sábado, 17 de outubro de 2026

América Latina: ultradireita degola a saúde

A passagem de Flávio Bolsonaro (PL) ao segundo turno da eleição presidencial gera crescentes temores de uma grande onda de cortes no orçamento público da Saúde, caso o candidato de extrema-direita seja eleito. Já circula publicamente uma proposta em que a equipe do candidato avalia acabar com o piso de investimento na Saúde e retirar dos gastos sociais (Saúde, Educação, Previdência) o equivalente a 2% do PIB, ou R$250 bilhões. O receio de defensores do Sistema Único de Saúde (SUS) e movimentos sociais é justificado. Em diversos países da América Latina onde a extrema-direita ascendeu ao governo nacional nos últimos anos, a população sofreu com demissões em massa de trabalhadores da saúde, cortes orçamentários no setor e desestruturação dos serviços públicos. O “tesouraço” ameaçado pelo candidato bolsonarista ecoa a “motosserra” argentina e outros ajustes fiscais violentos que assolam o continente.

Nesta reportagem, Outra Saúde reúne informações preocupantes sobre três casos exemplares. Um deles, a Argentina desde a ascensão do ultraliberal Javier Milei em 2023. Outro, o Equador após a vitória do oligarca bananeiro Daniel Noboa, no mesmo ano. Por fim, a situação de El Salvador, governada de maneira cada vez mais ditatorial por Nayib Bukele a partir do ano de 2019. Relatos de profissionais de saúde – um psicólogo argentino, um médico equatoriano e uma agente comunitária de saúde salvadorenha – reforçam o quadro tétrico dos países. “O que eu diria à população brasileira é simples e direto. A saúde pública não sobrevive aos governos que desprezam o que é público. O que a extrema direita faz não é só cortar, ela muda a lógica, transforma direitos em privilégios. Quando a saúde se torna um bem de mercado, os que têm menos recursos ficam de fora”, resume José María di Bello, psicólogo e diretor da Fundación GEP (FGEP).

<><> Argentina: Milei passa a motosserra na Saúde

O caso da Argentina é bastante notório. Ex-comentarista de programas de TV, o economista Javier Milei venceu as eleições de 2023 prometendo acabar com a pasta da Saúde no país, reduzindo-o a uma secretaria de um superministério. A ameaça não se concretizou. Mesmo assim, o setor perdeu uma enorme quantia de recursos. O veículo especializado El Auditor estima que houve uma redução real de 30% no orçamento da Saúde em três anos (as estatísticas oficiais podem ser consultadas aqui), um verdadeiro caso de tesouraço.  Nesse processo, Milei busca forçar uma mudança na lógica do sistema rumo ao “salve-se quem puder”, explica José María di Bello. A queda de recursos é tão grande que “a saúde se tornou majoritariamente uma responsabilidade das províncias”, que correm para adquirir medicamentos antes comprados pelo governo federal. As desigualdades aumentam, já que nem todas possuem o mesmo dinamismo econômico. “Não estamos apenas frente a um ajuste, mas a um esvaziamento do papel do Estado”, ele alerta.

O programa de ajuste levou à demissão de 1,4 mil funcionários do Ministério da Saúde. As medidas também levaram a cortes nos programas para pessoas com deficiência, alegando “desperdício”. Entre vários outros, o maior escândalo de corrupção do governo até agora envolveu o desvio de verbas da ANDIS, agência de apoio a pessoas com deficiência. O caso envolve Karina Milei, irmã e secretária-geral do presidente. As quedas drásticas nas verbas e na força de trabalho se expressam no sucateamento das políticas públicas, relata José María. Os departamentos de saúde sexual e prevenção de doenças infecciosas, respectivamente, perderam 72% e 83% de seu orçamento. Na prática, isso significou uma redução de 58% no número de preservativos distribuídos pelo poder público, de 80 milhões em 2023 para 33 milhões em 2026. Nesses mesmos três anos, a prevalência do HIV subiu para 13 casos a cada 100 mil pessoas, quando há 3 anos era de 10 casos por 100 mil habitantes. “A situação é realmente desastrosa. Não se entregam mais preservativos nem testes rápidos. A última campanha [de conscientização] ocorreu em 2022. Tudo isso tem a ver com o aumento de 5,3 mil para 6,9 mil novos casos de HIV por ano, a taxa de mortalidade alta e os 40% de diagnósticos tardios. O mesmo ocorre com as hepatites, a tuberculose, o câncer”, lamenta José María. 

