Vira-voto:
O outro que também sou em tempos de polarização
Em maio
de 1962, José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho, estava entre os homens
mais procurados pela polícia do Rio de Janeiro. Acumulava assaltos, confrontos
com policiais e fugas da prisão e do Manicômio Judiciário, onde cumpriria uma
pena superior a cem anos. Mais de trezentos homens participaram da operação que
terminou na madrugada de 1º de maio, quando seu corpo foi encontrado com treze
marcas de tiros. No mês seguinte, a revista Senhor publicou a crônica que havia
encomendado a Clarice Lispector sobre o caso.
Clarice
acompanha os treze disparos um a um. Os dois primeiros ainda lhe produzem
aquilo que chama de “alívio de segurança”; a partir do terceiro, sua reação
começa a mudar, passa pelo desassossego, pela vergonha e pelo horror, até
chegar ao décimo terceiro. Anos depois, ao falar sobre a crônica, resumiu a
razão dessa mudança: “qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava.
O resto era vontade de matar. Era prepotência.”
Desde a
noite de domingo, depois de um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou
1,87 ponto percentual à frente de Lula, começou outro tipo de contagem. Mais de
33 milhões de brasileiros não haviam comparecido às urnas. Nas redes sociais,
multiplicaram-se apelos para procurar quem se absteve, conversar com indecisos
e tentar “virar” um voto antes de 25 de outubro. Fanbases de Taylor Swift,
Beyoncé, BTS, Anitta, Lady Gaga e dezenas de outros artistas abriram perfis que
normalmente se ocupam de música e cultura pop para a campanha de Lula, algumas
delas com centenas de milhares de seguidores. A mobilização começou ainda na
noite de 4 de outubro e se espalhou nos dois dias seguintes sob hashtags como
#FandomsComLula.
Quando
o “vira-voto” deixa de ser uma mobilização nas redes e vira conversa, o eleitor
abstrato ganha rosto, história e relações que muitas vezes complicam a imagem
formada a partir do voto. Uma conversa pode revelar misoginia, racismo ou
hostilidade aberta; pode também colocar diante de nós alguém que passou anos
ensinando, cuidando de familiares, trabalhando no serviço público, protegendo
animais ou atendendo pessoas vulneráveis e que, na política, defende punições
muito duras ou concede a certas autoridades poderes que lhe pareceriam
excessivos nas mãos de outras. Nesses casos, a falta de empatia explica pouco:
na vida dessas pessoas, o cuidado já faz parte de suas relações e de sua vida
cotidiana. O que precisa ser compreendido é por que ele se estende tão
facilmente a alguns e se retrai diante de outros, sobretudo quando medo,
pertencimento e identidade política passam a definir quem inspira confiança,
quem parece ameaçador e quem continua merecendo proteção.
A
psicologia estuda essa diferença há décadas, embora a palavra “empatia” tenha
frequentemente chegado ao debate público simplificada demais. Em 2014, os
psicólogos Jean Decety e Jason Cowell reuniram pesquisas de psicologia do
desenvolvimento, comportamento e neurociência social para mostrar que vários
processos diferentes costumavam ser tratados como se fossem uma única
capacidade. Compartilhar emocionalmente o sofrimento de alguém, preocupar-se
com seu bem-estar e conseguir assumir sua perspectiva são operações
relacionadas, mas distintas. A presença de uma delas tampouco produz uma
consequência moral uniforme: o contexto, a relação com a outra pessoa e o grupo
ao qual ela pertence participam da resposta.
Três
anos depois, Emile Bruneau, Mina Cikara e Rebecca Saxe testaram uma parte desse
problema em americanos diante de árabes, húngaros diante de refugiados e gregos
diante de alemães. Os pesquisadores mediram tanto a disposição geral dos
participantes para se preocupar com outras pessoas quanto a preocupação
dirigida especificamente ao próprio grupo e ao grupo externo. O que chamaram de
parochial empathy apareceu na distância entre essas duas últimas medidas. Essa
distância previa disposição para ajudar o outro grupo e aceitação de danos
contra ele melhor do que a empatia geral do participante. Uma pessoa podia,
portanto, apresentar forte preocupação empática e distribuí-la de maneira
profundamente desigual conforme quem estivesse diante dela.
