sábado, 17 de outubro de 2026

Sara York: HIV, vacinas e o dano de Bolsonaro, o presidente das fake news

Passei a vida adulta ouvindo que a cura do HIV estava a poucos anos de distância, e é com essa memória de promessa adiada que leio agora a notícia vinda da Nature, em que pesquisadores do La Jolla Institute, da Scripps Research e da IAVI relatam, depois de catorze anos de colaboração, uma vacina que gerou em número alto anticorpos amplamente neutralizantes em primatas, aqueles raríssimos que reconhecem o HIV mesmo quando ele muda e que até aqui só se encontravam em poucas pessoas vivendo com o vírus. A estratégia, chamada direcionamento da linhagem germinativa, em vez de apresentar o vírus inteiro ao organismo, conduz as células de defesa por etapas, com uma dose inicial que as desperta e reforços que as guiam até o amadurecimento certo, e funcionou em cerca de 44% dos animais, número que os próprios autores consideram insuficiente. O entusiasmo precisa vir com as ressalvas que a própria ciência faz: não se testou se esses anticorpos impedem a infecção, e em humanos só a dose inicial foi avaliada, ficando o esquema completo para um estudo futuro, de modo que a vacina permanece um horizonte, mais próximo do que já foi, mas ainda um horizonte.

O que existe hoje, e é por isso que escrevo, está mais perto da vida de quem lê do que qualquer vacina. Em janeiro de 2026 a Anvisa aprovou o lenacapavir como alternativa de profilaxia pré-exposição, uma injeção semestral que dispensa o comprimido de todo dia, e a Organização Mundial da Saúde já o havia recomendado em julho de 2025 como a melhor alternativa depois de uma vacina, recurso que ainda não está disponível para o HIV. Quem já precisou esconder um frasco de remédio, ou escolher entre a rotina da casa e a rotina do tratamento, entende o que significa trocar trezentos e sessenta e cinco comprimidos por duas picadas, e os dados de um dos estudos clínicos mostraram eficácia de 100%. A própria Anvisa, vale dizer, alerta para o risco de resistência ao medicamento, de modo que nada aqui autoriza a euforia de quem acredita que o problema acabou.

O problema, aliás, mudou de lugar. O preço máximo do lenacapavir ainda depende da CMED, e a oferta gratuita pelo SUS precisa passar pela Conitec e pelo Ministério da Saúde, enquanto nos Estados Unidos o tratamento ultrapassa os 28 mil dólares anuais, e o que se chama de acesso global tem tido outra forma: o Fundo Global e o governo americano, por meio do PEPFAR, já levaram as primeiras entregas a nove países africanos, com a Gilead fornecendo o produto sem lucro até que fabricantes de genéricos consigam atender a demanda, o que não equivale a dizer que o medicamento seja gratuito em qualquer lugar do mundo rico. O Médicos Sem Fronteiras lembrou que o Brasil, mesmo tendo participado das pesquisas que viabilizaram o fármaco, ficou fora dos acordos de acesso a preços razoáveis, e os acordos de licenciamento genérico, que cobrem 120 países, foram criticados por excluir países, sobretudo na América Latina. É uma imagem conhecida para quem acompanha a história da epidemia: o conhecimento circula, o corpo que o produziu, testou ou espera permanece na fila, e a fila tem sempre uma composição, porque são as travestis, as pessoas negras, as mulheres pobres e os jovens de periferia que mais dependem do que o Estado decide incorporar e que mais sentem quando o Estado decide esperar. Uma tecnologia de prevenção que não chega a essas pessoas é, para efeitos práticos, uma tecnologia que as trata como descartáveis, ainda que ninguém diga isso em voz alta.

Dizer em voz alta o contrário, aliás, também tem consequência, e é por aí que a política entra de vez na história. Em 21 de outubro de 2021, na live semanal, o então presidente Jair Bolsonaro leu uma notícia segundo a qual vacinados contra a covid-19 no Reino Unido estariam desenvolvendo aids, afirmação que as agências Fato ou Fake e Aos Fatos checaram e consideraram falsa, enquanto a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Associação Médica Brasileira afirmaram que não se conhece nenhuma relação entre a vacina e a aids. O YouTube tirou o vídeo do ar e suspendeu o canal por uma semana, Facebook e Instagram fizeram o mesmo, e o ministro Alexandre de Moraes determinou, em dezembro, a abertura de uma investigação pedida pela CPI da Covid. Bolsonaro, por sua vez, atribuiu a informação a uma reportagem da revista Exame. O que me interessa nesse episódio é menos a disputa sobre quem escreveu o quê do que o efeito de uma frase dita da cadeira da Presidência sobre quem vive com HIV, que ouviu de quem governava que a vacina poderia ser uma ameaça, no exato momento em que as entidades médicas pediam que as pessoas vivendo com HIV se vacinassem por completo. Uma vacina de verdade contra o HIV, quando vier, vai encontrar um país em que esse tipo de desconfiança foi semeada de cima, e a pergunta que fica para o eleitor, nesta reta final, é a de quem prefere cultivá-la e quem se dispõe a desfazê-la.

Enquanto isso, a prevenção que existe continua de pé e não depende de nenhuma promessa. O SUS oferece a PrEP oral, com tenofovir e emtricitabina em comprimido diário, desde 2018; a camisinha segue sendo o único método que também protege das demais infecções sexualmente transmissíveis; a PEP, que precisa ser iniciada em até 72 horas depois do risco, quanto antes melhor, é a segunda chance que o rompimento do preservativo não precisa transformar em diagnóstico; e quem vive com HIV, em tratamento contínuo e com carga viral indetectável, não transmite o vírus por via sexual, fato que deveria estar impresso em todo posto de saúde do país porque desfaz, sozinho, boa parte do medo que ainda faz as pessoas evitarem o teste.

