Bruno
Malheiro: O bolsonarismo e as geografias da destruição
O
bolsonarismo não nasceu nas urnas. Antes de se tornar força eleitoral, já se
constituía nas fronteiras do capitalismo brasileiro pela expansão de uma
racionalidade territorial que subordinava a terra, a natureza e as relações
sociais à acumulação privada, legitimando a destruição dos bens comuns e
desqualificando outras formas de organizar a vida. Em 2018, os mapas da soja,
da pecuária e da mineração convergiam com aqueles em que Jair Bolsonaro obtinha
seus melhores resultados eleitorais. Não era coincidência cartográfica: essas
fronteiras articulavam-se a circuitos políticos e culturais – de festas
agropecuárias a clubes de tiro e redes religiosas – que difundiam a defesa
irrestrita da propriedade, a promessa da prosperidade e o empreendedorismo de
si. A homogeneização das paisagens pelas commodities alcançava também os
comportamentos e as narrativas sociais, fragilizando vínculos com a terra, com
a memória e com a vida coletiva. Afinal, o “agro” tornou-se “pop” e passou a
ocupar lugar central na produção de sentidos no Brasil.
A
destruição da Amazônia é a expressão mais brutal dessa racionalidade
territorial. Florestas derrubadas, rios contaminados, territórios invadidos e
povos expulsos ou assassinados não são desvios do desenvolvimento, mas
resultados de processos que subordinam a vida à acumulação privada e
desqualificam outras formas de organizar o território. Esses processos
sustentam relações de poder que ampliaram a força, a capilaridade e a
legitimidade da extrema direita, encontrando nas eleições de 2018 uma via de acesso
ao Estado.
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O governo Bolsonaro e a destruição da Amazônia como política de Estado
Entre
2019 e 2022, essas geografias ganharam escala de Estado, fazendo da Amazônia um
laboratório de experimentação autoritária. A flexibilização das normas
ambientais, o enfraquecimento da fiscalização, os ataques aos direitos
territoriais e a legitimação da violência em defesa da propriedade privada
ampliaram as condições para a destruição. No período, o desmatamento acumulado
na Amazônia Legal chegou a 45.612 km² segundo o Projeto de Monitoramento do
Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Inpe (2022). A
política agrária favoreceu a inserção de terras no mercado e processos de
reconcentração fundiária, enquanto Funai, Ibama e ICMBio eram enfraquecidos e a
agenda ambiental, militarizada. O garimpo ilegal avançou em territórios
indígenas, articulado ao crime organizado e amparado pela tolerância estatal. A
tragédia Yanomami sintetizou essa política: mais de 20 mil garimpeiros
invadiram seu território, agravando a contaminação dos rios, as doenças, a fome
e as mortes diante da omissão do governo.
Na
Amazônia, essa ofensiva articulou setores das oligarquias tradicionais a novos
atores políticos vinculados às frentes econômicas predatórias, inclusive
ilegais e ligadas ao crime organizado, que converteram interesses econômicos em
força eleitoral sob a bandeira do bolsonarismo. O orçamento secreto fortaleceu
grupos e lideranças locais, ampliando a capilaridade da extrema-direita pelo
interior da região. Essa consolidação também se apoiou na violência política,
nos ataques à imprensa e na intimidação de opositores, que restringiram o
pensamento crítico e dificultaram a organização das forças de esquerda. A
experiência amazônica revela, assim, como o projeto bolsonarista reconfigurou o
patrimonialismo brasileiro, aproximou interesses privados de uma agenda
autoritária e estreitou as condições de exercício da democracia.
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O governo Lula, a Amazônia e a persistência do bolsonarismo
Lula
venceu as eleições de 2022 por uma pequena margem. Seu governo reconstruiu
instituições, retomou políticas públicas, recompôs capacidades estatais e
recolocou a proteção da Amazônia na agenda federal. O Brasil também recuperou
espaço no multilateralismo, buscou defender seus interesses diante de
diferentes blocos, sem alinhamento a um único centro de poder, orientação
relevante em um cenário internacional marcado por guerras e disputas
geopolíticas. Na Amazônia, o desmatamento caiu de 9.064 km² em 2023 para 5.731
km² em 2025 (INPE/PRODES, 2025). A fiscalização ambiental foi retomada,
operações de desintrusão enfrentaram invasões em terras indígenas e os direitos
territoriais voltaram à agenda pública. Ibama, ICMBio e Funai também passaram
por processos de recomposição institucional. Houve, portanto, um freio à
destruição.
