segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Leonardo Sakamoto: IAs afirmam que Big Techs podem manipular a eleição sem que você perceba

 Fiz a mesma pergunta a três das inteligências artificiais mais usadas do mundo: “Uma plataforma conseguiria manipular o debate em sua rede social favorecendo um candidato e prejudicando outro sem que a maioria dos usuários percebesse?”. O ChatGPT, da OpenAI, o Claude, da Anthropic, e o Gemini, do Google, deram a mesma resposta já na primeira palavra: sim.

A pergunta foi feita em modo temporário ou incógnito, tendo desligado todas as preferências, em conta de perfil profissional, com nível de pensamento elevado, pedindo para expor as fontes e como elas chegaram à conclusão.

Nenhuma delas começou com “depende” ou “é um tema complexo”. Num país em que não há consenso nem sobre o formato da Terra, três sistemas criados por empresas concorrentes, treinados de formas diferentes, chegaram ao mesmo diagnóstico. Isso deveria preocupar, ainda mais agora, com o segundo turno batendo à porta.

O motivo de a manipulação passar despercebida também foi apontado pelas três, cada uma com suas palavras.

O Claude resumiu bem a armadilha: como cada pessoa vê um feed diferente, não existe uma versão “neutra” para comparar, e o usuário “só vê o que aparece, nunca o que deixou de aparecer”. O Gemini foi na mesma linha e lembrou que ninguém tem um padrão fixo para dizer que deveria haver mais conteúdo de determinado candidato na sua tela. Quando um post some, a pessoa culpa a si mesma: “eu não interagi, por isso sumiu”. O ChatGPT acrescentou que cada usuário enxerga apenas uma fatia minúscula do que acontece na plataforma, e por isso dificilmente perceberia, olhando só o próprio feed, que alguns conteúdos estão sendo favorecidos de forma sistemática.

Ou seja, ninguém precisaria apagar post nem banir conta, que é o tipo de coisa que gera manchete e processo. Bastaria mexer no volume.

<><> Como a manipulação pode ser feita

E é aí que as respostas ficam desconfortáveis. O Gemini foi o mais detalhista ao descrever como isso poderia ser feito. Afirmou que isso passaria em reduzir de 10% a 20% o alcance orgânico de um candidato e inflar o do adversário na mesma proporção. Também falou em usar o preenchimento automático das buscas para associar termos negativos a um nome e termos neutros ou positivos a outro, e em mexer nos critérios dos assuntos do momento, que pautam a imprensa e os influenciadores.

A mais sofisticada das estratégias que listou é a desmobilização: entregar conteúdo que gera desilusão e desinteresse cívico à base de um candidato e conteúdo energizante e de esperança ao eleitorado do outro. Não é preciso mudar o voto de ninguém. Basta convencer uma parte das pessoas de que não vale a pena sair de casa no domingo.Continua após a publicidade

Há uma ironia amarga em ouvir isso justamente do Gemini, produto de uma empresa dona do maior buscador do planeta e do YouTube. É como pedir ao dono da padaria que explique como seria possível mexer na receita do pão sem que o freguês notasse. Isso não significa que ele faça, mas ele sabe muito bem como faria.

O Claude chamou atenção para outro ponto. Cada uma dessas decisões, como o peso dado a certos temas, o shadowban silencioso, as sugestões de busca e a moderação mais rigorosa com um lado do que com o outro, pode ser justificada como técnica ou “de qualidade”. Isso torna muito difícil provar intenção. E lembrou que nem é preciso convencer muita gente: eleições costumam ser decididas por margens estreitas, e um efeito de um ou dois pontos percentuais sobre indecisos ou sobre a disposição de votar já pode ser decisivo.

O ChatGPT tocou no que talvez seja a dimensão mais perversa do problema: a plataforma pode interferir não só no que as pessoas pensam sobre os candidatos, mas no que elas acreditam que o resto da sociedade pensa sobre eles. O resultado seria uma percepção artificial de consenso, em que um candidato parece mais popular, mais apoiado ou menos criticado do que de fato é. Quem já viu alguém mudar de opinião para não ficar isolado no grupo da família sabe o poder disso.

