Leonardo
Sakamoto: IAs afirmam que Big Techs podem manipular a eleição sem que você
perceba
Fiz a mesma pergunta a três das inteligências
artificiais mais usadas do mundo: “Uma plataforma conseguiria manipular o
debate em sua rede social favorecendo um candidato e prejudicando outro sem que
a maioria dos usuários percebesse?”. O ChatGPT, da OpenAI, o Claude, da
Anthropic, e o Gemini, do Google, deram a mesma resposta já na primeira
palavra: sim.
A
pergunta foi feita em modo temporário ou incógnito, tendo desligado todas as
preferências, em conta de perfil profissional, com nível de pensamento elevado,
pedindo para expor as fontes e como elas chegaram à conclusão.
Nenhuma
delas começou com “depende” ou “é um tema complexo”. Num país em que não há
consenso nem sobre o formato da Terra, três sistemas criados por empresas
concorrentes, treinados de formas diferentes, chegaram ao mesmo diagnóstico.
Isso deveria preocupar, ainda mais agora, com o segundo turno batendo à porta.
O
motivo de a manipulação passar despercebida também foi apontado pelas três,
cada uma com suas palavras.
O
Claude resumiu bem a armadilha: como cada pessoa vê um feed diferente, não
existe uma versão “neutra” para comparar, e o usuário “só vê o que aparece,
nunca o que deixou de aparecer”. O Gemini foi na mesma linha e lembrou que
ninguém tem um padrão fixo para dizer que deveria haver mais conteúdo de
determinado candidato na sua tela. Quando um post some, a pessoa culpa a si
mesma: “eu não interagi, por isso sumiu”. O ChatGPT acrescentou que cada
usuário enxerga apenas uma fatia minúscula do que acontece na plataforma, e por
isso dificilmente perceberia, olhando só o próprio feed, que alguns conteúdos
estão sendo favorecidos de forma sistemática.
Ou
seja, ninguém precisaria apagar post nem banir conta, que é o tipo de coisa que
gera manchete e processo. Bastaria mexer no volume.
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Como a manipulação pode ser feita
E é aí
que as respostas ficam desconfortáveis. O Gemini foi o mais detalhista ao
descrever como isso poderia ser feito. Afirmou que isso passaria em reduzir de
10% a 20% o alcance orgânico de um candidato e inflar o do adversário na mesma
proporção. Também falou em usar o preenchimento automático das buscas para
associar termos negativos a um nome e termos neutros ou positivos a outro, e em
mexer nos critérios dos assuntos do momento, que pautam a imprensa e os
influenciadores.
A mais
sofisticada das estratégias que listou é a desmobilização: entregar conteúdo
que gera desilusão e desinteresse cívico à base de um candidato e conteúdo
energizante e de esperança ao eleitorado do outro. Não é preciso mudar o voto
de ninguém. Basta convencer uma parte das pessoas de que não vale a pena sair
de casa no domingo.Continua após a publicidade
Há uma
ironia amarga em ouvir isso justamente do Gemini, produto de uma empresa dona
do maior buscador do planeta e do YouTube. É como pedir ao dono da padaria que
explique como seria possível mexer na receita do pão sem que o freguês notasse.
Isso não significa que ele faça, mas ele sabe muito bem como faria.
O
Claude chamou atenção para outro ponto. Cada uma dessas decisões, como o peso
dado a certos temas, o shadowban silencioso, as sugestões de busca e a
moderação mais rigorosa com um lado do que com o outro, pode ser justificada
como técnica ou “de qualidade”. Isso torna muito difícil provar intenção. E
lembrou que nem é preciso convencer muita gente: eleições costumam ser
decididas por margens estreitas, e um efeito de um ou dois pontos percentuais
sobre indecisos ou sobre a disposição de votar já pode ser decisivo.
O
ChatGPT tocou no que talvez seja a dimensão mais perversa do problema: a
plataforma pode interferir não só no que as pessoas pensam sobre os candidatos,
mas no que elas acreditam que o resto da sociedade pensa sobre eles. O
resultado seria uma percepção artificial de consenso, em que um candidato
parece mais popular, mais apoiado ou menos criticado do que de fato é. Quem já
viu alguém mudar de opinião para não ficar isolado no grupo da família sabe o
poder disso.
