sábado, 17 de outubro de 2026

Como PF e PGR mapeiam suposta rede de exploração sexual de Vorcaro

A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) trabalham para mapear a suposta rede de exploração sexual de mulheres que teria sido operada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil familiarizadas com o caso detalharam as principais frentes de investigação. Os investigadores apuram duas principais suspeitas relacionadas ao empresário.

A primeira apura se Vorcaro se beneficiou, direta ou indiretamente, dessa suposta rede. A suspeita é de que ele teria utilizado essa rede para obter acesso e influência sobre políticos, autoridades e empresários.

A segunda é a de que ele teria conhecimento e autorizado o recrutamento e o transporte, doméstico e internacional, de mulheres para a prática de prostituição em alguns dos eventos financiados por ele.

A pena para o crime de exploração sexual varia de dois a cinco anos de prisão. O tráfico de pessoas para fins de exploração sexual pode levar a penas de cinco a oito anos de detenção.

A investigação, que ainda está em fase preliminar, foi revelada nesta semana pelo portal UOL. Ela já mapeou pelo menos três pessoas, além de Vorcaro, que teriam dado suporte à suposta rede.

A BBC News Brasil enviou questionamentos sobre a investigação à defesa de Vorcaro, mas não recebeu respostas.

Na terça-feira (13/10), em manifestação sobre outra reportagem, a defesa de Vorcaro negou a prática de exploração sexual de mulheres.

"Nego veementemente que tenha, em algum momento, explorado ou desrespeitado mulheres. Isso não é da minha índole. Na verdade, a falsa narrativa criada é exatamente o oposto do que sou, o que pode ser confirmado por qualquer mulher que me conheceu ou com quem me relacionei", disse.

As mensagens extraídas do telefone celular do banqueiro, preso desde março deste ano por supostos crimes contra o sistema financeiro nacional, revelam contatos com promotores de eventos no Brasil e no exterior que organizaram festas para Vorcaro ao longo dos últimos três anos com a presença de mulheres.

Sua defesa vem tentando firmar um acordo de colaboração premiada com as autoridades, mas até agora o acordo não foi celebrado.

Em depoimentos prestados desde o ano passado, Vorcaro negou ter cometido irregularidades.

A BBC News Brasil obteve acesso às mensagens extraídas pela Polícia Federal do telefone de Vorcaro.

As fontes ouvidas pela BBC News Brasil disseram que a investigação considera o fato de que, no Brasil, a prostituição não é crime, mas que a exploração dela por terceiros, sim, é passível de punição criminal.

Procuradores da PGR e da PF mantiveram reuniões sobre o assunto nos últimos meses, mas as investigações não fazem parte de um inquérito específico. A expectativa, segundo uma fonte da PF informou a BBC News Brasil, é de que um inquérito dedicado ao assunto seja aberto em breve.

<><> 'Vou já escravizar ela pra hoje'

As fontes afirmam que as principais perguntas sobre a suposta rede operada por Vorcaro são:

•        A contratação de mulheres supostamente financiada por Vorcaro previa a exploração sexual ou apenas a presença social das mulheres em eventos?

•        Qual era a dinâmica financeira dos intermediários e se havia cobrança de "pedágio" sobre os repasses feito às mulheres?

•        Houve exploração da situação de vulnerabilidade das mulheres contratadas?

•        Existe comprovação de vinculação direta entre a suposta oferta de acompanhantes e contrapartidas de agentes públicos ou privados?

Para responder a essas perguntas, a investigação, inicialmente, deverá focar sua atenções em três pessoas, além de Vorcaro.

Um deles, segundo os investigadores, é o empresário Leo Serrano, sócio da empresa SL Consulting.

As mensagens do telefone de Vorcaro sugerem que a empresa era responsável por parte da logística internacional dos eventos de Vorcaro.

Mensagens trocadas entre os dois obtidas pela BBC News Brasil mostram Vorcaro solicitando o transporte de mulheres para Nova York para um evento em maio de 2024.

"O voo das kengas tem que sair de manhã", disse o banqueiro. "Kenga" era o termo usado por Vorcaro para se referir a algumas das mulheres que participavam de eventos patrocinados por ele. O termo é frequentemente usado para se referir a garotas de programa.

"Não posso chegar junto com elas", complementou o banqueiro.

"Ok, vou colocar 10:00am Domingo, vai pousar em NY por volta das 20:00", respondeu Serrano.

Procurada, a defesa de Serrano disse que sua empresa não participou de atividades ilícitas.