Apesar
dos avanços na proteção da Amazônia, o primeiro turno de 2026 evidencia a
permanência da força eleitoral e territorial do bolsonarismo. Em 2018 e 2022,
as áreas de expansão da soja, da agropecuária, da mineração e do desmatamento
se sobrepuseram geograficamente às de maior votação de Jair Bolsonaro. Na
Amazônia, em 2022, ele venceu em municípios que concentravam, juntos, 70% das
áreas desflorestadas nas três décadas anteriores.1 Em 2026, estudos distintos
voltaram a identificar as geografias do bolsonarismo. Marcela Vecchione e
Rafaella Pinto2 relacionaram a concentração fundiária em imóveis acima de mil
hectares à redução da votação de Lula em relação a 2022, sobretudo nas
fronteiras de expansão da soja. Marco Antônio Faganello,3 por sua vez, observou
perdas mais acentuadas de Lula em municípios menores, onde o agronegócio tem
maior peso econômico. Em conjunto, esses estudos reforçam a compreensão do
bolsonarismo como força eleitoral sustentada por uma racionalidade territorial
que permanece ativa na sociedade brasileira.
A
recomposição das instituições e das políticas de proteção ambiental no governo
Lula demonstrou que é possível frear a destruição da Amazônia. Mas esses
avanços não dissolveram as bases territoriais que sustentam o bolsonarismo. As
eleições de 2026 colocam o país diante de uma encruzilhada territorial,
geopolítica e climática: o possível retorno de um projeto que fez da destruição
da Amazônia uma forma de governo ameaça a existência da floresta e de seus
povos, a soberania nacional diante dos riscos de subordinação aos Estados
Unidos e o equilíbrio climático do planeta, para o qual a Amazônia contribui
por meio da regulação de importantes ciclos biogeoquímicos.
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Resistir ao bolsonarismo e pensar desde a Amazônia
A
disputa eleitoral é decisiva para impedir que o bolsonarismo amplie seu
controle sobre o Estado. As mobilizações recentes de estudantes e trabalhadores
nas ruas e nas redes deram sinais de uma nova força política, que precisa
sobreviver à urgência eleitoral e se constituir como força coletiva duradoura.
Nos territórios amazônicos e nos demais biomas atravessados pela destruição
ambiental, povos e comunidades enfrentam as forças territoriais que sustentam o
bolsonarismo. É no encontro entre essas diferentes formas de mobilização que se
pode fortalecer a resistência à extrema direita e enfrentar suas bases
territoriais e subjetivas.
O
bolsonarismo instrumentalizou a destruição da Amazônia como forma de exercício
do poder e de organização do Estado. Mas as lutas indígenas, quilombolas,
camponesas, ribeirinhas e extrativistas, em diálogo com as mobilizações por
direitos e democracia, afirmam outras formas de conceber o Estado, a política e
nossa relação com o mundo. É pela experiência territorial dessas resistências
que não apenas enfrentamos as geografias da morte que sustentam o bolsonarismo,
mas também encontramos geografias capazes de projetar outros mundos e manter
abertos os horizontes que ainda precisamos construir.
• Temo perder a Constituição e o STF, diz
líder indígena Alessandra Munduruku. Por Diego Junqueira
SEJA
COM A DIREITA ou com a esquerda no poder, uma coisa é certa para Alessandra
Korap Munduruku, uma das principais lideranças indígenas do país: haverá embate
com o governo.
Foi
assim em janeiro, quando ela foi uma das líderes da ocupação de mais de 30 dias
no terminal da Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, em protesto contra o
decreto do governo Lula (PT) que previa a ampliação da dragagem do rio Tapajós
para permitir o trânsito de embarcações de grande porte no transporte de soja.
Foi
assim também durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), quando “o
movimento indígena peitou o governo federal” para denunciar o avanço do garimpo
ilegal, das queimadas e da Covid-19 nos territórios tradicionais.
Alessandra
descreve aquele período como um momento de “terror”. Além da invasão de
garimpeiros e das mortes durante a pandemia, os Munduruku sofreram com ataques
e ameaças. Nesse período, ela conta que sua casa foi invadida e a de Maria
Leusa Kaba Munduruku, outra liderança no Tapajós, acabou incendiada.
“O
governo Bolsonaro foi um genocídio total para a gente”, afirma. “A gente viveu
o maior terror.”
Após o
resultado do primeiro turno — e a eleição de uma maioria da extrema direita na
Câmara e no Senado — Alessandra diz estar preocupada com o futuro dos direitos
indígenas.