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Exemplos práticos fornecidos pelas IAs
As três
IAs não ficaram só na teoria. O Claude citou o experimento de 2010 em que o
Facebook mostrou a milhões de usuários uma mensagem incentivando o voto, com
estimativa de centenas de milhares de votos a mais. Citou também um estudo de
2014 em que a empresa alterou a proporção de posts positivos e negativos nos
feeds e mudou levemente o tom do que as pessoas escreviam, sem que elas
soubessem que eram cobaias. Mencionou ainda as pesquisas do psicólogo Robert
Epstein sobre o efeito da ordem dos resultados de busca sobre indecisos,
ressalvando que a magnitude desse efeito é contestada.
O
Claude e o ChatGPT citaram a pesquisa com dados internos do X/Twitter que
encontrou maior amplificação algorítmica de políticos de direita na maioria dos
países analisados, seis de sete, segundo o ChatGPT. Essa IA trouxe ainda um
estudo publicado na Nature em fevereiro de 2026, segundo o qual o feed
algorítmico do X favorecia conteúdo conservador e deslocava opiniões políticas
dos participantes nessa direção, ainda que sem alterar significativamente a
identificação partidária.Continua após a publicidade
O
Gemini não citou estudos e preferiu se apoiar no efeito de mera exposição,
conceito da psicologia social segundo o qual a simples frequência com que
alguém vê um enquadramento altera sua simpatia por ele, mesmo de forma
inconsciente.
O
detalhe mais incômodo dessas pesquisas é que o viés pode existir sem que
ninguém tenha apertado um botão. Como observou o Claude, o resultado pode ser
desigual mesmo sem decisão deliberada, e nem a própria empresa necessariamente
percebe. O ChatGPT propôs separar três coisas diferentes: um algoritmo que gera
assimetrias sem intenção, uma escolha editorial explícita e uma interferência
deliberada e escondida para beneficiar alguém. A distinção é importante para um
tribunal.
Mas
para o eleitor que recebeu um cardápio enviesado, o efeito é o mesmo.
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E o que impede a manipulação das redes
Para
ser justo, as IAs trazem evidências na outra direção. O Claude e o ChatGPT
citaram os grandes estudos feitos com a Meta durante a eleição norte-americana
de 2020. Trocar o algoritmo pelo feed cronológico mudou bastante o que as
pessoas viam, mas, segundo elas, teve efeito pequeno sobre suas atitudes
políticas no período analisado. Nas palavras do Claude, controlar a exposição
não equivale automaticamente a controlar a opinião.
É uma
ressalva honesta e necessária, mas uma eleição não se decide na média de um
experimento de três meses. Ela se decide num domingo específico, às vezes por
uma diferença menor do que a margem de erro.Continua após a publicidade
Sobre o
que impede a manipulação, as três também convergiram. Apontam para
pesquisadores que fazem auditorias com contas de teste, jornalistas que
comparam alcances, funcionários que vazam informações, como aquelas obtidos por
Patrícia Campos Mello, que publicou, hoje, na Folha de S.Paulo, a uma
reportagem de peso: “Em mensagens
internas, Meta admite que contas de Lula foram prejudicadas por restrições;
engenheiros falam em falhas técnicas”.
O
Claude lembrou o caso de Frances Haugen, que expôs as entranhas do Facebook. O
Gemini argumentou que qualquer mudança no algoritmo passa por engenheiros,
testes, revisores de código e cientistas de dados, o que torna alta a chance de
alguém denunciar uma ordem de manipulação vida dos donos. Todas citaram a
regulação: a Lei de Serviços Digitais da União Europeia, as resoluções do
Tribunal Superior Eleitoral e, no caso do Claude, a decisão do Supremo Tribunal
Federal que, em 2025, ampliou a responsabilidade das redes sobre certos
conteúdos.
O
Claude fez a síntese mais crua: o maior obstáculo hoje não é técnico, mas o
risco de ser descoberto por quem observa de fora. O ChatGPT completou que
descobrir a manipulação seria possível, mas difícil sem acesso amplo aos dados.
Vale
nos determos nisso. A principal proteção da democracia contra esse tipo de
interferência é o medo que as plataformas têm de ser pegas, não o seu alegado
compromisso democrático. E a capacidade de pegá-las depende de dados que estão
nas mãos delas. Não por acaso, nos últimos anos, o X passou a cobrar caro pelo
acesso de pesquisadores à sua API, e a Meta desligou o CrowdTangle, ferramenta
usada no mundo todo para monitorar a circulação de conteúdo no Facebook e no
Instagram. É como deixar a raposa responsável pela câmera de segurança do
galinheiro e depois se tranquilizar porque existe câmera.