A empresa, conhecida e respeitada no mercado, presta serviços de viagens e eventos, para vários clientes, sempre atuando com profissionalismo e ética. Em hipótese alguma tinha conhecimento ou compactou com qualquer atividade ilícita", disse.

Outra pessoa na mira dos investigadores é o promotor de eventos Diogo Batista.

Em mensagens inicialmente reveladas pelo portal UOL e obtidas pela BBC News Brasil, Batista e Vorcaro citam a participação de mulheres estrangeiras em eventos financiados pelo banqueiro.

Em diversos casos, foram encontradas citações a refugiadas ucranianas e termos como "escravizar" em referência a mulheres.

"Mãe dela mandou áudio dos bombardeios", disse Diogo em referência a uma mulher de nacionalidade ucraniana localizada para participar de um evento patrocinado por Vorcaro.

"Segurei ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália", continuou o promoter.

"Que loucura", prosseguiu o promoter em mensagem enviada a Vorcaro no dia 14 de dezembro de 2023.

Em outro trecho da conversa, Diogo Batista diz que "escravizaria" uma mulher para trabalhar para eles.

"Vou operar uma agência aqui", disse.

"... as gatas daí moram fora", continuou o promoter.

"Essa minha amiga conhece Mule", prosseguiu em possível referência ao termo "mulher".

"Vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí", continuou o promoter em mensagem enviada no dia 29 de novembro de 2023.

A BBC News Brasil contactou Batista por meio de mensagens de texto e enviou questionamentos a ele, mas até o momento, nenhuma resposta foi recebida. A BBC News Brasil não conseguiu identificar se ele tem advogados.

Segundo as fontes ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado, a investigação ainda precisa determinar se os pagamentos feitos à SL Consulting e a Diogo Batista se referiam apenas à presença de mulheres em eventos ou se envolviam na organização de encontros sexuais.

Segundo os investigadores, a apuração deverá tentar rastrear o fluxo de dinheiro e definir quem contratava, pagava e coordenava os deslocamentos.

<><> Pessoa-chave

A terceira pessoa a ser investigada é uma mulher que, nas mensagens trocadas com Vorcaro, aparece fazendo cobranças relacionadas à participação dela e de outras mulheres em festas promovidas pelo banqueiro.

É ela que cobra Vorcaro, em 2025, o pagamento supostamente destinado a uma amiga que, segundo ela, teria "ficado" com um homem chamado "Kassio".

O portal UOL e a revista Piauí apontam que essa menção pode se referir ao ministro Kassio Nunes Marques.

Procurada pela BBC News Brasil sobre o assunto, a assessoria de imprensa do ministro enviou uma nota negando ter pedido qualquer favor ao banqueiro.

"O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros", diz um trecho da nota. .

Essa mulher, cujo nome completo ainda não foi identificado, é vista como uma pessoa-chave para compreender se Vorcaro organizava festas eventos voltadas para a prática da prostituição para tirar proveito direto ou indireto disso.

Até o momento, segundo as fontes, não foram identificados indícios de violência física ou ameaça explícita na operação dessa suposta rede.

A investigação procura ainda verificar se houve algum tipo de fraude ou abuso da condição de vulnerabilidade das mulheres envolvidas.

As duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil sobre o caso afirmam que há dois fatores complicadores nesta investigação.

O primeiro é identificar se os supostos serviços sexuais prestados pela rede tinham alguma contrapartida de políticos, empresários ou autoridades.

Este ponto é considerado importante, mas, um dos investigadores afirmou que, ainda que não seja localizado um ato de ofício decorrente de um favor sexual financiado por Vorcaro, o banqueiro ainda assim poderia responder por se favorecer, ainda que indiretamente, da exploração sexual de mulheres.

O segundo ponto complicado da investigação é estabelecer o alcance internacional dessa suposta rede.

Segundo os investigadores, para isso é necessário identificar mulheres fora do Brasil e ouvir os seus depoimentos.

Os investigadores reconhecem ainda que muitas dessas mulheres talvez não queiram se identificar ou prestar depoimento para evitar suas próprias exposições.

•        Marco Aurélio questiona capa da Veja sobre Vorcaro: ‘estratégia parece ser a de fabricar delação com interesses eleitorais’

O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo jurídico Prerrogativas e um dos coordenadores da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), criticou a nova capa da revista Veja e levantou suspeitas sobre uma possível tentativa de construir uma delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com objetivos eleitorais. Segundo o jurista, a estratégia teria como finalidade atingir Lula, beneficiar o senador Flávio Bolsonaro (Pl-RJ) e criar condições para que o ex-controlador do Banco Master obtenha vantagens judiciais.