A
própria crônica de Clarice se move à medida que muda a distância entre quem
observa e quem está sendo atingido. Nos primeiros disparos, Mineirinho aparece
ainda através do perigo que representava e da segurança que sua captura poderia
oferecer. No décimo terceiro, Clarice escreve: “porque eu sou o outro”. A
contagem preserva o medo que aparecia no início, mas aproxima da narradora o
homem que até então podia ser visto sobretudo como ameaça. A psicologia social
passou a investigar, em contextos muito diferentes, como essas distinções entre
quem reconhecemos como próximo e quem percebemos como pertencente a outro grupo
alteram a empatia, a disposição para ajudar e a tolerância ao dano.
Bruneau,
Cikara e Saxe estudaram conflitos específicos e populações muito diferentes do
eleitorado brasileiro. O mecanismo que encontraram, porém, ajuda a compreender
por que alguém pode passar boa parte da vida cuidando de outras pessoas e
continuar estabelecendo fronteiras bastante rígidas para esse cuidado. Filhos,
alunos, vizinhos, animais ou integrantes de uma comunidade podem mobilizar
atenção e proteção intensas; quando o conflito político altera quem é percebido
como próximo, ameaçador, responsável por um problema ou merecedor de confiança,
altera também as condições em que aquela preocupação é mobilizada.
Algumas
semanas atrás, o Datafolha encontrou outro resultado que dificulta explicações
simples para o momento brasileiro. Entre 29 de setembro e 1º de outubro,
perguntou a 2.506 eleitores qual forma de governo preferiam. A democracia foi
escolhida por 73%. Entre os que declaravam voto em Lula, eram 76%; entre os
eleitores de Flávio Bolsonaro, 74%. Para 7% do conjunto dos entrevistados, uma
ditadura poderia ser preferível em determinadas circunstâncias.
Quase
três quartos dos eleitores de Flávio Bolsonaro, portanto, chegaram ao primeiro
turno dizendo preferir a democracia. Esse dado sugere que a divergência
política brasileira passa também pelo conteúdo atribuído à democracia quando a
escolha deixa de ser entre duas palavras — democracia ou ditadura — e passa a
envolver situações específicas: quanto poder deve ter um presidente, até onde
pode ir uma política de segurança, quais controles sobre o governo são
legítimos, o que fazer quando um tribunal decide contra o próprio campo, quais
direitos continuam protegidos quando seu titular provoca rejeição.
Michael
Albertus, da Universidade de Chicago, e Guy Grossman, da Universidade da
Pensilvânia, publicaram em 2021 uma série de experimentos realizados com
eleitores da Argentina, Brasil, México e Estados Unidos. Os participantes eram
confrontados com medidas pelas quais governantes enfraqueciam normas ou
controles democráticos. As maiorias identificavam as violações. Entre 10% e
35%, dependendo do país e da situação apresentada, ainda assim apoiavam
determinadas medidas, e esse apoio aumentava quando o governante responsável
havia recebido o voto do entrevistado. Albertus e Grossman chamaram esses
participantes de conditional democrats: a preferência pela democracia
continuava existindo, enquanto a disposição de impor seus limites variava com a
identidade de quem estava no poder.
Nos
experimentos de Albertus e Grossman, reconhecer que uma medida feria princípios
democráticos e decidir rejeitá-la eram coisas distintas. A identidade de quem
exercia o poder alterava a tolerância a essa violação. Um eleitor podia
valorizar eleições, considerar-se democrata e, diante de uma medida concreta,
admitir para o candidato que escolheu uma margem de poder que consideraria
perigosa nas mãos do adversário. Segurança, corrupção, religião, economia e
experiências de violência entram nessa avaliação junto com lealdades políticas
e afetivas.
