Quem
está votando na extrema-direita na América Latina?
A
guinada para a extrema-direita está se impondo na América Latina. O ciclo
progressista parece estar se esgotando para dar origem não só a uma direita
generalizada, mas a uma espécie de fascistização cada vez mais pronunciada.
Esta mudança para uma extrema direita com conotações fascistas ou fascistoides
é parcialmente atribuível a fatores externos, como a interferência israelita e
estadunidense, mas a interferência não é suficiente para explicar porque é que
milhões de eleitores latino-americanos estejam preferindo a atual
extrema-direita a projetos da esquerda popular, reformista, social-democrata e
nacional-popular.
A atual
guinada parece obedecer não a um único fator explicativo, mas a múltiplas
causas estruturais e conjunturais que motivam de forma diferente os vários
eleitores de extrema-direita. Considerar estes sujeitos em sua diversidade pode
ajudar-nos a compreender algo tão multifacetado e complexo como a fascistização
atual. Para entender o que está acontecendo, nada melhor do que tentar
caracterizar quem a está fazendo acontecer.
Atualmente
podemos distinguir pelo menos trinta classes de eleitores de extrema direita na
América Latina:
1.
Aqueles movidos pelo seu ódio e pelo seu medo, os racistas e sexistas, os
xenófobos e homófobos, os misóginos e antifeministas, os islamofóbicos e
antissionistas.
2. Os
exploradores e opressores de sempre, os inimigos eternos de impostos e
direitos, aqueles que se agarram aos seus privilégios.
3. Os
alienados, aqueles que se apegam ao respeito pelos privilégios alheios, os
aliados incondicionais de seus opressores e exploradores, aqueles que se
identificam com seus agressores, com seus senhores patriarcais e coloniais, com
os próprios poderes que os dominam.
4. Os
complexados, os que traem a si mesmos, os cipaios e malinchistas, os
afrancesados e os que vendem a pátria.
5.
Aqueles que se creem empresários por serem empresários de si mesmos, que se
convencem de ser capitalistas por encarregarem-se da própria exploração, que
fantasiam estar entre os proprietários apenas porque se possuem a si mesmos e
colocam-se à venda.
6.
Aqueles que imaginam ascender ao votar nos que estão em cima, se enriquecem ao
votar nos ricos, empoderar-se ao votar nos poderosos, embranquecer-se ao votar
nos brancos e nos embranquecidos.
7. Os
que apenas dão crédito à quem tanto os despreza por estes terem aprendido a
desprezarem a si mesmos.
8.
Aqueles que foram retirados da pobreza por um governo de esquerda para que se
identificassem com os ricos, menosprezando os pobres e odiando a esquerda.
9.
Aqueles fraudados por governos de esquerda que permaneceram subordinados ao
capital, que não ousaram fazer nada impossível, que não concretizaram as
fantasias que neles foram projetadas ou que eles próprios alimentaram em
campanhas eleitorais e discursos demagógicos.
10. Os
marginalizados entre os marginalizados, os mais sofridos e ressentidos, aqueles
que invejam e odeiam até mesmo o povo, aqueles esquecidos até pelos governos
que fizeram todo o possível para não esquecer ninguém.
11.
Aqueles que desconfiam de quem fala em justiça, quando no mundo parece haver
apenas injustiça.
12.
Aqueles que apenas conseguem confiar em líderes que reafirmam e confirmam o que
já existe — líderes abertamente injustos, irracionais e perversos; líderes que,
assim, refletem fielmente o mundo capitalista em que vivemos.
13.
Aqueles que confiam apenas no próprio gozo, que desconfiam de todo o resto, que
já não aspiram a nenhuma verdade, que querem apenas mentiras das quais possam
gozar.
14.
Aqueles que querem apenas gozar, enxergam tudo como um espetáculo e entediam-se
com algo tão sensato, cinzento, monótono e previsível quanto às opções da
esquerda moderada.
15.
Aqueles que não decidem, aqueles que simplesmente se deixam arrastar, aqueles
que agora seguem a moda neofascista.
16.
Aqueles que acreditaram em um fascista porque não havia um comunista com quem
pudessem compreender o que sentiam — sua fúria, seu desespero e seu desejo de
mudar tudo.
