela BBC News Brasil familiarizadas com o caso detalharam as
principais frentes de investigação. Os investigadores apuram duas principais
suspeitas relacionadas ao empresário.
A
primeira apura se Vorcaro se beneficiou, direta ou indiretamente, dessa suposta
rede. A suspeita é de que ele teria utilizado essa rede para obter acesso e
influência sobre políticos, autoridades e empresários.
A
segunda é a de que ele teria conhecimento e autorizado o recrutamento e o
transporte, doméstico e internacional, de mulheres para a prática de
prostituição em alguns dos eventos financiados por ele.
A pena
para o crime de exploração sexual varia de dois a cinco anos de prisão. O
tráfico de pessoas para fins de exploração sexual pode levar a penas de cinco a
oito anos de detenção.
A
investigação, que ainda está em fase preliminar, foi revelada nesta semana pelo
portal UOL. Ela já mapeou pelo menos três pessoas, além de Vorcaro, que teriam
dado suporte à suposta rede.
A BBC
News Brasil enviou questionamentos sobre a investigação à defesa de Vorcaro,
mas não recebeu respostas.
Na
terça-feira (13/10), em manifestação sobre outra reportagem, a defesa de
Vorcaro negou a prática de exploração sexual de mulheres.
"Nego
veementemente que tenha, em algum momento, explorado ou desrespeitado mulheres.
Isso não é da minha índole. Na verdade, a falsa narrativa criada é exatamente o
oposto do que sou, o que pode ser confirmado por qualquer mulher que me
conheceu ou com quem me relacionei", disse.
As
mensagens extraídas do telefone celular do banqueiro, preso desde março deste
ano por supostos crimes contra o sistema financeiro nacional, revelam contatos
com promotores de eventos no Brasil e no exterior que organizaram festas para
Vorcaro ao longo dos últimos três anos com a presença de mulheres.
Sua
defesa vem tentando firmar um acordo de colaboração premiada com as
autoridades, mas até agora o acordo não foi celebrado.
Em
depoimentos prestados desde o ano passado, Vorcaro negou ter cometido
irregularidades.
A BBC
News Brasil obteve acesso às mensagens extraídas pela Polícia Federal do
telefone de Vorcaro.
As
fontes ouvidas pela BBC News Brasil disseram que a investigação considera o
fato de que, no Brasil, a prostituição não é crime, mas que a exploração dela
por terceiros, sim, é passível de punição criminal.
Procuradores
da PGR e da PF mantiveram reuniões sobre o assunto nos últimos meses, mas as
investigações não fazem parte de um inquérito específico. A expectativa,
segundo uma fonte da PF informou a BBC News Brasil, é de que um inquérito
dedicado ao assunto seja aberto em breve.
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'Vou já escravizar ela pra hoje'
As
fontes afirmam que as principais perguntas sobre a suposta rede operada por
Vorcaro são:
• A contratação de mulheres supostamente
financiada por Vorcaro previa a exploração sexual ou apenas a presença social
das mulheres em eventos?
• Qual era a dinâmica financeira dos
intermediários e se havia cobrança de "pedágio" sobre os repasses
feito às mulheres?
• Houve exploração da situação de
vulnerabilidade das mulheres contratadas?
• Existe comprovação de vinculação direta
entre a suposta oferta de acompanhantes e contrapartidas de agentes públicos ou
privados?
Para
responder a essas perguntas, a investigação, inicialmente, deverá focar sua
atenções em três pessoas, além de Vorcaro.
Um
deles, segundo os investigadores, é o empresário Leo Serrano, sócio da empresa
SL Consulting.
As
mensagens do telefone de Vorcaro sugerem que a empresa era responsável por
parte da logística internacional dos eventos de Vorcaro.
Mensagens
trocadas entre os dois obtidas pela BBC News Brasil mostram Vorcaro solicitando
o transporte de mulheres para Nova York para um evento em maio de 2024.
"O
voo das kengas tem que sair de manhã", disse o banqueiro.
"Kenga" era o termo usado por Vorcaro para se referir a algumas das
mulheres que participavam de eventos patrocinados por ele. O termo é
frequentemente usado para se referir a garotas de programa.
"Não
posso chegar junto com elas", complementou o banqueiro.
"Ok,
vou colocar 10:00am Domingo, vai pousar em NY por volta das 20:00",
respondeu Serrano.
Procurada,
a defesa de Serrano disse que sua empresa não participou de atividades
ilícitas.
A
empresa, conhecida e respeitada no mercado, presta serviços de viagens e
eventos, para vários clientes, sempre atuando com profissionalismo e ética. Em
hipótese alguma tinha conhecimento ou compactou com qualquer atividade
ilícita", disse.