Outro segmento fortemente atingido é o acesso a medicamentos. Uma reportagem da AP revela que grupos clandestinos de pacientes de câncer e familiares se reúnem para adquirir medicamentos ilegalmente, após o fim da entrega gratuita de medicamentos oncológicos. “Tudo que eu preciso para que meu corpo funcione é esta medicação e Milei diz que não há dinheiro”, lamentou Ariel Wagener, pizzaiolo argentino de 47 anos que padece de leucemia, ao repórter. Seus remédios, que custam 21 mil dólares por mês, foram cortados. Ele sobrevive recebendo doações de outros pacientes do mesmo tipo de câncer. As contrarreformas atingem os princípios do sistema. Ao iniciar a cobrança para estrangeiros não residentes no último mês de agosto, Milei acabou com a gratuidade universal dos serviços públicos de saúde. Em movimentação subserviente aos Estados Unidos, a Argentina também foi o único país do mundo a sair da Organização Mundial da Saúde (OMS) junto dos Estados Unidos, minando a cooperação entre os povos.

Os ataques contra a saúde não contam com a aprovação da população. Em agosto de 2025, uma pesquisa demonstrou que 68% dos argentinos se opõem aos planos de Milei para reduzir o orçamento sanitário. Além disso, multiplicam-se no país as manifestações e greves de trabalhadores da saúde contra os cortes. Mesmo registrando sua menor popularidade desde o início do governo, o mandatário leva adiante o ajuste fiscal. Uma análise realizada pela Fundación Soberania Sanitária resume o cenário desastroso. O governo de Milei possui “uma orientação consistente rumo à retração do Estado nacional, que se expressa na queda real do financiamento, a subexecução orçamentária, a desarticulação de programas estratégicos e a desregulamentação da medicina privada. Este conjunto de decisões configura uma mudança estrutural no papel do Estado como coordenador do sistema sanitário”, explica o think tank.  “Esse processo se expressa de maneira particularmente crítica em áreas estratégicas, como o acesso a medicamentos essenciais e a formação da força de trabalho em saúde. As decisões adotadas impactam diretamente sobre a continuidade de tratamentos e a disponibilidade futura de pessoal sanitário”, completa a fundação. Em meio aos cortes, “o sistema de saúde [da Argentina] começa a se tensionar perigosamente”, aponta uma análise recente. O “aumento na demanda em meio a um cenário social complexo”, combinado com o corte de verbas, pode levá-lo ao colapso e a uma grave crise sanitária no futuro próximo.

<><> Equador: crise e desabastecimento de remédios

Em 2023, a derrubada do presidente do Equador e banqueiro Guillermo Lasso, acusado de corrupção, levou a eleições extraordinárias em que Daniel Noboa, herdeiro de uma fortuna bilionária de exportação de bananas, se elegeu em uma onda antipolítica. Reeleito dois anos depois, Noboa vem implementando um programa de cortes orçamentários, inclusive na Saúde, e militarização do país. Uma checagem da agência equatoriana Lupa identificou uma queda de recursos entre 2023 e 2024. Depois, uma análise do professor Stalin Vargas Mesa identificou um novo corte entre 2024 e 2025, estimando o total de perdas em US$421 milhões de dólares, o equivalente à perda de 2,1 bilhões de reais em três anos.

Presidente do Colégio Médico Provincial de Guayas, entidade representativa da categoria na região mais populosa do Equador, o médico Luigi Cedeño defende que há uma falta de políticas preventivas no sistema do país. “O problema não passa só pelo desabastecimento, pela falta de infraestrutura ou pela não aquisição de medicamentos. O sistema vai continuar colapsando porque há cada vez mais pessoas doentes no país”, explica. A conta chega para os usuários do sistema de saúde. Neste exato momento, em consequência das políticas equivocadas, o Equador vive uma grave crise de desabastecimento de medicamentos, classificada por Luigi Cedeño como “terrível”. Uma reportagem da CNN revela que os trabalhadores dos hospitais pedem que os parentes de pacientes doem luvas cirúrgicas. Sem dinheiro para adquirir refeições para os internados, os serviços públicos de saúde recebem doações de bancos de alimentos.

Dados oficiais citados pela CNN indicam que o país só consegue oferecer 34% dos remédios utilizados pelos serviços públicos de saúde. Em meio à crise, o gasto das famílias com medicamentos explodiu. “Cada semana gasto 200 a 300 dólares com receitas”, afirmou Guido Muñoz, aposentado equatoriano que realiza tratamento quimioterápico para leucemia, à rede de notícias estadunidense. Em meio a crise, no último mês de julho, o governo de Noboa chegou ao oitavo ministro da saúde em 3 anos, com a nomeação de Juan Carlos Aveiga. Trata-se de um verdadeiro caos institucional. “O governo não acerta porque nomeia pessoas improvisadas na Saúde. Todos fracassaram, inclusive o atual ministro. Seguirão fracassando enquanto não aplicarem políticas preventivas”, defende Luigi Cedeño. 

<><> El Salvador: IA e teleconsulta substituem trabalhadores

O cenário não é diferente em El Salvador. O país é governado com mão de ferro pelo ultradireitista Nayib Bukele desde 2019. A tendência de seu governo tem sido o corte de verbas, a demissão de trabalhadores da saúde e a adoção acrítica de ferramentas digitais no Sistema Nacional de Saúde (SNS). A agente comunitária de saúde e membro do Fórum Nacional de Saúde de El Salvador, Morena Murillo, explica que as ações de Bukele na saúde começaram com uma mentira: “Em sua campanha, ele dizia que ia aprofundar a reforma da saúde [iniciada pelos governo de esquerda da FMLN em 2009, eliminando cobranças do sistema de saúde e fortalecendo atenção primária]. Mas a primeira coisa que fez foi acabar com a transparência e a participação social”. Depois, ela conta, o “desmantelamento do sistema de saúde” passou por medidas como o desfinanciamento da atenção primária, o fechamento das equipes comunitárias de saúde da família e unidades de atenção básica e suspensão de programas de saúde da mulher. Cinco anos depois, os cortes se intensificaram. No país, o orçamento da saúde de 2025 foi de 90 milhões de dólares a menos que no ano anterior: as verbas caíram de US$1,26 bilhão para US$1,17 bilhão, um corte de 7%. Entidades médicas denunciam a ausência de um Plano Nacional de Saúde. Segundo o site Infobae, o ajuste significou o “fechamento de 50 clínicas da família”. Morena Murillo estima que 7,7 mil profissionais de saúde foram demitidos.

Como nos demais países, as consequências do ultraliberalismo se revelam em uma alta de doenças infecciosas. El Salvador registrou um aumento de 14,3% nos casos de HIV no primeiro semestre de 2026, apontam dados oficiais. Em um típico caso de instrumentalização mercantilista das novas tecnologias digitais, os profissionais de saúde despedidos estão sendo substituídos por Inteligência Artificial. O aplicativo promovido pelo governo para a realização de teleconsultas foi desenvolvido pelo Google e os dados de saúde dos salvadorenhos são armazenados no Google Cloud, sem garantias de privacidade de informações sensíveis, explica o La Diaria. “A plataforma DoctorSV, financiada com empréstimos milionários, implementa uma modalidade de telemedicina que é insustentável, porque debilita o Sistema Nacional de Saúde e exclui os mais pobres, que não têm acesso à internet. Ainda por cima, o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), que financiou o projeto piloto, recomenda que seja introduzida a coparticipação. Ou seja, há risco de começarmos a pagar pelos serviços de saúde”, alerta Murillo.

<><> Risco da ultradireita no Brasil

O cenário de desfinanciamento, demissões e caos nos serviços de saúde que atinge estes três países governados pela ultradireita na América Latina mostra um cenário possível caso Flávio Bolsonaro vença as eleições no Brasil, opinam os três profissionais de saúde consultados pela reportagem. “Aqui na Argentina não aprendemos com a experiência brasileira com Michel Temer e Jair Bolsonaro. Agora, vivemos o desfinanciamento de programas essenciais, ataques à ciência, retrocessos enormes nos direitos sexuais e reprodutivos, afetando principalmente as mulheres e a população LGBT, e desigualdades territoriais. Os direitos estão virando mercadoria”, lamenta o psicólogo argentino José María di Bello. 

O médico equatoriano Luigi Cedeño complementa: “Um dos problemas mais importantes que o povo brasileiro precisa entender é que a direita não vê a saúde como um investimento, mas como um gasto. A direita, tanto a de Noboa quanto a de Bolsonaro, acredita que cada um precisa pagar por sua própria saúde. Os beneficiados da privatização da saúde vão ser as grandes elites. Meu chamado para a população brasileira é que tudo o que foi conquistado desaparece se não votamos em pessoas que não garantem os direitos da população. Não podemos permitir retrocessos, é preciso avançar mais e organizar-se mais para que a saúde seja um direito de todas e todos”, completa a agente comunitária salvadorenha Morena Murillo.

