Sara
York: HIV, vacinas e o dano de Bolsonaro, o presidente das fake news
Passei
a vida adulta ouvindo que a cura do HIV estava a poucos anos de distância, e é
com essa memória de promessa adiada que leio agora a notícia vinda da Nature,
em que pesquisadores do La Jolla Institute, da Scripps Research e da IAVI
relatam, depois de catorze anos de colaboração, uma vacina que gerou em número
alto anticorpos amplamente neutralizantes em primatas, aqueles raríssimos que
reconhecem o HIV mesmo quando ele muda e que até aqui só se encontravam em
poucas pessoas vivendo com o vírus. A estratégia, chamada direcionamento da
linhagem germinativa, em vez de apresentar o vírus inteiro ao organismo, conduz
as células de defesa por etapas, com uma dose inicial que as desperta e
reforços que as guiam até o amadurecimento certo, e funcionou em cerca de 44%
dos animais, número que os próprios autores consideram insuficiente. O
entusiasmo precisa vir com as ressalvas que a própria ciência faz: não se
testou se esses anticorpos impedem a infecção, e em humanos só a dose inicial
foi avaliada, ficando o esquema completo para um estudo futuro, de modo que a
vacina permanece um horizonte, mais próximo do que já foi, mas ainda um
horizonte.
O que
existe hoje, e é por isso que escrevo, está mais perto da vida de quem lê do
que qualquer vacina. Em janeiro de 2026 a Anvisa aprovou o lenacapavir como
alternativa de profilaxia pré-exposição, uma injeção semestral que dispensa o
comprimido de todo dia, e a Organização Mundial da Saúde já o havia recomendado
em julho de 2025 como a melhor alternativa depois de uma vacina, recurso que
ainda não está disponível para o HIV. Quem já precisou esconder um frasco de
remédio, ou escolher entre a rotina da casa e a rotina do tratamento, entende o
que significa trocar trezentos e sessenta e cinco comprimidos por duas picadas,
e os dados de um dos estudos clínicos mostraram eficácia de 100%. A própria
Anvisa, vale dizer, alerta para o risco de resistência ao medicamento, de modo
que nada aqui autoriza a euforia de quem acredita que o problema acabou.
O
problema, aliás, mudou de lugar. O preço máximo do lenacapavir ainda depende da
CMED, e a oferta gratuita pelo SUS precisa passar pela Conitec e pelo
Ministério da Saúde, enquanto nos Estados Unidos o tratamento ultrapassa os 28
mil dólares anuais, e o que se chama de acesso global tem tido outra forma: o
Fundo Global e o governo americano, por meio do PEPFAR, já levaram as primeiras
entregas a nove países africanos, com a Gilead fornecendo o produto sem lucro
até que fabricantes de genéricos consigam atender a demanda, o que não equivale
a dizer que o medicamento seja gratuito em qualquer lugar do mundo rico. O
Médicos Sem Fronteiras lembrou que o Brasil, mesmo tendo participado das
pesquisas que viabilizaram o fármaco, ficou fora dos acordos de acesso a preços
razoáveis, e os acordos de licenciamento genérico, que cobrem 120 países, foram
criticados por excluir países, sobretudo na América Latina. É uma imagem
conhecida para quem acompanha a história da epidemia: o conhecimento circula, o
corpo que o produziu, testou ou espera permanece na fila, e a fila tem sempre
uma composição, porque são as travestis, as pessoas negras, as mulheres pobres
e os jovens de periferia que mais dependem do que o Estado decide incorporar e
que mais sentem quando o Estado decide esperar. Uma tecnologia de prevenção que
não chega a essas pessoas é, para efeitos práticos, uma tecnologia que as trata
como descartáveis, ainda que ninguém diga isso em voz alta.