17.
Aqueles que buscam uma firmeza, uma ousadia e uma radicalidade que se perderam
na esquerda, e que vão procurar na extrema-direita.
18.
Aqueles que preferem a contundência do pior à indefinição do medíocre.
19.
Aqueles que preferem uma extrema-direita conservadora a uma esquerda
inconsistente, que se deslocou para a direita.
20.
Aqueles que, de forma empática, não se envergonham da extrema-direita sem
vergonha, mas sim da esquerda que se envergonha de si mesma.
21.
Aqueles que preferem submeter-se ao capital diretamente, em vez de fazê-lo por
meio de mediações políticas e mistificações ideológicas.
22.
Aqueles que deixaram de entender o que significam a esquerda e a direita.
23.
Aqueles que votam como se estivessem participando de um video game; os
inconscientes do que está em jogo, absortos diante de suas telas que, em vez de
mostrar o planeta devastado pelo capitalismo, o ocultam.
24. Os
bots encarnados, aqueles que já não possuem mais inteligência além da
artificial, programados algoritmicamente por figuras de extrema-direita como
Elon Musk, Peter Thiel, David Sacks, Marc Andreessen e Ben Horowitz.
25. Os
pervertidos por um cristianismo perverso, presos nas redes evangélicas
pentecostais e neopentecostais, obcecados pela teologia da prosperidade,
apoiadores incondicionais de Israel e firmemente posicionados contra o aborto,
contra o feminismo e contra o casamento igualitário.
26. Os
conservadores, os reacionários, aqueles que reagem defensivamente ao desgaste e
ao descrédito de velhos poderes patriarcais, raciais e de classe.
27.
Aqueles que são assombrados pelo fantasma do comunismo que volta a rondar o
mundo.
28. Os
fascistas de sempre, aqueles que permaneciam escondidos e que, finalmente,
podem sair do armário e exibir, sem qualquer pudor, a sua vilania.
29.
Aqueles que, de forma pragmática, preferem estar entre os algozes do que entre
as suas vítimas; entre os canalhas do que entre os derrotados; entre os
israelenses do que entre os palestinos.
30.
Aqueles capazes de celebrar o genocídio em Gaza, de rir diante dos escombros,
de se alegrar ou zombar ao ver fotografias de crianças palestinas assassinadas
ou mutiladas.
Cada
tipo de eleitor personifica uma razão para votar na ultradireita. Cada razão
deve ser refutada de forma diferente. Cada refutação exige uma perspectiva
estratégica particular. Não pode haver uma estratégia única para enfrentar, de
maneira eficaz, o atual voto latino-americano na extrema-direita.
¨ Eduardo Bolsonaro
vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA. Por Isabela Dias
e Mother Jones
Na
noite de quarta-feira (14), empresários conservadores, influenciadores digitais
e autoridades do governo dos Estados Unidos se reuniram no Andrew W. Mellon
Auditorium, na capital Washington, D.C., para a festa de gala da Hispanic
Heritage, organizado pela plataforma financeira Latino Wall Street. O
homenageado do evento foi Javier Milei, presidente da Argentina. Seu principal
aliado no Brasil, Eduardo Bolsonaro, foi um dos convidados de
honra. Na entrada, convidados trajados com roupas brilhantes e smokings
cercaram Eduardo para tirar selfies e apertos de mão. Muitos perguntavam sobre
o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre em casa a pena de 27 anos de prisão por
tentativa de golpe de Estado. Outros demonstravam entusiasmo com a liderança do
irmão Flávio Bolsonaro no primeiro turno da disputa presidencial contra o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Eduardo
conversou com veículos de comunicação identificados com o movimento MAGA (“Make
America Great Again”, um dos slogans de Donald Trump), como a ex-boxeadora Cara
Castronuova, uma das correspondentes da Casa Branca alinhadas ao governo. Ele
também posou ao lado de Javier Negre, comunicador espanhol apelidado de “Rei
Midas da viralidade”. Negre é sócio de Fernando Cerimedo, marqueteiro argentino
de extrema direita, detido em agosto na
Bolívia, acusado de envolvimento em ataque a tiros contra a
ex-companheira. Em determinado momento, na entrada do
evento, uma mulher que parecia ser uma das convidadas segurou o braço de
Eduardo e ambos olharam para baixo, compenetrados. Eles rezavam pelo Brasil.