Nada
disso significa que toda eleição seja fraudada por algoritmo ou que cada post
que some do seu feed seja conspiração. Mas significa que o poder existe, que
ele é exercido por meia dúzia de empresas sem mandato popular e que a nossa
capacidade de fiscalizá-lo ainda é precária. A resposta não é abandonar as
redes, mas exigir transparência dos algoritmos, acesso garantido a
pesquisadores e regras que não dependam da boa vontade de bilionários.
Por
fim, uma pergunta que eu não fiz, pois o foco eram as redes sociais, e que
apenas o Claude comentou. Cada vez mais gente tira suas dúvidas sobre política
perguntando diretamente a chatbots de IA em vez de ler jornal ou pesquisar. Se
uma rede social consegue enviesar o debate sem que a maioria perceba, o que
impede uma inteligência artificial de estar fazendo o mesmo? A proibição de
produzir cartaz com Lula 13 e a permissão para confeccionar Flávio 22 com a IA
da Meta que o diga.
¨ Como “desmascarar” os
algoritmos das Big Techs. Por Tarcizio Silva
Qual o
papel das evidências em um mundo que valoriza abordagens tecnocientíficas, mas
onde boa parte dessa validação é realizada por atores embebidos de autoridade
pela proximidade com os centros de poder econômico e militar do Capital? O
livro Desmascarando a I.A. respondeu essa pergunta em várias camadas e
relata uma história que inspira e pode inspirar muito do que se faz contra o
racismo algorítmico no Brasil.
O
projeto inovador Gender Shades [“tons de gênero” em tradução livre], um
dos temas centrais do Desmascarando a I.A., foi resultado do trabalho de
Joy Buolamwini, em colaboração com outras quatro pessoas pesquisadoras, que
desvelou falhas em tecnologia desenvolvidas por gigantes como IBM, Microsoft e
Amazon – organizações que empregam dezenas de milhares de pessoas, boa parte
delas cientistas e pesquisadores de várias áreas.
“Podemos
entender que aquilo que é vendido como inovação, velocidade e disrupção pelo
mercado de tecnologia tem pouco a ver com qualidade, precisão ou necessidade
social.”
Mesmo
antes de relembrarmos toda a jornada de Joy Buolamwini após o Gender Shades,
é preciso se escandalizar com essa disparidade. Como erros tão vultosos e
vulgares foram permitidos em serviços de corporações bilionárias?
Quando
seguimos o conselho de Buolamwini sobre avaliar de forma expandida o
significado dos danos algorítmicos podemos entender que aquilo que é vendido
como inovação, velocidade e disrupção pelo mercado de tecnologia tem pouco a
ver com qualidade, precisão ou necessidade social. O trabalho da autora, em
particular este livro, é fonte essencial para reforçar o quão importante é a
cultura da avaliação e auditoria algorítmica.
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Discriminação algorítmica e privacidade de dados
Os
retrocessos sobre as conquistas sociais sobre discriminação algorítmica –
incluindo as conquistas diretamente influenciadas por Buolamwini, mostram a
importância da crítica algorítmica para o futuro da humanidade e combate às
desigualdades. Como vemos no livro, no fim de 2022 foi lançada uma proposta de
algo como A.I. Bill of Rights [Carta de Direitos da I.A. em tradução livre],
pelo governo estadunidense sob Joe Biden. Como habitual, os Estados Unidos
possuem uma abordagem jurídica laissez-faire sobre os assuntos
estratégicos pertinentes a empresas parceiras do Estado, incluindo as Big
Techs. Nesse contexto, a A.I. Bill of Rights, uma carta de recomendações,
princípios e conceitos do governo estadunidense foi um passo muito relevante
para o reconhecimento do problema.
A carta
incluía definições e recomendações em áreas como sistemas efetivos, proteção
contra discriminação algorítmica, privacidade de dados e outros. Foi uma das
reações ao avanço das propostas regulatórias da União Europeia e China, que já
apresentavam um considerável léxico de defesa de direitos. A carta
estadunidense definiu discriminação algorítmica como uma disparidade que ocorre
quando sistemas automatizados contribuem para injustos tratamentos ou impactos
desfavorecendo pessoas em base de sua raça, cor, etnicidade, sexo, gênero,
religião, origem nacional, discapacidade e outras categorias protegidas por
lei. Ao reconhecer o problema, ainda que sem fortes regras vinculantes, o
documento reforçou consensos que já influenciavam políticas públicas tais como
os avanços no Instituto Nacional de Padrões e Tecnologias (NIST) do país.