<><> Exemplos práticos fornecidos pelas IAs

As três IAs não ficaram só na teoria. O Claude citou o experimento de 2010 em que o Facebook mostrou a milhões de usuários uma mensagem incentivando o voto, com estimativa de centenas de milhares de votos a mais. Citou também um estudo de 2014 em que a empresa alterou a proporção de posts positivos e negativos nos feeds e mudou levemente o tom do que as pessoas escreviam, sem que elas soubessem que eram cobaias. Mencionou ainda as pesquisas do psicólogo Robert Epstein sobre o efeito da ordem dos resultados de busca sobre indecisos, ressalvando que a magnitude desse efeito é contestada.

O Claude e o ChatGPT citaram a pesquisa com dados internos do X/Twitter que encontrou maior amplificação algorítmica de políticos de direita na maioria dos países analisados, seis de sete, segundo o ChatGPT. Essa IA trouxe ainda um estudo publicado na Nature em fevereiro de 2026, segundo o qual o feed algorítmico do X favorecia conteúdo conservador e deslocava opiniões políticas dos participantes nessa direção, ainda que sem alterar significativamente a identificação partidária.Continua após a publicidade

O Gemini não citou estudos e preferiu se apoiar no efeito de mera exposição, conceito da psicologia social segundo o qual a simples frequência com que alguém vê um enquadramento altera sua simpatia por ele, mesmo de forma inconsciente.

O detalhe mais incômodo dessas pesquisas é que o viés pode existir sem que ninguém tenha apertado um botão. Como observou o Claude, o resultado pode ser desigual mesmo sem decisão deliberada, e nem a própria empresa necessariamente percebe. O ChatGPT propôs separar três coisas diferentes: um algoritmo que gera assimetrias sem intenção, uma escolha editorial explícita e uma interferência deliberada e escondida para beneficiar alguém. A distinção é importante para um tribunal.

Mas para o eleitor que recebeu um cardápio enviesado, o efeito é o mesmo.

<><> E o que impede a manipulação das redes

Para ser justo, as IAs trazem evidências na outra direção. O Claude e o ChatGPT citaram os grandes estudos feitos com a Meta durante a eleição norte-americana de 2020. Trocar o algoritmo pelo feed cronológico mudou bastante o que as pessoas viam, mas, segundo elas, teve efeito pequeno sobre suas atitudes políticas no período analisado. Nas palavras do Claude, controlar a exposição não equivale automaticamente a controlar a opinião.

É uma ressalva honesta e necessária, mas uma eleição não se decide na média de um experimento de três meses. Ela se decide num domingo específico, às vezes por uma diferença menor do que a margem de erro.Continua após a publicidade

Sobre o que impede a manipulação, as três também convergiram. Apontam para pesquisadores que fazem auditorias com contas de teste, jornalistas que comparam alcances, funcionários que vazam informações, como aquelas obtidos por Patrícia Campos Mello, que publicou, hoje, na Folha de S.Paulo, a uma reportagem de peso: “Em mensagens internas, Meta admite que contas de Lula foram prejudicadas por restrições; engenheiros falam em falhas técnicas”.

O Claude lembrou o caso de Frances Haugen, que expôs as entranhas do Facebook. O Gemini argumentou que qualquer mudança no algoritmo passa por engenheiros, testes, revisores de código e cientistas de dados, o que torna alta a chance de alguém denunciar uma ordem de manipulação vida dos donos. Todas citaram a regulação: a Lei de Serviços Digitais da União Europeia, as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral e, no caso do Claude, a decisão do Supremo Tribunal Federal que, em 2025, ampliou a responsabilidade das redes sobre certos conteúdos.

O Claude fez a síntese mais crua: o maior obstáculo hoje não é técnico, mas o risco de ser descoberto por quem observa de fora. O ChatGPT completou que descobrir a manipulação seria possível, mas difícil sem acesso amplo aos dados.

Vale nos determos nisso. A principal proteção da democracia contra esse tipo de interferência é o medo que as plataformas têm de ser pegas, não o seu alegado compromisso democrático. E a capacidade de pegá-las depende de dados que estão nas mãos delas. Não por acaso, nos últimos anos, o X passou a cobrar caro pelo acesso de pesquisadores à sua API, e a Meta desligou o CrowdTangle, ferramenta usada no mundo todo para monitorar a circulação de conteúdo no Facebook e no Instagram. É como deixar a raposa responsável pela câmera de segurança do galinheiro e depois se tranquilizar porque existe câmera.

