Ensinar
é resistir: a trajetória de um professor negro e a dimensão política da
docência
Tenho
46 anos, sou um homem negro, nascido em Maranguape, no Ceará, e professor do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Campus
Quixadá. Quando penso no significado de ser professor, volto à minha própria
história e às pessoas, experiências e condições sociais que me permitiram
chegar até aqui. Não se trata apenas de recordar o caminho percorrido, mas de
refletir sobre o papel da educação na formação humana e sobre as disputas
políticas que atravessam a escola.
Sou
filho de trabalhadores que tiveram poucas oportunidades de escolarização, mas
que compreendiam a importância dos estudos para ampliar as possibilidades de
vida dos filhos. Meus pais não dispunham de grandes recursos materiais, mas
acreditavam que a educação poderia abrir caminhos diferentes daqueles que lhes
foram historicamente oferecidos. Essa confiança, somada ao trabalho de
professores que encontrei ao longo da vida, contribuiu para que eu me
aproximasse do conhecimento e passasse a reconhecê-lo como uma possibilidade de
transformação.
Uma das
lembranças mais significativas desse percurso remonta à primeira série do
ensino fundamental. Eu ainda não havia consolidado formalmente a leitura e a
escrita quando uma professora, a quem chamávamos carinhosamente de Tia Rosa,
percebeu que eu já possuía conhecimentos e experiências importantes. Em vez de
me definir pelo que ainda não sabia, ela partiu daquilo que eu conhecia e me
ajudou a avançar na aprendizagem.
Anos
depois, compreendi melhor a importância daquela experiência ao entrar em
contato com o pensamento de Paulo Freire e sua reflexão sobre a leitura do
mundo como dimensão fundamental da leitura da palavra. Antes mesmo de dominar a
escrita, eu já interpretava a realidade à minha maneira. Minha professora
reconheceu essa condição e fez dela um ponto de partida para o trabalho
pedagógico. Aquela experiência me ensinou, ainda que eu não tivesse consciência
disso naquele momento, que ensinar não é simplesmente transmitir conteúdos a
alguém considerado vazio de conhecimentos. É criar condições para que os
sujeitos se apropriem do conhecimento e ampliem suas possibilidades de
compreender e transformar a realidade.
Minha
trajetória escolar foi atravessada por diferentes condições de acesso à
educação. Frequentei escolas particulares nos primeiros anos, com bolsas de
estudo, e posteriormente concluí o ensino fundamental e o ensino médio na rede
pública. Essa passagem por instituições distintas também me permitiu perceber
que as oportunidades educacionais não estão igualmente distribuídas e que o
percurso escolar de cada pessoa depende de condições históricas e sociais que
ultrapassam o esforço individual.
Na
primeira graduação, em Licenciatura em Ciências da Religião, ainda não havia
desenvolvido uma compreensão mais profunda da minha ancestralidade negra nem
das possibilidades de me reconhecer como sujeito da produção intelectual. Esse
encontro ocorreu de maneira mais significativa durante o mestrado, quando tive
contato com autores negros, com a produção intelectual comprometida com a
questão racial e com pessoas que compartilhavam experiências e inquietações
semelhantes às minhas. Passei a compreender que a população negra não é apenas
objeto de estudos: produz conhecimento, formula teorias, interpreta o mundo e
participa ativamente da construção do pensamento científico.
Essa
descoberta também me ajudou a romper com uma compreensão restrita sobre os
lugares que pessoas negras poderiam ocupar na universidade. A produção
intelectual negra não se limita ao estudo do racismo, embora esse campo seja
indispensável. Pessoas negras podem pesquisar, ensinar e produzir conhecimento
em qualquer área, sem que sua identidade racial determine os limites de seus
interesses ou de sua atuação.
Antes
dessa experiência, porém, eu já havia vivenciado uma situação que marcou minha
formação acadêmica. Na segunda graduação, no então Centro Federal de Educação
Tecnológica do Ceará (CEFET-CE), hoje Instituto Federal do Ceará, desenvolvi um
trabalho de conclusão de curso sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras)
como instrumento de inclusão social no complexo hoteleiro da Beira-Mar, em
Fortaleza. A pesquisa partia de uma questão aparentemente simples: como pessoas
surdas poderiam ter acesso à comunicação e aos serviços oferecidos por
estabelecimentos turísticos se esses espaços não estivessem preparados para
atender às suas necessidades linguísticas?
