segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Vira-voto: O outro que também sou em tempos de polarização

Em maio de 1962, José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho, estava entre os homens mais procurados pela polícia do Rio de Janeiro. Acumulava assaltos, confrontos com policiais e fugas da prisão e do Manicômio Judiciário, onde cumpriria uma pena superior a cem anos. Mais de trezentos homens participaram da operação que terminou na madrugada de 1º de maio, quando seu corpo foi encontrado com treze marcas de tiros. No mês seguinte, a revista Senhor publicou a crônica que havia encomendado a Clarice Lispector sobre o caso.

Clarice acompanha os treze disparos um a um. Os dois primeiros ainda lhe produzem aquilo que chama de “alívio de segurança”; a partir do terceiro, sua reação começa a mudar, passa pelo desassossego, pela vergonha e pelo horror, até chegar ao décimo terceiro. Anos depois, ao falar sobre a crônica, resumiu a razão dessa mudança: “qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava. O resto era vontade de matar. Era prepotência.”

Desde a noite de domingo, depois de um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou 1,87 ponto percentual à frente de Lula, começou outro tipo de contagem. Mais de 33 milhões de brasileiros não haviam comparecido às urnas. Nas redes sociais, multiplicaram-se apelos para procurar quem se absteve, conversar com indecisos e tentar “virar” um voto antes de 25 de outubro. Fanbases de Taylor Swift, Beyoncé, BTS, Anitta, Lady Gaga e dezenas de outros artistas abriram perfis que normalmente se ocupam de música e cultura pop para a campanha de Lula, algumas delas com centenas de milhares de seguidores. A mobilização começou ainda na noite de 4 de outubro e se espalhou nos dois dias seguintes sob hashtags como #FandomsComLula.

Quando o “vira-voto” deixa de ser uma mobilização nas redes e vira conversa, o eleitor abstrato ganha rosto, história e relações que muitas vezes complicam a imagem formada a partir do voto. Uma conversa pode revelar misoginia, racismo ou hostilidade aberta; pode também colocar diante de nós alguém que passou anos ensinando, cuidando de familiares, trabalhando no serviço público, protegendo animais ou atendendo pessoas vulneráveis e que, na política, defende punições muito duras ou concede a certas autoridades poderes que lhe pareceriam excessivos nas mãos de outras. Nesses casos, a falta de empatia explica pouco: na vida dessas pessoas, o cuidado já faz parte de suas relações e de sua vida cotidiana. O que precisa ser compreendido é por que ele se estende tão facilmente a alguns e se retrai diante de outros, sobretudo quando medo, pertencimento e identidade política passam a definir quem inspira confiança, quem parece ameaçador e quem continua merecendo proteção.

A psicologia estuda essa diferença há décadas, embora a palavra “empatia” tenha frequentemente chegado ao debate público simplificada demais. Em 2014, os psicólogos Jean Decety e Jason Cowell reuniram pesquisas de psicologia do desenvolvimento, comportamento e neurociência social para mostrar que vários processos diferentes costumavam ser tratados como se fossem uma única capacidade. Compartilhar emocionalmente o sofrimento de alguém, preocupar-se com seu bem-estar e conseguir assumir sua perspectiva são operações relacionadas, mas distintas. A presença de uma delas tampouco produz uma consequência moral uniforme: o contexto, a relação com a outra pessoa e o grupo ao qual ela pertence participam da resposta.

Três anos depois, Emile Bruneau, Mina Cikara e Rebecca Saxe testaram uma parte desse problema em americanos diante de árabes, húngaros diante de refugiados e gregos diante de alemães. Os pesquisadores mediram tanto a disposição geral dos participantes para se preocupar com outras pessoas quanto a preocupação dirigida especificamente ao próprio grupo e ao grupo externo. O que chamaram de parochial empathy apareceu na distância entre essas duas últimas medidas. Essa distância previa disposição para ajudar o outro grupo e aceitação de danos contra ele melhor do que a empatia geral do participante. Uma pessoa podia, portanto, apresentar forte preocupação empática e distribuí-la de maneira profundamente desigual conforme quem estivesse diante dela.

