Gustavo
Tapioca: Os órfãos da pandemia vão decidir a eleição
“Sou
uma viúva da Covid. Eu voto pelos que não podem mais votar.”
Jamil
Chade relata, no vídeo “Bolsonaristas: Eu sei o que vocês fizeram na
pandemia”, a presença lancinante de uma mulher de preto numa manifestação
em Copacabana. O cartaz que ela erguia não era apenas um pedaço de papel: foi a
materialização do luto coletivo, um grito estridente contra a infâmia do
esquecimento que os carrascos do povo brasileiro tentam impor à força.
Neste
exato momento, a exatos nove dias do segundo turno da eleição presidencial de
2026, o Brasil vive o ápice de um acerto de contas histórico.
O filho
de Jair Bolsonaro, de nome Flávio, tem 51% das intenções de votos válidos,
contra 49% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo pesquisa
Datafolha divulgada nesta quinta-feira,15.
Um
empate técnico dramático e aterrador entre o senador da extrema-direita — que
abertamente prometeu “honrar o legado de meu pai Jair Bolsonaro, que subirá
comigo a rampa do Palácio do Planalto” — e o presidente Lula, que tenta a
reeleição.
Devolver
o poder ao bolsonarismo, agora encarnado pelo filho e fiel guardião da
necropolítica do pai, seria a mais absoluta abjeção moral. Seria cuspir na
sepultura de 700 mil brasileiros.
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O cinismo, o deboche e o sangue nas mãos
Nenhum
governo neste planeta tem o poder divino de impedir o surgimento de um vírus
desconhecido. O que separa um estadista de um genocida, porém, é o que se faz
diante da catástrofe.
Um
governo responsável protege sua gente: respeita a ciência, compra vacinas,
prepara hospitais, garante oxigênio. Salvar vidas é o dever intransigível do
Estado. O que os Bolsonaro fizeram foi exatamente o oposto.
Assassinou
a esperança a golpes de sadismo, deboche e propaganda criminosa.
E o
oftalmologista Claudio Lottenberg — cotado para assumir o Ministério da Saúde
em um eventual governo do Bolsonaro Flávio — teve a pachorra de declarar em
entrevista à Folha, publicada nesta quinta-feira, 8 de
outubro:
“Eu
prefiro deixar isso como capítulo superado”.
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Superado, doutor?
As
famílias enlutadas não devem silêncio a quem disputa o poder sobre cadáveres!
Como se o horror pudesse ser varrido para debaixo do tapete para favorecer uma
campanha eleitoral.
A
memória do que esses homens fizeram está gravada a sangue e fogo na alma do
país:
- Em março de 2020, no início da
hecatombe, Jair Bolsonaro, o pai que Flávio “honra”, chamou a crise de “muito
mais fantasia”. No pronunciamento do dia 24, invocou seu fanfarrão “histórico
de atleta” para dizer que teria, no máximo, uma “gripezinha ou
resfriadinho”.
- Em 20 de abril, acuado pelas
mortes, destilou a frase mais cruel da história republicana: “Eu não
sou coveiro”. Onde a decência humana exigia solidariedade, ele
respondeu com um “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?” ao saber
que o Brasil havia superado a China em óbitos.
- Em plena
via-crúcis nacional, enquanto famílias choravam em desespero, Bolsonaro
desfilava em 23 de julho de 2020 exibindo uma caixa de hidroxicloroquina
para as emas do Alvorada, promovendo um veneno inútil enquanto o povo
sufocava nos hospitais sem oxigênio.
- Em novembro, mandou o
Brasil “deixar de ser um país de maricas”. Em dezembro, debochou da
vacina da Pfizer: “Se você virar um jacaré, é problema de você”.
- Em 18 de março
de 2021,
numa transmissão ao vivo nauseabunda, imitou uma pessoa com falta de ar
para ridicularizar quem lutava desesperadamente para respirar. Debochou de
máscaras, arrancou a máscara de uma criança no colo e promoveu o
charlatanismo.