Em
junho de 2026, Anna Petherick, Guilherme Ramos, Rodrigo Furst, Rafael
Goldszmidt e Eduardo Andrade acrescentaram um dado brasileiro importante a essa
discussão. Em artigo publicado na Nature Communications, acompanharam amostras
de aproximadamente 2.000 a 3.000 participantes em cinco ondas realizadas antes,
durante e depois da eleição de 2022. Os pesquisadores encontraram forte
polarização afetiva entre lulistas e bolsonaristas, mas também testaram o que
ocorria quando participantes recebiam informações que corrigiam percepções
erradas sobre as posições do outro grupo em temas controversos. Algumas dessas
intervenções reduziram a distância afetiva; em uma delas, a queda chegou a 6,66
pontos percentuais na escala empregada pelo estudo.
Nos
experimentos, corrigir uma percepção equivocada sobre o outro grupo bastou, em
algumas condições, para reduzir a hostilidade medida. O estudo testa
intervenções controladas e seu resultado deve ser lido nessa escala. Ainda
assim, mostra que parte do julgamento sobre adversários políticos depende das
posições que lhes atribuímos, do perigo que associamos a essas posições e das
informações que circulam nos grupos em que confiamos. Quando uma dessas
percepções muda, a avaliação do outro pode mudar com ela.
Talvez
seja esse o aspecto mais interessante da mobilização que começou depois do
primeiro turno. Fandoms são, eles próprios, comunidades construídas por
afinidade, linguagem compartilhada, confiança e pertencimento. Algumas já
transformavam essas redes em ação social muito antes da eleição: o Army Help
the Planet, criado por fãs brasileiros do BTS em 2019, desenvolveu projetos
socioambientais e parcerias com organizações como Unicef, Fiocruz e Greenpeace.
Depois de domingo, estruturas formadas em torno de vínculos culturais passaram
a circular informação política e a procurar pessoas fora de um eleitorado já
convencido.
Nesse
contexto, há uma diferença considerável entre mobilizar quem já concorda e
conversar com alguém cuja decisão provoca perplexidade. A segunda situação
exige descobrir o que aquela pessoa acredita estar protegendo quando escolhe
determinada política ou candidato. Para alguns será segurança; para outros,
religião, renda, família, rejeição ao Partido dos Trabalhadores (PT),
indignação com o Supremo, memória de corrupção ou identificação com uma ideia
de ordem. Nenhuma dessas razões determina sozinha um voto, e nenhuma precisa
ser imaginária para produzir escolhas cujas consequências institucionais outra
pessoa considere graves.
Em
“Mineirinho”, Clarice mantém juntas duas experiências que poderiam parecer
incompatíveis: o “alívio de segurança” dos primeiros disparos e o horror que
cresce enquanto eles continuam. O medo registrado no início permanece
compreensível; o que muda, tiro após tiro, é quanto esse medo passa a permitir.
Quando
alguém diz que busca segurança, ordem ou proteção da família, ainda resta
entender o que cada uma dessas palavras autoriza concretamente. Do que essa
pessoa tem medo? O que acredita estar protegendo? Quem aparece como ameaça? Que
poderes considera necessários para enfrentá-la? Aceitaria os mesmos poderes nas
mãos do candidato adversário? E quem suportará as consequências caso esse
limite seja ultrapassado? As respostas dizem mais sobre a relação entre cuidado
e política do que presumir, desde o início, que uma escolha eleitoral revelou
toda a vida moral de quem a fez.
Os
estudos sobre empatia e polarização mostram que pertencimento, percepção do
adversário e distribuição da empatia respondem ao contexto e, em algumas
condições, à informação. Essas fronteiras não permanecem necessariamente no
mesmo lugar. Clarice chega ao décimo terceiro tiro escrevendo “porque eu sou o
outro”, reconhecendo-se no homem de quem, nos primeiros disparos, ainda se
sentia protegida. A política raramente produz uma mudança dessa ordem de uma
vez, e nenhuma conversa pode garanti-la. Em muitas das pessoas encontradas
nessas conversas, porém, o cuidado já existe na prática cotidiana. A pergunta
passa a ser onde ele se interrompe, quem ficou além dessa interrupção e o que
pode fazer com que alguém percebido apenas como ameaça volte a aparecer também
como uma pessoa cuja vida, liberdade e direitos têm peso.
Fonte:
Por Estéfany Rocha Monteiro, em Outras Palavras

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