A própria crônica de Clarice se move à medida que muda a distância entre quem observa e quem está sendo atingido. Nos primeiros disparos, Mineirinho aparece ainda através do perigo que representava e da segurança que sua captura poderia oferecer. No décimo terceiro, Clarice escreve: “porque eu sou o outro”. A contagem preserva o medo que aparecia no início, mas aproxima da narradora o homem que até então podia ser visto sobretudo como ameaça. A psicologia social passou a investigar, em contextos muito diferentes, como essas distinções entre quem reconhecemos como próximo e quem percebemos como pertencente a outro grupo alteram a empatia, a disposição para ajudar e a tolerância ao dano.

Bruneau, Cikara e Saxe estudaram conflitos específicos e populações muito diferentes do eleitorado brasileiro. O mecanismo que encontraram, porém, ajuda a compreender por que alguém pode passar boa parte da vida cuidando de outras pessoas e continuar estabelecendo fronteiras bastante rígidas para esse cuidado. Filhos, alunos, vizinhos, animais ou integrantes de uma comunidade podem mobilizar atenção e proteção intensas; quando o conflito político altera quem é percebido como próximo, ameaçador, responsável por um problema ou merecedor de confiança, altera também as condições em que aquela preocupação é mobilizada.

Algumas semanas atrás, o Datafolha encontrou outro resultado que dificulta explicações simples para o momento brasileiro. Entre 29 de setembro e 1º de outubro, perguntou a 2.506 eleitores qual forma de governo preferiam. A democracia foi escolhida por 73%. Entre os que declaravam voto em Lula, eram 76%; entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 74%. Para 7% do conjunto dos entrevistados, uma ditadura poderia ser preferível em determinadas circunstâncias.

Quase três quartos dos eleitores de Flávio Bolsonaro, portanto, chegaram ao primeiro turno dizendo preferir a democracia. Esse dado sugere que a divergência política brasileira passa também pelo conteúdo atribuído à democracia quando a escolha deixa de ser entre duas palavras — democracia ou ditadura — e passa a envolver situações específicas: quanto poder deve ter um presidente, até onde pode ir uma política de segurança, quais controles sobre o governo são legítimos, o que fazer quando um tribunal decide contra o próprio campo, quais direitos continuam protegidos quando seu titular provoca rejeição.

Michael Albertus, da Universidade de Chicago, e Guy Grossman, da Universidade da Pensilvânia, publicaram em 2021 uma série de experimentos realizados com eleitores da Argentina, Brasil, México e Estados Unidos. Os participantes eram confrontados com medidas pelas quais governantes enfraqueciam normas ou controles democráticos. As maiorias identificavam as violações. Entre 10% e 35%, dependendo do país e da situação apresentada, ainda assim apoiavam determinadas medidas, e esse apoio aumentava quando o governante responsável havia recebido o voto do entrevistado. Albertus e Grossman chamaram esses participantes de conditional democrats: a preferência pela democracia continuava existindo, enquanto a disposição de impor seus limites variava com a identidade de quem estava no poder.

Nos experimentos de Albertus e Grossman, reconhecer que uma medida feria princípios democráticos e decidir rejeitá-la eram coisas distintas. A identidade de quem exercia o poder alterava a tolerância a essa violação. Um eleitor podia valorizar eleições, considerar-se democrata e, diante de uma medida concreta, admitir para o candidato que escolheu uma margem de poder que consideraria perigosa nas mãos do adversário. Segurança, corrupção, religião, economia e experiências de violência entram nessa avaliação junto com lealdades políticas e afetivas.