No
início, encontrei dificuldades para conseguir orientação. Uma das objeções
apresentadas à proposta era a suposta inviabilidade comercial de oferecer
atendimento em Libras a turistas surdos, considerando-se o número de pessoas
que potencialmente utilizariam esse serviço. Encontrei, posteriormente,
orientação para desenvolver a pesquisa, que investigou a oferta de atendimento
em Libras nos hotéis estudados e a percepção de turistas ouvintes sobre a
influência desse serviço na escolha de um estabelecimento.
O
trabalho foi aprovado com a nota mínima. Não tenho elementos suficientes para
afirmar que a avaliação tenha sido motivada por preconceito racial ou que a
nota, isoladamente, revele discriminação. Ainda assim, quando revisito essa
experiência a partir das reflexões que desenvolvi posteriormente sobre racismo,
conhecimento e universidade, questiono quais saberes são reconhecidos como
relevantes, quais problemas de pesquisa são considerados legítimos e como
determinadas perspectivas podem ser desvalorizadas. É nesse sentido, como uma
interpretação crítica da experiência, que a relaciono à discussão sobre o
epistemicídio: os processos pelos quais conhecimentos, perspectivas e sujeitos
são deslegitimados ou marginalizados nas relações de poder.
Anos
depois, soube que o trabalho passou a integrar referências complementares em
componentes curriculares dos cursos de Turismo e Hotelaria do próprio IFCE.
Essa trajetória posterior não apaga as dificuldades enfrentadas, mas reforça
uma questão importante: a relevância social de uma pesquisa não se resume à
avaliação recebida em determinado momento. O conhecimento precisa ser examinado
por sua consistência, por sua contribuição e por sua capacidade de ampliar a
compreensão dos problemas que afetam a vida coletiva.
No
mestrado e, posteriormente, no doutorado, dediquei-me à inclusão escolar de
estudantes público da Educação Especial. Essa escolha consolidou meu
compromisso com o direito à educação e com a construção de condições para que
as diferenças humanas não sejam utilizadas como justificativa para a exclusão.
Ao mesmo tempo, minha trajetória acadêmica foi me permitindo compreender a
educação para além dos discursos abstratos sobre igualdade: as condições
concretas de escolarização, o acesso ao conhecimento, as relações
institucionais e as práticas pedagógicas podem tanto ampliar as possibilidades
de desenvolvimento humano quanto reproduzir desigualdades.
No
IFCE, primeiro no Campus Acaraú e, posteriormente, no Campus Quixadá, venho
construindo minha atuação como professor, pesquisador e formador de
professores. No Campus Quixadá, minha participação no Núcleo de Atendimento às
Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE), junto a outros
profissionais e estudantes, integra o esforço coletivo para ampliar as
condições de acessibilidade e inclusão. Entre as iniciativas das quais
participamos está a implantação da primeira Sala de Recursos Multifuncionais do
IFCE, além da defesa do fortalecimento do Atendimento Educacional Especializado
(AEE) e da ampliação das condições institucionais necessárias à efetivação
desse direito.
Essas
ações não são realizações individuais. Resultam de trabalho coletivo, de
mobilização e de disputas em torno das prioridades da instituição pública.
Também não significam que os problemas estejam resolvidos. A construção de uma
educação inclusiva exige profissionais, recursos, formação, planejamento,
acessibilidade e compromisso institucional permanente. Requer, sobretudo, que
os estudantes sejam reconhecidos como sujeitos de direitos, e não como
problemas a serem corrigidos ou presenças a serem toleradas.
Ser um
professor negro em uma instituição de educação pública também significa lidar
com contradições. A presença de pessoas negras na universidade e nos institutos
federais representa uma conquista histórica, mas não elimina automaticamente as
desigualdades e tensões que atravessam esses espaços. Por vezes, o trabalho
desenvolvido encontra resistência, isolamento ou apoio insuficiente. Nomear
essas dificuldades não significa reduzir a experiência profissional ao
conflito, mas reconhecer que a democratização da educação depende também da
transformação das relações institucionais e das condições concretas de
trabalho.
É por
isso que, neste Dia dos Professores, considero necessário refletir sobre o
sentido político da docência. Ensinar não é uma atividade neutra, realizada
fora da história e das disputas sociais. A escola participa da formação humana
ao possibilitar a apropriação dos conhecimentos historicamente produzidos pela
humanidade. Quando garante à classe trabalhadora o acesso aos conhecimentos
científicos, artísticos, filosóficos e culturais em suas formas mais
desenvolvidas, a escola amplia as possibilidades de compreensão crítica da
realidade.