Quem também tietava Eduardo Bolsonaro era a autointitulada diplomata
espiritual, consultora de direitos humanos e empresária gaúcha Luciana Pananos,
que mora nos EUA. Do lado de dentro, iniciada a cerimônia, os oradores no
palco falavam sobre acabar com a criminalidade e derrotar o socialismo na
América Latina. Na plateia, os convidados, que pagaram entre US$ 3 mil e US$ 10
mil para participar do evento, saboreavam almôndegas de wagyu (carne bovina de
origem japonesa), pato defumado com amoras, abacate recheado grelhado e
filé-mignon bovino defumado. “Vamos expulsar o ditador comunista do
Brasil”, bradou o homenageado da noite, Javier Milei, após abraçar
calorosamente Eduardo, que deu chutes no ar como se estivesse expulsando Lula
do posto. O presidente da Argentina disse ainda que os conservadores “não podem
ceder um centímetro em nossa reconquista do hemisfério”.
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“Um discurso inspirador”
Após a
fala de Milei, Eduardo discursou. Ele ponderou que o resultado da eleição ainda
não estava definido. Mas o tom era abertamente comemorativo. “Quando
confirmarmos a vitória do meu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, como
presidente do Brasil, vamos entrar em uma nova era, que eu chamo de Era de Ouro
da América Latina!” O deputado cassado adotava um dos slogans de Donald Trump,
que costuma dizer que o país vive uma nova “era de ouro” sob sua batuta. “Temos
tudo para ser iguais aos Estados Unidos”, completou Eduardo.
Durante
o discurso, ele também louvou outros presidentes de extrema direita na América
Latina, como Nayib Bukele, de El Salvador, e o colombiano Abelardo de la
Espriella. “Amamos todos aqueles que dificultam a vida dos criminosos”,
declarou, acrescentando que “pela primeira vez veremos todos os países [da
América Latina] combatendo o narcoterrorismo”. O público aprovou e aplaudiu
entusiasmado. Um empresário do setor imobiliário que atua em Honduras disse à
reportagem que considerou o discurso “inspirador” e que o Brasil deveria adotar
o “modelo Bukele”.
Flávio
e Eduardo já visitaram o CECOT, o megacomplexo penitenciário para onde o
governo Trump enviou imigrantes que, segundo relatos, foram torturados. Se a
vitória de Flávio Bolsonaro se concretizar, o Brasil pode integrar a coalizão
Escudo das Américas, formada por 19 países da região e liderada pelos
EUA. “O melhor ainda está por vir”, declarou Eduardo Bolsonaro,
prometendo libertar o Brasil, começando por seu pai.
Mais
que entusiasta da candidatura do irmão à Presidência, Eduardo é um dos nomes
mais cotados para se tornar o próximo ministro das Relações Exteriores do
Brasil em um eventual governo de Flávio. Desde que se mudou para os EUA, no
início de 2025, o filho 03 de Bolsonaro perdeu o mandato de deputado federal
por faltar a mais de 80% das sessões e também foi despojado do emprego como
investigador da Polícia Federal por abandono de posto. No início de
outubro, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes expediu um
mandado de prisão contra ele, após sua condenação a mais de quatro anos de
prisão por fazer lobby junto ao governo Trump contra o Judiciário brasileiro.
Mas, no universo MAGA, Eduardo é uma estrela e a eleição de seu irmão é tratada
como um fato consumado.
Em
conversa com jornalistas antes do evento, Eduardo descartou as preocupações com
a ingerência dos EUA nas eleições brasileiras e voltou a repetir alegações sem
fundamento que já foram contestadas: segundo ele, durante o governo de Joe
Biden, a agência oficial de ajuda humanitária USAID, fechada por Trump em 2025,
financiou ONGs e veículos de comunicação sob o pretexto de combater a
desinformação, com o objetivo de impedir a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022.
