sábado, 17 de outubro de 2026

Como os juros agravam o choque do clima

O relatório internacional publicado no Brasil sob o título Dívida Agrava Crise Climática: como o financiamento flui, de setembro último, teve sua pesquisa e elaboração analítica conduzidas pela ActionAid Internacional em parceria técnica com a organização especializada Development Finance International (DFI). O documento representa a quarta edição da série temática de relatórios investigativos da entidade, que acompanha sistematicamente as assimetrias no sistema financeiro internacional, elaborados entre 2023 e 2026. A investigação metodológica articulada pela DFI e pela ActionAid cruza quatro matrizes orçamentárias e financeiras fundamentais: a arrecadação governamental consolidada (receitas públicas), o volume de desembolsos projetados para amortização e juros da dívida soberana, as dotações orçamentárias nacionais aprovadas e as obrigações estipuladas nos planos climáticos submetidos pelos Estados à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).

Publicado em 16 de setembro de 2026, a base do relatório são projeções e bases de dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) e balanços fiscais declarados por governos nacionais. Todas as cifras financeiras apresentadas configuram estimativas e alocações orçamentárias nominais previstas para o ano fiscal de 2026. O universo central examina os 65 países mais vulneráveis aos impactos socioambientais da crise climática global. O Brasil foi incorporado como país de análise suplementar prioritária (fora do núcleo dos 65) em função de três vetores determinantes: extrema relevância na conservação da biodiversidade global (biomas Amazônia e Cerrado, por exemplo), peso geopolítico e econômico no G20 (ocupando a posição de 10ª maior economia mundial) e o protagonismo internacional como país-sede da COP em 2025.

Os dados do relatório impressionam. Os gastos com o serviço da dívida no Sul Global são de US$ 8,8 trilhões em 2026, montante que absorve 43,5% de toda a arrecadação orçamentária dos chamados países em desenvolvimento. Esses países do Sul Global receberam apenas US$ 39 bilhões em doações climáticas do Norte Global, mostrando que o Sul transfere 225 vezes mais capital aos credores do que recebe na forma de ajuda climática não geradora de passivos. O total de US$ 39 bilhões recebidos a título de doações equivale a meros 0,44% do dispêndio total carreado ao serviço da dívida em 2026. Nos 65 países mais vulneráveis analisados, o serviço da dívida compromete, em média, 65% de toda a receita fiscal governamental arrecadada. Estes países despendem 25 vezes mais recursos no atendimento aos credores do que em políticas públicas de transição e adaptação climática.

Entre esse núcleo mais vulnerável de 65 países, o gasto com o serviço da dívida em 2026 totaliza US$ 304,8 bilhões (consolidado sobre 54 países com dados públicos; 11 nações não divulgam registros regulares). Esse valor representa um fluxo anual de pagamentos — e não o estoque da dívida. A dívida pública do planeta bateu a marca histórica de US$ 102 trilhões ao encerramento de 2024, de acordo com registros da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento). Segundo o estudo, cerca de 3,4 bilhões de pessoas (aproximadamente 41% da humanidade) residem em países que canalizam fatias orçamentárias mais volumosas ao pagamento de juros do que aos sistemas públicos de saúde ou educação.

Dois terços dos repasses computados pelas economias do Norte Global como socorro climático são operados sob a forma de empréstimos onerosos com juros de mercado — inflando artificialmente os compromissos multilaterais em cerca de US$ 100 bilhões. O conjunto dos países do planeta gasta cerca de US$ 23 a 24 trilhões por ano no custeio e amortização do serviço da dívida, contra apenas US$ 17,6 trilhões anuais direcionados à totalidade dos investimentos globais em saúde, educação e clima somados (uma proporção de 1,3 a 1,4 vez superior a favor da dívida). A desigualdade socioeconômica territorial é monstruosa: 80,5% de todos os desembolsos globais voltados à saúde e 64% do investimento educacional planetário concentram-se de forma restrita no interior das nações de renda alta.

Como mencionado, o Brasil foi incorporado como país de análise suplementar prioritária (fora do núcleo dos 65) em função de sua importância na área ambiental, com seus biomas, e pelo fato de ser a 10ª economia do mundo em 2026, segundo projeção do FMI (no ano passado foi a 11ª). No país, o serviço da dívida pública federal consolidada demandará US$ 437,6 bilhões (cerca de R$ 2,32 trilhões), confiscando 40,79% de toda a receita governamental líquida projetada (US$ 1,07 trilhão / aproximadamente R$ 5,67 trilhões). A proporção da receita brasileira tragada pelo endividamento aproxima-se do índice agregado do Sul Global (40,79% frente a 43,5%), o que mostra a gravidade do problema, mesmo em nações consideradas em desenvolvimento. O dispêndio federal no Brasil mobilizado para satisfazer o serviço da dívida é 45 vezes superior aos recursos necessários para lastrear a integralidade das NDCs (em português, Contribuição Nacionalmente Determinada), incondicionais acordadas pelo Brasil perante o Acordo de Paris (US$ 9,6 bilhões / aproximadamente R$ 50,88 bilhões).

