Escuta
e linguagem política nas eleições brasileiras
O
resultado das eleições de 4 de outubro de 2026 parece exigir de nós uma
reflexão que vá além das explicações econômicas mais imediatas. Não creio que
possamos compreender o que aconteceu apenas pela distribuição de renda, pelo
acesso ao consumo ou pelas políticas sociais realizadas durante o governo Lula.
Tampouco parece suficiente recorrer às agendas que consideramos fundamentais,
como a preservação do meio ambiente, e imaginar que sua importância objetiva
necessariamente produziria adesão política.
Talvez
estejamos diante de algo mais profundo: uma crise das formas de identificação
política e, possivelmente, uma crise moral e ideológica associada às
transformações do próprio individualismo contemporâneo. Há uma demanda por
proximidade, reconhecimento, proteção e pertencimento que não se deixa traduzir
inteiramente pela linguagem dos direitos, da renda ou do acesso a bens e
serviços.
As
pessoas querem o remédio, a escola, o emprego, a universidade para os filhos,
melhores salários e condições dignas de vida. Evidentemente querem tudo isso.
Mas não querem somente isso. Querem também ser reconhecidas, pertencer a alguma
coisa, compartilhar valores, encontrar lugares nos quais sua experiência possa
ser narrada e adquirir sentido. Querem vínculos.
É nesse
ponto que precisamos levar muito a sério o crescimento e a capilaridade do
pentecostalismo, sobretudo nos territórios populares. Não apenas como uma força
eleitoral ou como um aparelho ideológico capaz de produzir votos, mas como uma
forma de presença cotidiana. As igrejas podem produzir redes de cuidado e
assistência, sociabilidades, moralidades e modos de interpretar a experiência.
Talvez
exista aí, guardadas todas as diferenças históricas e políticas, algo que
mereça ser comparado ao lugar ocupado décadas atrás pelas Comunidades Eclesiais
de Base e pela Teologia da Libertação. As CEBs não ofereciam apenas uma
interpretação da desigualdade, mas constituíam espaços territoriais de
convivência, formação, solidariedade e participação política. Faziam da
experiência cotidiana uma experiência compartilhada e forneciam uma linguagem
para interpretá-la.
Não
estou sugerindo, evidentemente, que pentecostalismo e Teologia da Libertação
sejam equivalentes. Suas teologias, moralidades e projetos políticos podem ser
profundamente distintos. O que me interessa na comparação é outra coisa. Quem
hoje oferece uma visão de mundo capaz de articular sofrimento individual, vida
familiar, experiência comunitária e interpretação do mundo? Quem está perto
quando alguma coisa acontece? Quem escuta? Quem oferece palavras para nomear o
medo, a esperança, a violência, o fracasso, a culpa e o desejo de reconstruir a
vida?
Talvez
tenhamos subestimado essa dimensão da política.
A
questão da família é um bom exemplo. Nós, da esquerda, tivemos um papel
decisivo na defesa da pluralidade das formas familiares e no reconhecimento de
sujeitos historicamente excluídos do modelo tradicional de família. Isso
representou uma conquista civilizatória importante. Mas talvez tenhamos
cometido um equívoco quando a crítica à naturalização da família tradicional
passou, em alguns discursos, a soar como se aquela forma de vida já não pudesse
também ser reconhecida como legítima.
Há
homens que são pais presentes, cuidam dos filhos, dividem responsabilidades,
trabalham, preocupam-se com a educação das crianças e atribuem enorme valor à
família — e que votam na direita. Há mulheres que valorizam profundamente a
maternidade e a família e que não se reconhecem em determinadas linguagens
progressistas. Isso não significa abandonar a defesa da diversidade familiar
nem os direitos das mulheres. Significa perguntar por que uma política
emancipatória não poderia falar simultaneamente da família homoafetiva, da mãe
solo, das famílias extensas, das múltiplas formas de parentesco e também do
homem, da mulher e dos filhos que desejam viver como uma família tradicional.