Nada disso significa que toda eleição seja fraudada por algoritmo ou que cada post que some do seu feed seja conspiração. Mas significa que o poder existe, que ele é exercido por meia dúzia de empresas sem mandato popular e que a nossa capacidade de fiscalizá-lo ainda é precária. A resposta não é abandonar as redes, mas exigir transparência dos algoritmos, acesso garantido a pesquisadores e regras que não dependam da boa vontade de bilionários.

Por fim, uma pergunta que eu não fiz, pois o foco eram as redes sociais, e que apenas o Claude comentou. Cada vez mais gente tira suas dúvidas sobre política perguntando diretamente a chatbots de IA em vez de ler jornal ou pesquisar. Se uma rede social consegue enviesar o debate sem que a maioria perceba, o que impede uma inteligência artificial de estar fazendo o mesmo? A proibição de produzir cartaz com Lula 13 e a permissão para confeccionar Flávio 22 com a IA da Meta que o diga.

¨      Como “desmascarar” os algoritmos das Big Techs. Por Tarcizio Silva

Qual o papel das evidências em um mundo que valoriza abordagens tecnocientíficas, mas onde boa parte dessa validação é realizada por atores embebidos de autoridade pela proximidade com os centros de poder econômico e militar do Capital? O livro Desmascarando a I.A. respondeu essa pergunta em várias camadas e relata uma história que inspira e pode inspirar muito do que se faz contra o racismo algorítmico no Brasil.

O projeto inovador Gender Shades [“tons de gênero” em tradução livre], um dos temas centrais do Desmascarando a I.A., foi resultado do trabalho de Joy Buolamwini, em colaboração com outras quatro pessoas pesquisadoras, que desvelou falhas em tecnologia desenvolvidas por gigantes como IBM, Microsoft e Amazon – organizações que empregam dezenas de milhares de pessoas, boa parte delas cientistas e pesquisadores de várias áreas.

“Podemos entender que aquilo que é vendido como inovação, velocidade e disrupção pelo mercado de tecnologia tem pouco a ver com qualidade, precisão ou necessidade social.”

Mesmo antes de relembrarmos toda a jornada de Joy Buolamwini após o Gender Shades, é preciso se escandalizar com essa disparidade. Como erros tão vultosos e vulgares foram permitidos em serviços de corporações bilionárias?

Quando seguimos o conselho de Buolamwini sobre avaliar de forma expandida o significado dos danos algorítmicos podemos entender que aquilo que é vendido como inovação, velocidade e disrupção pelo mercado de tecnologia tem pouco a ver com qualidade, precisão ou necessidade social. O trabalho da autora, em particular este livro, é fonte essencial para reforçar o quão importante é a cultura da avaliação e auditoria algorítmica.

<><> Discriminação algorítmica e privacidade de dados

Os retrocessos sobre as conquistas sociais sobre discriminação algorítmica – incluindo as conquistas diretamente influenciadas por Buolamwini, mostram a importância da crítica algorítmica para o futuro da humanidade e combate às desigualdades. Como vemos no livro, no fim de 2022 foi lançada uma proposta de algo como A.I. Bill of Rights [Carta de Direitos da I.A. em tradução livre], pelo governo estadunidense sob Joe Biden. Como habitual, os Estados Unidos possuem uma abordagem jurídica laissez-faire sobre os assuntos estratégicos pertinentes a empresas parceiras do Estado, incluindo as Big Techs. Nesse contexto, a A.I. Bill of Rights, uma carta de recomendações, princípios e conceitos do governo estadunidense foi um passo muito relevante para o reconhecimento do problema.

A carta incluía definições e recomendações em áreas como sistemas efetivos, proteção contra discriminação algorítmica, privacidade de dados e outros. Foi uma das reações ao avanço das propostas regulatórias da União Europeia e China, que já apresentavam um considerável léxico de defesa de direitos. A carta estadunidense definiu discriminação algorítmica como uma disparidade que ocorre quando sistemas automatizados contribuem para injustos tratamentos ou impactos desfavorecendo pessoas em base de sua raça, cor, etnicidade, sexo, gênero, religião, origem nacional, discapacidade e outras categorias protegidas por lei. Ao reconhecer o problema, ainda que sem fortes regras vinculantes, o documento reforçou consensos que já influenciavam políticas públicas tais como os avanços no Instituto Nacional de Padrões e Tecnologias (NIST) do país.