Dizer
em voz alta o contrário, aliás, também tem consequência, e é por aí que a
política entra de vez na história. Em 21 de outubro de 2021, na live semanal, o
então presidente Jair Bolsonaro leu uma notícia segundo a qual vacinados contra
a covid-19 no Reino Unido estariam desenvolvendo aids, afirmação que as
agências Fato ou Fake e Aos Fatos checaram e consideraram falsa, enquanto a
Sociedade Brasileira de Infectologia e a Associação Médica Brasileira afirmaram
que não se conhece nenhuma relação entre a vacina e a aids. O YouTube tirou o
vídeo do ar e suspendeu o canal por uma semana, Facebook e Instagram fizeram o
mesmo, e o ministro Alexandre de Moraes determinou, em dezembro, a abertura de
uma investigação pedida pela CPI da Covid. Bolsonaro, por sua vez, atribuiu a
informação a uma reportagem da revista Exame. O que me interessa nesse episódio
é menos a disputa sobre quem escreveu o quê do que o efeito de uma frase dita
da cadeira da Presidência sobre quem vive com HIV, que ouviu de quem governava
que a vacina poderia ser uma ameaça, no exato momento em que as entidades
médicas pediam que as pessoas vivendo com HIV se vacinassem por completo. Uma
vacina de verdade contra o HIV, quando vier, vai encontrar um país em que esse
tipo de desconfiança foi semeada de cima, e a pergunta que fica para o eleitor,
nesta reta final, é a de quem prefere cultivá-la e quem se dispõe a desfazê-la.
Enquanto
isso, a prevenção que existe continua de pé e não depende de nenhuma promessa.
O SUS oferece a PrEP oral, com tenofovir e emtricitabina em comprimido diário,
desde 2018; a camisinha segue sendo o único método que também protege das
demais infecções sexualmente transmissíveis; a PEP, que precisa ser iniciada em
até 72 horas depois do risco, quanto antes melhor, é a segunda chance que o
rompimento do preservativo não precisa transformar em diagnóstico; e quem vive
com HIV, em tratamento contínuo e com carga viral indetectável, não transmite o
vírus por via sexual, fato que deveria estar impresso em todo posto de saúde do
país porque desfaz, sozinho, boa parte do medo que ainda faz as pessoas
evitarem o teste.
• A destruição de crianças e adolescentes.
Por Marcelo Zero
A
destruição de um país pode se dar de várias maneiras: erodindo sua soberania,
desconsiderando os interesses nacionais e submetendo-se a uma espécie de
neocolonialismo, comprometendo a democracia e suas instituições, atacando e
reduzindo direitos sociais e econômicos da população, apostando em “tesouraços”
que enfraquecerão a economia e paralisarão os investimentos etc.
Bolsonaro
pretende fazer tudo isso. Pretende criar a tempestade perfeita para acabar com
o Brasil.
Mas há
mais.
O
fascista Bolsonaro pretende implantar aqui um modelo de segurança pública
importado do também fascista Bukele, de El Salvador. Um modelo que criou um
campo de concentração chamado de El Cecote e que encarcerou cerca de 2 % da
população de El Salvador. Um modelo que mata, tortura e desrespeita totalmente
os direitos civis fundamentais que embasam qualquer forma de civilização digna
do nome.
Ressalte-se
que o Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo (940 mil
encarcerados) e uma das polícias que mais matam em todo o planeta.
Proporcionalmente,
a letalidade da polícia brasileira supera em dezenas de vezes a média de
grandes economias globais (como a média dos países do G20) e é várias vezes
superior à registrada nos Estados Unidos. Em cinco anos (2009-2013), a polícia
brasileira matou mais do que a dos EUA em 30. E olha que a polícia dos EUA já
mata muito.
Porém,
Bolsonaro quer aumentar esse descalabro violento, que não contribui em nada
para fornecer segurança à população.
Uma das
propostas, dentro desse modelo tenebroso, é a redução da maioridade penal para
16 anos, em relação à maior parte dos crimes, e para 14 anos, no que tange a
crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo, organização
criminosa, associação criminosa e outros.
Ora,
não é de todo incomum que adolescentes e crianças de 14 anos se envolvam em
atividades do tráfico nas chamadas comunidades e favelas, as quais são
dominadas, muitas vezes, por milícias e outras organizações criminosas.