¨      Lutas pelo direito à saúde salvam democracias? Por Gabriel Brito

O ativismo do ministro do STF André Mendonça em favor da campanha de Flavio Bolsonaro à presidência da República.  Ficou clara a partir de sua ação contra Alexandre de Moraes desviando o foco da revelação da revista Piauí sobre a entrega de mais R$ 8 milhões de reais por Daniel Vorcaro, banqueiro preso por usar fundos públicos para operações financeiras fraudulentas, ao filho de Jair Bolsonaro. O valor se soma aos R$ 61 milhões já revelados anteriormente pela investigação da Polícia Federal. Para os diversos ativismos sociais e populares que formam a base de apoio de Lula, o recado está claro: o jogo será pesado e a falta de entusiasmo e mesmo adesão social a Flavio Bolsonaro será compensada por ações discricionárias de seus aliados. Nesse sentido, experiências de organização coletiva, inclusive em defesa da saúde, podem oferecer pistas para alcançar eleitores ainda indecisos.

“Em 2022, fizemos atos espalhados pela cidade, sempre com símbolos do SUS, o que era ótimo para conversar. Conseguimos nos conectar com estudantes e trabalhadores, parte deles afastada de campanhas políticas. Fomos a lugares estratégicos, como entradas de emergência de hospitais, feiras, parques. Pudemos ver como fazia diferença um grupo político alinhado à ideia de equidade, apoio à ciência, direito à saúde, de forma articulada aos profissionais de saúde”, contou Denis Saffer, membro do Movimento Saúde dos Povos (MSP). Sua fala ocorreu em evento online promovido pelo MSP em parceria com Outra Saúde, com ativistas de saúde do Brasil, Colômbia e México, países que vivem experiências inéditas de mobilizações de massa em torno da saúde. Mediada por Jéssica Torres, a reunião usou as eleições como referência de momentos decisivos para a construção das democracias na América Latina. Por sua vez, México e Colômbia viveram recentemente processos de renovação das lutas sociais que alcançaram vitórias eleitorais — embora o país sul-americano tenha vivido uma derrota recente para a ultradireita. Na saúde, ambos miraram no SUS como ponto de partida para a elaboração de sistemas de saúde universais, projeto que apenas começa a sair do plano teórico nos dois países.

<><> A experiência colombiana

No entanto, como explicou Jennifer Cardona Malaver, da seção colombiana do MSP, os embates políticos não foram fáceis. Há todo um muro de poder oligárquico no Estado a colocar barreiras na construção de uma política pública transformadora. “Era um governo de disputa e parte do movimento social tratou o fato de eleger Gustavo Petro como suficiente. Depois, fomos arrastados a dinâmicas que impediram produzir transformações maiores. No começo, quase toda a energia foi canalizada para sustentar a gestão Petro, o que era correto, mas houve erros estratégicos”, explicou. Em sua visão, apenas na reta final do mandato uma nova estratégia foi traçada, com retomada do foco no ativismo alheio à máquina de governo. No entanto, não foi suficiente para se evitar a vitória de mais um outsider de ultradireita. Empresário radicado em Miami, com cidadania dos EUA, Abelardo de la Espriella explodiu na reta final da eleição e se elegeu, sob inúmeras acusações de abuso de poder e favorecimento das mídias, tanto velhas como novas. “Deixar críticas de lado como tática de evitar munição para a oposição nos fez perder a direção do processo. Deixamos de exercer controle sobre nosso movimento ao confundir lealdade política com silêncio. E no meio disso perdemos autonomia crítica e organizativa. Isso nos deixou dependentes da agenda do governo”, admitiu Jennifer. Dessa forma, a construção de um sistema público de saúde num país cujo modelo remete ao Brasil pré-SUS parece ter sido adiada. “A reforma do sistema de saúde acabou sendo vítima disso. Não houve um processo amplo e democrático de construção da reforma, que ficou restrita aos espaços institucionais, com pouca participação e consequentemente pouca pressão das ruas para a aprovação”, complementou.

O futuro é incerto. Como todo recém-eleito, De la Espriella busca ações que gerem aprovação social. E a saúde deverá ser alvo de suas primeiras iniciativas. Porém, sob as antigas fórmulas privatistas. “O novo presidente pretender fortalecer os modelos das empresas prestadoras de saúde. Ele tem plano de choque de 10 bilhões de pesos para destravar cirurgias e solucionar a crise de remédios, que eles mesmos geraram nas eleições”, disse, em alusão a um desabastecimento forçado às vésperas do pleito.