“O Brasil já sofreu uma interferência internacional. O que eu vejo agora é
justamente o oposto”, afirmou. A primeira medida de um eventual governo de seu
irmão seria “expurgar esse câncer chamado Alexandre de Moraes” do STF, disse
ele, referindo-se ao ministro como um “tirano”. Caso contrário, seu irmão não
conseguiria governar, na opinião do deputado cassado. Perguntado se voltaria
para o Brasil mesmo com o pedido de prisão, Eduardo negou. “Eu não vou puxar
uma cadeia sendo inocente, não”, afirmou.
Eduardo
circulava pelo salão de baile acompanhado de perto pelo blogueiro de extrema
direita Allan dos Santos. Foragido nos EUA desde 2021, quando teve prisão
decretada, o blogueiro é investigado em dois inquéritos sobre a criação de
milícias digitais e propagação de fake news. Presença frequente em eventos
conservadores nos EUA, Eduardo também conversou informalmente com Matt Schlapp,
presidente da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), e sua mulher,
Mercedes, que mencionou os Bolsonaro em seu discurso e previu que Flávio será
eleito presidente do Brasil. “Colocamos a América Latina de volta nos trilhos”,
afirmou ela.
Já no
fim da noite, enquanto os convidados dançavam ao som de La Bamba, Conga
e Macarena, a reportagem conversou com Lena Ruseva, que vestia um longo
vestido vermelho estampado com o rosto de Trump e a frase “Drill, baby, drill”
(“Perfure, baby, perfure”, slogan de Trump em alusão à exploração de petróleo).
Autodenominada artista America First, Ruseva contou que Milei havia
gostado tanto do retrato que ela fez dele especialmente para a ocasião que quis
ficar com a obra. Ela também demonstrou orgulho do quadro que teria dado de
presente a Trump em um de seus aniversários. Algumas de suas obras estavam
expostas no salão e seriam leiloadas, com lances iniciais de US$ 10 mil. Entre
elas, havia uma representação da bandeira americana com o contorno da América
Latina. Eduardo Bolsonaro assinou a obra com letras douradas.“Disse a ele que
ficaria com o quadro até que se tornasse o próximo presidente do Brasil”,
contou ela.
¨
O voto no exterior importa? Por Jana Silverman
No dia
25 de outubro, mais de 916 mil brasileiros residentes no exterior terão que
cumprir o mesmo dever que os seus conterrâneos que vivem dentro das fronteiras
nacionais do Brasil: exercer seu voto para Presidente no segundo turno.
Entretanto, por diversas razões, um número recorde de eleitores brasileiros
morando fora do território nacional se abstiveram de votar no primeiro turno no
dia 4 de outubro. Qual a importância do voto no exterior na contenda eleitoral
atual, e, pensando estrategicamente, faria sentido para a esquerda tentar
estimular mais esse voto nas vésperas do segundo turno das eleições
presidenciais deste ano?
Para as
eleições de 2026, os cidadãos aptos a votar no exterior totalizaram mais de 916
mil pessoas, equivalente a quase 0,5% do eleitorado total brasileiro. Esse
número cresceu expressivamente em relação ao número de eleitores no exterior em
2022, quando apenas 695 mil brasileiros fora do país eram cadastrados pelo TSE.
Entretanto, os impactos políticos do aumento no tamanho no colégio eleitoral no
exterior foram anulados na prática, com um índice médio de abstenção que chegou
a 62,7%. As taxas de abstenção bateram recordes não apenas nos EUA, onde
a contundente maioria dos eleitores não compareceu em grande parte por medo das
rondas ostensivas da polícia migratória ICE em localidades onde as urnas eram
posicionadas, mas também em outras localidades, incluindo Lisboa, que
registrava apenas 36% de comparecimento, e Nagoia, no Japão, com só 37% de
comparecimento.