“Estou
me preocupando com a Constituição, porque é ela que nos garante saúde, educação
e um território. Se mexerem na Constituição, já era para nós, povos indígenas”,
afirma. “Quem deveria nos proteger era a Constituição, o STF [Supremo Tribunal
Federal], os ministros do STF. Mas até os ministros, infelizmente, a gente
corre o risco de perder. Para onde vamos correr?”
A
preocupação ocorre depois de disputar pela primeira vez um cargo público, após
mais de dez anos de militância, confrontos com diferentes governos e negativas
para entrar na política. Alessandra tentou uma vaga de deputada federal pelo PT
e recebeu quase 30 mil votos. Não foi eleita, mas ficou como suplente. Teve a
quarta maior votação do partido no Pará, que elegeu dois parlamentares.
Alessandra
recebeu votos em 141 dos 144 municípios do estado, embora tenha visitado apenas
dez cidades como candidata. “Me surpreendi”, diz.
Durante
a campanha, conheceu eleitores que nem sempre entendiam a importância da
política, mas sentiu que era hora de quebrar essa barreira. “Eu tinha essa
missão de mostrar como é possível mudar a política. E começar a conscientizar
as pessoas de que a política decide a nossa vida e os nossos direitos”, afirma.
“Quando
a gente sai do território e vai para uma cidade, a população é muito carente na
questão da política. Na política, só existe quem tem dinheiro, só existe quem
desmata, quem viola os direitos. Eu senti que não era o lugar para mim, mas
tinha que entrar para quebrar esse muro.”
“Seja
indígena, quilombola, pescador, professor, negro, tem que entrar sem medo na
política. As pessoas têm que parar de ter medo da política, porque a política
acaba esmagando os nossos direitos. Não adianta eu estar na luta, luta, luta,
se não tenho essa consciência de que é importante a gente começar a quebrar
esse muro.”Alessandra Munduruku
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Após embates com governo Lula, liderança escolheu candidatar-se pelo PT
Nas
últimas duas décadas, Alessandra ganhou projeção nacional e internacional ao
liderar manifestações contra o avanço da soja e de grandes obras no sul da
Amazônia. Em sua avaliação, as lavouras vêm expulsando trabalhadores rurais e
ameaçando territórios indígenas.
Também
mobilizou protestos contra a Ferrogrão, a ferrovia planejada para o transporte
de soja do norte do Mato Grosso ao sudoeste do Pará. Apoiada pelos governos de
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro (PL), Michel Temer (MDB) e Dilma
Rousseff (PT), o projeto impulsiona a produção de grãos na Amazônia e alimenta
as disputas por terra na região, segundo organizações críticas ao
empreendimento.
Apesar
dos conflitos com os governos do PT, Alessandra escolheu o partido, explica,
para ser ouvida e participar de decisões políticas.
“Não me
arrependo nem um pouco de ter entrado no PT, porque eles precisam nos ouvir. Só
assim a gente vai quebrar a barreira. Eles têm que entender que o que importa
para a gente é o rio, é a floresta, são os nossos direitos. Mas o outro lado
nunca vai entender, porque o outro lado, a direita, quer pisar em cima da
gente, acabar com nossos direitos, acabar com tudo.”
Agora,
Alessandra vê um possível governo de Flávio Bolsonaro como um risco, por causa
dos ataques aos povos indígenas e aos territórios durante o governo do pai
dele. Naquele período, a taxa de desmatamento na Amazônia subiu mais de 50%
após vários anos em queda.
“Me
preocupa o cenário daqui para frente, porque lembro muito bem de 2019 e 2022,
dos ataques que sofremos. Em 2019, entraram na minha casa. Em 2022, queimaram a
casa da Maria Leusa. Teve os ataques contra os Yanomami. Então me preocupa o
que vem daqui para frente, as pessoas que estão no Congresso, a mentalidade
delas, as propostas que querem aprovar”, detalha.
Ela se
aflige também com as pressões cada vez mais intensas para liberar atividades de
mineração e garimpo dentro de terras indígenas — em sua visão, há risco de isso
acontecer na próxima legislatura.
“O
garimpo não traz só violência, só o estrago nos igarapés e nos rios, nem só o
sofrimento da população com a falta de água e de alimentação. Também traz
doenças, por conta do metilmercúrio no nosso corpo”, diz, em referência ao uso
ilegal de mercúrio em garimpos de ouro.