“Buscando
atender interesses de grupos como OpenAI, Microsoft, Palantir e Alphabet, o
governo Trump gerou as condições para que tais empresas pudessem deixar de lado
o verniz de civilidade.”
O NIST
foi uma das organizações influenciadas pelo trabalho de Buolamwini, aplicando
lentes interseccionais à avaliação de ferramentas e softwares utilizados pelo
governo estadunidense, incluindo reconhecimento facial. Hoje, documentos do
NIST sequer podem mencionar as palavras “diversidade”, “equidade”, “inclusão”
ou “mudança climática”. A proibição é uma das políticas recomendadas pelo
America’s AI Action Plan, o plano nacional de inteligência artificial dos
Estados Unidos.
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Trump, Big Techs e a luta pela soberania
Com a
nova eleição de Donald Trump, que recebeu doações das Big Techs na campanha,
posse e até para construção de novo
salão de baile,
os retrocessos foram acelerados. Buscando atender interesses de grupos como
OpenAI, Microsoft, Palantir e Alphabet, o governo Trump gerou as condições para
que tais empresas pudessem deixar de lado o verniz de civilidade. Logo em
janeiro de 2025, as políticas de moderação de conteúdo das plataformas de
mídias sociais foram modificadas para permitir discursos discriminatórios e
eugenistas. Racismo, transfobia e capacitismo passaram a ser permitidos de
forma explícita nas principais plataformas, gerando novas
preocupações
para governo e organizações da sociedade civil brasileiras.
Apesar
do aumento dos ataques de Trump e das Big Techs contra avanços sociais sobre
governança de tecnologias digitais, essa é uma longa história que exigiria do
Brasil posturas e políticas em defesa da soberania. Mesmo antes do governo
trumpista, repositórios de danos de sistemas algorítmicos registram milhares de
casos de problemas, incluindo contra brasileiros. Para evitar o estabelecimento
de melhores regras de governança de plataformas no país, empresas como Facebook
e Google empreenderam violentas campanhas
anti-regulação no Brasil que levaram ao enterro simbólico do projeto de lei
2630/2020.
“A
farta produção sobre antidiscriminação e inteligência artificial no Brasil e no
mundo não foi o suficiente para impedir o contrato racial da branquitude no
legislativo.”
Quanto
à Inteligência Artificial (I.A), um volumoso corpo de pesquisas e evidências
são produzidas também no Brasil por grupos de pesquisa e ativismo contra
racismo algorítmico – incluindo frequentes citações ao trabalho de Buolamwini.
Há estudos sobre discriminação e vieses em bancos de imagens, reconhecimento
facial, sistemas de escore de crédito, moderação de conteúdo, visão
computacional, modelos de linguagem e mapeamentos de avaliação dos debates
legislativos sobre I.A., entre outros. Campanhas e mobilizações da sociedade
civil utilizaram os dados produzidos por Buolamwini e colegas, incluindo Tire Meu Rosto da Sua Mira e #SaiDaMinhaCara.
A farta
produção sobre antidiscriminação e inteligência artificial no Brasil e no mundo
não foi o suficiente para impedir o contrato racial da branquitude no
legislativo. No início de 2022, a jornada por uma regulação de Inteligência
Artificial no Brasil ganhou um novo capítulo. Foi estabelecida a Comissão de
Juristas responsável por subsidiar a elaboração de substitutivo sobre
inteligência artificial no Brasil, composta pelo Ministro do Superior
Tribunal de Justiça, Ricardo Villas Bôas Cueva, e 17 especialistas. E zero representação de pessoas negras
ou indígenas.
Com membros provenientes da academia, escritórios de advocacia milionários, da
política federal e do terceiro setor, a comissão trabalhou durante meses para a
produção de um relatório.
Apesar
da exclusão escandalosa de pessoas negras, a mobilização da sociedade civil e
pesquisadores conseguiu algumas vitórias como a inclusão de conceitos como
discriminação indireta – na verdade, uma obrigação constitucional, considerando
a adesão do Brasil à Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação
Racial e Formas Correlatas de Intolerância.
A
sociedade civil organizada demonstrou de forma sólida, durante as audiências
públicas da comissão, o quanto as tecnologias de reconhecimento facial são
nocivas a todos. A relatora da comissão chegou a
reconhecer
que “não podemos aceitar que técnicas simplesmente reproduzam, codifiquem e
consolidem para o futuro essa discriminação pretérita e atual da sociedade”. A
fala, porém, não se desdobrou em texto: a proposta de minuta da comissão
incluiu reconhecimento facial como risco excessivo – mas repleta de exceções
para uso, na prática legalizando o uso da tecnologia.