A
discussão sobre o aborto coloca um problema semelhante. Defender direitos
reprodutivos não nos dispensa de escutar a experiência moral das pessoas para
quem essa questão envolve concepções profundamente arraigadas sobre vida,
maternidade, religião e responsabilidade. Escutar não significa concordar nem
abandonar princípios. Significa compreender antes de explicar.
É aqui
que a antropologia talvez tenha alguma coisa importante a devolver à política.
Penso particularmente em Tim Ingold e em sua proposição de uma antropologia que
não seja simplesmente um conhecimento produzido sobre as pessoas, como se o
antropólogo ocupasse uma posição exterior a elas, mas uma forma de conhecimento
construída com as pessoas, levando a sério aquilo que elas dizem, fazem, sentem
e imaginam.
Levar
as pessoas a sério não significa tomar seus enunciados como verdades
transparentes, tampouco concordar com elas. Significa reconhecer que aquilo que
dizem sobre suas vidas constitui conhecimento sobre o mundo em que vivem. É uma
disposição metodológica, mas também epistemológica, qual seja, permitir que o
encontro com o outro coloque em questão nossas próprias categorias de
compreensão. Talvez seja precisamente disso que este momento político esteja
exigindo de nós.
Precisamos
levar as pessoas a sério.
Levar a
sério aquilo que dizem, aquilo que sentem, aquilo que desejam e também aquilo
que nos incomoda no que dizem. Em vez de perguntar imediatamente por que alguém
“vota contra os seus próprios interesses”, talvez seja necessário suspender por
um momento a certeza de que sabemos previamente quais são esses interesses. A
própria noção de interesse precisa tornar-se uma questão de pesquisa.
Isso é
particularmente importante quando pensamos nas pessoas que vivem em territórios
conflagrados, submetidas diariamente à violência armada, à precarização do
trabalho, à insegurança e à presença simultaneamente intensa e descontínua do
Estado. O que significa, nesses contextos, segurança? O que significa família?
Autoridade? Respeito? Proteção? Trabalho? Religião? Futuro? E, sobretudo, será
que essas palavras significam para elas aquilo que supomos que significam?
Minha
aproximação com o trabalho da Redes da Maré, por meio das pesquisas e também da
atuação de orientandos que vivem na comunidade, me faz pensar muito nisso. Há
palavras que utilizamos no campo progressista que simplesmente não germinam no
coração das pessoas. E talvez seja necessário ter coragem para reconhecer isso.
Elas
não querem apenas pão na mesa. Não querem apenas poder viajar de avião. Não
querem apenas comer picanha no fim de semana com a família. Não querem apenas
ver o filho chegar à universidade — embora tudo isso seja absolutamente
importante e represente conquistas concretas.
Há
outras coisas sendo demandadas: segurança, respeito, autoridade sem humilhação,
reconhecimento, pertencimento, família, esperança, futuro, alguma estabilidade
moral em um mundo que parece cada vez mais incerto.
E
talvez haja ainda uma questão particularmente difícil para nós. Em territórios
atravessados pelo tráfico, pelas milícias, pela violência policial e por
economias informais e ilegais, as fronteiras entre legalidade e ilegalidade não
coincidem necessariamente com as fronteiras entre moralidade e imoralidade.
Trabalhar no tráfico pode ser reconhecido como ilegal e, ainda assim, em
determinados contextos, não ser experimentado socialmente da mesma maneira como
uma falta moral. Isso deveria nos obrigar a perguntar como se reorganizam hoje
as gramáticas morais por meio das quais as pessoas julgam o justo, o injusto, o
aceitável e o intolerável.
Talvez
uma parte da crise política contemporânea esteja justamente aí. As antigas
correspondências entre classe, experiência social, valores morais e
identificação política deixaram de funcionar da maneira que conhecíamos.
Por
isso, talvez a autocrítica necessária à esquerda não possa se limitar à
comunicação — “precisamos explicar melhor o que fizemos”. O problema pode ser
mais radical. Talvez seja preciso perguntar se estamos realmente escutando.