Outra
pessoa na mira dos investigadores é o promotor de eventos Diogo Batista.
Em
mensagens inicialmente reveladas pelo portal UOL e obtidas pela BBC News
Brasil, Batista e Vorcaro citam a participação de mulheres estrangeiras em
eventos financiados pelo banqueiro.
Em
diversos casos, foram encontradas citações a refugiadas ucranianas e termos
como "escravizar" em referência a mulheres.
"Mãe
dela mandou áudio dos bombardeios", disse Diogo em referência a uma mulher
de nacionalidade ucraniana localizada para participar de um evento patrocinado
por Vorcaro.
"Segurei
ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália", continuou o promoter.
"Que
loucura", prosseguiu o promoter em mensagem enviada a Vorcaro no dia 14 de
dezembro de 2023.
Em
outro trecho da conversa, Diogo Batista diz que "escravizaria" uma
mulher para trabalhar para eles.
"Vou
operar uma agência aqui", disse.
"...
as gatas daí moram fora", continuou o promoter.
"Essa
minha amiga conhece Mule", prosseguiu em possível referência ao termo
"mulher".
"Vou
já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí", continuou o
promoter em mensagem enviada no dia 29 de novembro de 2023.
A BBC
News Brasil contactou Batista por meio de mensagens de texto e enviou
questionamentos a ele, mas até o momento, nenhuma resposta foi recebida. A BBC
News Brasil não conseguiu identificar se ele tem advogados.
Segundo
as fontes ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado, a investigação
ainda precisa determinar se os pagamentos feitos à SL Consulting e a Diogo
Batista se referiam apenas à presença de mulheres em eventos ou se envolviam na
organização de encontros sexuais.
Segundo
os investigadores, a apuração deverá tentar rastrear o fluxo de dinheiro e
definir quem contratava, pagava e coordenava os deslocamentos.
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Pessoa-chave
A
terceira pessoa a ser investigada é uma mulher que, nas mensagens trocadas com
Vorcaro, aparece fazendo cobranças relacionadas à participação dela e de outras
mulheres em festas promovidas pelo banqueiro.
É ela
que cobra Vorcaro, em 2025, o pagamento supostamente destinado a uma amiga que,
segundo ela, teria "ficado" com um homem chamado "Kassio".
O
portal UOL e a revista Piauí apontam que essa menção pode se referir ao
ministro Kassio Nunes Marques.
Procurada
pela BBC News Brasil sobre o assunto, a assessoria de imprensa do ministro
enviou uma nota negando ter pedido qualquer favor ao banqueiro.
"O
ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive
deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu
nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome
dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros",
diz um trecho da nota. .
Essa
mulher, cujo nome completo ainda não foi identificado, é vista como uma
pessoa-chave para compreender se Vorcaro organizava festas eventos voltadas
para a prática da prostituição para tirar proveito direto ou indireto disso.
Até o
momento, segundo as fontes, não foram identificados indícios de violência
física ou ameaça explícita na operação dessa suposta rede.
A
investigação procura ainda verificar se houve algum tipo de fraude ou abuso da
condição de vulnerabilidade das mulheres envolvidas.
As duas
fontes ouvidas pela BBC News Brasil sobre o caso afirmam que há dois fatores
complicadores nesta investigação.
O
primeiro é identificar se os supostos serviços sexuais prestados pela rede
tinham alguma contrapartida de políticos, empresários ou autoridades.
Este
ponto é considerado importante, mas, um dos investigadores afirmou que, ainda
que não seja localizado um ato de ofício decorrente de um favor sexual
financiado por Vorcaro, o banqueiro ainda assim poderia responder por se
favorecer, ainda que indiretamente, da exploração sexual de mulheres.
O
segundo ponto complicado da investigação é estabelecer o alcance internacional
dessa suposta rede.
Segundo
os investigadores, para isso é necessário identificar mulheres fora do Brasil e
ouvir os seus depoimentos.
Os
investigadores reconhecem ainda que muitas dessas mulheres talvez não queiram
se identificar ou prestar depoimento para evitar suas próprias exposições.
• Marco Aurélio questiona capa da Veja
sobre Vorcaro: ‘estratégia parece ser a de fabricar delação com interesses
eleitorais’
O
advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo jurídico Prerrogativas
e um dos coordenadores da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), criticou a nova capa da revista Veja e levantou suspeitas sobre uma
possível tentativa de construir uma delação premiada do ex-banqueiro Daniel
Vorcaro com objetivos eleitorais. Segundo o jurista, a estratégia teria como
finalidade atingir Lula, beneficiar o senador Flávio Bolsonaro (Pl-RJ) e criar
condições para que o ex-controlador do Banco Master obtenha vantagens
judiciais.