“O
lobby das Big Techs contra a participação social efetiva e transparência sobre
a avaliação de impactos de sistemas algorítmicos nos mostra um panorama de
crises irremediáveis.”
Impossível
aqui deixar de lembrar as citações que Buolamwini faz a Sojourner Truth e como
denunciou a marginalização das perspectivas e experiências das mulheres negras.
De modo similar, podemos lembrar de Lélia Gonzalez na famosa epígrafe: “Cumé
que a gente fica?”. Quando 17 especialistas em I.A., de vários setores,
normalizaram a exclusão de pessoas e perspectivas negras, podemos replicar o
choque da enunciadora em “Eram todos gente fina, educada, viajada por esse
mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que
tava tão cheia que não deu pra gente sentar junto com eles”.
O
resultado da comissão foi submetido como o projeto de lei 2338/2023, para
posterior avaliação por comissão no Senado. Em agosto de 2023 foi estabelecida
a Comissão Temporária Interna sobre Inteligência Artificial no Brasil (CTIA)
composta por 13 senadores, sendo a presidência do Senador Carlos Viana,
vice-presidência do Senador Marcos Pontes e como relator o Senador Eduardo
Gomes. Diferentemente da comissão da Câmara, as lideranças da CTIA não buscaram
sequer imprimir verniz de transparência ao processo, sem registro ou
documentação transparentes.
Ao
longo do processo, a imprensa denunciou problemas de enviesamento das
audiências públicas. Representantes de organizações que defendem interesses de
empresas como Amazon, iFood, Huawei e Google participaram das audiências como
se fossem da sociedade civil ou academia – levando até a uma universidade desmentir o vínculo com um dos
lobistas.
Como
resultado, a CTIA suprimiu categorias ligadas à defesa de direitos. Menções à
discriminação e vieses foram suprimidas e a linguagem de impacto pendeu
desproporcionalmente a supostos impactos positivos, enquanto questões sobre
arranjos produtivos enfatizaram capacitação, também sem menções a emprego ou
trabalho – entre outros problemas. Quanto à avaliação de impacto algorítmico, a
linguagem do projeto diluiu obrigações de transparência e de participação de
grupos potencialmente afetados.
“O
grande capital que busca escalar tecnologias digitais de plataformização e
extração é incompatível com o controle social das tecnologias e seus padrões de
qualidade.”
Ao
chegar na Câmara dos Deputados em abril de 2025, a ofensiva das Big Techs e
parceiros nacionais deu o tom do problema: a presidente da comissão de I.A. na
casa legislativa fez uma viagem ao Vale do Silício com tudo pago pela
Associação Nacional de Hospitais Privados. Os elogios intensos à Google deram o tom
do que estaria por vir: em audiências públicas sem participação da sociedade
civil, o setor privado chegou até a atacar compromissos constitucionais sobre
antidiscriminação.
E essa
é só uma parte da história. O lobby das Big Techs contra a participação social
efetiva e transparência sobre a avaliação de impactos de sistemas algorítmicos
nos mostra um panorama de crises irremediáveis. O grande capital que busca
escalar tecnologias digitais de plataformização e extração é incompatível com o
controle social das tecnologias e seus padrões de qualidade. Crescentemente a
pesquisa científica crítica e reportagens jornalísticas, fruto de vazamentos,
mostram que muito do que é vendido como inovação só se sustenta quando a
sociedade não pode fazer escrutínio de impactos, qualidade, pontos positivos ou
negativos.
“Desmascarar
a I.A. e desvelar como incorporam relações de poder e exploração já é uma das
grandes demandas deste século.”
O
avanço do fascismo nos EUA junto às Big Techs é assustador, mas também um sinal
de sua crise. Os modelos de negócio das Big Techs não interessam a ninguém além
de seus CEOs, acionistas e os especuladores que os orbitam. E isto está cada
vez mais visível.
Jornadas
de investigação como a empreendida por Joy Buolamwini já há mais de uma década
nos mostram que temos caminhos múltiplos para melhorar, otimizar, avaliar – ou
mesmo, recusar sistemas algorítmicos. Desmascarar a I.A. e desvelar como
incorporam relações de poder e exploração já é uma das grandes demandas deste
século.
Fonte:
UOL/Jacobin Brasil

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