Em junho de 2026, Anna Petherick, Guilherme Ramos, Rodrigo Furst, Rafael Goldszmidt e Eduardo Andrade acrescentaram um dado brasileiro importante a essa discussão. Em artigo publicado na Nature Communications, acompanharam amostras de aproximadamente 2.000 a 3.000 participantes em cinco ondas realizadas antes, durante e depois da eleição de 2022. Os pesquisadores encontraram forte polarização afetiva entre lulistas e bolsonaristas, mas também testaram o que ocorria quando participantes recebiam informações que corrigiam percepções erradas sobre as posições do outro grupo em temas controversos. Algumas dessas intervenções reduziram a distância afetiva; em uma delas, a queda chegou a 6,66 pontos percentuais na escala empregada pelo estudo.

Nos experimentos, corrigir uma percepção equivocada sobre o outro grupo bastou, em algumas condições, para reduzir a hostilidade medida. O estudo testa intervenções controladas e seu resultado deve ser lido nessa escala. Ainda assim, mostra que parte do julgamento sobre adversários políticos depende das posições que lhes atribuímos, do perigo que associamos a essas posições e das informações que circulam nos grupos em que confiamos. Quando uma dessas percepções muda, a avaliação do outro pode mudar com ela.

Talvez seja esse o aspecto mais interessante da mobilização que começou depois do primeiro turno. Fandoms são, eles próprios, comunidades construídas por afinidade, linguagem compartilhada, confiança e pertencimento. Algumas já transformavam essas redes em ação social muito antes da eleição: o Army Help the Planet, criado por fãs brasileiros do BTS em 2019, desenvolveu projetos socioambientais e parcerias com organizações como Unicef, Fiocruz e Greenpeace. Depois de domingo, estruturas formadas em torno de vínculos culturais passaram a circular informação política e a procurar pessoas fora de um eleitorado já convencido.

Nesse contexto, há uma diferença considerável entre mobilizar quem já concorda e conversar com alguém cuja decisão provoca perplexidade. A segunda situação exige descobrir o que aquela pessoa acredita estar protegendo quando escolhe determinada política ou candidato. Para alguns será segurança; para outros, religião, renda, família, rejeição ao Partido dos Trabalhadores (PT), indignação com o Supremo, memória de corrupção ou identificação com uma ideia de ordem. Nenhuma dessas razões determina sozinha um voto, e nenhuma precisa ser imaginária para produzir escolhas cujas consequências institucionais outra pessoa considere graves.

Em “Mineirinho”, Clarice mantém juntas duas experiências que poderiam parecer incompatíveis: o “alívio de segurança” dos primeiros disparos e o horror que cresce enquanto eles continuam. O medo registrado no início permanece compreensível; o que muda, tiro após tiro, é quanto esse medo passa a permitir.

Quando alguém diz que busca segurança, ordem ou proteção da família, ainda resta entender o que cada uma dessas palavras autoriza concretamente. Do que essa pessoa tem medo? O que acredita estar protegendo? Quem aparece como ameaça? Que poderes considera necessários para enfrentá-la? Aceitaria os mesmos poderes nas mãos do candidato adversário? E quem suportará as consequências caso esse limite seja ultrapassado? As respostas dizem mais sobre a relação entre cuidado e política do que presumir, desde o início, que uma escolha eleitoral revelou toda a vida moral de quem a fez.

Os estudos sobre empatia e polarização mostram que pertencimento, percepção do adversário e distribuição da empatia respondem ao contexto e, em algumas condições, à informação. Essas fronteiras não permanecem necessariamente no mesmo lugar. Clarice chega ao décimo terceiro tiro escrevendo “porque eu sou o outro”, reconhecendo-se no homem de quem, nos primeiros disparos, ainda se sentia protegida. A política raramente produz uma mudança dessa ordem de uma vez, e nenhuma conversa pode garanti-la. Em muitas das pessoas encontradas nessas conversas, porém, o cuidado já existe na prática cotidiana. A pergunta passa a ser onde ele se interrompe, quem ficou além dessa interrupção e o que pode fazer com que alguém percebido apenas como ameaça volte a aparecer também como uma pessoa cuja vida, liberdade e direitos têm peso.

 

Fonte: Por Estéfany Rocha Monteiro, em Outras Palavras

 

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