Ludopatia:
quando o jogo deixa de ser diversão e vira doença
As
horas diárias no celular, para muitos, é uma distração necessária contra uma
rotina corrida que pede atenção. No entanto, essa despressurização pode custar
um preço caro, especialmente se a válvula de escape em questão trouxer
prejuízos severos à saúde mental. Nesse ponto, a ludopatia, vício em jogos e
apostas, é uma realidade contemporânea que tem sido impossível de ignorar.
O
fenômeno atinge desde jovens em busca de dinheiro fácil até adultos que
procuram nas telas uma forma de esquecer o mundo externo. Com a popularização
massiva de apostas on-line, plataformas de bet e jogos de cassino virtuais,
como o "jogo do tigrinho", o limiar entre o lazer e a compulsão
tornou-se cada vez mais tênue. O transtorno afeta, de forma profunda, as
estruturas biológicas, sociais e relacionais das vítimas, deixando marcas que
vão muito além das perdas financeiras.
A
neuropsicóloga Juliana Gebrim, do Instituto de Psicologia Aplicada e Formação
de Portugal (IPAF), explica que a ludopatia se caracteriza pela dificuldade de
controlar o comportamento. "O sinal de alerta para o paciente é quando o
jogo começa a ocupar um espaço desproporcional na sua vida. A pessoa passa a
pensar constantemente em apostar, aumenta os valores, tenta recuperar o
dinheiro perdido, esconde o comportamento, e continua jogando apesar das
consequências", afirma.
Ela
ressalta que o prejuízo financeiro não é o único indicador. "Uma pessoa
pode estar desenvolvendo uma relação problemática com o jogo antes mesmo de
entrar em grandes dívidas. A perda de controle é um dos principais
sinais", destaca Juliana. A psicóloga clínica Aline Perretto reforça que a
perda de controle delimita a fronteira entre o hábito saudável e o patológico.
"Enquanto
é lazer, a pessoa consegue escolher quando joga, quanto tempo dedica àquilo,
quanto dinheiro pode gastar e, principalmente, consegue parar. O sinal de
alerta aparece quando essa relação começa a se inverter", analisa a
profissional. "Eu costumo pensar numa pergunta muito simples: sou eu que
ainda estou escolhendo jogar ou é o jogo que já está fazendo escolhas por mim?
É aí que começa a diferença entre um hábito de lazer e um comportamento que
precisa de atenção."
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A ilusão do ganho fácil
Para
Breno Henrique, 25 anos, a entrada no universo dos jogos começou de forma
despretensiosa. Torcedor apaixonado por futebol, o jovem começou a fazer
pequenas apostas esportivas de R$ 10 ou R$ 20 nos fins de semana, impulsionado
por propagandas nas redes sociais de influenciadores digitais. No início, os
acertos pontuais traziam uma sensação de euforia e a falsa impressão de que seu
conhecimento sobre esportes lhe garantia controle sobre os resultados.
A
situação mudou quando os valores das apostas começaram a subir. "Comecei a
tentar recuperar os palpites errados que eu fazia. Aí, quando percebi, entrei
em um ciclo vicioso em que tudo dava errado", conta. Em poucos meses, o
salário como assistente administrativo já não cobria os valores jogados. Ele
recorreu a empréstimos bancários, cartões de crédito e dinheiro emprestado de
amigos, acumulando dívidas e escondendo a situação dos pais, com quem morava.
Sem
conseguir sustentar as mentiras, precisou pedir ajuda à família, dando início
ao doloroso processo de encarar a dependência e buscar suporte psicológico para
reorganizar sua vida financeira e emocional. "Foram meses muito difíceis,
especialmente por tudo o que perdi. Mas, com certeza, ter contado com as
pessoas que amo melhorou tudo. Fez o fardo ficar mais leve. Hoje, eu me sinto
melhor, mas tendo consciência para continuar me vigiando sempre."
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As armadilhas do cérebro
O apelo
das apostas e dos jogos digitais apoia-se em mecanismos neurobiológicos
específicos. Juliana Gebrim detalha como o sistema de recompensa do cérebro é
ativado. "A dopamina está envolvida na motivação, na aprendizagem e na
expectativa de recompensa. Nas apostas, existe uma sequência de expectativa,
tensão e recompensa que pode reforçar o comportamento", completa.
Segundo
a neuropsicóloga, a sensação de quase vencer é perigosa. "Quando a pessoa
quase vence uma partida, o cérebro pode interpretar aquela experiência como
algo próximo do sucesso, mesmo que, objetivamente, tenha perdido. Isso alimenta
a sensação de que pode ganhar na próxima rodada."
Juliana
lembra que a ludopatia é um transtorno multifatorial que envolve questões
genéticos, psicológicos e sociais. "Há motivações individuais, incluindo a
genética, características da personalidade e a dificuldade de controlar os
impulsos, além de fatores psicológicos, como ansiedade, depressão, baixa
autoestima ou tentativa de utilizar o jogo como forma de aliviar sofrimento
emocional", detalha.
Assim,
para evitar que esse comportamento possa piorar, Aline Perretto ressalta a
necessidade de envolver a rede de apoio no processo terapêutico. "Na
abordagem sistêmica, eu quero entender qual função esse jogo passou a ocupar na
vida daquela pessoa e dentro das suas relações. A família precisa participar,
não para se transformar em fiscal do jogador, mas para construir novas formas
de organização, comunicação e limites", conclui.
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Uma espécie de prisão
Diferente
do apelo financeiro direto das apostas, a história de Fernanda Silva (nome
fictício), 33, ilustra como o uso compulsivo de jogos de celular pode absorver
completamente a rotina de um indivíduo. Mãe de duas filhas e trabalhando em
casa, Fernanda baixou um aplicativo de jogo para se distrair nos intervalos do
trabalho. Rapidamente, os mecanismos de recompensas diárias, contagens
regressivas e notificações constantes passaram a dominar sua atenção.
Com o
tempo, Fernanda percebeu que passava entre oito e 10 horas por dia com os olhos
fixos na tela. "Isso prejudicou muito a minha atenção, passei a ficar mais
aérea e desnorteada quanto às coisas que me rodeavam. Quando almoçava, estava
sempre com a cara no celular. De repente, a distração já era toda a minha
rotina", relembra Fernanda.
A
virada de chave ocorreu durante uma apresentação escolar da filha mais velha.
Lá, ela notou a dificuldade em ficar distante do telefone, mesmo se esforçando
muito. "Depois disso, entendi que precisava de ajuda. Aí entrei em
processo de desconexão digital. Não somente parei com jogos, mas tentei ficar
mais distante desse mundo virtual", lembra Fernanda.
De
acordo com Aline, uma pessoa pode desenvolver uma relação problemática com
videogame ou jogos de celular, mas isso não significa automaticamente que ela
terá o diagnóstico de ludopatia. "Nesses casos, estamos falando
especialmente dos jogos que envolvem aposta, risco e a expectativa de ganhar
alguma coisa de valor", explica a especialista.
O que
acontece, segundo ela, é que hoje essas fronteiras ficaram um pouco mais
confusas. Alguns jogos têm recompensas aleatórias, compras dentro do aplicativo
e mecanismos que estimulam a pessoa a tentar só mais uma vez. "Eu não
diria que qualquer joguinho no celular provoca ludopatia. O que precisamos
observar é qual é a relação que aquela pessoa estabelece com o jogo e quais
mecanismos esse jogo utiliza para mantê-la ali", acrescenta.
Fonte:
Correio Braziliense

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