sábado, 17 de outubro de 2026

Gustavo Tapioca: Os órfãos da pandemia vão decidir a eleição

“Sou uma viúva da Covid. Eu voto pelos que não podem mais votar.” 

Jamil Chade relata, no vídeo “Bolsonaristas: Eu sei o que vocês fizeram na pandemia”, a presença lancinante de uma mulher de preto numa manifestação em Copacabana. O cartaz que ela erguia não era apenas um pedaço de papel: foi a materialização do luto coletivo, um grito estridente contra a infâmia do esquecimento que os carrascos do povo brasileiro tentam impor à força. 

Neste exato momento, a exatos nove dias do segundo turno da eleição presidencial de 2026, o Brasil vive o ápice de um acerto de contas histórico. 

O filho de Jair Bolsonaro, de nome Flávio, tem 51% das intenções de votos válidos, contra 49% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira,15.  

Um empate técnico dramático e aterrador entre o senador da extrema-direita — que abertamente prometeu “honrar o legado de meu pai Jair Bolsonaro, que subirá comigo a rampa do Palácio do Planalto” — e o presidente Lula, que tenta a reeleição. 

Devolver o poder ao bolsonarismo, agora encarnado pelo filho e fiel guardião da necropolítica do pai, seria a mais absoluta abjeção moral. Seria cuspir na sepultura de 700 mil brasileiros. 

<><> O cinismo, o deboche e o sangue nas mãos 

Nenhum governo neste planeta tem o poder divino de impedir o surgimento de um vírus desconhecido. O que separa um estadista de um genocida, porém, é o que se faz diante da catástrofe.  

Um governo responsável protege sua gente: respeita a ciência, compra vacinas, prepara hospitais, garante oxigênio. Salvar vidas é o dever intransigível do Estado. O que os Bolsonaro fizeram foi exatamente o oposto. 

Assassinou a esperança a golpes de sadismo, deboche e propaganda criminosa. 

E o oftalmologista Claudio Lottenberg — cotado para assumir o Ministério da Saúde em um eventual governo do Bolsonaro Flávio — teve a pachorra de declarar em entrevista à Folha, publicada nesta quinta-feira, 8 de outubro:  

“Eu prefiro deixar isso como capítulo superado”. 

<><> Superado, doutor?  

As famílias enlutadas não devem silêncio a quem disputa o poder sobre cadáveres! Como se o horror pudesse ser varrido para debaixo do tapete para favorecer uma campanha eleitoral. 

A memória do que esses homens fizeram está gravada a sangue e fogo na alma do país: 

  • Em março de 2020, no início da hecatombe, Jair Bolsonaro, o pai que Flávio “honra”, chamou a crise de “muito mais fantasia”. No pronunciamento do dia 24, invocou seu fanfarrão “histórico de atleta” para dizer que teria, no máximo, uma “gripezinha ou resfriadinho”. 
  • Em 20 de abril, acuado pelas mortes, destilou a frase mais cruel da história republicana: “Eu não sou coveiro”. Onde a decência humana exigia solidariedade, ele respondeu com um “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?” ao saber que o Brasil havia superado a China em óbitos. 
  • Em plena via-crúcis nacional, enquanto famílias choravam em desespero, Bolsonaro desfilava em 23 de julho de 2020 exibindo uma caixa de hidroxicloroquina para as emas do Alvorada, promovendo um veneno inútil enquanto o povo sufocava nos hospitais sem oxigênio.  
  • Em novembro, mandou o Brasil “deixar de ser um país de maricas”. Em dezembro, debochou da vacina da Pfizer: “Se você virar um jacaré, é problema de você”. 
  • Em 18 de março de 2021, numa transmissão ao vivo nauseabunda, imitou uma pessoa com falta de ar para ridicularizar quem lutava desesperadamente para respirar. Debochou de máscaras, arrancou a máscara de uma criança no colo e promoveu o charlatanismo. 