Escutar
não significa adaptar oportunisticamente o discurso ao eleitorado. Tampouco
significa abandonar direitos conquistados para disputar uma suposta maioria
conservadora. Significa reconstruir uma capacidade de estar nos territórios,
compartilhar experiências, reconhecer contradições e produzir linguagem
política a partir delas.
Estamos
vivendo uma transformação histórica cuja forma ainda não compreendemos
inteiramente. Uma determinada época parece estar se encerrando, enquanto outra
começa a emergir sem que tenhamos ainda conceitos suficientes para nomeá-la.
É isso
que torna o momento tão angustiante.
Diante
de um resultado que para muitos de nós produz medo, perplexidade e mesmo uma
sensação de retrocesso, a resposta mais fácil seria concluir que as pessoas
foram enganadas, manipuladas ou que votaram contra seus próprios interesses. A
resposta mais difícil — e talvez mais necessária — é perguntar: o que elas
estão dizendo por meio desse voto que nós ainda não conseguimos escutar?
Essa
pergunta não resolve o nosso desespero diante do presente. Mas talvez seja um
ponto de partida para transformar o desespero em trabalho político.
E, se
queremos fazer política de outra maneira, talvez seja exatamente por aí que
tenhamos de começar. Menos pela certeza de que sabemos antecipadamente aquilo
de que as pessoas precisam e mais pela disposição de descobrir, junto com elas,
que mundo ainda é possível desejar.
• A luta além das urnas. Por Por Uribam
Xavier
O
Brasil, como diz Rui Barbosa, é “uma nação de escravos senhores de escravos”.
Da nossa colonização escravocrata vem o autoritarismo estrutural que medeia
nossas relações políticas, sociais, econômicas, militares, religiosas,
estéticas e culturais. Lutar por educação e democracia aqui são desafios de
risco.
O
direito universal à educação, financiado pelo orçamento público que pertence a
todos, é uma bandeira e uma conquista dos trabalhadores, das trabalhadoras e
seus filhos, que existe contra a vontade do mercado e de seus aparatos
políticos e ideológicos.
A
educação é importante como política pública de inclusão, de reparo a nossa
herança colonial negativa, de socialização dos conhecimentos socialmente
produzidos pela humanidade e, além disso, pode ser uma ferramenta de mobilidade
social capaz de enfrentar o racismo ambiental da divisão social do mercado de
trabalho no capitalismo que condena os descendentes de escravizados, dos povos
originários, dos campesinos, a maioria dos trabalhadores urbanos e dos
empobrecidos a trabalhos duros com baixa remuneração e carga horária exaustiva
– como a proposta por Flávio Bolsonaro e seus seguidores, que são contra a
aprovação da escala 5X2 – e condenados a trabalhos que aviltam a dignidade
humana.
Uma
sociedade democrata, que tem a educação como um direito universal, não deveria
ser, ao mesmo tempo, uma democracia liberal formal, na qual a sociedade é
convocada a cada eleição para se manifestar nas urnas e na qual a campanha
política é um simulacro, cada vez mais sofisticado, para manufatura à vontade
do eleitor, a ponto de ele escolher um parlamento inimigo do povo e cúmplice
dos setores do mercado.
Uma
democracia, no sentido mais fecundo, é um instrumento de garantia de
participação e de deliberação da sociedade e de suas organizações nas várias
instâncias do poder público e, o mais importante, na participação dos bens e
riquezas materiais produzidos socialmente por todos. Uma sociedade onde
prevalece a acumulação de riquezas e as desigualdades sociais é uma sociedade
plutocrata e não democrata.
Lutar
para desmistificar a ideia de que a democracia formal liberal é democracia e
afirmar que esta implica no controle do mercado por parte da sociedade faz par
com a luta pela educação como direito universal, por uma organização social que
tenha como horizonte a vida; é afirmar que todas as vidas são importantes e sua
existência deve ser garantida; é lutar por uma sociedade demasiadamente humana,
anticapitalista e anti-bolsonarista. Em tempos de eleições, ao votar, fortaleça
a luta pela democracia.
Fonte:
Por Katia Sento Sé Mello, em Outras Palavras

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