Em
termos dos resultados eleitorais no exterior, no primeiro turno houve uma leve
preferência pela candidatura de Lula, que recebeu 47,6% dos votos válidos, com
Flávio Bolsonaro chegando em segundo lugar com 43,5%, segundo os dados oficiais
do TSE. Existe margem para o voto lulista crescer ainda mais fora do país no 2º
turno? Ao examinar os dados, parece pouco provável. Muitas das maiores seções
eleitorais no exterior com votos expressivos a favor do candidato do PT também
se encontravam entre as seções com menores níveis de abstenção. Como
exemplo, a seção eleitoral do distrito consular de Dublin, na Irlanda,
registrou uma votação de 72,6% para o candidato petista, enquanto a seção só
registrava 49,7% de abstenção (mais de 13% a menos do que a média total de
abstenção). De forma semelhante, Lula obteve 81,1% dos votos válidos na seção
consular de Berlim, que registrou uma taxa de abstenção de apenas
45,5%.
Por
outro lado, na seção consular de Miami, a candidatura de Flávio Bolsonaro
captou 78,8% dos votos totais e a abstenção foi em torno de 66%. As
seções consulares de Boston e Orlando registraram tendências similares, tanto
com respeito às preferências eleitorais, quanto aos níveis de abstenção. Desta
maneira, podemos constatar que existe claramente a possibilidade de crescimento
de votos em benefício do candidato de extrema direita no 2º turno, caso um
clima de maiores garantias democráticas se fortaleça entre a comunidade
brasileira nos EUA. Então, apesar da reação instintiva dos militantes de
esquerda de sempre “proteger o voto” desde uma perspectiva de respeito absoluto
pelos direitos civis e políticos consagrados no marco constitucional interno e
nos tratados internacionais dos direitos humanos, uma campanha para estimular o
voto no exterior, ainda mais em localidades como os EUA e o Japão,
provavelmente seria um tiro no pé para todos os empenhados nas atividades de
“vira voto” nesses semanas e dias cruciais antes do segundo turno.
Dado
isso, devemos parar de prestar atenção ao voto no exterior e focar apenas em
aumentar as margens eleitorais para a candidatura do Lula dentro do país? Eu
argumentaria que não, por duas razões principais. Primeiro, porque o
comportamento eleitoral no exterior funciona como “formador de opinião”.
Quem melhor do que os brasileiros que moram na Argentina sob as mazelas
impostas por Milei (onde mais de 66% dos eleitores votaram em Lula) para contar
sobre as impossibilidades de fazer as contas fecharem no final do mês com a
imposição de políticas econômicas hiper-neoliberais? Quem melhor do que os
brasileiros que moram sob a égide neofascista de Meloni em Roma (onde 58% dos
brasileiros votaram pelo PT) para contar sobre como a xenofobia e o racismo
estrutural promovido desde as mais altas esferas do governo só serve para
dividir e enfraquecer a classe trabalhadora?
Segundo,
dadas as margens apertadíssimas de vitória registradas em diversas eleições
presidenciais na América Latina este ano, literalmente cada voto tem um valor
intrínseco alto. As eleições colombianas, em junho, se decidiram por uma
diferença de menos de 260 mil votos (de um total de 25.669.478 votos validos,
ou seja, apenas 1%). A porcentagem contundente de 63,8% de votos para o
candidato de extrema direita, Abelardo de la Espriella, entre os eleitores no
exterior, ajudou muito para consolidar a sua vitória estreita contra o
candidato de esquerda, Ivan Cepeda Castro. Do mesmo modo, o resultado do
segundo turno das eleições presidenciais no Peru, que também se realizaram em
junho deste ano, foi decidido por uma margem de menos de 50 mil votos a favor
da candidata neofacista Keiko Fujimori, que construiu essa margem captando
76,5% do voto dos peruanos que residem atualmente nos EUA. Por mais que o
tamanho do Brasil impossibilite comparações quantitativas com países com
colégios eleitorais menores, como a Colômbia e o Peru, isto não significa que
não veremos um resultado eleitoral igualmente estreito no dia 25 de outubro. Em
tempos de fake news, bolhas algorítmicas e polarização política, poucas
eleições no mundo estão sendo decididas por margens significativas. Por isso
devemos nos importar sim (de forma estratégica) com o voto dos brasileiros no
exterior, para poder garantir que o Brasil se mantenha como um baluarte
democrático, não apenas em benefício do povo brasileiro, mas de toda a
humanidade.
Fonte:
Por David Pavón-Cuéllar - Tradução Rodrigo Gonsalves, em Jacobin Brasil/Agencia
Pública

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