O estudo traz informações conhecidas pelos brasileiros. O custo anual da dívida soberana nacional equivale a 3,05 vezes a totalidade dos aportes federais em educação e a 8,12 vezes o orçamento global da União consignado à saúde pública. O Brasil lidera o ranking global de comprometimento do produto interno com juros da dívida pública, atingindo 8,28% do PIB em 2024 (o índice mais elevado registrado entre 153 nações monitoradas pelo FMI) e 7,9% do PIB em 2025. Nenhum dos integrantes do G20 apresenta indicadores próximos à realidade orçamentária brasileira: a Índia empenha aproximadamente 5% do PIB em juros, enquanto os Estados Unidos despendem cerca de 3% do PIB. Na comparação da despesa de juros frente ao gasto estatal global, a Índia absorve 25% e os EUA alocam cerca de 19%. O Estado brasileiro supera ambas as nações apenas nas parcelas acessórias de juros, atingindo cerca de 43% do orçamento global ao se agregarem as amortizações de principal.

Alguns casos críticos citados no relatório dão conta de países muito pobres que comprometem mais de 100% de sua arrecadação com o serviço da dívida pública. Ou seja, toda a arrecadação é insuficiente para cobrir os serviços da dívida, o que é algo extraordinário. É o caso de Bangladesh, Burundi, Guiné-Bissau, Malaui, Paquistão e Serra Leoa, que operam em dinâmica perpétua de refinanciamento, sendo compelidos a contrair novos passivos internacionais com a finalidade exclusiva de amortizar juros de débitos prévios. É um sistema de dívida pública, como conhecemos no Brasil, só que levado aos limites da super exploração neocolonial.

O estudo mostra um ciclo vicioso na relação dívida pública versus clima. Um desastre climático extremo destrói parcelas expressivas da infraestrutura produtiva nacional, dizima sistemas de escoamento e causa retração violenta e súbita no PIB do país atingido. Sem recursos para enfrentar o problema, o governo nacional contrai dívidas emergenciais adicionais no mercado ou em agências multilaterais para cobrir operações de socorro humanitário e reconstrução territorial básica. Sob o peso do perfil de amortização caro e imposições estruturais de credores, o Estado não consegue realizar investimentos estratégicos de longo prazo voltados ao problema climático e à infraestrutura em geral. Isso leva a uma intensificação da extração predatória de recursos. Para captar dólares e honrar cronogramas de serviço da dívida, a administração amplia concessões e projetos de exploração primária (combustíveis fósseis, extração mineral em larga escala e agroexportação intensiva), gerando degradação ecossistêmica e novas catástrofes.

O argumento central do estudo é o de que a anulação global do passivo financeiro que recai sobre o grupo das 65 nações altamente vulneráveis restituiria uma folga orçamentária autônoma suficiente para cobrir 6 vezes as metas das suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) incondicionais perante o Acordo de Paris, ou viabilizar 2 vezes todos os investimentos combinados dessas sociedades em transição climática, infraestrutura pública de saúde, educação básica universal e seguridade social. Para a abordagem do relatório, a emergência do sobre-endividamento soberano não é uma consequência técnica inevitável da escassez material, mas uma barreira política, artificialmente reproduzida por dinâmicas distributivas neocoloniais, cuja superação requer reformas distributivas profundas na arquitetura financeira global.

Dentre as recomendações do relatório para enfrentar o problema, algumas são bastante importantes, como o cancelamento estrutural de dívidas impagáveis: operacionalização de perdão definitivo para passivos externos considerados insustentáveis, incidindo compulsoriamente sobre nações que empenham mais de 10% das receitas no serviço da dívida externa soberana, associado a um gatilho de renegociação semiautomática quando o índice variar entre 10% e 15%; e a moratória automática e de escopo universal: Instituição de cláusula mandatória universal de suspensão temporária do pagamento de juros e principal diante de choques climáticos extremos comprovados por comitês técnicos, aplicando-se obrigatoriamente a todos os contratos privados e bilaterais.

O relatório traz também outras recomendações. Mas possivelmente, a mais importante é a sugestão de mobilização internacional permanente em torno do problema, ou seja, o engajamento de populações que, enquanto transferem até mais de 100% do orçamento para sustentar os serviços de dívidas impagáveis, sofrem na carne os impactos decorrentes dessa política predatória e insustentável. Sem essa mobilização, é ilusão imaginar que este insano método de superexploração financeira do Sul Global será desmontado.

 

Fonte: Por José Álvaro de Lima Cardoso, em Outras Palavras

 

Nenhum comentário: