segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Nuno Vasconcellos: Lula versus Lula

A eleição não está decidida e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, reúne condições de, no sprint final, conquistar o direito de ficar mais quatro anos no Palácio do Planalto. Pelo menos, é isso que se pode concluir a partir da leitura dos resultados eleitorais. Os eleitores que não apareceram para votar no dia 4 de outubro, aqueles que votaram nulo ou branco e os que escolheram outros candidatos no primeiro turno somam quase 50 milhões de votos. Muitos podem mudar de ideia e passar a apoiá-lo no segundo turno.

Possível é, mas não é fácil. Ainda que Flávio permaneça onde está e não acrescente um único voto aos 56.104.503 que obteve no primeiro turno — hipótese que, convenhamos, não passa do sonho de uma noite de verão petista —, a missão de tirar os 2,2 milhões de votos que os separam é para lá de espinhosa.

De qualquer forma, votos existem. O que se discute é a possibilidade de o candidato conquistá-los. A pergunta a ser feita neste momento é: que motivo levaria alguém que negou o voto ao presidente há apenas duas semanas a mudar de ideia e digitar o 13 no domingo que vem? Esse é o xis da questão.

<><> Suco de populismo

Ninguém parece ter a resposta para essas perguntas e, pelo que se viu nos últimos dias, os estrategistas do PT não parecem seguros quanto ao caminho capaz de conduzir o partido à vitória. A semana passada foi repleta de ações marcadas pelo improviso e pela utilização de cartas sacadas repentinamente da manga, nas quais o atual mandatário parece penhorar a chance de buscar a virada. O problema é que, por mais que faça para tirar a desvantagem, ele parece não ter uma noção muito coerente do que precisa fazer.

A aprovação e promulgação, na semana passada, da PEC que pôs fim à jornada de trabalho 6 por 1, aplaudida pelos correligionários como um movimento capaz de levar o governo à vitória, é um exemplo dessa falta de rumo. Conduzida em ritmo acelerado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a tramitação da matéria demonstrou que o Executivo não parece preocupado com o efeito que suas ações podem gerar no futuro. O que importa é utilizá-las para tentar conquistar o eleitor que não o apoiou até aqui. O objetivo principal parece ser oferecer benefícios sobre benefícios, ainda que as medidas não tenham coordenação umas com as outras. E, assim, tentar demonstrar que o governo ainda tem o que oferecer ao trabalhador caso ganhe mais quatro anos.

No final, o fim da escala seis por um se resumiu a uma ação eleitoreira entre as muitas que têm marcado o safári petista de caça predatória aos votos. Foram prometidos, ainda, o perdão das dívidas dos microempreendedores e o transporte público gratuito nos domingos, de norte a sul do Brasil. Nada disso havia aparecido antes nos compromissos eleitorais — mas o resultado adverso do primeiro turno parece ter despertado a equipe de campanha para a necessidade de correr atrás do prejuízo enquanto ainda há tempo de revertê-lo.

<><> Promessas não cumpridas

Esse movimento, visto com o olhar de quem valoriza a estratégia, remete ao hábito de oferecer doces a crianças indóceis para conquistar sua simpatia. Se será bem-sucedido ou não, é algo que se descobrirá no próximo domingo. A verdade por trás dessa decisão é uma só: parece que o PT, de uma hora para outra, acordou para a realidade de que os argumentos que lhe deram a vitória em cinco das seis eleições presidenciais realizadas neste século no Brasil, hoje se mostram, como se viu no primeiro turno, incapazes de render os votos necessários para garantir um novo mandato.

A impressão que se tem é a de que o Lula de hoje, além de enfrentar Flávio Bolsonaro, tem como adversário o seu próprio passado. Na quinta-feira passada, em entrevista à TV Globo, o presidente justificou a decisão de aumentar o valor do Bolsa Família, o principal programa social do governo, às vésperas do primeiro turno. Com um ar de indignação, ele disse que “não sabia” que o benefício tinha passado anos sem reajuste.

Atitudes como essa geram mais desconfiança do que votos. Mas têm sido recorrentes e ajudam a explicar por que o PT hoje não é visto como uma opção de futuro por uma sociedade que, sim, quer benefícios, mas não pensaria duas vezes antes de decidir se preferiria o dia adicional de folga prometido pelo fim da jornada seis por um, ou preços mais em conta e estáveis no supermercado.

Uma sociedade que, pelo que mostram as pesquisas, trocaria tranquilamente o perdão de dívidas feito em vésperas de eleições por condições econômicas mais robustas, que permitissem às famílias fazer um crediário que fossem capazes de pagar com os próprios recursos. Consultas informais também revelam que, no atual cenário, a sociedade teria trocado de bom grado o rigor excessivo das penas aplicadas aos manifestantes do 8 de janeiro por mais rigor contra as facções do crime organizado.

<><> Plural e inclusiva

No entanto, o que se viu foi o contrário: a criminalidade parece ter ampliado seu poder diante das atitudes tíbias de uma gestão que acordou tarde para a necessidade de combatê-la. E aqueles que passaram quatro anos calados com medo de sofrer as mesmas consequências dos que ousaram se expressar no dia 8 de janeiro, hoje parecem dispostos a dar sua opinião por meio do voto.

Ou seja, o candidato que irá às urnas no domingo terá como principal adversário o governante dos últimos quatro anos. Um líder que, ao invés de conduzir as ações de sua gestão na direção de uma sociedade mais plural e inclusiva, intensificou políticas cada vez mais orientadas para a esquerda e desprezou todas as oportunidades que teve para ampliar sua base de apoio social com a atração dos grupos que agora tenta seduzir com políticas improvisadas de última hora.

Ao insistir na política do “nós contra eles” e não se empenhar em programas que contemplassem toda a sociedade, o presidente, sem perceber o que estava acontecendo, acabou alimentando a escalada de seu opositor. Quando Flávio se apresentou como o candidato por escolha de seu pai, Jair Bolsonaro, muitos encararam o gesto como piada. Com o passar do tempo, ele passou a ser visto como um concorrente fácil de ser batido. Depois, como um nome viável. Hoje, sem que a ala governista se desse conta disso, tornou-se o favorito para ser o próximo presidente do Brasil.

Há uma diferença considerável entre ser favorito e ser vencedor. Ainda mais quando se percebe que a oposição parece movida pela confiança na vitória, um sentimento que agora contamina as hostes adversárias. A resposta virá no próximo domingo — depois de mais uma semana repleta de emoções.

•        Construir o Brasil, ou tesourar; é a escolha. Por Gilberto Menezes Côrtes

A proibição das "bets", com a retirada do ar das massivas propagandas das casas de apostas, ou cassinos virtuais, reduziu a poluição sonora e visual entre o primeiro e o segundo turnos, e abriu espaço para o público valorizar a poética e até nostálgica celebração dos 90 anos da Cimentos Votorantim. Os versos cantados pela voz áspera e melodiosa de Seu Jorge trazem mensagens positivas de um Brasil que foi construído nas últimas nove décadas, tijolo por tijolo, ou por milhares de sacos de cimento. As imagens são animadoras (um conjunto habitacional, o Maracanã, vias urbanas, trens, metrôs, uma hidroelétrica, aeroportos), e a grande surpresa da IA. A tecnologia pôs o empresário Antônio Ermírio de Moraes – falecido em agosto de 2014 – sorridente, dirigindo um caminhão sobre uma ponte, quando os versos da canção falam em legado e "construir o futuro".

Quem conheceu o empresário austero e comprometido com o Brasil sabe que ele era um homem simples. Despojado – a sede da Votorantim, onde o entrevistei em 1982, como editor de Economia do velho JORNAL DO BRASIL, em vez de tapetes, tinha uma passadeira de borracha, fácil de lavar -, mas, sobretudo, um empresário engajado no futuro do Brasil. Como fora seu pai, o engenheiro pernambucano, formado em engenharia de minas nos Estados Unidos, José Ermírio de Moraes.

Nascido em 1900, filho de usineiros de Pernambuco, ele dá impulso ao grupo Votorantim ao casar-se, em 1925, com Helena, filha do empresário português Antônio Pereira Inácio, dono da Fiação e Tecelagem Votorantim, município vizinho a Sorocaba (SP), a quem conheceu numa viagem à Suíça. Com sua formação ligada à indústria de base, José Ermírio de Moraes, direciona o grupo a entrar na mineração de metais, siderurgia e cimento. Em 1928, junto a outros empresários, fundou o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp). E foi um dos seus primeiros diretores, na companhia de líderes empresariais da época, como Francisco Matarazzo, Roberto Simonsen, Jorge Street, Horácio Lafer.

No ano seguinte, a lavoura do café, que era o esteio da economia brasileira desde a escravidão, no século 18, sofre o impacto da Grande Depressão, de 1929.

A Cimentos Votorantim nasceu como resposta dos empresários para o país enveredar pela industrialização, quando Antônio Ermírio de Moraes, o segundo dos quatro filhos do casal, tinha oito anos. Por ser o mais velho, José Ermírio de Moraes acaba sendo direcionado pelo pai para atuar na fábrica de cimento (hoje são mais de 16 pelo país e a América do Sul). Como o asfalto só começa a ser produzido no Brasil no fim dos anos 50, pela Petrobras (criada em 1954), o cimento foi a matéria-prima das primeiras estradas brasileiras (a primeira Rio-São Paulo e a ligação do Rio a Petrópolis, pela Serra dos Órgãos).

Antônio Ermírio segue a trilha do pai e vai estudar engenharia de minas nos EUA. Após a morte do velho, em 1973 (depois de uma atuação política importante nos tempos de Getúlio Vargas, quando foi eleito senador pelo PTB e ministro da Agricultura de João Goulart), os dois irmãos dividem o comando do grupo. José Ermírio comanda a área cimenteira. Já Antônio Ermírio, instigado pelos desafios da crise do petróleo de 1973, responde ao apelo do II PND do governo Geisel para um esforço na substituição de outras importações que não o petróleo.