Essa
perspectiva encontra diálogo no pensamento de Newton Duarte, especialmente em
sua defesa da importância da socialização do conhecimento sistematizado para a
formação humana. O acesso ao saber elaborado não deve ser privilégio de
determinados grupos sociais. Uma escola comprometida com a democratização do
conhecimento enfrenta as desigualdades que restringem à classe trabalhadora o
acesso aos instrumentos intelectuais necessários para interpretar a sociedade e
participar de sua transformação.
Isso
não significa atribuir à escola, isoladamente, o poder de superar todas as
desigualdades. Significa reconhecer que o trabalho educativo possui implicações
políticas: as escolhas sobre o que ensinar, como ensinar, a quem garantir
acesso ao conhecimento e quais condições oferecer aos estudantes participam da
disputa por uma sociedade mais justa. A docência pode contribuir para a
conservação das desigualdades ou para a ampliação das possibilidades de
compreendê-las e enfrentá-las.
Talvez
por isso professores sejam frequentemente alvo de ataques quando projetos
autoritários procuram controlar o debate público, restringir o pensamento
crítico ou deslegitimar determinados conhecimentos. Uma educação que favorece a
investigação, a argumentação e a análise histórica não garante, por si só, uma
transformação social, mas amplia os instrumentos de que os sujeitos dispõem
para questionar explicações simplificadoras e relações de dominação. Defender a
liberdade de ensinar e aprender, nesse sentido, é também defender a
possibilidade de pensar coletivamente sobre o mundo em que vivemos.
Essa
defesa precisa reconhecer a diversidade que constitui a própria docência.
Professores negros, mulheres, pessoas com deficiência e pessoas LGBTQIA+ fazem
parte da escola real, com suas experiências, conhecimentos e formas de
existência. Quando esses sujeitos têm sua presença questionada ou são
constrangidos a esconder dimensões de suas vidas para serem aceitos, a escola
deixa de cumprir plenamente seu compromisso democrático. A educação que defendo
não exige que as pessoas apaguem suas diferenças para ter acesso ao
conhecimento; exige que as diferenças não sejam convertidas em desigualdades de
direitos.
Ao
olhar para minha trajetória, não vejo uma história construída exclusivamente
pelo mérito ou pela vontade individual. Vejo meus pais, que acreditaram na
educação mesmo diante de oportunidades limitadas; vejo a professora que
reconheceu meus conhecimentos quando eu ainda estava aprendendo a ler e
escrever; vejo os autores negros que ampliaram minha compreensão sobre
ancestralidade e produção intelectual; vejo colegas, estudantes e profissionais
com quem compartilho o trabalho cotidiano de construir uma educação pública
mais acessível e democrática. Vejo, também, as lutas históricas que tornaram
possível que um menino negro de origem trabalhadora chegasse à docência em uma
instituição pública de educação.
Neste
15 de outubro, celebrar os professores é reconhecer a importância de seu
trabalho, mas também defender as condições para que possam realizá-lo com
autonomia, dignidade e compromisso social. É compreender que ensinar envolve
conhecimento, responsabilidade e escolhas que produzem efeitos na vida dos
estudantes e na sociedade. E é lembrar que nenhuma escola será verdadeiramente
democrática enquanto o acesso ao saber, o reconhecimento dos sujeitos e as
possibilidades de desenvolvimento humano permanecerem distribuídos de maneira
desigual.
Volto,
então, à lembrança de Tia Rosa. Ao reconhecer o que eu já sabia e criar
condições para que eu aprendesse aquilo que ainda não dominava, ela fez mais do
que me ensinar a ler e escrever: ajudou a ampliar minha relação com o
conhecimento. Compreendo hoje que esse gesto pedagógico guarda uma dimensão
profundamente política. Ensinar é reconhecer os sujeitos, oferecer-lhes acesso
ao conhecimento e ampliar suas possibilidades de ler o mundo.
É por
isso que sigo acreditando na escola pública e no trabalho docente. Não porque a
educação, sozinha, resolva as contradições da sociedade, mas porque o direito
ao conhecimento é parte indispensável de qualquer projeto de humanização,
democracia e transformação social.
Fonte:
Por Ângelo Oliveira, em Combate Racismo Ambiental

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