“Buscando atender interesses de grupos como OpenAI, Microsoft, Palantir e Alphabet, o governo Trump gerou as condições para que tais empresas pudessem deixar de lado o verniz de civilidade.”

O NIST foi uma das organizações influenciadas pelo trabalho de Buolamwini, aplicando lentes interseccionais à avaliação de ferramentas e softwares utilizados pelo governo estadunidense, incluindo reconhecimento facial. Hoje, documentos do NIST sequer podem mencionar as palavras “diversidade”, “equidade”, “inclusão” ou “mudança climática”. A proibição é uma das políticas recomendadas pelo America’s AI Action Plan, o plano nacional de inteligência artificial dos Estados Unidos.

<><> Trump, Big Techs e a luta pela soberania

Com a nova eleição de Donald Trump, que recebeu doações das Big Techs na campanha, posse e até para construção de novo salão de baile, os retrocessos foram acelerados. Buscando atender interesses de grupos como OpenAI, Microsoft, Palantir e Alphabet, o governo Trump gerou as condições para que tais empresas pudessem deixar de lado o verniz de civilidade. Logo em janeiro de 2025, as políticas de moderação de conteúdo das plataformas de mídias sociais foram modificadas para permitir discursos discriminatórios e eugenistas. Racismo, transfobia e capacitismo passaram a ser permitidos de forma explícita nas principais plataformas, gerando novas preocupações para governo e organizações da sociedade civil brasileiras.

Apesar do aumento dos ataques de Trump e das Big Techs contra avanços sociais sobre governança de tecnologias digitais, essa é uma longa história que exigiria do Brasil posturas e políticas em defesa da soberania. Mesmo antes do governo trumpista, repositórios de danos de sistemas algorítmicos registram milhares de casos de problemas, incluindo contra brasileiros. Para evitar o estabelecimento de melhores regras de governança de plataformas no país, empresas como Facebook e Google empreenderam violentas campanhas anti-regulação no Brasil que levaram ao enterro simbólico do projeto de lei 2630/2020.

“A farta produção sobre antidiscriminação e inteligência artificial no Brasil e no mundo não foi o suficiente para impedir o contrato racial da branquitude no legislativo.”

Quanto à Inteligência Artificial (I.A), um volumoso corpo de pesquisas e evidências são produzidas também no Brasil por grupos de pesquisa e ativismo contra racismo algorítmico – incluindo frequentes citações ao trabalho de Buolamwini. Há estudos sobre discriminação e vieses em bancos de imagens, reconhecimento facial, sistemas de escore de crédito, moderação de conteúdo, visão computacional, modelos de linguagem e mapeamentos de avaliação dos debates legislativos sobre I.A., entre outros. Campanhas e mobilizações da sociedade civil utilizaram os dados produzidos por Buolamwini e colegas, incluindo Tire Meu Rosto da Sua Mira e #SaiDaMinhaCara.

A farta produção sobre antidiscriminação e inteligência artificial no Brasil e no mundo não foi o suficiente para impedir o contrato racial da branquitude no legislativo. No início de 2022, a jornada por uma regulação de Inteligência Artificial no Brasil ganhou um novo capítulo. Foi estabelecida a Comissão de Juristas responsável por subsidiar a elaboração de substitutivo sobre inteligência artificial no Brasil, composta pelo Ministro do Superior Tribunal de Justiça, Ricardo Villas Bôas Cueva, e 17 especialistas. E zero representação de pessoas negras ou indígenas. Com membros provenientes da academia, escritórios de advocacia milionários, da política federal e do terceiro setor, a comissão trabalhou durante meses para a produção de um relatório.

Apesar da exclusão escandalosa de pessoas negras, a mobilização da sociedade civil e pesquisadores conseguiu algumas vitórias como a inclusão de conceitos como discriminação indireta – na verdade, uma obrigação constitucional, considerando a adesão do Brasil à Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância.

A sociedade civil organizada demonstrou de forma sólida, durante as audiências públicas da comissão, o quanto as tecnologias de reconhecimento facial são nocivas a todos. A relatora da comissão chegou a reconhecer que “não podemos aceitar que técnicas simplesmente reproduzam, codifiquem e consolidem para o futuro essa discriminação pretérita e atual da sociedade”. A fala, porém, não se desdobrou em texto: a proposta de minuta da comissão incluiu reconhecimento facial como risco excessivo – mas repleta de exceções para uso, na prática legalizando o uso da tecnologia.