Com financiamentos do BNDE (ainda sem o S, incluído no governo Sarney), a Votorantim turbina a Companhia Brasileira de Alumínio, criada por José Ermírio pai, em 1941, entra em minerais não ferrosos (níquel), em celulose, com a Votorantim Celulose, expande a siderurgia e ainda cria a Citrosuco (hoje uma parceria com o grupo Fisher, que é a maior exportadora mundial de suco de laranja).

<><> Defesa da democracia

O fato de ter sido amparado pelo governo Geisel nunca impediu Antônio Ermírio de assumir posições políticas como a defesa da abertura democrática nos meios empresariais nos anos 70 e 80. Crítico contumaz dos juros altos e da ciranda financeira, criou seu próprio banco, o Votorantim, mas foi pego no contrapé quando o governo Collor confiscou depósitos e aplicações financeiras: bem capitalizado, o Votorantim foi o grupo com mais recursos congelados.

Apoiador do Plano Real e da eleição de Lula entre os empresários, o grupo Votorantim foi uma das vítimas no Brasil da crise financeira mundial de 2008, surgida nos EUA. Com as exportações da Votorantim Celulose expostas a uma alta do dólar (não tinha “hedge” defensivo), assim como a Aracruz Celulose, o grupo entrou em crise de liquidez em 2009. (Lula mencionou na sabatina com Renata Loprette, na TV Globo, ter socorrido Silvio Santos, no Banco Pan, mas esqueceu de falar do Votorantim.)

O BNDES socorreu os dois grupos de celulose, patrocinando a sua fusão, sob as asas da Fibria, repetindo a operação na fusão da Sadia com a Perdigão (hoje a MBRF, maior exportadora de carnes de aves e alimentos processados do Brasil, depois do Grupo J&F, dono da Friboi e Seara). Mas o socorro envolveu (como na associação da CEF ao Pan) o BB assumir 50% do controle do Banco Votorantim. Incansável benfeitor da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e de Santas Casas, Antônio Ermírio, que só tinha um rim, precisava de cuidados frequentes, sofria de Alzheimer e morreu de insuficiência cardíaca.

Após sua morte, o grupo se diversificou, até em concessões. A área de celulose foi vendida em 2019 ao grupo Suzano. A necessidade de energia para o alumínio da CBA levou o grupo a assumir as usinas da CESP e da AES, além de criar a Auren, para fontes alternativas de energia (solar e eólica).

Um empresário como Antônio Ermírio, que sempre apostou no futuro do Brasil, correndo riscos, está fazendo falta nestes tempos em que as páginas de economia dão mais espaços aos financistas e rentistas, e onde a palavra empreender dá lugar ao desmonte do que está feito, e o "tesourar" visa destruir o tecido social construído por várias gerações. Mas o espírito de Antônio Ermírio de Moraes renasce no belo anúncio e nos instiga noções claras de brasilidade e soberania.

•        Alckmin diz que campanha de Lula cresce nas ruas e nas redes sociais

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) afirmou neste sábado (17), que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registra crescimento nas ruas e nas redes sociais. Em entrevista antes de encontro com representantes da sociedade civil, na capital paulista, ele destacou a mobilização de jovens e estudantes e a chegada de novos apoios à candidatura.

"Estamos vendo um crescimento da campanha, crescimento nas ruas, em todo lugar", disse Alckmin. Segundo ele, os jovens e estudantes têm se mobilizado em diferentes cidades e contribuído para ampliar a presença da campanha nas redes sociais.

O vice-presidente também destacou o apoio de Bia Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e de familiares do ex-governador paulista Mário Covas, como Mário Covas Filho, o Zuzinha. Segundo Alckmin, essas adesões representam uma mobilização em defesa da democracia e da Constituição brasileira, além do desenvolvimento econômico.

Ao abordar a agenda econômica, Alckmin afirmou que o País precisa evitar um cenário de recessão, desemprego e fechamento de empresas. "Queremos a economia crescendo, distribuindo renda", declarou.

O vice-presidente também citou o empreendedorismo como uma característica da economia brasileira e mencionou os pequenos negócios observados durante a caminhada realizada mais cedo em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Ele destacou atividades como salões de manicure, barbearias, lojas e estabelecimentos de alimentação.

Na área trabalhista, o vice-presidente defendeu o fim da escala 6x1 e destacou a importância de garantir mais tempo livre aos trabalhadores para outras atividades além do emprego. "O trabalhador poder ter dois dias para a família, para os estudos, para a sua saúde", afirmou Alckmin, ao defender uma rotina que permita conciliar as obrigações profissionais com a vida pessoal.

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Ao final, Alckmin ressaltou a importância da reta final da campanha à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmou que os últimos dias serão decisivos para a mobilização dos apoiadores. O vice-presidente reforçou a necessidade de manter o trabalho de campanha nesse período. "Acho que estamos no rumo certo. É trabalhar, esses últimos oito dias são importantíssimos", disse.

 

Fonte: O Dia/JB

 

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