<><> Alertas ignorados e o colapso de Manaus 

O desastre não foi um acidente de percurso. Foi um plano meticuloso. Como Jamil Chade revelou em reportagem no ICL Notícias, em 17 de dezembro de 2025, o governo recebera alertas da Abin desde janeiro de 2020. Em 6 de março, a agência já avisava sobre o risco iminente de colapso hospitalar. 

O que o governo fez? Demitiu os ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich por divergências científicas. E colocou o general Eduardo Pazuello, que transformou a subserviência em hino nacional ao declarar, após o chefe vetar a vacina CoronaVac: “É simples assim: um manda e o outro obedece”. 

Enquanto a Pfizer oferecia vacinas aos montes em agosto de 2020 — ofertas solenemente ignoradas por Jair Bolsonaro —, Manaus virou uma câmara de gás a céu aberto. Em janeiro de 2021, pacientes morreram asfixiados por falta de oxigênio enquanto familiares corriam desesperados atrás de cilindros por conta própria. 

 O ministro Pazuello e o presidente Bolsonaro foram advertidos pela Abin, sabiam de tudo e não moveram uma palha para evitar o massacre. Paralelamente, médicos de araque como o senador Osmar Terra, bolsonarista fiel ao chefe, defendiam a infame “imunidade de rebanho” pelo contágio, empurrando milhares de pessoas para covas coletivas que o brasileiro nunca tinha visto. 

<><> O resultado dessa carnificina administrativa? 

 O Brasil encerrou o governo Bolsonaro com exatos 693.853 mortes registradas, batendo a marca macabra de 700 mil em março de 2023.  

O infectologista Pedro Curi Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador do estudo EPICOVID — o maior estudo sobre prevalência da Covid no Brasil — disse na CPI da Pandemia, em 24 de junho de 2021, que: 

“Quatro de cada cinco mortes teriam sido evitadas se estivéssemos na média mundial. Se nós estivéssemos na média, como um aluno que tira nota média na prova, nós teríamos poupado 400 mil vidas no Brasil.” 

Na época o Brasil tinha 2,7% da população mundial, mas concentrava 13% das mortes por Covid no mundo. 

<><> O filho que quer “honrar” o monstro 

Flávio — o candidato do pai inelegível — o Bolsonaro da vez — não é um inocente útil. É herdeiro e cúmplice confesso dessa tragédia. Quando a CPI da Pandemia pediu seu indiciamento por incitação ao crime em outubro de 2021, ele chamou a comissão de “maior atestado de idoneidade do governo federal”. 

Em entrevista à Folha em dezembro de 2025, Flávio reafirmou sua lealdade doentia: “Eu sigo os mesmos princípios, eu tenho o sangue Bolsonaro”. E coroou seu delírio totalitário na convenção do PL em julho de 2026, bradando para Jair Bolsonaro ouvir da prisão onde cumpre pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado contra a Democracia:  

“Pai, eu vou te honrar… Em janeiro de 2027, você vai subir comigo aquela rampa do Planalto junto com o povo brasileiro”. 

As famílias enlutadas exigem saber: o que Flávio pretende honrar? Honrar os mortos por falta de oxigênio? Honrar a sabotagem das vacinas? Curvar-se a conveniências eleitorais para absolver o pai sanguinário?  

<><> O momento do acerto de contas chegou 

Os órfãos da Covid carregam essa cicatriz para além de qualquer urna. A ausência dilacerante de um pai, de uma mãe, de um irmão ou de um filho reaparece no aniversário vazio, na formatura sem abraço, no nascimento de uma criança que jamais conhecerá o avô.  

Nenhum marqueteiro de plantão tem o direito moral de decretar o esquecimento dessa dor. 

O Brasil deve às vítimas justiça implacável. A responsabilização penal tem de avançar. É precisamente isso que mais amedronta o clã Bolsonaro: uma possível reeleição de Lula. 