Nos
EUA, praticamente a metade da população carcerária está presa por crimes
não-violentos vinculados ao tráfico de drogas.
No
Brasil, apenas os crimes relacionados à Lei de Drogas representam um quarto
(cerca de 25%) da população carcerária do Brasil . De acordo com dados oficiais
da Secretaria Nacional de Política Penal (Senapen), o tráfico de entorpecentes
é isoladamente o crime com o maior número de registros e condenações no sistema
prisional do país.
Ante
isso, não é necessário ser um gênio para imaginar o que vai acontecer: crianças
e adolescentes entre 14 e 17 anos que vivem em áreas periféricas e pobres serão
encarcerados, principalmente se forem pretos e pardos, de forma massiva e
ingressarão nas nossas masmorras para serem treinados por adultos na alta
escola do crime.
Bolsonaro
criará um jovem exército de reserva para as milícias e o crime organizado.
Essas
crianças e esses jovens não terão futuro algum. Essa é também uma maneira de
destruir o país e seu futuro: destruir a vida de suas crianças e adolescentes.
Os
imbecis e mal-informados alegam que em alguns países, como a Inglaterra,
crianças podem ser condenadas, como adultos, a partir dos 10 anos. Mas há
diferenças brutais entre o que os bolsonaristas querem fazer e o que a
Inglaterra faz.
Dou
como exemplo o infame caso de James Bulguer, que horrorizou toda a Inglaterra.
Em
fevereiro de 1993, James Bulguer, de apenas 2 anos, foi sequestrado e
assassinado por duas crianças inglesas de 10 anos: Robert Thompson e Jon
Venables.
Pois
bem, em novembro de 1993, Thompson e Venables foram condenados por homicídio e
sequestro, tornando-se as pessoas mais jovens a serem condenadas por
assassinato na história moderna do Reino Unido.
Os
idiotas dirão: está aí a prova. Um país avançado e civilizado como o Reino
Unido (mais precisamente a Inglaterra, pois a lei muda em cada região) fez o
que o Brasil precisa fazer.
Ledo
engano,fake news.
Em
primeiro lugar, essas crianças não se juntaram à população carcerária comum.
Nenhuma vai. Eles foram encaminhados para um centro especial de detenção, bem
longe de uma prisão comum. Não entraram para a escola do crime.
Lá,
eles tiveram acompanhamento psicopedagógico amplo e foram obrigados a estudar
30 horas por semana, como qualquer criança comum. Não foram forçados a
trabalhar e conviveram com outras crianças, sob estrita supervisão de
psicólogos, professores etc.
Em
2001, quando completaram 18 anos, ambos foram libertados sob a chamada “licença
vitalícia” (liberdade condicional permanente) e receberam novas identidades com
anonimato vitalício garantido pela justiça para sua proteção e para poderem
construir uma vida normal.
Obviamente,
Bolsonaro et caterva não vão fazer nada disso. Eles querem mais violência e
vingança. Vão, repito, formar um exército de reserva para as milícias e as
organizações criminosas. Não querem recuperar ninguém. Querem enfrentar a
violência com mais violência obtusa.
Observe-se
que, de acordo com a UNICEF, cerca de 80% dos países do mundo adotam a
maioridade penal aos 18 anos.
Ademais,
países que testaram a redução da maioridade penal — como os Estados Unidos (em
determinados estados) ou a Dinamarca — posteriormente reverteram ou criticaram
a medida devido ao aumento de carreiras criminosas mais violentas entre os
jovens afetados.
O
fascista sempre apresenta soluções aparentemente simples e falsas para
problemas complexos. Tenta sempre manipular sentimentos negativos da população,
como raiva, ódio e ressentimento, para justificar suas políticas irracionais.
E tenta
sempre atingir os mais frágeis, os que têm menos poder de defesa.
Até
mesmo crianças.
Fonte:
Brasil 247

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