•        A destruição de crianças e adolescentes. Por Marcelo Zero

A destruição de um país pode se dar de várias maneiras: erodindo sua soberania, desconsiderando os interesses nacionais e submetendo-se a uma espécie de neocolonialismo, comprometendo a democracia e suas instituições, atacando e reduzindo direitos sociais e econômicos da população, apostando em “tesouraços” que enfraquecerão a economia e paralisarão os investimentos etc.

Bolsonaro pretende fazer tudo isso. Pretende criar a tempestade perfeita para acabar com o Brasil.

Mas há mais.

O fascista Bolsonaro pretende implantar aqui um modelo de segurança pública importado do também fascista Bukele, de El Salvador. Um modelo que criou um campo de concentração chamado de El Cecote e que encarcerou cerca de 2 % da população de El Salvador. Um modelo que mata, tortura e desrespeita totalmente os direitos civis fundamentais que embasam qualquer forma de civilização digna do nome.

Ressalte-se que o Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo (940 mil encarcerados) e uma das polícias que mais matam em todo o planeta.

Proporcionalmente, a letalidade da polícia brasileira supera em dezenas de vezes a média de grandes economias globais (como a média dos países do G20) e é várias vezes superior à registrada nos Estados Unidos. Em cinco anos (2009-2013), a polícia brasileira matou mais do que a dos EUA em 30. E olha que a polícia dos EUA já mata muito.

Porém, Bolsonaro quer aumentar esse descalabro violento, que não contribui em nada para fornecer segurança à população.

Uma das propostas, dentro desse modelo tenebroso, é a redução da maioridade penal para 16 anos, em relação à maior parte dos crimes, e para 14 anos, no que tange a crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo, organização criminosa, associação criminosa e outros.

Ora, não é de todo incomum que adolescentes e crianças de 14 anos se envolvam em atividades do tráfico nas chamadas comunidades e favelas, as quais são dominadas, muitas vezes, por milícias e outras organizações criminosas.

Nos EUA, praticamente a metade da população carcerária está presa por crimes não-violentos vinculados ao tráfico de drogas.

No Brasil, apenas os crimes relacionados à Lei de Drogas representam um quarto (cerca de 25%) da população carcerária do Brasil . De acordo com dados oficiais da Secretaria Nacional de Política Penal (Senapen), o tráfico de entorpecentes é isoladamente o crime com o maior número de registros e condenações no sistema prisional do país.

Ante isso, não é necessário ser um gênio para imaginar o que vai acontecer: crianças e adolescentes entre 14 e 17 anos que vivem em áreas periféricas e pobres serão encarcerados, principalmente se forem pretos e pardos, de forma massiva e ingressarão nas nossas masmorras para serem treinados por adultos na alta escola do crime.

Bolsonaro criará um jovem exército de reserva para as milícias e o crime organizado.

Essas crianças e esses jovens não terão futuro algum. Essa é também uma maneira de destruir o país e seu futuro: destruir a vida de suas crianças e adolescentes.

Os imbecis e mal-informados alegam que em alguns países, como a Inglaterra, crianças podem ser condenadas, como adultos, a partir dos 10 anos. Mas há diferenças brutais entre o que os bolsonaristas querem fazer e o que a Inglaterra faz.

Dou como exemplo o infame caso de James Bulguer, que horrorizou toda a Inglaterra.

Em fevereiro de 1993, James Bulguer, de apenas 2 anos, foi sequestrado e assassinado por duas crianças inglesas de 10 anos: Robert Thompson e Jon Venables.

Pois bem, em novembro de 1993, Thompson e Venables foram condenados por homicídio e sequestro, tornando-se as pessoas mais jovens a serem condenadas por assassinato na história moderna do Reino Unido.

Os idiotas dirão: está aí a prova. Um país avançado e civilizado como o Reino Unido (mais precisamente a Inglaterra, pois a lei muda em cada região) fez o que o Brasil precisa fazer.

Ledo engano,fake news.

Em primeiro lugar, essas crianças não se juntaram à população carcerária comum. Nenhuma vai. Eles foram encaminhados para um centro especial de detenção, bem longe de uma prisão comum. Não entraram para a escola do crime.

Lá, eles tiveram acompanhamento psicopedagógico amplo e foram obrigados a estudar 30 horas por semana, como qualquer criança comum. Não foram forçados a trabalhar e conviveram com outras crianças, sob estrita supervisão de psicólogos, professores etc.

Em 2001, quando completaram 18 anos, ambos foram libertados sob a chamada “licença vitalícia” (liberdade condicional permanente) e receberam novas identidades com anonimato vitalício garantido pela justiça para sua proteção e para poderem construir uma vida normal.

Obviamente, Bolsonaro et caterva não vão fazer nada disso. Eles querem mais violência e vingança. Vão, repito, formar um exército de reserva para as milícias e as organizações criminosas. Não querem recuperar ninguém. Querem enfrentar a violência com mais violência obtusa.

Observe-se que, de acordo com a UNICEF, cerca de 80% dos países do mundo adotam a maioridade penal aos 18 anos.

Ademais, países que testaram a redução da maioridade penal — como os Estados Unidos (em determinados estados) ou a Dinamarca — posteriormente reverteram ou criticaram a medida devido ao aumento de carreiras criminosas mais violentas entre os jovens afetados.

O fascista sempre apresenta soluções aparentemente simples e falsas para problemas complexos. Tenta sempre manipular sentimentos negativos da população, como raiva, ódio e ressentimento, para justificar suas políticas irracionais.

E tenta sempre atingir os mais frágeis, os que têm menos poder de defesa.

Até mesmo crianças.

 

Fonte: Brasil 247

 

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