Usado
na extração do ouro, o mercúrio costuma ser descartado em rios e solos e
transforma-se em metilmercúrio. A substância se acumula nos peixes e pode
chegar às populações indígenas e ribeirinhas que os consomem. A exposição pode
afetar o sistema nervoso, provocar dificuldades motoras e comprometer o
desenvolvimento do cérebro especialmente durante a gestação.
Em
abril de 2023, uma investigação da Repórter Brasil mostrou que a contaminação
provocada pelo garimpo de ouro era a principal suspeita para casos de
malformações e atrasos no desenvolvimento cognitivo entre crianças de aldeias
Munduruku, na divisa entre Pará e Mato Grosso.
“As
crianças nascem sem poder andar, têm que já estar usando uma cadeira de rodas.
Isso dentro da Amazônia, onde não era para ter nenhum tipo de doença. A gente
sabe que a cidade acaba trazendo muitas doenças. Mas agora, as doenças aqui
dentro, por conta dos peixes, dos rios, dos animais, da própria floresta
[contaminada], isso faz alertar como a saúde pública está muito fragilizada”,
afirma.
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Liderança defende construir planos políticos junto com os eleitores
A
decisão de entrar na política ganhou força no ano passado, durante a ocupação
da Seduc (Secretaria de Estado de Educação do Pará), em protesto contra uma lei
que previa a substituição de aulas presenciais em áreas remotas para um modelo
de ensino à distância. Após articulações com o governo Helder Barbalho e os
deputados estaduais, a lei foi revogada.
A
mobilização rendeu apoio dos professores à sua campanha. “A nossa campanha foi
muito o trabalho das formiguinhas, principalmente dos professores envolvidos,
professores militantes que acreditam nas causas. Acho que eles queriam ver uma
política diferente”, afirma.
“Porque
nós não tínhamos dinheiro. O partido passou dinheiro para a gente depois de
muita briga, muita briga mesmo”, continua Alessandra. A candidatura recebeu R$
1 milhão da direção nacional do PT, segundo dados do TSE (Tribunal Superior
Eleitoral), e diz que a maior parte foi gasta em comunicação.
“Em
Itaituba, que é o município onde sou eleitora, eu ganhei 800 votos, mesmo sem
eles falarem de mim. Os blogueiros de Itaituba não falam de Alessandra
Munduruku. E olha que eu já tive muita briga lá, por causa de asfaltamento, de
ônibus para os alunos”.
Sentiu
também que era hora de se envolver na disputa eleitoral e partidária quando
entendeu a influência do agronegócio no governo.
“Quando
estive com o presidente Lula em julho, para falar da dragagem [do Tapajós],
percebi que quem comanda é o agronegócio. Eles é que decidem. São pessoas que
não querem que a gente chegue nem perto deles para nos ouvir”, afirma.
“A
gente ficava cobrando a Funai e o MPI [Ministério dos Povos Indígenas], que, na
realidade, não estão por trás disso. É o Ministério dos Portos e Aeroportos, é
o Ministério do Desenvolvimento, são esses ministérios grandes. Quando a gente
ocupou a Cargill, a gente mexeu na ferida deles. Quando decidimos que não íamos
sair dali, foi aí que a Casa Civil começou a entrar em contato com a gente. Foi
aí que a gente percebeu que o presidente não comanda o país sozinho”, continua.
Segundo
a liderança, os políticos precisam ouvir mais as demandas de outros grupos e
evitar promessas feitas sem conhecimento sobre a realidade local.
“Eu sei
das causas indígenas, que precisam de verba para a saúde indígena. Eu sei da
questão da Funai, que precisa de recursos para se fortalecer, assim como os
órgãos ambientais. Mas, nas cidades, [entre] os quilombolas, os pescadores, o
que eles também querem?”, questiona.
Para o
segundo turno, sua preocupação é que os parentes tenham condições de se dirigir
até os locais de votação. Aldeias mais distantes não devem receber apoio do
poder público para grandes deslocamentos, tal como aconteceu no primeiro turno,
quando havia mais cargos em disputa.
“Muita
gente não foi votar no primeiro turno. E as que foram votar talvez não consigam
no segundo turno”, diz. “Às vezes eu fico me perguntando se é falta de recurso.
A zona eleitoral pode estar até no meio da floresta, mas as aldeias e
comunidades precisam de recursos para chegar até lá. Ninguém vai passar três
dias, dez dias andando no mato para votar em um presidente, em qualquer partido
ou em qualquer político”, finaliza.
Fonte:
Le Monde/Repórter Brasil

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