Em
nota, Carvalho questionou a utilização de declarações de Natália Vorcaro, irmã
do ex-banqueiro, para alimentar expectativas sobre uma eventual colaboração com
a Justiça. Na avaliação do advogado, a sequência de reportagens da Veja, às
vésperas do segundo turno presidencial, levanta dúvidas sobre os interesses
envolvidos na divulgação das informações.
“A nova
capa da revista Veja, baseada em declarações de Natália Vorcaro, irmã do
ex-banqueiro Daniel Vorcaro, reforça as suspeitas de uma tentativa de construir
artificialmente uma delação premiada do ex-banqueiro, com claros objetivos
eleitorais, para favorecer Flávio Bolsonaro e assim obter sua liberdade”,
afirma Carvalho na nota.
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Jurista questiona divulgação de áudios pela Veja
Carvalho
também criticou a forma como a revista apresentou as declarações de Natália
Vorcaro. Segundo ele, a publicação já havia divulgado uma gravação editada do
ex-banqueiro e agora utiliza áudios de sua irmã para sustentar a expectativa de
que Daniel Vorcaro estaria disposto a prestar depoimentos e revelar informações
às autoridades.
O
advogado ressaltou que Natália está em liberdade e poderia conceder entrevistas
diretamente, sem necessidade de divulgação de gravações. Para Carvalho, a
possibilidade de uma delação precisa ser examinada a partir de elementos
concretos, e não de declarações de familiares ou de expectativas produzidas por
reportagens.
“A
suspeita, porém, é de que não se trate de uma iniciativa genuína de colaboração
com a Justiça, mas de uma operação com objetivos eleitorais, destinada a
favorecer Flávio Bolsonaro, com quem o ex-banqueiro manteve relações pessoais e
financeiras, na expectativa de obter benefícios judiciais e recuperar sua
liberdade”, destaca o jurista em um trecho da nota.
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Marco Aurélio contesta acusações envolvendo Lula
Outro
ponto abordado pelo coordenador do Prerrogativas diz respeito às referências a
supostos investimentos de fundos de pensão federais no Banco Master.
Carvalho
sustenta que esses investimentos não ocorreram e afirma que a própria
reportagem da Veja apresentaria informações incompatíveis com as suspeitas
levantadas.
“Mais
grave é a insistência da revista Veja em acusações sobre supostos investimentos
de fundos de pensão federais, que jamais ocorreram, como a própria reportagem
evidencia”, afirmou.
O
advogado também rejeitou a interpretação de que uma eventual colaboração de
Vorcaro representaria necessariamente uma ameaça ao presidente Lula.
Na
nota, argumentou que a liquidação do Banco Master e a prisão de seu controlador
ocorreram durante o atual governo, circunstâncias que, em sua avaliação,
contrariam a tentativa de associar o presidente à proteção do ex-banqueiro.
“Ao
contrário de Flávio Bolsonaro, o presidente Lula não teme uma delação de Daniel
Vorcaro, até porque foi no governo Lula que o banco Master foi liquidado e seu
controlador preso”, declarou.
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Advogado defende investigação de eventuais ilícitos eleitorais
Na
parte final do posicionamento, Marco Aurélio de Carvalho afirmou que uma
delação premiada não pode ser construída a partir de especulações divulgadas
pela imprensa. Para ele, uma colaboração efetiva com as autoridades depende da
apresentação de informações verificáveis e elementos probatórios.
“Veja
não vai conseguir uma delação de Daniel Vorcaro com armações midiáticas. Uma
colaboração com a Justiça exige fatos, documentos e provas. Não nasce de
manchetes, insinuações ou declarações de familiares utilizadas para antecipar
uma narrativa acusatória”, afirmou.
O
jurista também defendeu a apuração de eventuais irregularidades eleitorais,
caso seja demonstrado que acusações sem comprovação foram utilizadas
deliberadamente para interferir na disputa presidencial.
“A
instrumentalização eleitoral de acusações não comprovadas constitui crime
eleitoral e exige investigação pelas autoridades competentes. A liberdade de
imprensa é indispensável à democracia, mas não afasta a responsabilidade por
eventuais ilícitos eleitorais”, declarou.
Carvalho
encerrou a nota com uma crítica à possibilidade de utilização de uma
colaboração judicial como instrumento de disputa política. “Delação não se
fabrica em capa de revista. Acusação não substitui prova. E o processo
eleitoral brasileiro não pode ser manipulado para atender a interesses
políticos ou particulares.”
Fonte:
BBC News Brasil/Brasil 247

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