“O lobby das Big Techs contra a participação social efetiva e transparência sobre a avaliação de impactos de sistemas algorítmicos nos mostra um panorama de crises irremediáveis.”

Impossível aqui deixar de lembrar as citações que Buolamwini faz a Sojourner Truth e como denunciou a marginalização das perspectivas e experiências das mulheres negras. De modo similar, podemos lembrar de Lélia Gonzalez na famosa epígrafe: “Cumé que a gente fica?”. Quando 17 especialistas em I.A., de vários setores, normalizaram a exclusão de pessoas e perspectivas negras, podemos replicar o choque da enunciadora em “Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava tão cheia que não deu pra gente sentar junto com eles”.

O resultado da comissão foi submetido como o projeto de lei 2338/2023, para posterior avaliação por comissão no Senado. Em agosto de 2023 foi estabelecida a Comissão Temporária Interna sobre Inteligência Artificial no Brasil (CTIA) composta por 13 senadores, sendo a presidência do Senador Carlos Viana, vice-presidência do Senador Marcos Pontes e como relator o Senador Eduardo Gomes. Diferentemente da comissão da Câmara, as lideranças da CTIA não buscaram sequer imprimir verniz de transparência ao processo, sem registro ou documentação transparentes.

Ao longo do processo, a imprensa denunciou problemas de enviesamento das audiências públicas. Representantes de organizações que defendem interesses de empresas como Amazon, iFood, Huawei e Google participaram das audiências como se fossem da sociedade civil ou academia – levando até a uma universidade desmentir o vínculo com um dos lobistas.

Como resultado, a CTIA suprimiu categorias ligadas à defesa de direitos. Menções à discriminação e vieses foram suprimidas e a linguagem de impacto pendeu desproporcionalmente a supostos impactos positivos, enquanto questões sobre arranjos produtivos enfatizaram capacitação, também sem menções a emprego ou trabalho – entre outros problemas. Quanto à avaliação de impacto algorítmico, a linguagem do projeto diluiu obrigações de transparência e de participação de grupos potencialmente afetados.

“O grande capital que busca escalar tecnologias digitais de plataformização e extração é incompatível com o controle social das tecnologias e seus padrões de qualidade.”

Ao chegar na Câmara dos Deputados em abril de 2025, a ofensiva das Big Techs e parceiros nacionais deu o tom do problema: a presidente da comissão de I.A. na casa legislativa fez uma viagem ao Vale do Silício com tudo pago pela Associação Nacional de Hospitais Privados. Os elogios intensos à Google deram o tom do que estaria por vir: em audiências públicas sem participação da sociedade civil, o setor privado chegou até a atacar compromissos constitucionais sobre antidiscriminação.

E essa é só uma parte da história. O lobby das Big Techs contra a participação social efetiva e transparência sobre a avaliação de impactos de sistemas algorítmicos nos mostra um panorama de crises irremediáveis. O grande capital que busca escalar tecnologias digitais de plataformização e extração é incompatível com o controle social das tecnologias e seus padrões de qualidade. Crescentemente a pesquisa científica crítica e reportagens jornalísticas, fruto de vazamentos, mostram que muito do que é vendido como inovação só se sustenta quando a sociedade não pode fazer escrutínio de impactos, qualidade, pontos positivos ou negativos.

“Desmascarar a I.A. e desvelar como incorporam relações de poder e exploração já é uma das grandes demandas deste século.”

O avanço do fascismo nos EUA junto às Big Techs é assustador, mas também um sinal de sua crise. Os modelos de negócio das Big Techs não interessam a ninguém além de seus CEOs, acionistas e os especuladores que os orbitam. E isto está cada vez mais visível.

Jornadas de investigação como a empreendida por Joy Buolamwini já há mais de uma década nos mostram que temos caminhos múltiplos para melhorar, otimizar, avaliar – ou mesmo, recusar sistemas algorítmicos. Desmascarar a I.A. e desvelar como incorporam relações de poder e exploração já é uma das grandes demandas deste século.

 

Fonte: UOL/Jacobin Brasil

 

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