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Alertas ignorados e o colapso de Manaus
O
desastre não foi um acidente de percurso. Foi um plano meticuloso. Como Jamil
Chade revelou em reportagem no ICL Notícias, em 17 de dezembro de 2025,
o governo recebera alertas da Abin desde janeiro de 2020. Em 6 de março, a
agência já avisava sobre o risco iminente de colapso hospitalar.
O que o
governo fez? Demitiu os ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich por
divergências científicas. E colocou o general Eduardo Pazuello, que transformou
a subserviência em hino nacional ao declarar, após o chefe vetar a vacina
CoronaVac: “É simples assim: um manda e o outro obedece”.
Enquanto
a Pfizer oferecia vacinas aos montes em agosto de 2020 — ofertas solenemente
ignoradas por Jair Bolsonaro —, Manaus virou uma câmara de gás a céu aberto. Em
janeiro de 2021, pacientes morreram asfixiados por falta de oxigênio enquanto
familiares corriam desesperados atrás de cilindros por conta própria.
O
ministro Pazuello e o presidente Bolsonaro foram advertidos pela Abin, sabiam
de tudo e não moveram uma palha para evitar o massacre. Paralelamente, médicos
de araque como o senador Osmar Terra, bolsonarista fiel ao chefe, defendiam a
infame “imunidade de rebanho” pelo contágio, empurrando milhares de pessoas
para covas coletivas que o brasileiro nunca tinha visto.
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O resultado dessa carnificina administrativa?
O
Brasil encerrou o governo Bolsonaro com exatos 693.853 mortes registradas,
batendo a marca macabra de 700 mil em março de 2023.
O
infectologista Pedro Curi Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas
(UFPel) e coordenador do estudo EPICOVID — o maior estudo sobre prevalência da
Covid no Brasil — disse na CPI da Pandemia, em 24 de junho de 2021, que:
“Quatro
de cada cinco mortes teriam sido evitadas se estivéssemos na média mundial. Se
nós estivéssemos na média, como um aluno que tira nota média na prova, nós
teríamos poupado 400 mil vidas no Brasil.”
Na
época o Brasil tinha 2,7% da população mundial, mas concentrava 13% das mortes
por Covid no mundo.
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O filho que quer “honrar” o monstro
Flávio
— o candidato do pai inelegível — o Bolsonaro da vez — não é um inocente útil.
É herdeiro e cúmplice confesso dessa tragédia. Quando a CPI da Pandemia pediu
seu indiciamento por incitação ao crime em outubro de 2021, ele chamou a
comissão de “maior atestado de idoneidade do governo federal”.
Em
entrevista à Folha em dezembro de 2025, Flávio reafirmou sua lealdade
doentia: “Eu sigo os mesmos princípios, eu tenho o sangue Bolsonaro”. E
coroou seu delírio totalitário na convenção do PL em julho de 2026, bradando
para Jair Bolsonaro ouvir da prisão onde cumpre pena de 27 anos e três meses
por tentativa de golpe de Estado contra a Democracia:
“Pai,
eu vou te honrar… Em janeiro de 2027, você vai subir comigo aquela rampa do
Planalto junto com o povo brasileiro”.
As
famílias enlutadas exigem saber: o que Flávio pretende honrar? Honrar os mortos
por falta de oxigênio? Honrar a sabotagem das vacinas? Curvar-se a
conveniências eleitorais para absolver o pai sanguinário?
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O momento do acerto de contas chegou
Os
órfãos da Covid carregam essa cicatriz para além de qualquer urna. A ausência
dilacerante de um pai, de uma mãe, de um irmão ou de um filho reaparece no
aniversário vazio, na formatura sem abraço, no nascimento de uma criança que
jamais conhecerá o avô.
Nenhum
marqueteiro de plantão tem o direito moral de decretar o esquecimento dessa
dor.
O
Brasil deve às vítimas justiça implacável. A responsabilização penal tem de
avançar. É precisamente isso que mais amedronta o clã Bolsonaro: uma possível
reeleição de Lula.
No dia 25
de outubro de 2026, o momento de acerto de contas chegou. Vamos para as
urnas carregando a memória sagrada das vidas que nos foram roubadas pela
ignorância e pela maldade.
Precisamos
impedir, com a força soberana do voto, que o desprezo pela ciência e a barbárie
voltem a comandar o Estado brasileiro e matem pessoas que deveriam estar
conosco hoje.
Os
mortos não podem votar. Nós podemos votar exibindo a mensagem no cartaz feito à
mão da mulher de preto em Copacabana:
“Sou
uma viúva da Covid. Eu voto pelos que não podem mais votar.”
Nós
estamos aqui. Não podemos esquecer. E não vamos esquecer.
Bolsonaro,
nunca mais.
¨
A eleição está sendo mais juiz do que jogo. Por João
Gabriel Archegas
Economistas
utilizam o termo “efeito de catraca” para descrever processos que avançam
facilmente em uma direção, mas são extremamente difíceis de reverter. A
analogia com o dispositivo mecânico é impactante uma vez que a catraca é
desenhada para permitir o movimento em um sentido, mas travar a sua volta. Algo
semelhante está acontecendo com a liberdade de expressão eleitoral no Brasil.
A
eleição de 2022 parece não ter acabado. No pleito mais difícil desde a
redemocratização, era plausível que a Justiça assumisse um papel mais ativo na
moderação do debate eleitoral. Justificar essa mesma atitude em 2026 não é
igualmente aceitável.
A
última semana do 1º turno deixou claro a dimensão da intervenção na liberdade
de expressão. Decisão após decisão, liminar após liminar, o buraco em que nos
metemos ficou um pouco mais fundo.
Começou
com a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida. Dos conteúdos removidos pelo
Ministro André Mendonça, constavam expressões legítimas que não devem
configurar ilícito eleitoral, como menções ao antigo projeto de lei sobre esse
tema e expressões genéricas como “ninguém toca na padroeira do Brasil”. Não por
acaso, Mendonça posteriormente ajustou o voto.
Flávio
Bolsonaro conseguiu no TSE outra decisão restritiva à liberdade de expressão.
Em ação apresentada contra Lula, o Ministro Nunes Marques ordenou a remoção de
um vídeo em que Lula pedia que o “Tribunal Eleitoral” não venha querer
“falcatrua”. Mais uma intervenção judicial sobre uma fala genérica e
abrangente.
O ápice
da restrição foram as liminares monocráticas, vindas do TSE e do STF, que
culminaram no cancelamento do debate presidencial na Globo. As decisões
judiciais restritivas agora não param mais nos candidatos ou nos eleitores.
Alcançam decisões que um veículo de imprensa, privado, toma na organização do
seu debate, mesmo quando a decisão interna é de seguir a legislação eleitoral.
Foi um
1º turno em que sobraram decisões judiciais e faltaram debates. Toda partida de
futebol que é lembrada pelo juiz e não pelos gols não é uma boa partida. E aqui
estamos, diante de uma eleição cujo principal assunto até agora não foi a
eleição.
O
segundo tempo não começou muito diferente. A decisão de censura do canal “Tropa
do Lula” é mais uma agravante na liberdade de expressão eleitoral. A opção de
censurar um meio legítimo de comunicação, ao invés de conteúdos individuais, é
apenas a mais recente forma da banalização do debate público. Todo mundo diz
ser a favor da liberdade de expressão, mas os verdadeiros defensores são os que
aceitam o que é dito até quando incomoda.
Em 2022
nós deixamos os juízes passarem a catraca e restringirem mais conteúdos para
proteger o processo eleitoral. Tinha mais importância lá do que tem agora. A
nossa ameaça eleitoral hoje é que a catraca não cede tão facilmente na direção
da autocontenção. E como os casos recentes mostram, o problema é estrutural e
não ideológico. Quando a regra é remoção de discursos, todo mundo quer se valer
dela.
Fonte:
Brasil 247

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