No dia 25 de outubro de 2026, o momento de acerto de contas chegou. Vamos para as urnas carregando a memória sagrada das vidas que nos foram roubadas pela ignorância e pela maldade. 

Precisamos impedir, com a força soberana do voto, que o desprezo pela ciência e a barbárie voltem a comandar o Estado brasileiro e matem pessoas que deveriam estar conosco hoje. 

Os mortos não podem votar. Nós podemos votar exibindo a mensagem no cartaz feito à mão da mulher de preto em Copacabana: 

“Sou uma viúva da Covid. Eu voto pelos que não podem mais votar.” 

 Nós estamos aqui. Não podemos esquecer. E não vamos esquecer.  

Bolsonaro, nunca mais. 

¨      A eleição está sendo mais juiz do que jogo. Por João Gabriel Archegas

Economistas utilizam o termo “efeito de catraca” para descrever processos que avançam facilmente em uma direção, mas são extremamente difíceis de reverter. A analogia com o dispositivo mecânico é impactante uma vez que a catraca é desenhada para permitir o movimento em um sentido, mas travar a sua volta. Algo semelhante está acontecendo com a liberdade de expressão eleitoral no Brasil.

A eleição de 2022 parece não ter acabado. No pleito mais difícil desde a redemocratização, era plausível que a Justiça assumisse um papel mais ativo na moderação do debate eleitoral. Justificar essa mesma atitude em 2026 não é igualmente aceitável.

A última semana do 1º turno deixou claro a dimensão da intervenção na liberdade de expressão. Decisão após decisão, liminar após liminar, o buraco em que nos metemos ficou um pouco mais fundo.

Começou com a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida. Dos conteúdos removidos pelo Ministro André Mendonça, constavam expressões legítimas que não devem configurar ilícito eleitoral, como menções ao antigo projeto de lei sobre esse tema e expressões genéricas como “ninguém toca na padroeira do Brasil”. Não por acaso, Mendonça posteriormente ajustou o voto.

Flávio Bolsonaro conseguiu no TSE outra decisão restritiva à liberdade de expressão. Em ação apresentada contra Lula, o Ministro Nunes Marques ordenou a remoção de um vídeo em que Lula pedia que o “Tribunal Eleitoral” não venha querer “falcatrua”. Mais uma intervenção judicial sobre uma fala genérica e abrangente.

O ápice da restrição foram as liminares monocráticas, vindas do TSE e do STF, que culminaram no cancelamento do debate presidencial na Globo. As decisões judiciais restritivas agora não param mais nos candidatos ou nos eleitores. Alcançam decisões que um veículo de imprensa, privado, toma na organização do seu debate, mesmo quando a decisão interna é de seguir a legislação eleitoral.

Foi um 1º turno em que sobraram decisões judiciais e faltaram debates. Toda partida de futebol que é lembrada pelo juiz e não pelos gols não é uma boa partida. E aqui estamos, diante de uma eleição cujo principal assunto até agora não foi a eleição.

O segundo tempo não começou muito diferente. A decisão de censura do canal “Tropa do Lula” é mais uma agravante na liberdade de expressão eleitoral. A opção de censurar um meio legítimo de comunicação, ao invés de conteúdos individuais, é apenas a mais recente forma da banalização do debate público. Todo mundo diz ser a favor da liberdade de expressão, mas os verdadeiros defensores são os que aceitam o que é dito até quando incomoda.

Em 2022 nós deixamos os juízes passarem a catraca e restringirem mais conteúdos para proteger o processo eleitoral. Tinha mais importância lá do que tem agora. A nossa ameaça eleitoral hoje é que a catraca não cede tão facilmente na direção da autocontenção. E como os casos recentes mostram, o problema é estrutural e não ideológico. Quando a regra é remoção de discursos, todo mundo quer se valer dela.

 

Fonte: Brasil 247

 

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