Em nota, Carvalho questionou a utilização de declarações de Natália Vorcaro, irmã do ex-banqueiro, para alimentar expectativas sobre uma eventual colaboração com a Justiça. Na avaliação do advogado, a sequência de reportagens da Veja, às vésperas do segundo turno presidencial, levanta dúvidas sobre os interesses envolvidos na divulgação das informações.

“A nova capa da revista Veja, baseada em declarações de Natália Vorcaro, irmã do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, reforça as suspeitas de uma tentativa de construir artificialmente uma delação premiada do ex-banqueiro, com claros objetivos eleitorais, para favorecer Flávio Bolsonaro e assim obter sua liberdade”, afirma Carvalho na nota.

<><> Jurista questiona divulgação de áudios pela Veja

Carvalho também criticou a forma como a revista apresentou as declarações de Natália Vorcaro. Segundo ele, a publicação já havia divulgado uma gravação editada do ex-banqueiro e agora utiliza áudios de sua irmã para sustentar a expectativa de que Daniel Vorcaro estaria disposto a prestar depoimentos e revelar informações às autoridades.

O advogado ressaltou que Natália está em liberdade e poderia conceder entrevistas diretamente, sem necessidade de divulgação de gravações. Para Carvalho, a possibilidade de uma delação precisa ser examinada a partir de elementos concretos, e não de declarações de familiares ou de expectativas produzidas por reportagens.

“A suspeita, porém, é de que não se trate de uma iniciativa genuína de colaboração com a Justiça, mas de uma operação com objetivos eleitorais, destinada a favorecer Flávio Bolsonaro, com quem o ex-banqueiro manteve relações pessoais e financeiras, na expectativa de obter benefícios judiciais e recuperar sua liberdade”, destaca o jurista em um trecho da nota.

<><> Marco Aurélio contesta acusações envolvendo Lula

Outro ponto abordado pelo coordenador do Prerrogativas diz respeito às referências a supostos investimentos de fundos de pensão federais no Banco Master.

Carvalho sustenta que esses investimentos não ocorreram e afirma que a própria reportagem da Veja apresentaria informações incompatíveis com as suspeitas levantadas.

“Mais grave é a insistência da revista Veja em acusações sobre supostos investimentos de fundos de pensão federais, que jamais ocorreram, como a própria reportagem evidencia”, afirmou.

O advogado também rejeitou a interpretação de que uma eventual colaboração de Vorcaro representaria necessariamente uma ameaça ao presidente Lula.

Na nota, argumentou que a liquidação do Banco Master e a prisão de seu controlador ocorreram durante o atual governo, circunstâncias que, em sua avaliação, contrariam a tentativa de associar o presidente à proteção do ex-banqueiro.

“Ao contrário de Flávio Bolsonaro, o presidente Lula não teme uma delação de Daniel Vorcaro, até porque foi no governo Lula que o banco Master foi liquidado e seu controlador preso”, declarou.

<><> Advogado defende investigação de eventuais ilícitos eleitorais

Na parte final do posicionamento, Marco Aurélio de Carvalho afirmou que uma delação premiada não pode ser construída a partir de especulações divulgadas pela imprensa. Para ele, uma colaboração efetiva com as autoridades depende da apresentação de informações verificáveis e elementos probatórios.

“Veja não vai conseguir uma delação de Daniel Vorcaro com armações midiáticas. Uma colaboração com a Justiça exige fatos, documentos e provas. Não nasce de manchetes, insinuações ou declarações de familiares utilizadas para antecipar uma narrativa acusatória”, afirmou.

O jurista também defendeu a apuração de eventuais irregularidades eleitorais, caso seja demonstrado que acusações sem comprovação foram utilizadas deliberadamente para interferir na disputa presidencial.

“A instrumentalização eleitoral de acusações não comprovadas constitui crime eleitoral e exige investigação pelas autoridades competentes. A liberdade de imprensa é indispensável à democracia, mas não afasta a responsabilidade por eventuais ilícitos eleitorais”, declarou.

Carvalho encerrou a nota com uma crítica à possibilidade de utilização de uma colaboração judicial como instrumento de disputa política. “Delação não se fabrica em capa de revista. Acusação não substitui prova. E o processo eleitoral brasileiro não pode ser manipulado para atender a interesses políticos ou particulares.”

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

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