De toda forma, a militante da saúde e do Pacto Histórico (bloco partidário que elegeu Gustavo Petro, mas não fez seu sucessor), enxerga aspectos positivos na experiência política. “Nosso movimento se conectou com outras lutas sociais, como ambientais, femininos, religiosos, esportivos, enfim, o tema saiu do movimento específico e outras formas de ativismo se conectaram. Também passou-se a ver saúde por uma lógica menos assistencialista e hospitalocêntrica, e passou a se entender como uma determinação social”, analisou.

<><> A experiência mexicana

Se de um lado o momento latino-americano é de baixa, em razão de uma derrota eleitoral inesperada, no México a conjuntura talvez seja a mais favorável a projetos políticos progressistas no continente. Claudia Sheinbaum, primeira presidente mulher deste país, que tomou posse no final de 2024 e goza de alta aprovação. Seu antecessor, Antonio Manuel Lopez Obrador (AMLO), liderou um processo de construção do Movimento de Renovação Nacional (Morena), um autodenominado partido-movimento, e terminou seu mandato com forte apoio popular. Seu governo representou a reversão de “30 anos de neoliberalismo que destruíram o tecido social”. A afirmação é de Luz del Carmen García Martinez, do Movimento Saúde dos Povos no país. Sua participação no diálogo apresenta uma rica experiência política, que tenta avançar na administração do Estado sem perder a vitalidade nos territórios onde se organiza o Morena. A caminhada foi longa. Como conta Luz del Carmen, o país viveu quase um século de governos influenciados pela Revolução de 1910, que afirmaram a democracia política do país, mas se degeneraram no tempo através de burocratização e corrupção. No meio disso, um neoliberalismo que deixou a sociedade à mercê da pobreza e do avanço dos grandes cartéis do narcotráfico.

Tal dinâmica fazia das eleições quase um sinônimo de fraude. Para mudar a situação, AMLO liderou um processo “que visitou cada povoado e foi falando com as pessoas interessadas quase de porta em porta”, rememora a ativista mexicana. “Passamos um ano filiando pessoas, para formalizar um pouco a organização. Fizemos assembleias para nomear dirigentes para cada seção eleitoral – presidente(a) e secretário(a), sempre um homem e uma mulher. A organização é territorial, ainda que existam grupos de whatsapp para trocar informações entre os filiados”, explicou.

Seu governo se afirmou por meio de corte de gastos com a burocracia estatal privilegiada, investimentos em educação e uma política de segurança que conseguiu reduzir a violência brutal dos grupos criminosos. Agora, sua sucessora tenta avançar na experiência do partido-movimento e a saúde apareceu como bandeira de peso: um “SUS mexicano”, ainda que com diferenças importantes do sistema brasileiro, começa a tomar forma e tem início previsto para 2027. “Atualmente, o governo tenta conduzir uma estratégia para envolver o povo em processos de decisão. Temos programas significativos de educação, o Escuela Nuestra, para o qual o governo transfere recursos e os coloca na mão das comunidades. Nomeia-se um comitê, com secretários, tesoureira, professores, pais e mães. Com assembleias, decide-se o que fazer para melhorar as escolas. O mesmo programa se transportou para a saúde”, explicou.

¨      De volta ao Brasil

A saúde e o SUS parecem manter o potencial de ativo eleitoral demonstrado em 2022. E se o sistema de saúde ampliou sua aceitação na opinião pública é porque houve um esforço consciente neste sentido, como relembrou Denis Saffer.
“Os movimentos sociais tradicionais do setor não haviam conseguido mobilizar os profissionais de saúde para ações de campanha. Isso foi organizado mais claramente após o primeiro turno de 2022. Construímos uma campanha chamada Saúde com Lula e uma plenária. A partir disso construímos grupos por área da cidade, em especial a partir dos locais de trabalho e moradia. E aí entrou em cena o conhecimento territorial dos profissionais de saúde, que conseguiam se organizar pra fazer campanha fora dos horários de trabalho. Havia um sentido importante de impedir o bolsonarismo de voltar ao poder, porque causou tanta morte e sofrimento a profissionais e usuários do SUS. Neste ano, lançamos a campanha já no primeiro turno”, destacou. Alvo da sanha de uma direita violenta e autoritária, local e estrangeira, o Brasil é a bola da vez. O resultado eleitoral de outubro define de forma inequívoca se haverá espaço para avanços democratizantes, inclusive no SUS, ou se o país será trancado no porão neoliberal, sob controle de políticos da estirpe do neofascista e, por ora, presidiário Jair Bolsonaro. Olhar as experiências de luta social que marcam o continente pode ser uma boa terapia.

 

Fonte: Por Guilherme Arruda, em Outra Saúde

 

Nenhum comentário: